Fernando Luis Chivite – “Abril é o mês mais cruel”

Às vezes, sem que nada
pareça particularmente favorável

– nem lúgubres violinos, nem a tarde
tornando-se violeta
e perigosa –
      sente-se
que a vida segue sendo estranha,

e desenvolve senhas inéditas,
desordena papéis, acende cigarros
com uma inquietude excessiva,

como querendo assegurar-se
que o tempo não se deterá,
que o olvido
é só algo fortuito, vulgar
e irremediável.

Trad.: Nelson Santander

Fernando Luis Chivite – “Abril es el mes más cruel”

A veces, sin que nada
parezca especialmente propicio

— ni lúgubres violines, ni la tarde
tornándose violeta
y peligrosa —
…………………. uno presiente
que la vida le sigue siendo extraña,

y desarrolla claves inauditas,
desordena papeles, enciende cigarrillos
con un desasosiego exagerado,

como queriendo asegurarse
de que el tiempo no se detendrá,
de que el olvido
es sólo algo fortuito, vulgar
e irremediable.

Rocío Wittib – Imprescindível não é a direção…

imprescindível não é a direção
o caminho no mapa
a geografia é apenas um acidente
para quem se busca e suspeita
que distância não significa quilômetros
tampouco importa o destino
porque nunca se está em um lugar preciso
mas constantemente em uma fronteira
entre o desespero do ser
e o anseio de resistir
não há mais do que a si mesmo
nem mais herança do que os costumes a que pertencemos
importante é aprender ao menos um caminho de volta
onde nos espere uma janela para olhar o horizonte
imprescindível é apenas um verso e toda sua nostalgia
quando acaba fevereiro e a neve de uma cidade
que poderia ser qualquer uma que nos lembre quem somos.

Trad.: Nelson Santander

Rocío Wittib – imprescindible no es la dirección…

imprescindible no es la dirección
el camino ni el mapa
la geografía resulta solo un accidente
para quien se busca y sospecha
que distancia no significa kilómetros
tampoco el destino importa
porque nunca se está en un lugar preciso
sino constantemente en una frontera
entre la desesperación de ser
y el anhelo de resistir
no hay más dónde que uno mismo
ni más herencia que las costumbres a las que pertenecemos
importante es aprender al menos un camino de vuelta
a donde nos espere una ventana para mirar al horizonte
imprescindible apenas un verso y toda su nostalgia
cuando acaba febrero y la nieve de una ciudad
que podría ser cualquiera nos recuerda quiénes somos

Jorge Teillier – Blue

Verei novos rostos
Verei novos dias
Serei esquecido
Terei remembranças
Verei sair o sol quando sai o sol
Verei cair a chuva quando chove
Andarei a esmo
De um lado a outro
Aborrecerei meio mundo
Contando a mesma história
Me sentarei para escrever uma carta
Que não me interessa enviar
Ou para olhar as crianças
Nos parques de diversão.

Sempre chegarei à mesma ponte
Para olhar o mesmo rio
Assistirei a filmes tolos
Abrirei os braços para abraçar o vazio
Beberei vinho se me oferecem vinho
Beberei água se me oferecem água
E me enganarei dizendo:
“Virão novos rostos
Virão novos dias”.

Trad.: Nelson Santander

Jorge Teillier – Blue

Veré nuevos rostros
Veré nuevos días
Seré olvidado
Tendré recuerdos
Veré salir el sol cuando sale el sol
Veré caer la lluvia cuando llueve
Me pasearé sin asunto
De un lado a otro
Aburriré a medio mundo
Contando la misma historia
Me sentaré a escribir una carta
Que no me interesa enviar
O a mirar a los niños
En los parques de juego.

Siempre llegaré al mismo puente
A mirar el mismo río
Iré a ver películas tontas
Abriré los brazos para abrazar el vacío
Tomaré vino sí me ofrecen vino
Tomaré agua si me ofrecen agua
Y me engañaré diciendo:
“Vendrán nuevos rostros
Vendrán nuevos días”.

Rosa Leveroni i Valls – De “Epigramas e Canções”

Eu levo dentro de mim
para fazer-me companhia
a solidão apenas.
A solidão imensa
do amor infinito
que queria ser terra,
ar e sol, mar e estrela,
para que fosses mais meu,
para que eu fosse mais tua.

Trad.: Nelson Santander

Rosa Leveroni i Valls – De “Epigrames i cançons”

Jo porto dintre meu
per fer-me companyia
la solitud només.
La solitud immensa
de l’estimar infinit
que voldria ésser terra,
aire i sol, mar i estrella,
perquè fossis més meu,
perquè jo fos més teva.

Mary Oliver – Como é conosco, e como é com eles

Nós nos tornamos religiosos,
depois nos afastamos disso,
depois ficamos carentes e talvez voltemos atrás.
Nos dedicamos a ganhar dinheiro,
depois nos voltamos para a vida moral,
depois pensamos novamente em dinheiro.
Conhecemos pessoas maravilhosas, mas as perdemos
para os nossos negócios.
Estamos, como diz o refrão, por toda parte.
A constância, aparentemente,
tem mais a ver com os cães do que conosco.
Uma das razões pelas quais os amamos tanto.

Trad.: Nelson Santander

How it is With Us, and How it is With Them

We become religious,
then we turn from it,
then we are in need and maybe we turn back.
We turn to making money,
then we turn to the moral life,
then we think about money again.
We meet wonderful people, but lose them
in our busyness.
We’re, as the saying goes, all over the place.
Steadfastness, it seems,
is more about dogs than about us.
One of the reasons we love them so much.

Laia Noguera i Clofent – Sem título

Amo a vida simples,
sentar-me à entrada
para ver o ir e vir das pessoas,
como se move um pardal,
como se inclina a tarde
nas casas do corpo.

Já sei que morrerei
muito antes de morrerem
as árvores que amo.

Mas nada me preocupa,
porque no instante
em que se me romper o último fio
serei apenas aquela mulher
que se sentava à entrada
para observar simplesmente
e ser folha e raiz.

Trad.: Nelson Santander

Laia Noguera i Clofent

Amo la vida pequeña,
sentarse en la entrada
para ver cómo pasa la gente,
cómo se mueve un gorrión,
cómo se inclina la tarde
en las casas del cuerpo.

Ya sé que moriré
mucho antes de que hayan muerto
los árboles que quiero.

Pero no me preocupa nada,
porque en el instante
en que se me rompa el último hilo
seré sólo aquella mujer
que se sentaba en la entrada
para mirar simplemente
y ser hoja y raíz.

Nicanor Parra – Composições

I

Cuidado, todos mentimos
Mas eu proclamo a verdade.

A matemática enfada
Mas nos dá o de comer.

Por outro lado, se escreve
Poema para viver

Ninguém gosta de assumir
Culpa por vidros quebrados.

Se escreve contra si mesmo
Em virtude dos demais

Que indecente é fazer versos!
Quando menos se esperar
Darei um tiro em mim mesmo.

II

Tudo me parece mal
O sol me parece mal
O mar me parece péssimo.

Os homens estão sobrando,
As nuvens estão sobrando,
E chega de arco-íris.

Meus dentes estão com cáries
Ideias preconcebidas
Espírito inexistente.

O sol dos desesperados
Árvore cheia de micos
Desarranjo dos sentidos.

Imagens incoerentes.

Só podemos existir
De ideias emprestadas.

A arte me degenera
Ciência me degenera
O sexo me degenera.

Convença-se de que não há deus.

Trad.: Nelson Santander

Nicanor Parra – Composiciones

I

Cuidado, todos mentimos
Pero yo digo verdad.

La matemátia aburre
Pero nos da de comer.

En cambio la poesía
Se escribe para vivir.

A nadie le gusta hacerse
Cargo de los vidrios rotos.

Se escribe contra uno mismo
Por culpa de los demás.

¡Qué inmundo es escribir versos!
El día menos pensado
Me voy a pegar un tiro.

II

Todo me parece mal
El sol me parece mal
El mar me parece pésimo.

Los hombres están de más,
Las nubes están de más,
Basta con el arco iris.

Mis dientes están cariados
Ideas preconcebidas
Espíritu inexistente.

El sol de los afligidos
Un árbol lleno de micos
Desorden de los sentidos.

Imágenes inconexas.

Sólo podemos vivir
De pensamientos prestados.

El arte me degenera
La ciencia me degenera
El sexo me degenera.

Convénzase que no hay dios.

Anne Sexton – A Terra Desmorona

Se eu pudesse culpar o clima por tudo,
a neve como a mesa de dissecação,
as árvores que se tornam agulhas de tricô,
o chão, tão rijo como uma arinca congelada,
o lago vestindo seu bigode de geada.
Se eu pudesse culpar tais circunstâncias,
se eu pudesse culpar os corações de estranhos
descendo as ruas silenciosamente,
ou culpar os cães, de todas as cores,
cheirando uns aos outros
e mijando na soleira das portas…
Se eu pudesse culpar os CEOs
e os presidentes por
suas cantilenas irremissíveis​​…
Se eu pudesse culpá-los por todas
as mães e pais do mundo,
pelas suas lições, as migalhas de poder,
pelo seu amor que circunda você feito uma massa…
Culpar Deus talvez?
Pelo começo de tudo
que nos compeliu aos nossos primeiros erros?
Não, eu culparei o Homem
pois o Homem é Deus
e o homem está consumindo a terra
como a uma barra de doces
e nenhum deles pode ser deixado sozinho com o oceano,
pois sabemos que ele o engolirá inteiro.
As estrelas (possivelmente) estão a salvo.
Pelo menos por enquanto.
As estrelas são peras
que ninguém pode alcançar,
mesmo para um casamento.

Talvez por uma morte.

Trad.: Nelson Santander

 

Anne Sexton – The Earth Falls Down

If I could blame it all on the weather,
the snow like the cadaver’s table,
the trees turned into knitting needles,
the ground as hard as a frozen haddock,
the pond wearing its mustache of frost.
If I could blame conditions on that,
if I could blame the hearts of strangers
striding muffled down the street,
or blame the dogs, every color,
sniffing each other
and pissing on the doorstep…
If I could blame the bosses
and the presidents for
their unpardonable songs…
If I could blame it on all
the mothers and fathers of the world,
they of the lessons, the pellets of power,
they of the love surrounding you like batter…
Blame it on God perhaps?
He of the first opening
that pushed us all into our first mistakes?
No, I’ll blame it on Man
For Man is God
and man is eating the earth up
like a candy bar
and not one of them can be left alone with the ocean
for it is known he will gulp it all down.
The stars (possibly) are safe.
At least for the moment.
The stars are pears
that no one can reach,
even for a wedding.

Perhaps for a death.

Aldo Oliva – O Elevador de Hera

Dizem os insetos sensatos e sensíveis
que as paredes e os grandes
muros são apenas um hausto veemente
conjurando o nada, o infinito.
Por estes ladrilhos de não-ser
ascendem, como habitáculos
de fúria, os corpos corrompidos
das palavras. Quem me impôs,
rasgando minha inocência animal
na base da minha profundidade biológica,
esta ascensão conjetural?
Só o vazio que vem
do alto, que vem e obstina
(furacão espiralado)
a massa dos bem criados,
a queda na plenitude
da escuridão, chamada,
às vezes, vida.

Trad.: Nelson Santander

Aldo Oliva – El Ascensor de Hiedra

Dicen los insectos sensatos y sensibles
que las paredes y los grandes
muros son apenas un hálito vehemente
conjurando la nada, el infinito.
Por esos ladrillos del no ser
ascienden, como habitáculos
de furia, los cuerpos corrompidos
de las palabras. ¿Quién me impuso,
rasgando mi inocencia animal
en el sillar de mi hondura biológica,
esta ascensión conjetural?
Sólo lo vacuo que adviene
de lo alto, que adviene y obstina
(huracán espiralante)
la masa de los bienes creados,
la caída en la plenitud
de lo oscuro, llamada,
a veces, vida.

Charles Bukowski – Os Gênios da Raça

não há nada a
discutir
não há nada a
lembrar
não há nada a
esquecer

é triste
e
não é
triste

parece que a
coisa mais
sensata
que uma pessoa pode
fazer
é
se sentar
com uma bebida na
mão
enquanto as paredes
acenam seus sorrisos
de adeus

alguns passam por
tudo
isso
com uma certa
quantidade de
eficiência e
bravura
e então
se vão

alguns aceitam
a possibilidade de
Deus
para ajudá-los a
concluir a
travessia

outros
seguem
em frente

e a estes

eu bebo
esta noite.

Trad.: Nelson Santander

the finest of the breed

there’s nothing to
discuss
there’s nothing to
remember
there’s nothing to
forget

it’s sad
and
it’s not
sad

seems the
most sensible
thing
a person can
do
is
sit
with a drink in
hand
as the walls
wave
their goodbye
smiles

one comes through
it
all
with a certain
amount of
efficiency and
bravery
then
leaves

some accept
the possibility of
God
to help them
get
through

others
take it
straight on

and to these

I drink
tonight.