Ada Limón, poeta laureada

Ada Limón, uma legítima representante da novíssima geração de poetas norte-americanos, e de quem venho traduzindo alguns poemas para o blog desde 2020, acaba de ser eleita a nova poeta laureada dos Estados Unidos, a comenda de maior prestígio do campo da poesia daquele país.

O cargo de poeta laureado – que tradicionalmente é conferida pelo Congresso Nacional norte-americano – foi criado em 1937 e, desde então, muitos dos poetas mais conhecidos e respeitados dos EUA foram nomeados para ele, como Philip Levine, Rita Dove, Billy Collins e Tracy K. Smith.

Clique aqui para conhecer um pouco do trabalho dessa poeta.

Jim Harrison – Água

Antes de nascer eu era água.
Pensei nisso sentado em uma cadeira
azul cercado por malvas rosas, vermelhas,
e brancas no jardim em frente
ao meu estúdio verde. Há conclusões aqui
a tirar, mas eu não posso mais fazer isso. 
O homem nasce, cresce, canta, 
dança, ama, envelhece,
agoniza. Isto é um rio circular
e nós somos seus peixes que se tornam água.

Trad.: Nelson Santander

Water

Before I was born I was water.
I thought of this sitting on a blue
chair surrounded by pink, red, white 
hollyhocks in the yard in front
of my green studio. There are conclusions
to be drawn but I can’t do it anymore. 
Born man, child man, singing man, 
dancing man, loving man, old man,
dying man. This is a round river 
and we are her fish who become water.

Wislawa Szymborska – Natureza-morta com um Balãozinho

Em vez da volta das lembranças
na hora de morrer
quero ter de volta
as coisas perdidas.

Pela porta, janela, malas,
sombrinhas, luvas, casaco,
para que eu possa dizer:
Para que tudo isso.

Alfinetes, este e aquele pente,
rosa de papel, barbante, faca,
para que eu possa dizer:
Nada disto me faz falta.

Esteja onde estiver, chave,
tente chegar a tempo,
para que eu possa dizer:
Ferrugem, minha cara, ferrugem.

Caia uma nuvem de atestados,
licenças, enquetes,
para que eu possa dizer:
Que lindo o sol se pondo.

Relógio, aflore do rio
e permita que te segure na mão,
para que eu possa dizer:
Você finge ser a hora.

Vai aparecer também um balãozinho
levado pelo vento,
para que eu possa dizer:
Aqui não há crianças.

Voe pela janela aberta,
voe para o vasto mundo,
que alguém grite: Ó!
para que eu possa chorar.

Trad.: Regina Przybycien

REPUBLICAÇÃO: poema publicado no blog originalmente em 10/03/2017

Eavan Boland – Cartas aos mortos

I

Estudiosos do Império Antigo encontraram cerâmicas
gravadas por toda parte com marcas e sinais.

II

Escritos em louças de lodo. Nas bordas dos vasos.
Colocados na entrada dos túmulos.
O vermelho do ferro de um mundo.
Postado no limiar de outro.
Chamaram-nas de cartas aos mortos.

III

Eles não choravam ou se lamentavam por meio destas marcas e sinais.
Eles eram intimistas, suplicantes, desesperados, locais.

IV

Aqui, no limiar de uma primavera irlandesa
que você não pode mais ver,
arbustos de espinheiros com suas
pequenas flores de marfim
em breve ganharão vida em cada vento. Em breve,
cada encosta será uma noiva distante.

V

Se eu pudesse escreve-la de uma maneira diferente,
a história secreta de um lugar,
como se fosse uma história de águas ocultas, percebidas apenas
pela estranha acústica de um riacho sob os pés
na grama baixa
seria esta –
esta história.

VI

Eu queria trazer-lhe prendas da ilha,
o espinheiro da última semana de abril,
a vista do Liffey acima de Leixlip.
Os salgueiros ali poderiam ser meninas,
seus cabelos ainda molhados depois de um mergulho.
Em vez disso, trouxe-lhe indagações.

VII

Quantas filhas ficaram sozinhas em um túmulo,
e pensaram isto das vidas de suas mães?
Que elas eram jovens em um país que odiava o corpo da mulher.
Que envelheceram em um país que odiava o corpo da mulher.

VIII

Eles pediam conselhos aos mortos.
Eles pediam poder aos mortos.
Estas são as minhas cartas aos mortos.

Trad.: Nelson Santander

N. do T.: Letters to the Dead foi publicado na obra Domestic Violence (2007), e integra a Seção com o mesmo nome, da qual faz parte também, dentre outros, o poema And Soul, já traduzido e publicado neste blog (E alma).

Letters to the Dead

I

In the Old Kingdom scholars found pottery
written round and around with signs and marks.

II

Written in silt ware. On the rims of bowls.
Laid at the entrance to tombs.
Red with the iron of one world.
Set at the threshold of another.
They called them letters to the dead.

III

They did not mourn or grieve these signs or marks.
They were intimate, imploring, local, desperate.

IV

Here at the threshold of an Irish spring
you can no longer see,
hawthorn bushes with their
small ivory flowers
will soon come alive in every wind. Soon,
every hillside will be a distant bride.

V

If I could write it differently,
the secret history of a place,
as if it were a story of hidden water, known only
through the strange acoustic of a stream underfoot
in shallow grass
it would be this –
this story.

VI

I wanted to bring you the gifts of the island,
the hawthorn in the last week of April,
the sight of the Liffey above Leixlip.
The willows there could be girls,
their hair still wet after a swim.
Instead, I have brought you a question.

VII

How many daughters stood alone at a grave,
and thought this of their mothers’ lives?
That they were young in a country that hated a woman’s body.
That they grew old in a country that hated a woman’s body.

VIII

They asked for the counsel of the dead.
They asked for the power of the dead.
These are my letters to the dead.

Wislawa Szymborska – Nada Duas Vezes

Nada acontece duas vezes
nem acontecerá. Eis nossa sina.
Nascemos sem prática
e morremos sem rotina.

Mesmo sendo os piores alunos
na escola deste mundão,
nunca vamos repetir
nenhum inverno nem verão.

Nem um dia se repete,
não há duas noites iguais,
dois beijos não são idênticos,
nem dois olhares tais quais.

Ontem quando alguém falou
o teu nome junto a mim
foi como se pela janela aberta
caísse uma rosa do jardim.

Hoje que estamos juntos,
o nosso caso não medra.
Rosa? Como é uma rosa?
É uma flor ou é uma pedra?

Por que você tem, má hora,
que trazer consigo a incerteza?
Você vem – mas vai passar.
Você passa – eis a beleza.

Sorridentes, abraçados
tentaremos viver sem mágoa,
mesmo sendo diferentes
como duas gotas d’água.

Trad.: Regina Przybycien

REPUBLICAÇÃO: poema publicado no blog originalmente em 09/03/2017

Tarde na Andaluzia, de Sahar Romani, lido por Sandra Daher

Sandra Daher, uma generosa seguidora do blog, publica em seu perfil no Facebook a leitura que faz de poemas que a inspiram.

Em sua postagem mais recente, ela surge lendo o belíssimo “Tarde na Andaluzia”, de Sahar Romani, traduzido por mim e publicado há algum tempo no blog.

Confiram o resultado clicando no link que segue e aproveitem para vê-la declamando outros grandes poemas.

“Tarde na Andaluzia”, de Sahar Romani, lido por Sandra Daher

Tarde na Andaluzia

E por que a geometria não seria igual à divindade

1000 + 1 + 1 + 1 O que é a fé

senão a confiança no uno & infinito Uma vez


em Granada observei um muro de polígonos

ou eram estrelas ou abelhas ou por um segundo um fulgor

de gladíolos em um campo até que pude ver


uma galáxia planetas girando raios de uma roda

relógios ou botões videiras florescendo um tornado

de um século futuro jardim de elipses


a córnea do meu amante acesa em cada manhã

Deus tão distante & bem na minha frente


Trad.: Nelson Santander

Afternoon in Andalusia


But why wouldn’t geometry equal divinity

1000 + 1 + 1 + 1 What is faith

but trust in one & infinity Once


in Granada I studied a wall of polygons

or was it stars or bees or for a second a flash

of gladiolas in a field until I could see


a galaxy planets spinning spokes on a wheel

clocks or buttons vines blooming a tornado

from a future century garden of ellipses


my lover’s cornea alight each morning

God so far away & right in front of me

Stephen Dunn – Ignorância

O sonho antigo de voar se tornou realidade
e eu olho para cima, sem espanto.
Por que não cai?
Uma pergunta de criança que eu não sei responder.
Eu visto minha ignorância naquilo que eu sei.
Uma vez houve pterodátilos, eu digo.
Uma vez o céu era presságios e pássaros.

Ele é imenso e diminuto e tão alto
que não emite nem um som.
Se fosse para lançar bombas, se por sorte
uns poucos de nós fôssemos salvos
e tivéssemos que começar de novo, eu não teria nada
para o sofrimento além de palavras.

Digo à minha filha
que estive lá em cima, no céu,
mas nós dois não ficamos impressionados.
Ela viu Star Wars. E eu já não
peço mais um lugar à janela.
Diante de um voo, eu penso na morte.
Não direi isso a ela

como não lhe direi que a casa
é a sua caverna e eu o homem peludo que retorna
toda noite, frequentemente atônito e confuso.

Trad.: Nelson Santander

Ignorance

The ancient dream of flying has come true
and I look up, unamazed.
Why doesn’t it fall?
A child’s question I can’t explain.
I dress my ignorance in what I know.
Once there were pterodactyls, I say.
Once the sky was guesswork and birds.

It’s immense and small, so high
it isn’t making a sound.
If it were to drop bombs, if by luck
a few of us were saved
and had to start again, I’d have nothing
for the pain but words.

I tell my daughter
I’ve been up there, in the sky,
but both of us are unimpressed.
She’s seen Star Wars. And I no longer
ask for a window seat.
Faced with flying, I think of death.
I will not tell her this

as I will not tell her the house
is her cave and I the hairy man who returns
each night, often speechless and confused.

Wislawa Szymborska – A Cada Cem Pessoas

A cada cem pessoas:

sabem de tudo e muito melhor do que os outros:
– cinquenta e duas.

ficam inseguras a cada passo:
– quase todas as outras.

estão prontas a ajudar
desde é claro que isso não lhes tome muito tempo:
– quarenta e nove, o que já não é mau.

são sempre boas porque incapazes de ser de outro modo:
– quatro… vá lá, talvez cinco.

estão prontas a admirar sem inveja:
– dezoito.

são induzidas ao erro
por uma juventude que passa tão depressa:
– umas sessenta.

com quem não se pode brincar:
– quarenta e quatro.

vivem angustiadas em relação a alguém ou a qualquer coisa:
– setenta e sete.

são dotadíssimas para a felicidade:
– no máximo vinte e tal.

inofensivas quando sozinhas
mas selvagens quando em multidão:
– isso, o melhor é não tentar saber nem aproximadamente.

não pedem nada da vida exceto coisas:
– trinta, mas preferia estar enganada.

encurvadas, sofridas,
sem uma lanterna que lhes ilumine as trevas:
– cedo ou tarde, oitenta e três.

justas:
– pelo menos trinta e cinco, e lamba os beiços.

mas se a isso juntarmos o esforço de compreender:
– três.

dignas de compaixão:
– noventa e nove.

mortais:
– cem entre cem,
número que, até momento, não é possível alterar.

Trad.: Elzbieta Milewska e Sérgio Neves

REPUBLICAÇÃO: poema publicado no blog originalmente em 08/03/2017

Linda Pastan – Por trás do

        "Busco pelo que está por trás das palavras que são ditas..."
– William Stafford

Por trás do “Eu te amo”
reside um “adeus”.
Por trás do
“adeus”
mora um “foi maravilhoso
ali no gramado, encharcados
de tanto verde,
juntos”.
Palavras que esperam
são escuras como sombras
nos quartos dos fundos
dos espelhos:
quando você levanta
sua mão direita
em saudação,
elas levantam a esquerda
em despedida.

Trad.: Nelson Santander

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In back of

          "I'm looking for things back of remarks that are said..."
– William Stafford

In back of “I love you”
stands “goodbye.”
In back of
“goodbye”
stands “it was lovely
there in the grass, drenched
in so much green
together.”
Words that wait
are dark as shadows
in the back rooms
of mirrors:
when you raise
your right hand
in greeting,
they raise their left
in farewell.

Gary Snyder – Dezembro em Yase

Naquele Outubro
em que escolheu ser livre
na grama alta e seca junto ao pomar
você disse “quem sabe um dia, talvez daqui a dez anos”.

Terminada a universidade te vi
só mais uma vez. Você estava estranha.
E eu obcecado com um projeto.

Agora se passaram os tais dez anos
e até mais um pouco: eu sempre soube
onde você estava –

Devia ter ido te ver
movido pela esperança de recuperar seu amor.
Você continua solteira.
Mas não fiz nada disso.

Só em sonhos, como esta madrugada,
a intensidade terrível
de nosso amor de garotos
me ocupa de novo a mente, a carne.

Tivemos aquilo que todos
se esforçam tanto para ter;
e abandonamos tudo para trás aos dezenove anos.

Me sinto com mil anos, como se tivesse
vivido muitas vidas.

E talvez nunca descubra
se sou um idiota
ou fiz o que exigia
o meu karma.

Trad.: ?

REPUBLICAÇÃO: poema publicado no blog originalmente em 20/02/2017

December at Yase

You said, that October,
In the tall dry grass by the orchard
When you chose to be free,
“Again someday, maybe ten years.”

After college I saw you
One time. You were strange,
And I was obsessed with a plan.

Now ten years and more have
Gone by: I’ve always known
where you were—
I might have gone to you
Hoping to win your love back.
You still are single.

I didn’t.
I thought I must make it alone. I
Have done that.

Only in dream, like this dawn,
Does the grave, awed intensity
Of our young love
Return to my mind, to my flesh.

We had what the others
All crave and seek for;
We left it behind at nineteen.

I feel ancient, as though I had
Lived many lives.

And may never now know
If I am a fool
Or have done what my
karma demands.