Ele disse não parece bom ele disse parece mau aliás muito mau ele disse eu contei trinta e dois deles em um pulmão antes de parar de contar eu disse fico feliz não ia querer saber que tem mais do que isso lá ele disse por acaso você é religioso você se ajoelha em bosques na floresta e se permite pedir ajuda quando encontra uma cachoeira a névoa soprando contra seu rosto seus braços você para e pede clareza nesses momentos eu disse não mas pretendo começar hoje mesmo ele disse sinto muito ele disse gostaria de ter outro tipo de notícia para dar eu disse Amém e ele disse algo mais que eu não entendi e sem saber mais o que fazer e sem querer que ele precisasse repetir aquilo e que eu realmente precisasse digeri-lo apenas olhei para ele por um minuto e ele olhou de volta foi então que me ergui num salto e apertei a mão daquele homem que acabara de me dar algo que ninguém no mundo jamais tinha me dado talvez eu tenha até agradecido por força do hábito
Trad.: Cide Piquet
REPUBLICAÇÃO: poema publicado no blog originalmente em 22/10/2017
What the Doctor Said
He said it doesn’t look good he said it looks bad in fact real bad he said I counted thirty-two of them on one lung before I quit counting them I said I’m glad I wouldn’t want to know about any more being there than that he said are you a religious man do you kneel down in forest groves and let yourself ask for help when you come to a waterfall mist blowing against your face and arms do you stop and ask for understanding at those moments I said not yet but I intend to start today he said I’m real sorry he said I wish I had some other kind of news to give you I said Amen and he said something else I didn’t catch and not knowing what else to do and not wanting him to have to repeat it and me to have to fully digest it I just looked at him for a minute and he looked back it was then I jumped up and shook hands with this man who’d just given me something no one else on earth had ever given me I may have even thanked him habit being so strong
Muitas vezes no fim da tarde, depois de outro dia, depois de mais um ano de dias, no meio da noite a caminho de casa eu paro na loja de conveniência e, aguardando na fila, me pego perguntando sobre as pessoas. Eu me pergunto se elas também se perguntam como é estranho que estejamos aqui na terra. E como, para poder viver, todos temos que dormir. E como temos camas para isto (a não ser que estejamos sem) e quartos inteiros para onde vamos no final do dia para desabar. E penso em como mesmo as pessoas mais animadas ficam desoladas quando estão sozinhas porque elas também precisam dormir e, mais cedo ou mais tarde, morrer. Estamos sempre procurando adquirir mais comida para outras excelentes refeições. Temos que ter excelentes refeições. Não é o suficiente ser uma pessoa comprando uma caixa de leite? Uma simples latinha de manteiga e um pão integral? Não basta só ficar aqui enquanto a doce caixa de meia-idade registra as compras? Olho para fora, mas não consigo ver muito ali porque está escuro agora, exceto por um solitário letreiro de neon vermelho flutuando sobre o posto de combustível como um templo em miniatura simplesmente iluminado contra a noite.
Trad.: Nelson Santander
Simply Lit
Often toward evening, after another day, after another year of days, in the half dark on the way home I stop at the food store and waiting in line I begin to wonder about people. I wonder if they also wonder about how strange it is that we are here on the earth. And how in order to live we all must sleep. And how we have beds for this (unless we are without) and entire rooms where we go at the end of the day to collapse. And I think how even the most lively people are desolate when they are alone because they too must sleep and sooner or later die. We are always looking to acquire more food for more great meals. We have to have great meals. Isn’t it enough to be a person buying a carton of milk? A simple package of butter and a loaf of whole wheat bread? Isn’t it enough to stand here while the sweet middle-aged cashier rings up the purchases? I look outside, but I can’t see much out there because now it is dark except for a single vermilion neon sign floating above the gas station like a miniature temple simply lit against the night.
Medo de ver a polícia estacionar à minha porta. Medo de dormir à noite. Medo de não dormir. Medo de que o passado desperte. Medo de que o presente alce voo. Medo do telefone que toca no silêncio da noite. Medo de tempestades elétricas. Medo da faxineira que tem uma pinta no queixo! Medo de cães que supostamente não mordem. Medo da ansiedade! Medo de ter que identificar o corpo de um amigo morto. Medo de ficar sem dinheiro. Medo de ter demais, mesmo que ninguém vá acreditar nisso. Medo de perfis psicológicos. Medo de me atrasar e medo de ser o primeiro a chegar. Medo de ver a letra dos meus filhos em envelopes. Medo de que eles morram antes de mim, e que eu me sinta culpado. Medo de ter que morar com a minha mãe em sua velhice, e na minha. Medo da confusão. Medo de que este dia termine com uma nota infeliz. Medo de acordar e ver que você partiu. Medo de não amar e medo de não amar o bastante. Medo de que o que amo se prove letal para aqueles que amo. Medo da morte. Medo de viver demais. Medo da morte.
Já disse isso.
Trad.: Rubens Figueiredo
REPUBLICAÇÃO: poema publicado no blog originalmente em 21/10/2017
Fear
Fear of seeing a police car pull into the drive. Fear of falling asleep at night. Fear of not falling asleep. Fear of the past rising up. Fear of the present taking flight. Fear of the telephone that rings in the dead of night. Fear of electrical storms. Fear of the cleaning woman who has a spot on her cheek! Fear of dogs I’ve been told won’t bite. Fear of anxiety! Fear of having to identify the body of a dead friend. Fear of running out of money. Fear of having too much, though people will not believe this. Fear of psychological profiles. Fear of being late and fear of arriving before anyone else. Fear of my children’s handwriting on envelopes. Fear they’ll die before I do, and I’ll feel guilty. Fear of having to live with my mother in her old age, and mine. Fear of confusion. Fear this day will end on an unhappy note. Fear of waking up to find you gone. Fear of not loving and fear of not loving enough. Fear that what I love will prove lethal to those I love. Fear of death. Fear of living too long. Fear of death.
Letra: Carlos Rennó; Música: Chico Brown e Pedro Luís
HINO ao Inominável
“Sou a favor da ditadura”, disse ele, “Do pau de arara e da tortura”, concluiu. “Mas o regime, mais do que ter torturado, Tinha que ter matado trinta mil”. E em contradita ao que afirmou, na caradura Disse: “Não houve ditadura no país”.
E no real o incrível, o inacreditável Entrou que nem um pesadelo, infeliz, Ao som raivoso de uma voz inconfiável Que diz e mente e se desmente e se desdiz.
Disse que num quilombo “os afrodescendentes Pesavam sete arrobas” – e daí pra mais: Que “não serviam nem pra procriar”, Como se fôssemos, nós negros, animais. E ainda insiste que não é racista E que racismo não existe no país.
Como é possível, como é aceitável Que tal se diga e fique impune quem o diz? Tamanha injúria não inocentável, Quem a julgou, que júri, que juiz?
Disse que agora “o índio está evoluindo, Cada vez mais é um ser humano igual a nós. Mas isolado é como um bicho no zoológico”, E decretou e declarou de viva voz: “Nem um centímetro a mais de terra indígena!, Que nela jaz muita riqueza pro país”.
Se pronuncia assim o impronunciável Tal qual o nome que tal “hino” nunca diz, Do inumano ser, o ser inominável, Do qual emanam mil pronunciamentos vis.
Disse que se tivesse um filho homossexual, Preferiria que o progênito “morresse”. Pruma mulher disse que não a estupraria, Porque “você é feia, não merece”. E ainda disse que a mulher, “porque engravida”, “Deve ganhar menos que o homem” no país.
Por tal conduta e atitude deplorável, Sempre o comparam com alguns quadrúpedes. Uma maldade, uma injustiça inaceitável! Tais animais são mais afáveis e gentis.
Mas quem dirá que não é mais imaginável Erguer de novo das ruínas o país?
Chamou o tema ambiental de “importante Só pra vegano que só come vegetal”; Chamou de “mentirosos” dados científicos Do aumento do desmatamento florestal. Disse que “a Amazônia segue intocada, Praticamente preservada no país”.
E assim negou e renegou o inegável, As evidências que a Ciência vê e diz, Da derrubada e da queimada comprovável Pelas imagens de satélites.
E proclamou : “Policial tem que matar, Tem que matar, senão não é policial. Matar com dez ou trinta tiros o bandido, Pois criminoso é um ser humano anormal. Matar uns quinze ou vinte e ser condecorado, Não processado” e condenado no país.
Por essa fala inflexível, inflamável, Que só a morte, a violência e o mal bendiz, Por tal discurso de ódio, odiável, O que resolve são canhões, revólveres.
“A minha especialidade é matar, Sou capitão do exército”, assim grunhiu. E induziu o brasileiro a se armar, Que “todo mundo, pô, tem que comprar fuzil”, Pois “povo armado não será escravizado”, Numa cruzada pela morte no país
E num desprezo pela vida inolvidável, Que nem quando lotavam UTIs E o número de mortos era inumerável, Disse “E daí? Não sou coveiro”. “E daí?”
“Os livros são hoje ‘um montão de amontoado’ De muita coisa escrita”, veio a declarar. Tentou dizer “conclamo” e disse “eu canclomo”; Não sabe conjugar o verbo “concl…amar”. Clamou que “no Brasil tem professor demais”, Tal qual um imbecil pra imbecis.
Vigora agora o que não é ignorável: Os ignorantes ora imperam no país (O que era antes, ó pensantes, impensável)… Quem é essa gente que não sabe o que diz?
Mas quem dirá que não é mais imaginável Erguer de novo das ruínas o país?
Chamou de “herói” um coronel torturador E um capitão miliciano e assassino. Chamou de “escória” bolivianos, haitianos… De “paraíba” e “pau de arara” o nordestino. E diz que “ser patrão aqui é uma desgraça”, E diz que “fome ninguém passa no país”.
Tal qual num filme de terror, inenarrável, Em que a verdade não importa nem se diz, Desenrolou-se, incontível, incontável, Um rol idiota de chacotas e pitis.
Disse que mera “fantasia” era o vírus E “histeria” a reação à pandemia; Que brasileiro “pula e nada no esgoto, Não pega nada”, então também não pegaria O que chamou de “gripezinha” e receitou (sim!), Sim, cloroquina, e não vacina, pro país.
E assim sem ter que pôr à prova o improvável, Um ditador tampouco põe pingo nos is, E nem responde, falador irresponsável, Por todo ato ou toda fala pros Brasis.
E repetiu o mote “Deus, pátria e família” Do integralismo e da Itália do fascismo, Colando ao lema uma suspeita “liberdade”… Tal qual tinha parodiado do nazismo O slogan “Alemanha acima de tudo”, Pondo ao invés “Brasil” no nome do país.
E qual num sonho horroroso, detestável, A gente viu sem crer o que não quer nem quis: Comemorarem o que não é memorável, Como sinistras, tristes efemérides…
Já declarou: “Quem queira vir para o Brasil Pra fazer sexo com mulher, fique à vontade. Nós não podemos promover turismo gay, Temos famílias”, disse com moralidade. E já gritou um dia: “Toda minoria Tem de curvar-se à maioria!” no país.
E assim o incrível, o inacreditável, Se torna natural, quanto mais se rediz, E a intolerância, essa sim intolerável, Nessa figura dá chiliques mis.
Mas quem dirá que não é mais imaginável Erguer de novo das ruínas o país?
Por vezes saem, caem, soam como fezes Da sua boca cada som, cada sentença… É um nonsense, é um caô, umas fake-news, É um libelo leviano ou uma ofensa. Porque mal pensa no que diz, porque mal pensa, “Não falo mais com a imprensa”, um dia diz.
Mas de fanáticos a horda lamentável, Que louva a volta à ditadura no país, A turba cega-surda surta, insuportável, E grita “mito!”, “eu autorizo!”, e pede “bis!”
E disse “merda, bosta, porra, putaria, Filho da puta, puta que pariu, caguei!” E a cada internação tratando do intestino E a cada termo grosso e um “Talquei?”, O cheiro podre da sua retórica Escatológica se espalha no país.
“Sou imorrível, incomível e imbrochável”, Já se gabou em sua tão caracterís- Tica linguagem baixo nível, reprovável, Esse boçal ignaro, rei de mimimis.
Mas nada disse de Moise Kabagambe, O jovem congolês que foi aqui linchado. Do caso Evaldo Rosa, preto, musicista, Com a família no automóvel baleado, Disse que a tropa “não matou ninguém”, somente “Foi um incidente” oitenta tiros de fuzis…
“O exército é do povo e não foi responsável”, Falou o homem da gravata de fuzis, Que é bem provável ser-lhe a vida descartável, Sendo de negro ou de imigrante no país.
Bradou que “o presidente já não cumprirá Mais decisão” do magistrado do Supremo, Ao qual se dirigiu xingando: “Seu canalha!” Mas acuado recuou do tom extremo, E em nota disse: “Nunca tive intenção (Não!) De agredir quaisquer Poderes” do país.
Falhou o golpe mas safou-se o impeachável, Machão cagão de atos pusilânimes, O que talvez se ache algum herói da Marvel Mas que tá mais pra algum bandido de gibis.
Mas quem dirá que não é mais imaginável Erguer de novo das ruínas o país?
E sugeriu pra poluição ambiental: “É só fazer cocô, dia sim, dia não”. E pra quem sugeriu feijão e não fuzil: “Querem comida? Então, dá tiro de feijão”. É sem preparo, sem noção, sem compostura. Sua postura com o posto não condiz.
No entanto “chega! […] vai agora [inominável]”, Cravou o maior poeta vivo, no país, E ecoou o coro “fora, [inominável]!” E o panelaço das janelas nas metrópoles!
E numa live de golpista prometeu: “Sem voto impresso não haverá eleição!” E praguejou pra jornalistas: “Cala a boca! Vocês são uma raça em extinção!” E no seu tosco português ele não pára: Dispara sempre um disparate o que maldiz.
Hoje um mal-dito dito dele é deletável Pelo Insta, Face, YouTube e Twitter no país. Mas para nós, mais do que um post, é enquadrável O impostor que com o posto não condiz.
Disse que não aceitará o resultado Se derrotado na eleição da nossa história, E: “Eu tenho três alternativas pro futuro: Ou estar preso, ou ser morto ou a vitória”, Porque “somente Deus me tira da cadeira De presidente” (Oh Deus proteja esse país!”).
Tivéssemos um parlamento confiável, Sem x comparsas seus cupinchas, cúmplices, E seu impeachment seria inescapável, Com n inquéritos, pedidos, CPIs.
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Não há cortina de fumaça indevassÁvel Que encubra o crime desses tempos inci-vis E tampe o sol que vem com o dia inadiÁvel E brilha agora qual farol na noite gris. É a esperança que renasce onde HÁ véu, De um horizonte menos cinza e mais feliz. É a passagem muito além do instagramÁvel Do pesadelo à utopia por um triz, No instante crucial de liberdade instÁvel Pros democráticos de fato, equânimes, Com a missão difícil mas realizável De erguer das cinzas como fênix o país.
E quem dirá que não é mais imaginável Erguer de novo das ruínas o país?
Mas quem dirá que não é mais imaginável Erguer de novo das ruínas o país?
A noite chega e as colinas adensam-se; desvanecimento rubro e amarelo das folhas. Os gélidos pinheiros se alongam em suas sombras.
Abaixo deles, a água silencia, um pôr do sol tremeluzindo nela. Mais um que desce para se juntar aos outros.
Agora o lago se expande e se fecha, simultaneamente.
A escuridão que se mantém sob a superfície durante o dia emerge dela como a névoa ou como névoa.
A distância se esvai, a ausência de distância faz pressão contra os olhos.
Não há como ver o lago, apenas os contornos das colinas, que são quase idênticas,
familiares para mim como o sono, e as margens se desdobrando sobre margens em seus contornos de lenta respiração.
É pelo tato que eu vou, o barco como mão sondando através de cardumes e entre árvores mortas, elevando-se invisível sobre os penedos, camada por camada de tempo afogado desaparecendo.
Foi assim que aprendi a navegar na escuridão sem estrelas.
Estar perdido é apenas uma falha de memória.
Trad.: Nelson Santander
A Boat
Evening comes on and the hills thicken; red and yellow bleaching out of the leaves. The chill pines grow their shadows.
Below them the water stills itself, a sunset shivering in it. One more going down to join the others.
Now the lake expands and closes in, both.
The blackness that keeps itself under the surface in daytime emerges from it like mist or as mist.
Distance vanishes, the absence of distance pushes against the eyes.
There is no seeing the lake, only the outlines of the hills which are almost identical,
familiar to me as sleep, shores unfolding upon shores in their contours of slowed breathing.
It is touch I go by, the boat like a hand feeling through shoals and among dead trees, over the boulders lifting unseen, layer on layer of drowned time falling away.
This is how I learned to steer through darkness by no stars.
Eu cozinhava uma beterraba quando a campainha tocou. ‘Quem será a essa hora?’, murmurei, marchando para a porta. Quando a abri, o sol brilhava tanto que só vi silhuetas, mas discerni que pairava sobre tudo uma grande cruz preta. Havia dois homens, um com cara de bode, o outro um sujeito enorme com um cigarro na boca e suor no rosto de carregar a cruz. O primeiro homem sorria, sacudindo seu saco de pregos e acariciando o martelo em seu cinto. ‘Viemos para efetuar a sua crucificação.’ Vendo minha reação, ele sorriu, ‘Não se preocupe, está tudo pago.’ O outro homem havia posto a cruz no chão, e analisava o gramado para encontrar o melhor local. “Posso perguntar quem pagou por isso?’, gaguejei. ‘Certamente houve um grande engano.’ Seguiu-se uma gargalhada. ‘Não houve engano, senhor. Foi precisamente o seu bom eu quem ordenou o acontecimento. Veja aqui,’ disse ele, empurrando um formulário de compra assinado na minha cara. Meu nome estava correto, mas era uma falsificação. Eu apontei isto, sem sucesso, então gritei que bastava. ‘Por favor, saia daqui imediatamente e peça ao seu palhaço gigante para não esquecer a cruz.’ Fechei a porta com força, empurrei uma poltrona contra ela, e sentei-me, depois de pegar minha faca maior e mais afiada. Estava com o celular preparado para chamar a polícia, mas pensei ter ouvido os dois se arrastando corredor afora, e uma olhada pelo olho mágico confirmou essa hipótese. Voltei para a cozinha para verificar minha beterraba. Havia quase secado e a água estava vermelha.
Trad.: Nelson Santander
Crucifixion
I was boiling a beetroot when the doorbell rang. ‘Who the hell is this?’, I muttered, marching to the door. When I opened it the sun was so bright I only saw silhouettes, but that was enough for looming over everything was a big black cross. There were two men, one with the face of a goat, the other a huge fellow with a fag in his mouth and sweat on his face from carrying the cross. The first man grinned, shaking his bag of nails and patting the hammer in his belt. ‘We’ve come to carry out your crucifixion.’ Seeing my reaction he laughed, ‘Don’t worry it’s all been paid for.’ The other man had set the cross down, and was checking out the lawn for the best location. “Can I ask who’s paid for it?’ I stuttered. ‘Surely there’s been a huge mistake.’ A laugh ensued. ‘No mistake, sir. It was your good self exactly who ordered the happening. See here,’ he said, shoving a signed order form into my face. It was my name all right, but it was a forgery. I pointed this out, to no avail, so I shouted that was enough. ‘Kindly leave this premises immediately, and ask your giant clown not to forget his cross.’ I slammed the door, then wheeled an armchair up against it, and sat in this, after getting my biggest sharp knife. I had my mobile primed to call the police, but I thought I heard the two lumbering down the path, and a look through the spyhole confirmed this. I went back to the kitchen to check my beetroot. It had nearly boiled dry and the water was red.
Um dia virá em que, eufórico, você cumprimentará a si próprio chegando à sua porta, em seu espelho e cada um dará ao outro um sorriso de boas-vindas,
e você dirá, sente-se aqui. Coma. Você amará outra vez o estranho que foi. Sirva vinho. Reparta o pão. Restitua o seu coração para si, para o estranho que um dia você amou
por toda sua vida, a quem você ignorou por outro, que o conhece de cor. Derrube da estante as cartas de amor,
as fotografias, os bilhetes desesperados, arranque sua imagem do espelho. Sente-se. Saboreie sua vida.
Trad.: Nelson Santander
REPUBLICAÇÃO: poema publicado no blog originalmente em 13/10/2017
Derek Walcott – Love After Love
The time will come when, with elation you will greet yourself arriving at your own door, in your own mirror and each will smile at the other’s welcome,
and say, sit here. Eat. You will love again the stranger who was your self. Give wine. Give bread. Give back your heart to itself, to the stranger who has loved you
all your life, whom you ignored for another, who knows you by heart. Take down the love letters from the bookshelf,
the photographs, the desperate notes, peel your own image from the mirror. Sit. Feast on your life.