José Fernando Guedes – Os pássaros cantam forte

Alguém me chama: vem ouvir!
Os pássaros cantam forte na manhã
Com a mesma tenacidade
De um prego ao penetrar a madeira.
Sem hesitações anunciam
O que é de sua obrigação.

Ignoram o estabelecido pela noite prévia
E sistematicamente, com os métodos da água
Fazem seu canto fluir
Entre insuspeitas ranhuras
Na estrutura do mundo,
Tornando explícito o que era implícito
Na solidão das coisas.

E mesmo ante a mudez de dois olhos abertos,
Os pássaros põem seu canto
De encontro aos muros
E convicção, se entre pássaros há,
Se assemelha a que numa lágrima há,
Quando a lágrima que há,
É como um pássaro que canta.

Giuseppe Ungaretti – Sou uma criatura

Valloncello di Cima Quattro, 5 de agosto de 1916

Como esta pedra
de S. Michele
tão fria
tão dura
tão seca
tão indiferente
tão completamente
sem ânimo

Como esta pedra
é meu pranto
que não se vê

A morte
se expia
vivendo

Trad.: Geraldo Holanda Cavalcanti

Giuseppe Ungaretti – Sono una creatura

Valloncello di Cima Quattro il 5 agosto 1916

Come questa pietra
del S. Michele
così fredda
così dura
così prosciugata
così refrattaria
così totalmente
disanimata

Come questa pietra
è il mio pianto
che non si vede

La morte
si sconta
vivendo

Raymond Carver – Esta manhã

Esta manhã foi especial. Um pouco de neve
cobria o chão. O sol flutuava num claro
céu azul. O mar estava azul, e verde-azulado,
até onde o olho podia enxergar.
Calmo. Quase sem ondas. Eu me vesti
e saí para caminhar – decidido a não voltar
até receber o que a Natureza tivesse a oferecer.
Passei perto de algumas árvores velhas, curvadas.
Atravessei um campo com pedras espalhadas
onde a neve se acumulara. Segui em frente
até chegar ao penhasco.
De onde fitei o mar, o céu e
as gaivotas revoando sobre a areia branca,
lá embaixo. Tudo adorável. Tudo banhado numa pura
luz fria. Mas, como sempre, meus pensamentos
começaram a vagar. Tive de me esforçar
para ver só o que estava vendo,
e nada mais. Tive que dizer a mim mesmo que aquilo
era o que importava, não o resto. (E de fato consegui,
por um ou dois minutos!) Por um ou dois minutos
consegui afastar as velhas ruminações
sobre o que é certe e o que é errado – deveres,
doces memórias, ideias de morte, como lidar
com minha ex-mulher. Todas as coisas
que eu esperava esquecer esta manhã.
As coisa com que vivo todos os dias. Tudo
o que superei para poder continuar vivo.
Mas, por um ou dois minutos, eu realmente esqueci
de mim e de tudo o mais. Sei que esqueci.
Pois quando me virei já não sabia
onde estava. Até que alguns pássaros emergiram
das árvores retorcidas – e voaram
na direção em que eu precisava seguir.

Trad.: Cide Piquet

Raymond Carver – This morning

This morning was something. A little snow
lay on the ground. The sun floated in a clear
blue sky. The sea was blue, and blue-green,
as far as the eye could see.
Scarcely a ripple. Calm. I dressed and went
for a walk — determined not to return
until I took in what Nature had to offer.
I passed close to some old, bent-over trees.
Crossed a field strewn with rocks
where snow had drifted. Kept going
until I reached the bluff.
Where I gazed at the sea, and the sky, and
the gulls wheeling over the white beach
far below. All lovely. All bathed in a pure
cold light. But, as usual, my thoughts
began to wander. I had to will
myself to see what I was seeing
and nothing else. I had to tell myself this is what
mattered, not the other. (And I did see it,
for a minute or two!) For a minute or two
it crowded out the usual musings on
what was right, and what was wrong — duty,
tender memories, thoughts of death, how I should treat
with my former wife. All the things
I hoped would go away this morning.
The stuff I live with every day. What
I’ve trampled on in order to stay alive.
But for a minute or two I did forget
myself and everything else. I know I did.
For when I turned back i didn’t know
where I was. Until some birds rose up
from the gnarled trees. And flew
in the direction I needed to be going.

Paulo Henriques Britto – Da irresolução

Por não se estar preparado
perde-se a vida inteira.
A preparação, porém,
pra ser completa e certeira,

exigiria no mínimo
uma existência e meia.
Compreende-se, portanto,
aquele que titubeia

ao se ver face a face
com tamanho compromisso
e termina decidindo
viver mesmo de improviso.

Joan Margarit – Helena

O ontem é teu inferno. É cada instante
em que, sem sabê-lo, te perdeste
e também cada instante em que foste salvo.
Quando o jovem que foste está muito distante,
o amor é vingança do passado.
Vens de uma guerra em que foste vencido,
de armas e acampamentos abandonados
na Troia que levas dentro de ti.
Buscar-te-ão de noite os aqueos
e estreitarão o cerco. Voltarás,
por uma mulher, a perder a cidade.
Helena são todos os sonhos de que a vida
foi-se apropriando. Defende-a bravamente
pela última vez, desarmado.

Trad.: Nelson Santander

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Helena

El ayer es tu infierno. Es cada instante
en el que, sin saberlo, te has perdido
y también cada instante en el que te has salvado.
Cuando el joven que fuiste está muy lejos,
el amor es venganza del pasado.
Viene de una guerra donde fuiste vencido,
de armas y campamentos abandonados
en la Troya que llevas en ti mismo.
Te buscarán de noche los aqueos
y estrecharán el cerco. Volverás,
por una mujer, a perder la ciudad.
Helena es todos los sueños que la vida
se ha ido apropiando. Defiéndela con valor
por última vez, desarmado.

Manuel António Pina – Café Orfeu

Nunca tinha caído
de tamanha altura em mim
antes de ter subido
às alturas do teu sorriso.

Regressava do teu sorriso
como de uma súbita ausência
ou como se tivesse lá ficado
e outro é que tivesse regressado.

Fora do teu sorriso
a minha vida parecia
a vida de outra pessoa
que fora de mim a vivia.

E a que eu regressava lentamente
como se antes do teu sorriso
alguém (eu provavelmente)
nunca tivesse existido.

Fernando Pinto do Amaral – Por causa de uma ave

        para a minha mãe

Cada vez gosto menos de saborear
o travo tão pastoso da morte, o murmúrio
secreto dos seus olhos invisíveis
dentro de mim. Porém, há pouco tempo,
num fim de tarde deste fim de julho,
passou-me um episódio que rompeu
de repente na alma todas as comportas
que fingem proteger os ópios tranquilos
a que chamamos vida. Aconteceu
depois de ter chegado a esta casa
perdida numa encosta de província
e onde venho só de longe em longe:
foi durante a limpeza da sala maior
que, afastando um armário, descobri
entre pequenas teias, quase envolto
num sudário de pó, ali esquecido,
na treva e no silêncio dos meses de inverno,
o esqueleto de um pássaro. Entrara
pela chaminé de pedra e escorregara
até cair junto à lareira. Hoje
imagino o pavor do seu voo suicida
pousando às cegas de móvel em móvel,
dias e dias pelo escuro deserto
da sala fria, à toa, procurando
escapar ao seu naufrágio, encontrar
uma réstia de céu, até que, já sem forças,
se deixou deslizar para trás desse armário
onde morreu de sede e fome e solidão
enquanto mal batia as asas
em arremedos de frustradas fugas.

Ao ter na mão aquele resto de corpo
os “pedacinhos de ossos”, toda a quilha
do peito sustentando o arco das costelas,
as minúsculas patas quase intactas,
lembrei-me, num relance de terror,
de outros ossos maiores, os do meu pai,
a não muitas centenas de metros daqui,
num absurdo cubículo de pedra
sobre o qual está gravado um nome de família.
Apodrecem há mais de quinze anos
em sombras que serão iguais a nós
– passageiros ingênuos e translúcidos
de corpos consumidos no seu próprio lume.
Ao sentir entre os dedos o que foram asas,
vi nos últimos gestos dessa ave,
chocando com as paredes, sem saída,
o mesmo desespero esbracejante
de uma noturna cama de hospital
onde houve um homem que lutou às cegas
no seu estertor febril e consciente,
junto à fronteira íntima, abissal,
que nem a voz transpõe. Nenhum dos gritos
pode ecoar nos meus, aqui, agora,
nesta dádiva exangue e sem destinatário,
porque toda a poesia se resume
a um calafrio embalsamado em letras,
palavras destinadas a morrer
no momento em que as páginas de um livro,
como as asas de um pássaro, os braços de um homem,
se fecham num sono a que ninguém responde.

Rui Caeiro – Sabem que mais?

Sou um homem dado ao álcool e a eternas dúvidas
e que na rua ou lá onde seja a todo o momento pode tropeçar
ou morrer: voar é que é muito mais improvável

Sou um homem de áridas certezas e uma esperança
a essa arrasto-a pela mão pelos cabelos pelas orelhas
paro escuto e olho antes de atravessar

com ela. E não sei o nome. E não me preocupo

(Rui Caeiro morreu em 29/01/2019, aos 75 anos)

Diogo Vaz Pinto – Guilty pleasures

No princípio correram ainda uns dias
sem que o desencanto desse
pela nossa falta. Seja como for,
não fomos muito longe.

Íamos mais era ao cinema mas aí eu
já olhava menos para o lado, apaixonava-me
pelas tipas que enchiam o ecrã, para depois,
com o sexo aceso e louco por se molhar
entre quaisquer pernas, a levar a casa
e nos despirmos entre o corredor e o quarto,
sem grandes cerimônias nem truques.
Na cama víamo-nos rapidamente desfeitos
entre as simples urgências de um desejo
sem nome.

A meio daquilo lembrava-se de perguntas,
insistia repetidamente “onde tens
a cabeça?”, “aqui mesmo” dizia-lhe,
mas sentia-a rolar para longe
do triste e descoordenado impacto
que prendia cada orgasmo.

Chegava a fechar os olhos para não ver.
Mesmo nas paredes sangrava uma adolescência
sem explicação: posters, postais e bilhetes,
o lixo vago das recordações e a linha de sorrisos
que unia as fotografias – anjinhos
desfigurados, as asas pisadas
com os sonhos entretanto devorados
por insônias.

Pedia-lhe
que desligasse a luz e ficava em silêncio alvejando
as constelações sobre nós, estrelas de plástico
fluorescentes coladas no tecto. Ali, no escuro,
as palavras que tínhamos
favoreciam efeitos tão óbvios e piedosos,
terríveis delicadezas a que cedíamos
por vergonha, pudor
ou uma outra porra qualquer.

A carne dividida nos lençóis, usada,
o rádio ou a televisão aligeirando o vazio,
e aos poucos erguíamos-nos, como adultos.
Enquanto ela apanhava o cabelo e outros
restos de si, ou simplesmente se limpava,
eu fugia cobardemente
para um cigarro, este caderno, um copo
de leite morno. A ela, por hábito (talvez),
servia-lhe vodka
e deixava-a amuar, fedendo no suor
frio das inseguranças. Os olhos
baixos, entre os chinelos, sublinhados
de vez em quando por lágrimas.

Antes de sair via-me no papel
de um desses gajos de que é tão fácil
pensar o pior. “Até amanhã” ou “eu ligo-te”,
um beijo à traição e abandonava o que se parecia
cada vez mais com a cena de um crime.

No fim deixamos os corações
arrumados numa estatística qualquer,
não houve gritos, acusações nem aqueles
episódios com louça pelo ar, apenas a repetição
das noites, a garganta arranhada de suspiros
cada vez mais fundos e mortes dessas
a que ninguém dá importância. Pequenos,
desprezados sinais – o batom
rosado que não voltei a encontrar
nas camisas, o perfume que lhe dei
também não, o afterworld de Leonard
Cohen onde se refugiava cada vez mais cedo
e para onde não voltou a chamar-me,
além dos últimos desabafos passeando-se
nas bordas do delírio, florindo como se
apesar de tudo ainda houvesse
esperança.

E hoje acredito que sim
– talvez haja alguma, para ela.

Vicente Gaos – A vida

Os ardorosos signos da vida
pulsam na atmosfera do verão.
O mar respira tal como um varão,
como uma criatura enfurecida.

Oh gozo e amor, sangue furioso,
cósmica vibração de um mundo arcano.
Mundo que sinto ao tatear teu crânio
frágil quando nele minha mão pouso.

Te amo, sim, te amo, sonho forte,
Fecho os olhos e te sinto inteira
– Oh luz formosa e cega da morte.
A agitação final da primavera -.
Fecho meus olhos porque quero ver-te.
Oh Deus! Que a vida não vire poeira!

Trad.: Nelson Santander

La vida

Los ardorosos signos de la vida
palpitan en el aire del verano.
El mar alienta como un ser humano,
como una criatura enardecida.

¡Oh gozo, gozo, amor, sangre enardecida,
cósmica vibración de un mundo arcano,
Mundo que siento en ti, al tocar mi mano
Tu delicada sien estremecida.

Te quiero, sí, te quiero, sueño fuerte,
Cierro los ojos y te siento entera
– Oh luz hermosa y ciega de la muerte.
Última fiebre de la primavera -.
Cierro los ojos porque quiero verte.
¡Oh Dios! Haz que la vida nunca muera!