Wendell Berry – A Paz das Coisas Selvagens

Quando as dores do mundo crescem em mim
e desperto na noite ao menor som
com medo do que minha vida e a dos meus filhos possam ser,
eu saio e me deito onde o pato selvagem
repousa em sua beleza sobre as águas, e a garça se alimenta.
Eu penetro na paz das coisas selvagens
que não sobrecarregam suas vidas com premeditações
de tristeza. Eu me coloco na presença das águas tranquilas.
E sinto acima de mim as estrelas cegas
esperando com seu brilho. Por um tempo
descanso na graça do mundo, e sou livre.

Trad.: Nelson Santander

REPUBLICAÇÃO, com pequenas alterações na tradução: poema publicado na página anteriormente em 17/09/2018

The Peace of the Wild Things

When despair for the world grows in me
and I wake in the night at the least sound
in fear of what my life and my children’s lives may be,
I go and lie down where the wood drake
rests in his beauty on the water, and the great heron feeds.
I come into the peace of wild things
who do not tax their lives with forethought
of grief. I come into the presence of still water.
And I feel above me the day-blind stars
waiting with their light. For a time
I rest in the grace of the world, and am free.

Philip Schultz – Fracasso

Para pagar o funeral do meu pai,
pedi dinheiro emprestado a pessoas
a quem ele já devia dinheiro.
Um deles o chamou de zé-ninguém.
Não, eu disse, ele era um fracassado.
Ninguém se lembra o nome
de um zé-ninguém, é por isso que
eles são chamados de zés-ninguém.
Os fracassados são memoráveis.
O rabino que leu um discurso convencional
sobre um homem que não pertencia
ou acreditava em nada
era um fracassado e um zé-ninguém.
Ele fracassou em imaginar o filho
e a esposa do morto
sendo humilhados em cada palavra.
Em entender que não
acreditar ou não pertencer a
nada exigia uma espécie de
fé e resiliência.
Um tio, enumerando nos dedos
os negócios fracassados do meu pai —
um estacionamento onde se criavam gansos,
um motel que sorteava luas-de-mel,
uma pista de boliche com mariachis itinerantes —
fracassou em amar e honrar seu irmão,
que o ensinou a assobiar
embaixo das cobertas, a roubar maçãs
com ambas as mãos. De fato,
meu pai era excêntrico.
Seus relógios atrasavam, ele tropeçava
nas bainhas das calças e roncava
alto nos filmes, quando
o cansaço finalmente o
dominava. Ele não acreditava em:
poupança seguros jornais
vegetais humanos bons ou maus
fraquezas história ou Deus.
Nossa família nos evitava,
temendo o contágio. Eu deixei a cidade
mas fracassei em escapar.

Trad.: Nelson Santander

Failure

To pay for my father’s funeral
I borrowed money from people
he already owed money to.
One called him a nobody.
No, I said, he was a failure.
You can’t remember
a nobody’s name, that’s why
they’re called nobodies.
Failures are unforgettable.
The rabbi who read a stock eulogy
about a man who didn’t belong to
or believe in anything
was both a failure and a nobody.
He failed to imagine the son
and wife of the dead man
being shamed by each word.
To understand that not
believing in or belonging to
anything demanded a kind
of faith and buoyancy.
An uncle, counting on his fingers
my father’s business failures—
a parking lot that raised geese,
a motel that raffled honeymoons,
a bowling alley with roving mariachis—
failed to love and honor his brother,
who showed him how to whistle
under covers, steal apples
with his right or left hand. Indeed,
my father was comical.
His watches pinched, he tripped
on his pant cuffs and snored
loudly in movies, where
his weariness overcame him
finally. He didn’t believe in:
savings insurance newspapers
vegetables good or evil human
frailty history or God.
Our family avoided us,
fearing boils. I left town
but failed to get away.

Tamara Kamenszain – O Eco de Minha Mãe

Não consigo narrar.
Que pretérito me serviria
se minha mãe já não me tece mais?
Desamparada, então, eu me detenho
diante de um estado de coisas muito presente:
ser a descuidada que dela cuida
enquanto outros a negligenciam por mim.
São pessoas que me são dispensáveis
e a gramática se torna um escândalo
quando ela, que esqueceu as palavras,
manifesta-se em um arroubo raivoso
com o intuito de dizer tudo
embora nada se compreenda.

Trad.: Nelson Santander

REPUBLICAÇÃO, com alterações na tradução: poema publicado na página originalmente em 15/09/2018

El eco de mi madre

No puedo narrar.
¿Qué pretérito me serviría
si mi madre ya no me teje más?
Desmadrada entonces me detengo
ante un estado de cosas demasiado presente:
ser la descuidada que la cuida
mientras otros la descuidan por mí.
Son personas que me sobran
y la gramática se torna un escándalo
cuando ella que olvidó las palabras
adelanta su bebé furioso
con el fin de decirlo todo
aunque no se entienda nada.

Lucille Clifton – Dois poemas

adão pensando

ela
roubou meu osso
não é de admirar
que eu anseie cavar de volta
para dentro desesperado
para reconectar costela e argila
e ser inteiro outra vez

alguma carência está em mim
lutando para rugir com minha
boca por um nome
esta criação é tão feroz
que eu preferiria ter nascido

eva pensando

aqui é um território selvagem
irmãos e irmãs unindo
garras e asas
apalpando uns aos outros

eu aguardo
enquanto a argila bípede
ressoa em seu peito
procurando palavras para

me nomear
mas ele é lento
esta noite enquanto ele dorme
vou sussurrar em sua boca
nossos nomes

Trad.: Nelson Santander

adam thinking

she
stolen from my bone
is it any wonder
i hunger to tunnel back
inside desperate
to reconnect the rib and clay
and to be whole again

some need is in me
struggling to roar through my
mouth into a name
this creation is so fierce
i would rather have been born

eve thinking

it is wild country here
brothers and sisters coupling
claw and wing
groping one another

i wait
while the clay two-foot
rumbles in his chest
searching for language to

call me
but he is slow
tonight as he sleeps
i will whisper into his mouth
our names

Thomas Hardy – Autoinconsciência

A pé, ao longo daquela via
Ele caminhou naquele dia,
Cismando as formas que os sonhos retratavam,
E ele só parecia ter
Raramente olhos para ver
Aqueles momentos que o rodeavam.

Cintilantes pássaros dourados
Faziam um tropel animado,
Bicando longas palhas, efervescentes.
E, levando ramos de azevinho,
Voavam cruzando o caminho
Que ele percorria, só, indiferente.

Da margem até o interior
E por cima e em derredor
Eles fugiam pela sebe adjacente;
Muitas vezes até o canal,
Sua amarela vibração
Pulando na borda da ardósia mais rente.

O traçado do mar, perenal,
Com aquele brilho de metal,
Flashes brancos, e a vela que a percorria,
Sim, ele deve ter avistado
Com um dos olhos semicerrado
Entre os projetos sobre os quais refletia.

Sim, achavam-se à sua roda
Estas perfeições terrestres todas,
Mas a utopia que ao seu chamado vinha
Era o que mais o motivava
Enquanto ele peregrinava,
Ao passo que a si mesmo ele não se via.

Mortas hoje como urnas quebradas
Estão aquelas aves douradas,
E tudo o que importava já é passado;
Porém, o Elfo a que chamam Deus,
Agora lhe mostra aquele eu
Como era, e deveria ser mostrado.

Oh, teria sido muito bom
Se ele conseguisse então
Manter distância e tudo gerir, com calma.
Contudo, agora tal visão
É pura e simplesmente irrisão,
Não acalma o corpo nem salva a alma.

Alguns, não todos, podem dizer
Que pouco haveria pra se ver
Se aquilo tudo fosse entrevisto antes.
Não! Ele está assaz consciente
De que havia algo ali, um ente
Que se erguia com um imortal semblante.

Trad.: Nelson Santander

Self-Unconscious

Along the way
He walked that day,
Watching shapes that reveries limn,
And seldom he
Had eyes to see
The moment that encompassed him.

Bright yellowhammers
Made mirthful clamours,
And billed long straws with a bustling air,
And bearing their load
Flew up the road
That he followed, alone, without interest there.

From bank to ground
And over and round
They sidled along the adjoining hedge;
Sometimes to the gutter
Their yellow flutter
Would dip from the nearest slatestone ledge.

The smooth sea-line
With a metal shine,
And flashes of white, and a sail thereon,
He would also descry
With a half-wrapt eye
Between the projects he mused upon.

Yes, round him were these
Earth’s artistries,
But specious plans that came to his call
Did most engage
His pilgrimage,
While himself he did not see at all.

Dead now as sherds
Are the yellow birds,
And all that mattered has passed away;
Yet God, the Elf,
Now shows him that self
As he was, and should have been shown, that day.

O it would have been good
Could he then have stood
At a focussed distance, and conned the whole,
But now such vision
Is mere derision,
Nor soothes his body nor saves his soul.

Not much, some may
Incline to say,
To see in him, had it all been seen.
Nay! he is aware
A thing was there
That loomed with an immortal mien.

https://www.theguardian.com/books/2023/jan/02/poem-of-the-week-self-unconscious-by-thomas-hardy

Sharon Olds – Minha mão

Quando olho para a minha mão, e para o dorso do meu pulso,
brilhando com o petrolato que
esfreguei em suas fissuras — óleo mineral,
ceresina, lanolina, pantenol, glicerina,
bisabolol, vejo as rugas
finas, muitas formando losangos,
algumas delas longas cicatrizes vacilantes —
isso me parece comovente e afortunado. E eu gosto
das veias salientes do dorso da minha mão.
Faço parte de um casal. Meu parceiro está em
um traje de linho, numa caixa de pinho,
em New Hampshire — em uma terra consagrada no cemitério
judeu. Eu lhe digo, Carl1,
meu querido, está tudo bem, seu tecido
se dissolverá na terra quando chegar a primavera,
está tudo bem, você não pode mudar a forma
chocante do seu corpo que amo, você é inocente
na morte, você é bom.
Nós somos um casal. Lembra quando eu subi em sua cama
estreita de hospital, quando você mal conseguia se mexer,
e assim que me encaixei ao
seu lado, como a última peça de um quebra-cabeça,
nós dois desmaiamos de sono? Quando dirigi para o norte,
para fora de uma cidade de peste1, meu carro —
o seu carro, que você me vendeu pelo preço de tabela —
estava cheio de cadernos nos quais nossas histórias
são mantidas, equilibradas em sua lenta dança
para cima e para baixo. Minha epiderme
parece bonita, para mim, esta noite, frágil
e tangível, como córregos na areia onde a água
ondeia. Gostei de conversar com você sobre a
coroa de ouro que o rabino da internet
disse que você usaria depois de morto,
no banquete. E agora amo ver que
na teia da pele brilhante do meu pulso, eu já
faço parte de ti, suave e
permanente é a noite.

Trad.: Nelson Santander

  1. Carl Wallman, companheiro de longa data de Sharon Olds que morreu em fevereiro de 2020, poucas semanas antes da pandemia de Covid-19 explodir.
  2. Balladz, o livro mais recente da poeta, publicado no ano passado, e do qual foi extraído este poema, foi escrito em grande parte durante a quarentena de Covid-19 . Essa é a “peste” à qual ela se refere. 

My hand

When I look at my hand, and at the back of my wrist,
gleaming with the petrolatum which I’ve
rubbed into its chap—mineral oil,
ceresin, lanolin, panthenol, glycerin,
bisabolol, I see the fine
wrinkles, many making diamond shapes,
some of them long cicatrice wobbles—
it looks touching to me, and lucky. And I like
the veins which bulge up from the back of my hand.
I’m a member of a couple. My partner is in
a linen shift, a pine box,
a New Hampshire earth—sacred in the Jewish
cemetery. I say to you, Carl,
my darling, it’s O.K. your tissue
will melt with the dirt when spring comes,
it’s O.K. you cannot change the shock-
shape of your body I love, you are innocent
of death, you are good.
We are a couple. Remember when I climbed into your narrow
hospice bed, when you could hardly move,
and as soon as I fitted myself in
along you, like the last piece of a puzzle,
we both passed out into sleep. When I drove north,
out of a city of plague, my car—
your car which you sold me for the list price—
was packed with notebooks in which our stories
are held, balanced in their slow dance
up and down and up. My epidermis
looks pretty, to me, tonight, frail
and real, like rills in sand which water
rippled. I liked to talk with you about the
golden crown the internet rabbi
said you would be wearing, after death,
at the feast. And I love, now, seeing
in the web of my glistening wrist-skin that I am
already part with thee, tender and
permanent is the night.

José Mateos – In Memoriam

Para Pedro Sevilla

Sempre, diante da dor, estamos sozinhos,
não se deseja viver, e tu sabes disso.
Há um instante, na penumbra de um
quarto de hospital, viste a mão hirta,
seu rosto afundado que o lençol ocultou.
E foi como olhar-se num espelho
e perceber que somos menos que essa ausência,
menos que a névoa que o ar dissipa.

Eu sei; sentes agora apenas a noite
pronunciar sua absurda palavra,
e vês a humilhação, vês o esforço
que foi esta despedida.
            No entanto,
ouve-me: não sofras. Pois sempre
– mesmo nos dia nublados,
ou quando o inevitável acontece, mesmo assim –
a resposta é a vida que foge e continua,
nunca a dor nem suas indagações ao Nada.

Trad.: Nelson Santander

REPUBLICAÇÃO com alterações na tradução: poema publicado na página originalmente em 09/09/2018

En Memoria

   Para Pedro Sevilla

Siempre frente al dolor uno está solo,
no se quiere vivir, y tú lo sabes.
Hace un momento has visto, en la penumbra
de un cuarto de hospital, la mano yerta,
su rostro hundido que cubrió la sábana.
Y era como mirarse en un espejo
y ver que somos menos que esa ausencia,
menos que el humo que despeja el aire.

Ya sé; sientes que ahora únicamente
dice la noche su palabra absurda,
y ves la humillación, ves el esfuerzo
que fue esta despedida.
            Sin embargo,
escúchame: no sufras. Porque siempre
– incluso cuando un día pasan nubes,
pasa lo inevitable, incluso entonces —
la respuesta es la vida que huye y sigue,
nunca el dolor ni su pregunta a Nadie.

Linda Pastan – Graça

Quando o jovem professor juntou
as mãos no jantar e falou com Deus
sobre a minha chegada em segurança
em meio à neve, agradecendo-Lhe também
pelo alimento que iríamos comer,
foi no tom de voz que eu costumo
usar para falar com meus amigos quando ligo
e sou atendida pela secretária eletrônica,
com a qual converso sobre isso e aquilo
usando um tom casual,
imaginando que eles estejam ouvindo
mas ocupados demais para atender o telefone,
ou cuidando de negócios
importantes em outro lugar.
No dia seguinte, voando para casa
através de um céu tempestuoso
e assustador, eu soube
que invejava sua conexão com Deus
e desejei que suas preces
mantivessem meu avião no ar.

Trad.: Nelson Santander

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Grace

When the young professor folded
his hands at dinner and spoke to God
about my safe arrival
through the snow, thanking Him also
for the food we were about to eat,
it was in the tone of voice I use
to speak to friends when I call
and get their answering machines,
chatting about this and that
in a casual voice,
picturing them listening
but too busy to pick up the phone,
or out taking care of important
business somewhere else.
The next day, flying home
through a windy
and overwhelming sky, I knew
I envied his rapport with God
and hoped his prayers
would keep my plane aloft.

Joan Margarit – Ulisses nas águas de Ítaca

Estás chegando à ilha e agora sabes
o que é o acaso. Viver, o que significa.
Teu arco será pó em uma prateleira.
Pó será o tear e a peça que ele tece.
Os pretendentes, que no pátio
acamparam,
são sombras dos sonhos de Penélope.
Estás chegando à ilha enquanto o mar
arrebenta nas rochas da costa,
como faz o tempo com a Odisseia.
Ninguém jamais teceu a tua ausência
nem, sem rumor, desfez o esquecimento.
Por mais que, por vezes, a razão o ignore,
Penélope é a sombra do teu sonho.
Estás chegando à ilha: as gaivotas
cobrem a praia e não se moverão
quando, ao passares, não deixares pegada alguma,
pois não exististe: és apenas uma
lenda.
Talvez um remoto Ulisses tenha morrido em Troia,
e talvez uma mulher o tenha chorado,
mas no sonho de um poeta cego
continuas a te salvar:
na fronte de Homero, eterna
e rigorosa, cada vez que o dia desponta,
um solitário Ulisses desembarca.

Trad.: Nelson Santander

REPUBLICAÇÃO com alterações na tradução: poema publicado na página originalmente em 07/09/2018

Ulises en Aguas de Ítaca

Vas llegando a la isla y ahora sabes
qué es el azar. Vivir, qué significa.
Tu arco será polvo en un estante.
Polvo será el telar y la pieza que teje.
Los pretendientes, que en el patio
acampan,
son sombras de los sueños de Penélope.
Vas llegando a la isla mientras rompe
el mar contra las rocas de la costa,
como hace el tiempo contra la Odisea.
Nadie ha tejido alguna vez tu ausencia
ni, sin rumores, destejió el olvido.
Por más que, a veces, la razón lo ignore,
Penélope es la sombra de tu sueño.
Vas llegando a la isla: las gaviotas
cubren la playa y no se moverán
cuando al pasar no dejes huella alguna,
porque no has existido: tan sólo eres
leyenda.
Quizá un lejano Ulises murió en Troya,
y quizá lo lloró alguna mujer,
pero en el sueño de un poeta ciego
continúas salvándote:
en la frente de Homero, riguroso
y eterno, cada vez que rompe el día,
un solitario Ulises desembarca.

Tess Gallagher – Escolhas

Dirijo-me para o lado da casa de onde se vê
a montanha, a fim de aparar as árvores novas
e desobstruir a vista para a neve
sobre as serras. Mas quando olho para cima,
serrote na mão, vejo um ninho agarrado
aos galhos mais altos.
Não corto esta.
E também não corto as demais.
De repente, em cada árvore,
um ninho invisível
onde uma montanha
poderia estar.

Trad.: Nelson Santander

Choices

I go to the mountain side
of the house to cut saplings,
and clear a view to snow
on the mountain. But when I look up,
saw in hand, I see a nest clutched in
the uppermost branches.
I don’t cut that one.
I don’t cut the others either.
Suddenly, in every tree,
an unseen nest
where a mountain
would be.