BIlly Collins – Sem tempo

Numa manhã corrida de um dia de semana,
buzino enquanto passo apressado pelo cemitério
onde meus pais estão enterrados
lado a lado sob uma laje de granito liso.

Depois, por todo o dia, imagino-o se levantando
para me lançar aquele olhar
de desaprovação experiente
enquanto minha mãe calmamente lhe diz para deitar-se novamente.

Trad.: Nelson Santander

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No Time

In a rush this weekday morning,
I tap the horn as I speed past the cemetery
where my parents are buried
side by side beneath a slab of smooth granite.

Then, all day, I think of him rising up
to give me that look
of knowing disapproval
while my mother calmly tells him to lie back down.

José Infante – Remorsos ao iniciar um novo ano

Já pensaste algumas vezes que talvez foste tu
quem não amaste ninguém, ou talvez não
o suficiente para que não te deixassem
abandonado pelo mundo, como um fantasma errante?
Pensavas que sempre foste generoso,
mas agora te perguntas se na verdade não foste
possessivo, ciumento, desconfiado e sufocante.
Acreditaste que o amor era para ti a única entrega,
o único sentimento que guiava tua vida,
a única razão de tua existência, o motivo
e a raiz que iluminava tudo o que fazias,
desde o cuidado da casa até o das as palavras,
os silêncios nos quais às vezes te encerravas de forma
repentina e que só pensavas serem amor também,
inexprimível. Uma forma absurda de adoração.
O que fizeste de errado ou em que te equivocaste?
Ou foi o destino que jogou contigo uma partida
cruel e destruidora? Olhas para trás, agora que
começa um novo ano e ficas igualmente tentado
a fazer um balanço completo do tempo que passou.
Dentro de ti queres crer que teus erros, todos,
foram produtos apenas do amor, que não conseguias
manter a teu lado, por mais que tenhas tentado.
Erros que eram produto do inefável
que te impedia de expressar todo o sentimento
de teu coração e de teu próprio corpo. Agora duvidas disso.
Neste mês de janeiro de dois mil e dez, aos 63 anos
de tua triste existência, acodem remorsos
urgentes, que te acossam e impregnam teu ânimo.
Cada dia de tua vida de velho fracassado.
Talvez tenhas amado a ti mesmo mais do que o que a vida
tão generosamente te ofereceu. Ou não percebeste,
perdido como sempre estiveste em um escuro labirinto
que só conduz ao inferno e ao nada.

Trad.: Nelson Santander

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Remordimientos al comenzar un año

¿No has pensado algunas veces que quizás fuiste tú
quien no quisiste a nadie, o tal vez no
lo suficientemente para que no te dejaran
abandonado por el mundo, como fantasma errante?
Tú pensabas que siempre fuiste generoso,
pero ahora te preguntas si en realidad no fuiste
posesivo, celoso, desconfiado y agobiante.
Has creído que el amor fue para ti la única entrega,
el único sentimiento que guiaba tu vida,
la única razón de tu existencia, el motivo
y la raíz que iluminaba todo lo que hacías,
desde el cuidado de la casa hasta el de las palabras,
los silencios en los que a veces te encerrabas de forma
repentina y que solo pensabas que eran amor también,
inexpresable. Una manera absurda de adoración.
¿Qué hiciste mal o en qué te equivocaste?
¿O fue el destino quien jugó contra ti una partida
cruel y destructora? Miras atrás, ahora que comienza
de nuevo un año y tienes la misma tentación
de hacer un balance total del tiempo que ha pasado.
Dentro de ti quieres creer que tus errores, todos,
fueron producto tan solo del amor, que no lograbas
retener a tu lado, por más que lo intentaste.
Errores que eran producto de lo inefable
que te impedía expresar el sentimiento entero
de tu corazón y de tu propio cuerpo. Ahora lo dudas.
En este mes de enero de dos mil diez, a los 63
de tu triste existencia, acuden remordimientos
urgentes, que te acosan y que impregnan tu ánimo.
Cada día de tu vida de viejo fracasado.
Talvez te quisiste a ti mismo más que a lo que la vida
tan generosamente te ofrecía. O no te diste cuenta,
perdido como has estado siempre en un oscuro laberinto
que tan solo conduce al infierno y a la nada.

Alex Dimitrov – Tempo

Mais uma vez despreparado
parado sob um toldo
no meio do verão

outono, inverno, primavera —
observando o aguaceiro
no que poderia ser o

meio da minha existência;
perguntando-me quanto tempo terei que esperar
antes de me tornar a chuva.

Trad.: Nelson Santander

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Time

Again I am unprepared
standing under an awning
in the middle of summer

autumn, winter, spring —
watching the downpour
in what could be

the middle of life;
wondering how long I’ll wait
before becoming the rain.

Dorianne Laux – Antilamentação

Não se arrependa de nada. Nem dos romances terríveis que você leu
até o fim só para descobrir quem matou o cozinheiro, nem
dos filmes insossos que a fizeram chorar no escuro,
apesar de sua inteligência, sua sofisticação, nem
do amante que você deixou tremendo no estacionamento de um hotel,
aquele que você superou na brincadeira, à saída, ou aquele
que a deixou em seu vestido vermelho e sapatos, aqueles
que apertavam seus dedos, não se arrependa desses.
Nem das noites em que você injuriou deus e amaldiçoou
sua mãe, afundada como um cão no sofá da sala,
roendo as unhas e esmagada pela solidão.
Você estava destinada a inalar aquelas noites esfumaçadas
com uma garrafa de cerveja barata, a varrer rodelas de cebola
grudadas pelo chão sujo do restaurante, a vestir o casaco
puído com botões soltos e bolsos cheios de fósforos riscados.
Você caminhou por essas ruas milhares de vezes e ainda
assim sempre acaba aqui. Não se arrependa de nada, nem de um só
dos dias desperdiçados em que você não queria saber de nada,
quando as luzes dos brinquedos do parque de diversões
eram as únicas estrelas em que você acreditava, amando-as
por sua inutilidade, sem querer ser salva.
Você viajou até aqui em cima de cada erro,
cavalgando com olhos sombrios e melancólicos, mas calma como uma casa
depois que a TV foi jogada pela janela do andar de cima.
Inofensiva como um machado quebrado. Esvaziada de expectativas.
Relaxe. Não se incomode em se lembrar de nada disso. Vamos parar aqui,
sob o letreiro luminoso da esquina, e observar todas essas pessoas passando.

Trad.: Nelson Santander

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Antilamentation

Regret nothing. Not the cruel novels you read
to the end just to find out who killed the cook, not
the insipid movies that made you cry in the dark,
in spite of your intelligence, your sophistication, not
the lover you left quivering in a hotel parking lot,
the one you beat to the punchline, the door, or the one
who left you in your red dress and shoes, the ones
that crimped your toes, don’t regret those.
Not the nights you called god names and cursed
your mother, sunk like a dog in the livingroom couch,
chewing your nails and crushed by loneliness.
You were meant to inhale those smoky nights
over a bottle of flat beer, to sweep stuck onion rings
across the dirty restaurant floor, to wear the frayed
coat with its loose buttons, its pockets full of struck matches.
You’ve walked those streets a thousand times and still
you end up here. Regret none of it, not one
of the wasted days you wanted to know nothing,
when the lights from the carnival rides
were the only stars you believed in, loving them
for their uselessness, not wanting to be saved.
You’ve traveled this far on the back of every mistake,
ridden in dark-eyed and morose but calm as a house
after the TV set has been pitched out the upstairs window.
Harmless as a broken ax. Emptied of expectation.
Relax. Don’t bother remembering any of it. Let’s stop here,
under the lit sign on the corner, and watch all the people walk by.

Linda Gregg – Elegância

Tudo o que é negligenciado.
Abandonado na quietude,
naquele puro silêncio casado
à mansidão da natureza.
Uma porta fora das dobradiças,
tons e sombras num quarto vazio.
Fendas para a luz. Marcas onde
o teto de zinco enferrujou.
O sussurro do mato nas
diferentes brisas das manhãs,
ano após ano.
Uma nogueira e a casa
feita de tijolos de barro. Beleza
exata e inesperada, tilintando
e cantando. Se não para o sol,
então para o nada, para ninguém.

Trad.: Nelson Santander

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Elegance

All that is uncared for.
Left alone in the stillness
in that pure silence married
to the stillness of nature.
A door off its hinges,
shade and shadows in an empty room.
Leaks for light. Raw where
the tin roof rusted through.
The rustle of weeds in their
different kinds of air in the mornings,
year after year.
A pecan tree, and the house
made out of mud bricks. Accurate
and unexpected beauty, rattling
and singing. If not to the sun,
then to nothing and to no one.

Ellen Bass – Indo para a cama em uma noite de dezembro

Quando deslizo sob o cobertor e me aninho
em seu calor, penso que somos como as páginas
de uma carta de amor escrita há trinta anos,
que algum deus antigo ainda lê, dia após dia,
e depois guarda de volta em seu envelope.

Trad.: Nelson Santander

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Getting into Bed on a December Night

When I slip beneath the quilt and fold into
her warmth, I think we are like the pages
of a love letter written thirty years ago
that some aging god still reads each day
and then tucks back into its envelope.

Chris Green – Lotes de árvores de natal

As árvores de natal, enfileiradas como refugiados de guerra,
um exército abatido, erguido à força em seus verdes.
Cortadas rente ao chão, quase no fim de suas forças,

elas se levantam, braços erguidos.
Nós as derrubamos como lenha;
atadas, são conduzidas pelas ruas,

arrastadas porta adentro, acuadas
num cômodo, com um único cobertor,
apenas água para beber, cercadas de alegria.

Forçadas a portar uma vistosa estrela dourada,
a renunciar ao orgulho,
esforçam-se para parecer vivas.

Trad.: Nelson Santander

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Christmas Tree Lots

Christmas trees lined like war refugees,
a fallen army made to stand in their greens.
Cut down at the foot, on their last leg,

they pull themselves up, arms raised.
We drop them like wood;
tied, they are driven through the streets,

dragged through the door, cornered
in a room, given a single blanket,
only water to drink, surrounded by joy.

Forced to wear a gaudy gold star,
to surrender their pride,
they do their best to look alive.

Barbara Crooker – Natal sem você

Já não faço bolo de frutas — cerejas berrantes,
pedaços pegajosos de abacaxi glaceado,
casca cristalizada — aninhadas no leito de um
pão-de-ló escuro e especiado. Só você gostava disso.
E não consigo mais caminhar pelos bosques cobertos de gelo
para derrubar (ou melhor, serrar) uma árvore perfumada,
prendê-la no teto do carro, trazê-la para casa,
e ajoelhar-me todos os dias para regá-la. No lugar dela,
uma árvore artificial, já iluminada por pequeninas luzes,
faz o que pode para clarear essas noites escuras.
Em que me sento diante da lareira, sozinha,
com minha taça solitária de vinho. A meia
que você bordou para mim no nosso primeiro natal
pende vazia. Assim como a sua,
com recortes de feltro que sua mãe costurou quando você
tinha dois anos. Não há presentes para embrulhar
nem brindes a esconder. Os biscoitos estão por assar.
Os assados, intocados. Só o silêncio da neve,
a chama de uma única vela. A noite
mais longa do ano.

Trad.: Nelson Santander

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Christmas without you

I no longer make fruitcake—those garish
cherries, sticky chunks of glacéed pineapple,
candied peel—snug in their bed of dark spiced
cake. No one but you ever liked it. And I’m not
capable of walking in the ice-crusted woods
to chop down (really, saw) a fragrant tree,
wrestle it on top of the car, then lug it inside,
water it daily on hands and knees. Instead,
an artificial tree, pre-lit with tiny lights,
does its best to brighten these dark nights.
Where I sit in front of the fire, alone,
with my solitary glass of wine. The stocking
you sewed for me the first year we were
together hangs empty. As does yours,
felt cut-outs sewn by your mother when you
were two. There are no presents to wrap
or gifts to hide. The cookies are unbaked.
Roasts untrimmed. Just the silence of the snow,
the flame from a single candle. The longest
night of the year.

John N. Morris – A carta de natal

Onde quer que estejas ao receber esta carta,
Escrevo para dizer que ainda somos os mesmos
No mesmo lugar de sempre
E espero que assim esta também te encontre.

Como bem sabes, os mortos já morreram,
E jamais irão melhorar,
E as crianças são meninos e meninas
Em suas diversas idades e nomes.

Ao terminar, envio-te nosso amor
E espero ter notícias tuas em breve.
Não há um momento
Como o presente. Ele dura para sempre
Onde quer que estejamos. Permaneço, como sempre.1

Trad.: Nelson Santander

  1. O verso final faz referência a uma fórmula tradicional de encerramento em cartas escritas em inglês: “I remain, as ever, your most humble and obedient servant” (“Permaneço, como sempre, seu mais humilde e obediente servo”, em tradução livre). Essa expressão, comum em correspondências formais e familiares dos séculos XVIII e XIX, demonstrava deferência e cortesia ao destinatário. No poema, porém, a frase aparece “cortada” pela metade, o que, salvo melhor juízo, altera seu sentido original. Especialmente à luz dos versos anteriores, a expressão final parece dizer, de forma direta: “Olha, eu continuo aqui, como sempre estive”. Esse encerramento dialoga com o tom dos versos “Não há um momento / Como o presente. Ele dura para sempre / Onde quer que estejamos”, de modo que o que poderia ser apenas uma formalidade epistolar transforma-se em uma reflexão — ressentida? — sobre a continuidade da existência no eterno presente. ↩︎

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The Christmas Letter

Wherever you are when you receive this letter
I write to say we are still ourselves
In the same place
And hope you are the same.

The dead have died as you know
And will never get better,
And the children are boys and girls
Of their several ages and names.

So in closing I send you our love
And hope to hear from you soon.
There is never a time
Like the present. It lasts forever
Wherever you are. As ever I remain.

Linda Pastan – O momento

O que posso dizer neste momento
antes de você partir —
o verão desbotado
de seus tons pastéis suaves,
a luz do sol intensa em sua pele
ainda quente em minha boca,
embora desvanecendo?

O outono, este traidor,
espera à beira
da floresta com as primeiras
folhas escurecendo.
E sinto o mundo se mover
sob nossos pés caminhantes,
de solstício a solstício.

Um envolvimento com a luz
pressupõe familiaridade
com a sombra, Rothko disse.
Ele não estava falando de nós?
Ele não estava falando sobre a forma
como esperamos por este momento
por todo o verão?

Trad.: Nelson Santander

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The Moment

What can I say in this moment
before you leave—
summer is leached
of its clear pastels,
the fueled sunlight on your skin
still warm to my mouth,
though fading?

Autumn, that turncoat,
waits at the edge
of the woods with the first
darkening leaves.
And I feel the world move
under our feet on its way
from solstice to solstice.

An involvement in light
presupposes an acquaintance
with shadow, Rothko said.
Didn’t he mean us?
Didn’t he mean the way
we’ve waited for this moment
all summer long?