Heinrich Heine – Morfina

É grande a semelhança desses dois
jovens e belos vultos, muito embora
um pareça mais pálido e severo
ou, posso até dizer, bem mais distinto
do que o outro, o que, terno, me abraçava.
Havia em seu sorriso tanto afeto,
carinho e, nos seus olhos,tanta paz!
Ornada de papoulas, sua fronte
tocava a minha, às vezes – e seu raro
odor me dissipava a dor do espírito.
Tal alívio, porém, não dura. Eu só
hei de curar-me inteiramente quando
o irmão severo e pálido abaixar
a sua tocha. – O sono é bom; o sono
eterno, ainda melhor; mas certamente
o ideal seria nunca ter nascido.

Trad.: Nelson Ascher

REPUBLICAÇÃO: poema publicado no blog originalmente em 15/06/2016

Morphine

Groß ist die Ähnlichkeit der beiden schönen
Jünglingsgestalten, ob der eine gleich
Viel blässer als der andre, auch viel strenger,
Fast möcht ich sagen viel vornehmer aussieht
Als jener andre, welcher mich vertraulich
In seine Arme schloß – Wie lieblich sanft
War dann sein Lächeln und sein Blick wie selig!
Dann mocht es wohl geschehn, daß seines Hauptes
Mohnblumenkranz auch meine Stirn berührte
Und seltsam duftend allen Schmerz verscheuchte
Aus meiner Seel – Doch solche Linderung,
Sie dauert kurze Zeit; genesen gänzlich
Kann ich nur dann, wenn seine Fackel senkt
Der andre Bruder, der so ernst und bleich. –
Gut ist der Schlaf, der Tod ist besser – freilich
Das beste wäre, nie geboren sein.

Lucille Clifton – o que eu sei é isso

o que eu sei é isso:
minha mãe enlouqueceu
na casa dos meus pais
por falta de carinho

o que eu sei é isso:
os dias de algumas mulheres
são desperdiçados
nas cozinhas de suas vidas

é por isso que eu sei:
os deuses
são homens

Trad.: Nelson Santander

this is what i know

this is what i know
my mother went mad
in my fathers house
for want of tenderness

this is what i know
some womens days
are spooned out
in the kitchen of their lives

this is why i know
the gods
are men

Carlos Drummond de Andrade – Congresso Internacional do Medo

Provisoriamente não cantaremos o amor,
que se refugiou mais abaixo dos subterrâneos.
Cantaremos o medo, que esteriliza os abraços,
não cantaremos o ódio porque esse não existe,
existe apenas o medo, nosso pai e nosso companheiro,
o medo grande dos sertões, dos mares, dos desertos,
o medo dos soldados, o medo das mães, o medo das igrejas,
cantaremos o medo dos ditadores, o medo dos democratas,
cantaremos o medo da morte e o medo de depois da morte,
depois morreremos de medo
e sobre nossos túmulos nascerão flores amarelas e medrosas.

REPUBLICAÇÃO: poema publicado no blog originalmente em 02/06/2022

Czesław Miłosz – Dádiva

Um dia tão feliz.
O nevoeiro cedo dissipou-se, e eu trabalhei no jardim.
Os Beija-Flores se detinham sobre as flores de madressilva.
Não havia nada na terra que eu quisesse possuir.
Eu não conhecia ninguém que valesse a pena invejar.
Qualquer mal que eu tivesse sofrido, esqueci.
Pensar que uma vez eu fui o mesmo homem não me envergonhava.
Em meu corpo eu não sentia dor.
Ao endireitar-me, vi o mar azul e as velas.

Trad.: Nelson Santander

Gift

A day so happy.
Fog lifted early, I worked in the garden.
Hummingbirds were stopping over honeysuckle flowers.
There was no thing on earth I wanted to possess.
I knew no one worth my envying him.
Whatever evil I had suffered, I forgot.
To think that once I was the same man did not embarrass me.
In my body I felt no pain.
When straightening up, I saw the blue sea and sails.

Carlos Drummond de Andrade – O Medo

Em verdade temos medo.
Nascemos escuro.
As existências são poucas:
Carteiro, ditador, soldado.
Nosso destino, incompleto.

E fomos educados para o medo.
Cheiramos flores de medo.
Vestimos panos de medo.
De medo, vermelhos rios
vadeamos.

Somos apenas uns homens
e a natureza traiu-nos.
Há as árvores, as fábricas,
Doenças galopantes, fomes.

Refugiamo-nos no amor,
este célebre sentimento,
e o amor faltou: chovia,
ventava, fazia frio em São Paulo.

Fazia frio em São Paulo…
Nevava.
O medo, com sua capa,
nos dissimula e nos berça.

Fiquei com medo de ti,
meu companheiro moreno,
De nós, de vós: e de tudo.
Estou com medo da honra.

Assim nos criam burgueses,
Nosso caminho: traçado.
Por que morrer em conjunto?
E se todos nós vivêssemos?

Vem, harmonia do medo,
vem, ó terror das estradas,
susto na noite, receio
de águas poluídas. Muletas

do homem só. Ajudai-nos,
lentos poderes do láudano.
Até a canção medrosa
se parte, se transe e cala-se.

Faremos casas de medo,
duros tijolos de medo,
medrosos caules, repuxos,
ruas só de medo e calma.

E com asas de prudência,
com resplendores covardes,
atingiremos o cimo
de nossa cauta subida.

O medo, com sua física,
tanto produz: carcereiros,
edifícios, escritores,
este poema; outras vidas.

Tenhamos o maior pavor,
Os mais velhos compreendem.
O medo cristalizou-os.
Estátuas sábias, adeus.

Adeus: vamos para a frente,
recuando de olhos acesos.
Nossos filhos tão felizes…
Fiéis herdeiros do medo,

eles povoam a cidade.
Depois da cidade, o mundo.
Depois do mundo, as estrelas,
dançando o baile do medo.

REPUBLICAÇÃO: poema publicado no blog originalmente em 02/06/2016

Linda Pastan – Estou aprendendo a abandonar este mundo

Estou aprendendo a abandonar este mundo
antes que ele possa me abandonar.
Já renunciei à lua
e à neve, fechando minhas persianas
contra as reivindicações do branco.
E o mundo levou
meu pai, meus amigos.
Abandonei as linhas melódicas das colinas,
mudando para uma paisagem plana, dissonante.
E toda noite abandono meu corpo,
membro por membro, seguindo
através dos ossos, em direção ao coração.
Mas a manhã chega trazendo as pequenas
tréguas do café e o canto dos pássaros.
Uma árvore do lado de fora da janela,
que era apenas sombra momentos atrás
recolhe de volta seus galhos, ramo
por ramo frondoso.
E enquanto retomo meu corpo,
o sol pousa seu caloroso focinho em meu colo
como se quisesse se redimir.

Trad.: Nelson Santander

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I am learning to abandon the world

I am learning to abandon the world
before it can abandon me.
Already I have given up the moon
and snow, closing my shades
against the claims of white.
And the world has taken
my father, my friends.
I have given up melodic lines of hills,
moving to a flat, tuneless landscape.
And every night I give my body up
limb by limb, working upwards
across bone, towards the heart.
But morning comes with small
reprieves of coffee and birdsong.
A tree outside the window
which was simply shadow moments ago
takes back its branches twig
by leafy twig.
And as I take my body back
the sun lays its warm muzzle on my lap
as if to make amends.

Rainer Maria Rilke – Morgue

Estão prontos, ali, como a esperar
que um gesto só, ainda que tardio,
possa reconciliar com tanto frio
os corpos e um ao outro harmonizar;

como se algo faltasse para o fim.
Que nome no seu bolso já vazio
há por achar? Alguém procura, enfim,
enxugar dos seus lábios o fastio:

em vão; eles só ficam mais polidos.
A barba está mais dura, todavia
ficou mais limpa ao toque do vigia,

para não repugnar o circunstante.
Os olhos, sob a pálpebra, invertidos,
olham só para dentro, doravante.

Trad.: Augusto de Campos

REPUBLICAÇÃO: poema publicado no blog originalmente em 01/06/2016

Morgue

Da liegen sie bereit, als ob es gälte,
nachträglich eine Handlung zu erfinden,
die mit einander und mit dieser Kälte
sie zu versöhnen weiß und zu verbinden;

denn das ist alles noch wie ohne Schluß.
Was für ein Name hätte in den Taschen
sich finden sollen? An dem Überdruß
um ihren Mund hat man herumgewaschen:

er ging nicht ab; er wurde nur ganz rein.
Die Bärte stehen, noch ein wenig härter,
doch ordentlicher im Geschmack der Wärter,

nur um die Gaffenden nicht anzuwidern.
Die Augen haben hinter ihren Lidern
sich umgewandt und schauen jetzt hinein.

Dan Gerber – Cinema Paradiso

No final de novembro
palavras apareceram na ponta da minha caneta
como a resposta a uma pergunta que
eu ainda não havia feito.
Uma tornou-se um condor; outra,
uma nuvem,
enquanto uma terceira palavra, espinhosidade,
ganhou vida no sonho de um cardo.
O que é mais real,
a neve ou a bola de neve,
a palavra ou as letras que a
compõe?
Eu empacotei a neve, uma galáxia de minúsculas
estrelas brancas entre as palmas das mãos.
É assim que surge um buraco negro?
Não, um buraco negro é um eixo
repleto de luz.
Com o tempo,
que nem vem nem vai,
o próprio universo pode
se tornar um buraco negro;
nesse caso ainda estaremos todos juntos,
na escuridão,
esperando o início do espetáculo.

Trad.: Nelson Santander
Cinema Paradiso

On a morning in November
words appeared at the end of my pen
like the answer to a question
I hadn’t yet asked.
One became a condor, another
a cloud,
while a third word, spinosity,
came to life in the dream of a thistle.
Which is more real,
the snow or the snowball,
the word or the letters of which
it’s composed?
I packed the snow, a galaxy of tiny
white stars between my palms.
Is this how a black hole begins?
No, a black hole is an axis
chock-full of light.
In time,
which neither comes nor goes on,
the universe itself may
become a black hole,
in which case we’ll all still be together,
in the dark,
waiting for the show to begin.

Ruy Proença – Tiranias

antigamente
diziam: cuidado,
as paredes têm ouvidos

então
falávamos baixo
nos policiávamos

hoje
as coisas mudaram:
os ouvidos têm paredes

de nada
adianta
gritar

REPUBLICAÇÃO: poema publicado no blog originalmente em 29/05/2016

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Billy Collins – O desfile

Que emocionante foi marchar
ao longo das grandes avenidas
debaixo do clarão das trombetas
e sob todas as bandeiras tremulantes —
a bandeira da ambição, a bandeira do amor.

Tantos de nós fluindo ao longo do caminho —
toda a humanidade, na verdade —
movendo-se em perfeita sintonia,
mas cada qual perdido no quarto de um sonho particular.

Como é estimulante a paisagem do mundo,
as fileiras de árvores à beira da estrada,
a enorme cortina do céu.

Quão interminável parecia até que nos desviássemos
da grande estrada
para um pasto de grama alta,
em direção aos vertiginosos penhascos da mortalidade.

Geração após geração,
continuamos avançando
até pularmos da borda para o espaço.

E eu não deveria ter que lembra-lo
de que neste lugar pouco tempo é dado
para descansar em um banco à beira do caminho,
para parar e curvar-se para as flores silvestres,
ou para estudar um pássaro em um galho —

não quando os jovens
estão sempre nos empurrando por trás,
não quando os velhos continuam nos puxando para frente,
puxando nossos braços com toda sua débil força.

Trad.: Nelson Santander

The Parade

How exhilarating it was to march
along the great boulevards
in the sunflash of trumpets
and under all the waving flags—
the flag of ambition, the flag of love.

So many of us streaming along—
all of humanity, really—
moving in perfect step,
yet each lost in the room of a private dream.

How stimulating the scenery of the world,
the rows of roadside trees,
the huge curtain of the sky.

How endless it seemed until we veered
off the broad turnpike
into a pasture of high grass,
headed toward the dizzying cliffs of mortality.

Generation after generation,
we keep shouldering forward
until we step off the lip into space.

And I should not have to remind you
that little time is given here
to rest on a wayside bench,
to stop and bend to the wildflowers,
or to study a bird on a branch—

not when the young
are always shoving from behind,
not when the old keep tugging us forward,
pulling on our arms with all their feeble strength.