Elizabeth Bishop – A Arte de Perder

A arte de perder não é nenhum mistério;
Tantas coisas contêm em si o acidente
De perdê-las, que perder não é nada sério.

Perca um pouquinho a cada dia. Aceite, austero,
A chave perdida, a hora gasta bestamente.
A arte de perder não é nenhum mistério.

Depois perca mais rápido, com mais critério:
Lugares, nomes, a escala subseqüente
Da viagem não feita. Nada disso é sério.

Perdi o relógio de mamãe. Ah! E nem quero
Lembrar a perda de três casas excelentes.
A arte de perder não é nenhum mistério.

Perdi duas cidades lindas. E um império
Que era meu, dois rios, e mais um continente.
Tenho saudade deles. Mas não é nada sério.

– Mesmo perder você (a voz, o riso etéreo
que eu amo) não muda nada. Pois é evidente
que a arte de perder não chega a ser mistério
por muito que pareça (Escreve!) muito sério.

Trad.: Paulo Henriques Britto

REPUBLICAÇÃO: poema publicado no blog originalmente em 21/09/2017

Lew Welch – Pequena oração para manter-se são

Adam Zagajewski – Os três anjos

De súbito, três anjos apareceram
aqui ao pé da padaria na Rua de São Jorge;
mais um inquérito sociológico,
suspirou um homem enfadado.
Não, começou por explicar, com paciência, o primeiro anjo,
gostaríamos só de saber
em que é que se tornaram as vossas vidas,
que sabor têm os dias e porque é que as noites
estão marcadas pelo desassossego e pelo medo.

É verdade, pelo medo, interveio uma adorável mulher
de olhos de sonho; mas eu sei o porquê.
As obras do pensamento humano soçobraram
e precisam de ajuda e apoio,
que não conseguem encontrar. Senhor, veja
– chamou “senhor” ao anjo! –
o exemplo de Wittgenstein. Os nossos sábios
e líderes são tristes e loucos
e sabem ainda menos do que nós,
pessoas comuns (mas ela não era
comum).

E também, disse um garoto
que andava a aprender a tocar violino, as tardes
são apenas uma maleta oca,
uma caixa vazia de mistérios,
enquanto de madrugada o cosmos parece completamente
alheio e seco, como a tela da televisão.
E para além disto não há muitos
que amem a música pela música em si.

Falaram também outros e as queixas multiplicavam,
compondo uma crescente sonata de raiva.
Se os senhores querem saber a verdade
– gritou um estudante alto, que
há pouco perdera a mãe – nós já estamos fartos
de morte e crueldade, doenças, perseguições
e longos períodos de um tédio imóvel
como o olho duma serpente. Temos tão pouca terra,
e demasiado fogo. Não sabemos quem somos.
Erramos pelo bosque e as estrelas negras
movem-se preguiçosas por cima de nós, como
se fossem apenas um sonho nosso.


E contudo, disse timidamente o segundo anjo,
há sempre um pouco de alegria e até a beleza
fica mesmo à mão, sob a casca
de cada hora, no coração calado da meditação,
e em cada um de vós esconde-se um homem
universal, forte, invencível.
As rosas bravas conservam por vezes o cheiro
da infância e nos dias feriados as garotas
saem para dar um passeio como sempre fizeram,
e na maneira como entrelaçam os cachecóis coloridos
há algo de imortal.
A memória vive no mar, no galope do sangue,
nas negras e queimadas pedras, nos poemas
e em toda a conversa serena.
O mundo é o mesmo de sempre,
cheio de sombras e de expectativa.

Podia ter falado ainda mais, mas a multidão crescia
e espalhavam-se
ondas de surda fúria,
até que por fim os enviados levantaram suavemente
voo, e no ar, ao afastarem-se,
docemente repetiam: paz é o que vos desejamos, paz
aos vivos e aos mortos e aos que ainda estão por nascer.
Só o terceiro anjo é que não proferiu palavra,
porque era o anjo do longo silêncio.

Trad.: Marco Bruno (com a revisão de Jorge Sousa Braga)

Paulo Henriques Britto – de “Dez Sonetoides Mancos”

VI

Nada de mergulhos. É na superfície
que o real, minúsculo plâncton, se trai.
Sentidos, sentimentos e outros moluscos

não passam pela finíssima peneira
do funcional. E o sofrimento, ai,
esse nefando pinguim de louça

sobre o que deveria ser, na quiti-
nete do eu, uma austera geladeira…

Que ninguém nos ouça: guarda esse escafandro, meu
filho. Só o raso é cool. A dor é kitsch.

REPUBLICAÇÃO: poema publicado no blog originalmente em 19/09/2017

Brigit Pegeen Kelly – Canção

Ouça: havia uma cabeça de cabra suspensa por cordas em uma árvore.
Por toda noite ela ficou lá pendurada e cantou. E aqueles que a ouviram
Sentiram um aperto em seus corações e pensaram que estavam ouvindo
O canto de uma ave noturna. Eles se sentaram em suas camas e depois
Se deitaram novamente. Na brisa noturna, a cabeça de cabra
Oscilava para frente e para trás, e de longe brilhava debilmente
Como a luz da lua brilhava nos trilhos do trem, a milhas de distância,
Ao lado dos quais o corpo sem cabeça da cabra repousava. Alguns garotos
Tinham arrancado sua cabeça. Foi um trabalho mais difícil do que eles imaginavam.
A cabra chorou como um homem e lutou muito. Mas eles
Terminaram o trabalho. Eles penduraram a cabeça ensanguentada perto da escola
E depois fugiram para a escuridão que parece tudo esconder.
A cabeça pendurada na árvore. O corpo repousando junto aos trilhos.
A cabeça chamou o corpo. O corpo, a cabeça.
Eles sentiam a falta um do outro. A ausência foi crescendo enorme entre eles,
Até que puxou o coração para fora do corpo, e
O coração arrancado voou em direção à cabeça, voou como uma ave voa
De volta para sua gaiola e o poleiro familiar de onde ela gorjeia.
Então o coração cantou na cabeça, primeiro baixinho e depois mais alto,
Cantou demorada e debilmente até que a luz da manhã surgiu sobre
A escola e sobre a árvore, e então o canto cessou…
A cabra pertencia a uma garotinha. Ela dera
À cabra o nome de Broken Thorn Sweet Blackberry, em homenagem
Ao arbusto de estrelas da noite, porque os cabelos sedosos da cabra
eram escuros como a água, porque ela tinha olhos como frutas silvestres.
A menina vivia perto de uma linha férrea elevada. À noite,
Ela ouvia os trens passando, o doce som do apito do trem
Pousando suavemente sobre sua cama, e todas as manhãs ela acordava
Para dar à cabra que balia seu balde de leite quente. Ela cantava para
A cabra canções sobre meninas com cordas e cozinheiros em barcos.
Ela a escovava com uma escova rígida. Ela sonhava diariamente
Que a cabra crescia, e a cabra crescia. Ela achava que eram seus sonhos que
Provocavam isso. Mas uma noite a menina não ouviu o apito do trem,
E na manhã seguinte ela despertou para um pátio vazio. A cabra
Tinha sumido. Tudo parecia estranho. Era como se uma tempestade
Tivesse passado enquanto ela dormia, vento e pedras e chuva
Arrancando os galhos e as frutas. Ela sabia que alguém
Havia roubado a cabra e que o animal se machucara. Ela a
Chamou. Durante toda a manhã, e à tarde, ela chamou
E chamou. Ela andou e andou. Em seu peito um mau pressentimento
Como a sensação das pedras talhando a macia planta
De seus pés descalços. Então alguém encontrou o corpo da cabra
Ao lado dos trilhos elevados, as moscas já enchendo seus recipientes macios
Na garganta cortada do bicho. Então alguém encontrou a cabeça
Pendurada na árvore perto da escola. Eles se apressaram em levar
Embora aquelas coisas para que a menina não as visse.
Eles se apressaram em levantar dinheiro para comprar outra cabra para a menina.
Eles se apressaram em achar os garotos que tinham feito aquilo, para ouvi-los
Dizer que tinha sido uma brincadeira, uma brincadeira, que não passara de uma brincadeira…
Mas ouça: eis o que interessa. Os garotos pensaram em
Divertir-se e pronto. Foi um trabalho mais difícil do que eles
Imaginavam, esse estúpido sacrifício, mas eles terminaram o trabalho,
Assobiando enquanto lavavam suas grandes mãos no escuro.
O que eles não sabiam era que a cabeça da cabra já estava
Cantando atrás deles na árvore. O que eles não sabiam
Era que a cabeça da cabra continuaria cantando, só para eles,
Muito tempo depois que as cordas viessem abaixo, e que eles aprenderiam a ouvir,
Balde após balde, golpe após paciente golpe. Eles
Despertariam à noite pensando ter ouvido o vento nas árvores
Ou uma ave noturna, mas seus corações bateriam mais forte. Haveria
um assobio, um zumbido, um murmúrio alto, e, finalmente, uma canção,
A canção que um menino perdido canta baixinho lembrando-se do chamado de sua mãe.
Não uma canção cruel, não, não, em absoluto. Esta canção
É doce. Ela é doce. O coração morre desta doçura.

Trad.: Nelson Santander

Song

Listen: there was a goat’s head hanging by ropes in a tree.
All night it hung there and sang. And those who heard it
Felt a hurt in their hearts and thought they were hearing
The song of a night bird. They sat up in their beds, and then
They lay back down again. In the night wind, the goat’s head
Swayed back and forth, and from far off it shone faintly
The way the moonlight shone on the train track miles away
Beside which the goat’s headless body lay. Some boys
Had hacked its head off. It was harder work than they had imagined.
The goat cried like a man and struggled hard. But they
Finished the job. They hung the bleeding head by the school
And then ran off into the darkness that seems to hide everything.
The head hung in the tree. The body lay by the tracks.
The head called to the body. The body to the head.
They missed each other. The missing grew large between them,
Until it pulled the heart right out of the body, until
The drawn heart flew toward the head, flew as a bird flies
Back to its cage and the familiar perch from which it trills.
Then the heart sang in the head, softly at first and then louder,
Sang long and low until the morning light came up over
The school and over the tree, and then the singing stopped …
The goat had belonged to a small girl. She named
The goat Broken Thorn Sweet Blackberry, named it after
The night’s bush of stars, because the goat’s silky hair
Was dark as well water, because it had eyes like wild fruit.
The girl lived near a high railroad track. At night
She heard the trains passing, the sweet sound of the train’s horn
Pouring softly over her bed, and each morning she woke
To give the bleating goat his pail of warm milk. She sang
Him songs about girls with ropes and cooks in boats.
She brushed him with a stiff brush. She dreamed daily
That he grew bigger, and he did. She thought her dreaming
Made it so. But one night the girl didn’t hear the train’s horn,
And the next morning she woke to an empty yard. The goat
Was gone. Everything looked strange. It was as if a storm
Had passed through while she slept, wind and stones, rain
Stripping the branches of fruit. She knew that someone
Had stolen the goat and that he had come to harm. She called
To him. All morning and into the afternoon, she called
And called. She walked and walked. In her chest a bad feeling
Like the feeling of the stones gouging the soft undersides
Of her bare feet. Then somebody found the goat’s body
By the high tracks, the flies already filling their soft bottles
At the goat’s torn neck. Then somebody found the head
Hanging in a tree by the school. They hurried to take
These things away so that the girl would not see them.
They hurried to raise money to buy the girl another goat.
They hurried to find the boys who had done this, to hear
Them say it was a joke, a joke, it was nothing but a joke …
But listen: here is the point. The boys thought to have
Their fun and be done with it. It was harder work than they
Had imagined, this silly sacrifice, but they finished the job,
Whistling as they washed their large hands in the dark.
What they didn’t know was that the goat’s head was already
Singing behind them in the tree. What they didn’t know
Was that the goat’s head would go on singing, just for them,
Long after the ropes were down, and that they would learn to listen,
Pail after pail, stroke after patient stroke. They would
Wake in the night thinking they heard the wind in the trees
Or a night bird, but their hearts beating harder. There
Would be a whistle, a hum, a high murmur, and, at last, a song,
The low song a lost boy sings remembering his mother’s call.
Not a cruel song, no, no, not cruel at all. This song
Is sweet. It is sweet. The heart dies of this sweetness.

Manuel Bandeira – Poema Só Para Jaime Ovalle

Quando hoje acordei, ainda fazia escuro
(Embora a manhã já estivesse avançada).
Chovia.
Chovia uma triste chuva de resignação
Como contraste e consolo ao calor tempestuoso da noite.
Então me levantei,
Bebi o café que eu mesmo preparei,
Depois me deitei novamente, acendi um cigarro e fiquei pensando…
– Humildemente pensando na vida e nas mulheres que amei.

REPUBLICAÇÃO: poema publicado no blog originalmente em 19/02/2016

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Lawrence Ferlinghetti – Receita para a felicidade em Khabarovsk ou em qualquer lugar

Uma grande avenida arborizada
com uma grande cafeteria ao sol
com café preto forte em xícaras muito pequenas.

Uma mulher ou um homem não necessariamente
muito bonito(a) que te ame.

Um dia aprazível.

Trad.: Nelson Santander

Recipe For Happiness in Khabarovsk Or Anyplace

One grand boulevard with trees
with one grand cafe in sun
with strong black coffee in very small cups.

One not necessarily very beautiful
man or woman who loves you.

One fine day.

Manuel Bandeira – Profundamente

Quando ontem adormeci
Na noite de São João
Havia alegria e rumor
Estrondos de bombas luzes de Bengala
Vozes, cantigas e risos
Ao pé das fogueiras acesas.

No meio da noite despertei
Não ouvi mais vozes nem risos
Apenas balões
Passavam errantes
Silenciosamente
Apenas de vez em quando
O ruído de um bonde
Cortava o silêncio
Como um túnel.
Onde estavam os que há pouco
Dançavam
Cantavam
E riam
Ao pé das fogueiras acesas?
— Estavam todos dormindo
Estavam todos deitados
Dormindo
Profundamente.

*

Quando eu tinha seis anos
Não pude ver o fim da festa de São João
Porque adormeci

Hoje não ouço mais as vozes daquele tempo
Minha avó
Meu avô
Totônio Rodrigues
Tomásia
Rosa
Onde estão todos eles?

— Estão todos dormindo
Estão todos deitados
Dormindo
Profundamente.

Garrett Hongo – Mendocino Rose

Na Califórnia, ao norte da Golden Gate,
a vinha cresce por quase todos os cantos,
      brotando de pastagens,
de baixo das sombras dos eucaliptos
      à beira da estrada,
ultrapassando todos os casebres fantasmas e cercas quebradas
      que se desintegram de podres,
encharcadas pelas chuvas frescas.

Ela mimetiza, em suas réplicas firmes, parecidas com nuvens,
      a forma de tudo o que asfixia,
uma delicada vegetação
      treliçada ao lado
de um celeiro ou estação de bombeamento,
      muito distante dos penhascos acima da Highway 1,
florzinhas e flores,
      da estrada mesmo,
parecidas com nós e dreadlocks,
      efêmeras e gloriosas,
suspensas em beirais cobertos de vegetação.

Eu ouvia uma fita no som do carro,
uma canção que eu tocava e rebobinava,
      e tocava de novo,
uma balada ou uma canção de amor
      cantada pelo meu tenor favorito,
um havaiano conhecido por sua pobreza
      mas riqueza de coração,
e senti, rodando pelas tortuosas curvas
      daquela estrada costeira,
deslizando no asfalto escorregadio
      através dos desníveis e das curvas em S,
e freando na hora certa,
      que ela teria servido como o hino fúnebre
que eu não sabia cantar
      quando precisava,
uma canção para cadenciar meu coração
      e seu balbuciar desafinado.

Ipo lei manu, ele cantou, sem se confundir,
E envio estas grinaldas,
e as rosas pareciam, por toda parte ao meu redor então,
      profusas e luxuriosas
como a chuva em suas vestes cinzentas,
      procissões ondulantes sobre a terra,
ecos, em emaranhados de cores extravagantes,
      de música
e de formas em colapso
      sobre as quais elas pareciam triunfar.

Trad.: Nelson Santander

Em sua biografia, Volcano: A Memoir of Hawai’i, o autor assim discorre sobre esse poema:

Quando percebi o que aquele homem estava cantando, um verdadeiro sentimento de luto cresceu dentro de mim como uma rebentação e eu mergulhei nele. Eu olhei para além da estrada de asfalto preto que serpenteava à minha frente em direção às rosas florescendo ao meu redor como se também fossem uma música. Olhei para os penhascos do outro lado do Pacífico… Não era apenas um lugar, mas uma determinação de propósito, suponho, um sentimento de conexão não tanto com um lugar em particular, embora isso ajude, mas com o mundo dos sentimentos e da abertura a eles, essa troca entre o humano e o que quer que seja o resto – o infinito, digamos, ou o mundo natural do espírito puro que os filósofos românticos do século XIX definiram como sublime. O que quer que seja maior do que o eu, mas que, no entanto, fortalece o eu, oprime e anima o eu. “E quem, se eu chorasse, me ouviria entre as ordens angelicais?” escreveu Rilke, com ceticismo, em suas Elegias de Duino. “E mesmo que um deles me tomasse inesperadamente em seu oração, aniquilar-me-ia sua existência demasiado forte” Pois que é o Belo senão o grau do Terrível que ainda suportamos e que admiramos porque, concluiu, impassível, desdenha destruir-nos. É o vajra do budista, o relâmpago da percepção pura e cósmica, um luto que leva à eternidade.

Mendocino Rose

In California, north of the Golden Gate,
the vine grows almost everywhere,
      erupting out of pastureland,
from under the shade of eucalyptus
      by the side of the road,
overtaking all the ghost shacks and broken fences
      crumbling with rot
and drenched in the fresh rains.

It mimes, in its steady, cloudlike replicas,
      the shape of whatever it smothers,
a gentle greenery
      trellised up the side
of a barn or pump station
      far up the bluffs above Highway 1,
florets and blossoms,
      from the road anyway,
looking like knots and red dreadlocks,
      ephemeral and glorious,
hanging from overgrown eaves.

I’d been listening to a tape on the car stereo,
a song I’d play and rewind,
      and play again,
a ballad or a love song
      sung by my favorite tenor,
a Hawaiian man known for his poverty
      and richness of heart,
and I felt, wheeling through the vinelike curves
      of that coastal road,
sliding on the slick asphalt
      through the dips and in the S-turns,
and braking just in time,
      that it would have served as the dirge
I didn’t know to sing
      when I needed to,
a song to cadence my heart
      and its tuneless stammering.

Ipo lei manu, he sang, without confusion,
I send these garlands,
and the roses seemed everywhere around me then,
      profuse and luxurious
as the rain in its grey robes,
      undulant processionals over the land,
echoes, in snarls of extravagant color,
      of the music
and the collapsing shapes
      they seemed to triumph over.

Carlos Drumond de Andrade – Encontro

Meu pai perdi no tempo e ganho em sonho.
Se a noite me atribui poder de fuga,
sinto logo meu pai e nele ponho
o olhar, lendo-lhe a face, ruga a ruga.

Está morto, que importa? Inda madruga
e seu rosto, nem triste nem risonho,
é o rosto, antigo, o mesmo. E não enxuga
suor algum, na calma de meu sonho.

Oh meu pai arquiteto e fazendeiro!
Faz casas de silêncio, e suas roças
de cinza estão maduras, orvalhadas

por um rio que corre o tempo inteiro,
e corre além do tempo, enquanto as nossas
murcham num sopro fontes represadas.

REPUBLICAÇÃO: poema publicado no blog originalmente em 16/09/2017