Nuno Júdice – É isto o amor

Em quem pensar, agora, senão em ti? Tu, que
me esvaziaste de coisas incertas, e trouxeste a
manhã da minha noite. É verdade que te podia
dizer: “Como é mais fácil deixar que as coisas
não mudem, sermos o que sempre fomos, mudarmos
apenas dentro de nós próprios?” Mas ensinaste-me
a sermos dois; e a ser contigo aquilo que sou,
até sermos um apenas no amor que nos une,
contra a solidão que nos divide. Mas é isto o amor:
ver-te mesmo quando te não vejo, ouvir a tua
voz que abre as fontes de todos os rios, mesmo
esse que mal corria quando por ele passamos,
subindo a margem em que descobri o sentido
de irmos contra o tempo, para ganhar o tempo
que o tempo nos rouba. Como gosto, meu amor,
de chegar antes de ti para te ver chegar: com
a surpresa dos teus cabelos, e o teu rosto de água
fresca que eu bebo, com esta sede que não passa. Tu:
a primavera luminosa da minha expectativa,
a mais certa certeza de que gosto de ti, como
gostas de mim, até ao fim do mundo que me deste.

Luís García Montero – Resumo dos fatos

Falei com a morte por telefone
e recebi e-mails de amor que foram apagados
sem deixar uma única lágrima em papel amarelo.
Ninguém esqueça os tempos, mas ninguém se engane:
no final, apenas o amor e a morte importam.

Trad.: Nelson Santander

Resumen de los hechos

He hablado con la muerte por teléfono
y he recibido e-mails de amor que se borraron
sin dejar una lágrima de papel amarillo.
Nadie olvide los tiempos, pero nadie se engañe:
al final sólo importan el amor y la muerte.

Fernando Assis Pacheco – Respiração Assistida

Eu vi a morte
de noite – névoa branca –
entre os frascos do soro
rondar a minha cama

era um trasgo
e como tal metera-se
pelas frinchas; noutra versão
coando-se através
dos nós da madeira
ou noutra ainda
imitando à perfeição
o gorgolejar da água
nos ralos: eu tremia
covardemente enquanto
ela raspava a parede
com unhas muito lentas

eu vi? ouvi a morte?
com toda a probabilidade
e por instantes era ela – luz negra –
tentando cegar-me

Carlos Poças Falcão – A luz coada num pano negro

Lamenta-te, pois já não é alegre
o vento sobre os campos.
Não há descoberta nem transfiguração
quando o calendário vem com as primícias.

Lamenta-te, lamenta-te.
Já não tens a nudez certa
nem a fragrância antiga.

Paul Verlaine – Chanson D’Automne (em seis traduções)

Canção do Outono (Trad.: Alphonsus de Guimaraens)

Os soluços graves
Dos violinos suaves
Do outono
Ferem a minh’alma
Num langor de calma
E sono.

Sufocado, em ânsia,
Ai! quando à distância
Soa a hora,
Meu peito magoado
Relembra o passado
E chora.

Daqui, dali, pelo
Vento em atropelo
Seguido,
Vou de porta em porta,
Como a folha morta
Batido…

Canção do Outono (Trad.: Onestaldo de Pennafort)

Os longos sons
dos violões,
pelo outono,
me enchem de dor
e de um langor
de abandono.

E choro, quando
ouço, ofegando,
bater a hora,
lembrando os dias,
e as alegrias
e ais de outrora.

E vou-me ao vento
que, num tormento,
me transporta
de cá pra lá,
como faz à
folha morta.

Canção de Outono (Trad.: Guilherme de Almeida)

Estes lamentos
Dos violões lentos
Do outono
Enchem minha alma
De uma onda calma
De sono.

E soluçando,
Pálido, quando
Soa a hora,
Recordo todos
Os dias doidos
De outrora.

E vou à toa
No ar mau que voa.
Que importa?
Vou pela vida,
Folha caída
E morta.

Canção de Outono (Trad.: Paulo Mendes Campos)

Os longos trinos
Dos violinos
Do outono
Ferem minh’alma
Com uma calma
Que dá sono.

Ao ressoar
A hora, alvar,
Sufocado,
Choro os errantes
Dias distantes
Do passado.

E em remoinho,
O ar daninho
Me transporta
De cá pra lá,
De lá pra cá,
Folha morta.

~
Canção de Outono (Trad.: Nelson Ascher)

Violinos com
seu choro assom-
bram o outono
e eu, corpo mor-
to de torpor,
me abandono.

Quase sem ar,
desmaio ao soar
da hora enquanto,
lembrando em vão
os dias de então,
caio em pranto.

E o vento cruel
leva-me ao léu
pouco importa
aonde, em vaivém,
vago que nem
folha morta.

Outono (Trad. livre: José Miguel Wisnik)

Os soluços longos dos violões do outono
Ferem meu coração com um langor monótono
Chega de verão outros tons no chão é quando
Vão os sonhos vãos no coração desfolhando.

Os soluços longos dos violões do outono
Enchem todo meu coração de dor e abandono
Chega de verão tudo agora é sombra e sonho
E os sonhos vãos no coração desfolhando.

Chanson D’Automne

Les sanglots longs
Des violons
De l’automne
Blessent mon coeur
D’une langueur
Monotone.

Tout suffocant
Et blême, quand
Sonne l’heure,
Je me souviens
Des jours anciens
Et je pleure.

Et je m’en vais
Au vent mauvais
Qui m’emporte
Deçà, delà,
Pareil à la
Feuille morte.

Vicente Gaos – Esquecei

Esquece, homem…

Esquece que és cinzas
e em cinzas te tornarás.

Esquece esta quarta-feira
e o in pulvis reverteris.

Pois embora sejas cinza e pó,
há vida, amor, beleza ao redor.

É verdade: beleza, amor, vida,
fugazes flores de um dia.

Mas flores, sim. Enquanto durar
a magia verdadeira de seu perfume,

esquece o pó e a morte.
É melhor não lembrar

do que, com ou sem memória,
baterá algum dia à tua porta.

Por ora, fecha-a. Abre a varanda,
que te penetre e embriague o sol.

Olha-o bem: fecha as pálpebras,
e que o sol te salve do caos.

No final, verás que tanto faz
viver e morrer, seja domingo

ou quarta-feira. Quando chegar
fria e borralheira a morte,

acolhe-a satisfeito, tranquilo,
com a certeza de haver vivido.

Com a lembrança de uma vida
que ignorou a profecia

funeral, que não se perdeu
em medo e dúvida de Deus.

Quando sentires o gosto amargo
da cinza na boca, sorve-o,

apura-o. Quando a morte chegar,
abre a porta e deita-te, dorme.

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Olvidaos

Olvida, hombre…

Olvida que eres ceniza
y has de convertirte en ceniza.

Olvídate de ese miércoles
y del in pulvis reverteris.

Pues aunque seas ceniza y polvo,
hay vida, amor, belleza en torno.

Es verdad: belleza, amor, vida,
fugitivas flores de un día.

Pero flores, sí. Mientras dure
la magia cierta de su perfume,

olvidate del polvo y la muerte.
Más vale que no recuerdes

lo que con memoria o sin ella
llamará algún día a tu puerta.

Ahora ciérrala. Abre el balcón
que te penetre y embriague el sol.

Míralo bien: cierra los párpados,
y que el sol te salve del caos.

Al final verás que es lo mismo
vivir y morir, el domingo

que el miércoles. Cuando llegue
cenicienta y fría la muerte,

acógela conforme, tranquilo,
seguro de haber vivido.

Con la memoria de una vida
que desoyó la profecía

funeral, que no se perdió
en el miedo y duda de Dios.

Cuando sientas el gusto amargo
de la ceniza en la boca, trágalo,

apúralo. Al llegar la muerte,
abre la puerta y tiéndete, duérmete.

Helena Zelic – Bem-vinda

em uma casa desconhecida
é preciso observar os movimentos das coisas:

o gás se vem da rua ou botijão
as árduas relações entre tomadas e eletrodomésticos
botões de liga e desliga
a política da limpeza
se toda sujeira é política.
as cores das chaves, as trancas trocadas
encaixar, tirar e encaixar de novo
na busca do que é espontâneo.
entrar na casa como se sempre fosse.
sair como quem volta ao pôr do sol.

conhecer as gavetas, os tacos soltos
os insetos que invadem o verão
a hora da caminhonete de frutas
o dia do lixo para fora
a vizinha, e a outra, e a outra.
as vizinhas são sempre muitas.

compreender a linguagem do cão
quando pede, quando avisa,
quando, cão, espanta os gatos do telhado.
aí descobres que há gatos no telhado
e os barulhos deixam de assustar.

em uma casa desconhecida
tudo o que se move é sinal
conversa intermediada
entre objetos e combinados.
em uma casa desconhecida
é preciso chegar manso
e apoderar-se.

Eugénio de Andrade – Fim de tarde em S Lázaro

Estou sozinho. Nas estantes, restos
da minha vida. É quase
noite sobre os telhados.
No livro abandonado nas mãos
corre um rio: à deriva
duas ou três coisas que foram
minhas: um punhado de amoras,
a porosa delícia do barro,
essas nuvens, essas
aves num céu branco de trigo,
um sorriso
que também era um copo de água

Luis Alberto de Cuenca – Mal de ausência

Desde que partiste, não sabes como devagar
passa o tempo em Madrid. Vi um filme
que terminou apenas há um século.
Não sabes que lento corre o mundo sem ti, noiva distante.

Os amigos pedem-me que volte a ser o mesmo
que o coração apodrece de tanta melancolia,
que a tua ausência não vale tanta ansiedade inútil,
que pareço um exemplo de subliteratura.

Levaste, porém, a minha paz na tua bolsa,
os fios do telefone, a rua em que vivo.
Mandaste a minha casa tropas ecologistas
saquear-me a alma contaminada e triste.

E, para cúmulo, continuo a sonhar com gigantes
e contigo, despida, beijando-lhes as mãos.
Com deuses a cavalo que destroem a Europa
e cativa te guardam até que eu esteja morto.

Trad.: Manuel Rodrígues

Mal de ausencia

Desde que tú te fuiste, no sabes qué despacio
pasa el tiempo en Madrid. He visto una película
que ha terminado apenas hace un siglo. No sabes
qué lento corre el mundo sin ti, novia lejana.

Mis amigos me dicen que vuelva a ser el mismo,
que pudre el corazón tanta melancolía,
que tu ausencia no vale tanta ansiedad inútil,
que parezco un ejemplo de subliteratura.

Pero tú te has llevado mi paz en tu maleta,
los hilos del teléfono, la calle en la que vivo.
Tú has mandado a mi casa tropas ecologistas
a saquear mi alma contaminada y triste.

Y, para colmo, sigo soñando con gigantes
y contigo, desnuda, besándoles las manos.
Con dioses a caballo que destruyen Europa
y cautiva te guardan hasta que yo esté muerto.

Francisco Brines – Última declaração de amor

Oh Vida,
que tudo me deste.
Agora já sei que, sendo isto verdade,
nada me deste.
Mas deixa-me olhar-te ainda com amor,
mesmo que eu já não mais deseje abraçar-te.
E embora saibas que eu não te abandono
podes tu abandonar-me.

Trad.: Nelson Santander

Última declaración de amor

Oh Vida,
que todo me lo has dado.
Ahora ya sé que, siendo esto verdad,
nada me has dado.
Más déjame mirarte aún con amor,
aunque no tenga ya deseos de abrazarte.
Y aunque sepas que yo no te abandono
puedes tú abandonarme.