Joan Margarit – Noturno em Solivella

Vens da visita que fizeste ao vinhedo, à noite.Detiveste o trator entre as cercas de arameonde se embalam, verdes e densas, as videiras,e escutaste a terra à tua volta.O restaurante te dá dinheiro,mas de madrugada, com ele já fechado,fazendo um café para ti no balcão,pensas o quanto gostas de, à noite, visitarsozinho os arames do … Continue lendo Joan Margarit – Noturno em Solivella

William Blake – A mosca

Pequena Mosca, Teus jogos de estio Minha irrefletida Mão os destruiu. Pois como tu, Mosca não sou eu? E não és tu Homem como eu? Eu canto e danço e Bebo, até que vem Mão cega arrancar-me As asas também. Se é o pensamento Vida, sopro forte, E a ausência do Pensamento morte, Então eu … Continue lendo William Blake – A mosca

Antonio Carlos Secchin – [Não, não era ainda a era da passagem]

Não, não era ainda a era da passagem do nada ao nada, e do nada ao seu restante.  Viver era tanger o instante, era linguagem de se inventar o visível, e era bastante. Falar é tatear o nome do que se afasta. Além da terra, há só o sonho de perdê-la. Além do céu, o mesmo céu, que se alastra num … Continue lendo Antonio Carlos Secchin – [Não, não era ainda a era da passagem]

Linda Pastan – Chove sobre a casa de Anne Frank

Chove sobre a casade Anne Franke sobre os turistasamontoados sob a sombrade seus guarda-chuvas,sobre os perfeitamente silenciososturistas que prefeririam estarem outro lugarmas que aqui esperam em escadastão íngremes pelas quais eles devem subirpara alguma ocasiãono alto do sótão vazio,no banheiro pitoresco,no esqueletode uma cozinhaou no mapa —cada uma de suas setasuma farpa de arame —com … Continue lendo Linda Pastan – Chove sobre a casa de Anne Frank

Robert Morgan – Outono branco

Ela sempre gostou de ler, inclusivena infância, durante a Guerra da Secessão,e depois desenvolveu o hábito de ficar acordadajunto ao lampião perto da lareira depois que,concluída a faxina, o marido e os filhos iam dormir.Ela alimentou o vício nos anos durosda Reconstrução e mesmo depois queo seu marido morreu e ela foi forçada a prover … Continue lendo Robert Morgan – Outono branco

Mary Oliver – Quando estou entre as árvores

Quando estou entre as árvores,especialmente entre os salgueiros e os espinheiros-da-virgínia,mas também entre as faias, os carvalhos e os pinheiros,elas emitem tantos sinais de alegria.Eu quase diria que elas me salvam, e diariamente.Estou tão distante de minhas expectativas sobre mim mesma,nas quais eu reúno bondade, e discernimento,e nunca me apresso no mundo,mas caminho lentamente, e … Continue lendo Mary Oliver – Quando estou entre as árvores

Jorge Valdés Díaz-Vélez – Formas migratórias

Formas Migratórias para Katia Alemann Aprendemos a amar a conta-gotasessas pequenas pausas de que se vesteo temporal para inundar a solidãodo lado de fora, o ramo entre violeta e ocre das tardes, o murmúriosemântico do céu. Nesta ordem,temos esmaecido a distância,a longitude sem proporção, as linhasque se relacionam com as coisas. Curtaslacunas de ar, esses … Continue lendo Jorge Valdés Díaz-Vélez – Formas migratórias

Leonard Nathan – Brinde

Houve uma mulher em Ithacaque chorou baixinho a noite todano quarto ao lado e desamparadome apaixonei por ela sob o mantode neve que se depositou em todos os telhadosda cidade, preenchendocada escura depressão. Na manhã seguinteno café do motelestudei todas as mulheres de rostosmaquiados. Teria sido a loira de meia idadeque brincou com a garçoneteou a … Continue lendo Leonard Nathan – Brinde

James Kirkup – Ursa Maior

Suspensa entre os álamos domesticados no fimda avenida familiar, a UrsaMaior, em sua rede iluminada, balança,como um portão abandonado que nem barra nem convida para entrar,e pendura no poste arqueado sua silhueta de sete pontas. Desenhada com a precisão de um problema desconhecidosolucionado na sala de aula mais alta do céu vazio,ela revela sobre o … Continue lendo James Kirkup – Ursa Maior

Jorge Valdés Díaz-Vélez – A outra rosa

Ela beijou na rosa(seu nome era um aguilhãofeminino e brutal)a imagem de outra rosa gravada em uma lousade mármore, cristalina.A luz era mais finae, ao tato, tão airosa quanto a flor que ardiasem pausa em sua memória.Em outro meio-dia, a rosa era ilusóriapromessa repartida;e o beijo, a outra vida. Trad.: Nelson Santander La otra rosa … Continue lendo Jorge Valdés Díaz-Vélez – A outra rosa