Kwame Opoku-Duku – Eles irão lhe perguntar onde dói mais

Bendita seja a amargura
em sua essência, aquela luz calma
que fica cada vez mais calma,
como o murmúrio abafado que escapa
de seus lábios enquanto você dorme.
Eles irão lhe perguntar, criança,
o que você sabe sobre o sofrimento.
Eles irão lhe perguntar onde dói
mais quando a dor se transforma,
como o comprimento de onda da luz
no céu noturno, quando os gritos
de seus ancestrais ressoam para você
do oceano, e quando suas palavras
vibram em seu diafragma
como um apático enxame sem rainha.
Você pode, criança, sentir-se
para sempre de uma certa maneira, mas
deve levantar-se todas as manhãs e ver
o sol nascer do oceano.
Lembre-se de amar a sua amada,
lembre-se da bondade e
e retidão do vermelho intenso
contra a sua pele, da cor do oceano
em suas unhas dos pés. Lembre-se dos ancestrais
que louvaram os deuses ao avistarem a terra.
Um dia, criança, você se juntará
a eles, em uma praia de Accra,
onde ofertará libações
por aqueles que ainda não chegaram.
Até lá, fique com seus braços
levantados para o céu. E embora
os cupins possam devora-lo por dentro,
ore para se transformar em uma árvore sábia e velha,
pela dignidade de venerar apenas
o sol e as chuvas. Ore para se tornar
um jardim, para saber distinguir o que nos nutre
daquilo que nos mantém vivos.

Trad.: Nelson Santander

They’ll Ask You Where It Hurts the Most

Blessed be the bitterness
at your core, that quiet light
growing quieter still,
like the dull moan that escapes
your lips while you dream.
They’ll ask you, child,
what you know of suffering.
They’ll ask you where it hurts
the most, when the pain changes
like wavelengths of light
in the evening sky, when the cries
of the ancestors ring out to you
from the ocean, when their words
vibrate in your diaphragm
like a listless, queenless hive.
You may forever, child,
feel a type of way, but you
must get up every morning and watch
the sun rise from the ocean.
Remember to love your lover,
remember the goodness
and righteousness of deep red
against her skin, the color of the ocean
on her toenails. Remember the ancestors
who praised the gods at the sight of land.
One day, child, you will join
them, on a beach in Accra,
where you will pour out libations
for those who have yet to come.
Until then, stand with your arms
stretched toward the sky. And though
termites may eat you from within,
pray to grow into a wise, old tree,
for the dignity to praise alone
the sun and rains. Pray to become
a garden, to distinguish what nourishes
us from what is keeping us alive.

Inês Lourenço – Sala Provisória

Nunca se sabe
quando estamos num lugar
pela última vez. Numa casa
que vai ser demolida, numa sala
provisória que vai encerrar, num velho
café que mudará de ramo, como
página virada jamais reaberta, como
canção demasiado gasta, como
abraço tornado irrepetível, numa
porta a que não voltaremos.

REPUBLICAÇÃO: publicado no blog originalmente em 02/12/2018

Maria do Rosário Pedreira – retina

retina

Eu, que nunca pensei deixar de ser
filha, faço agora de mãe da minha mãe
aos domingos: sou a sua muleta nos

longos corredores da casa antiga e
chego-lhe mantas aos joelhos porque
os velhos tremem em vida com o frio
da morte. Para fugir às coisas que a

entristecem, pergunto-lhe por gente
do passado, pois sei que o que sucedeu
ontem já está demasiado longe da sua

memória – e, nos dias bons, a resposta
dura a tarde inteira. Ao princípio,

a minha mãe censurava a forma como eu
ia vestida, mas já há muito tempo que não
diz nada. Pensei que tivesse finalmente

acertado com o seu gosto, ou que ela,
derrotada, tivesse desistido de me mudar.

Só depois percebi que já não me vê.

Inês Lourenço – Balada dos Amores Difíceis

Não me refiro aos trágicos Romeu e Julieta
Tristão e Isolda, Pedro e Inês nem a alguns ignorados
ícones como Yourcenar e Grace ou Rimbaud e Verlaine. Refiro-me
aos que se buscam sem saber nada
do fogo que arde sem se ver, órficos cantos, mas côncavos
e convexos se combinam cruzando genes e transitórios
tempos de vida enquanto povoam cidades, salas
de parto, comércios, indústrias, portais, geriatrias. E dos campos deixados
à exportação do vinho e dos litorais ainda com redes
e barcos cresce um ruído de formiga banal e curtida
de pequenos destinos. Esses são os grandes herois
dos amores difíceis
que não ficam no poema.

REPUBLICAÇÃO: poema publicado no blog originalmente em 13/01/2018

Les Murray – Criação contínua

Não trazemos nada para este mundo
exceto nossa capacidade gradual
de criá-lo, dentre tudo o que desaparece
e tudo o que viverá mais que nós.

Trad.: Nelson Santander

Continuous Creation

We bring nothing into this world
except our gradual ability
to create it, out of all that vanishes
and all that will outlast us.

Inês Lourenço – As Coisa que Cessam

Tanto desprezo
pelo que é transitório e finito. Não servirei
senhor que possa morrer. Mas passamos
a vida a amar todas as fragilidades
das coisas que cessam. Há
coisa mais breve do que um sorriso?
Coisa mais curta que a alegria
de um reencontro? Tudo o que amamos
é passageiro e frágil ou
as duas coisas. Mas persegue-nos
a nostalgia do infindável
como uma tara hereditária.

REPUBLICAÇÃO: poema publicado no blog originalmente em 12/01/2018

Ursula K. Le Guin – Parentesco

Ardendo muito lentamente, a grande árvore da floresta
se ergue da sutil cavidade de neve
derretida ao seu redor pelo brando e duradouro
calor de seu ser e de sua vontade de ser
raiz, tronco, ramo, folha, e de conhecer a
terra escura, a luz do sol, o toque do vento, o canto do pássaro.

Desenraizados, desassossegados e de sangue quente, nós
ardemos em labaredas que nos cegam para este lento,
elevado e fraterno fogo da vida, tão forte
agora quanto na brotação, dois séculos atrás.

Trad.: Nelson Santander

Kinship

Very slowly burning, the big forest tree
stands in the slight hollow of the snow
melted around it by the mild, long
heat of its being and its will to be
root, trunk, branch, leaf, and know
earth dark, sun light, wind touch, bird song.

Rootless and restless and warmblooded, we
blaze in the flare that blinds us to that slow,
tall, fraternal fire of life as strong
now as in the seedling two centuries ago.

Maria Mazziotti Gillan – Foi uma semana

Foi uma semana

… de olhar para cima, para dentro, abaixo da superfície e para o passado.”
—New York Times, D3, May 5, 2013

Este ano foi assim para mim, você, morto já
há três anos e transposto para aquele outro lugar onde eu não posso
toca-lo, e que deixei para trás olhando para cima, para aquele lugar
que eu imaginava ser o céu e onde espero que você possa sentir
minha falta. A NASA anunciou seus planos de trazer uma amostra de Marte
para a Terra. Gostaria de imaginar que eu poderia trazer de volta alguma
recordação sua, embora meu amigo me diga que tenho que
deixa-lo ir. Li sobre um inseto de 23 milhões de anos,
de uma espécie até então desconhecida encontrada na Europa,
tão perfeitamente preservado em âmbar que cada pequeno segmento
do bicho de 1,8 polegada de comprimento é claramente visível,
com todo seu tecido mole intacto. Sentada em minha poltrona agora,
à noite, em nossa sala de estar, minhas pernas levantadas,
meus olhos fixos firmemente na tela da TV, em que assisto
programas britânicos de mistério, subitamente vislumbro uma imagem
de mim mesma preservada em âmbar, lágrimas no rosto,
o controle remoto da TV ainda firmemente posicionado em minha mão.
O que os cientistas do futuro fariam comigo?
Esta mulher rechonchuda sozinha em sua casa silenciosa, meio adormecida
em um sofá que a sustém como uma imensa mão marrom.
Eles olhariam detidamente, mas como poderiam entender
toda a tristeza e saudade que estariam pulsando
abaixo da superfície de sua pele
e nas câmaras do seu coração?

Trad.: Nelson Santander

It’s Been A Week

… of looking upward, inward, below the surface and back in time.”
—New York Times, D3, May 5, 2013

This year has been a year like that for me, you, already three
years dead and crossed over to that other place where I cannot
touch you, and I left behind looking upward to that place
where I imagined heaven is and where I hope you can feel me
missing you. NASA announces its plans to bring a piece of Mars
back to earth. I’d like to imagine I could bring back some
memento of you, though my friend tells me I have
to let you go. I read about a 23-million-year-old insect
of a previously unknown species found in Europe,
so perfectly preserved in amber that each tiny digit
of the 1.8-inch-long animal is clearly visible,
all its soft tissue intact. Sitting in my recliner now,
in our family room in the evenings, my legs elevated,
my eyes fixed firmly on the TV screen, where I watch
British mysteries, I suddenly have an image
of myself preserved in amber, tears on my cheeks,
the TV remote still solidly positioned in my hand.
What would the scientists of the future make of me?
This chubby woman alone in her silent house, half asleep
in a chair that holds her like a huge brown hand.
They would stare and stare, but how could they know
all the grief and longing that pulsed
below the surface of her skin
and in the chambers of her heart?

Tomas Tranströmer – Minnena Ser Mig (em duas traduções)

Memórias que me Observam

Manhã de Junho, cedo demais para acordar,
tarde demais para adormecer.

Tenho de sair – é densa a folhagem das
memórias, perseguem-me com o seu olhar.

Não se deixam ver, misturam-se todas
com o fundo, verdadeiros camaleões.

Tão perto estão que as ouço respirarem
aqui onde o canto do pássaro ensurdece.

     Trad.: José Eduardo Reis

As recordações olham para mim

Uma manhã de Junho quando ainda é cedo para acordar
mas demasiado tarde para voltar a pegar no sono.

Embrenho-me pelo arvoredo repleto de recordações
e elas seguem-me com os seus olhares.

Autênticos camaleões, elas não se mostram,
diluem-se literalmente no cenário.

E embora o gorjeio dos pássaros seja ensurdecedor,
estão tão perto de mim que ouço como respiram.

     Trad.: Alexandre Pastor

REPUBLICAÇÃO: poema publicado no blog originalmente em 05/01/2018

MINNENA SER MIG

En junimorgon då det är för tidigt
att vakna men för sent att somna om.

Jag måste ut i grönskan som är fullsatt
av minnen, och de följer mig med blicken.

De syns inte, de smälter helt ihop
med bakgrunden, perfekta kameleonter.

De är så nära att jag hör dem andas
fast fågelsången är bedövande.