Donizete Galvão – Não sabe

O amor que não sabe morrerpersiste no olhar do cãoabandonado que,ao menor gesto,abana o rabona espera do afago.Está no vaso de plantaesquecido no sobradosem moradores. O amor que não sabe morrernão pretende tocar o céu.Quer ficar aqui mesmo –pedestre, incauto e reles.Não ouve a ladainha dos mortos.Nem quer a extrema-unção.

Maya Angelou – Quando as grandes árvores caem

Quando as grandes árvores caem,rochas de colinas distantes estremecem,leões se escondemna relva alta,e até os elefantesarrastam-se em busca de segurança. Quando as grandes árvores caemna floresta,pequenas coisas recolhem-se ao silêncio,seus sentidoserodidos para além do medo. Quando grandes almas morrem,o ar ao nosso redor se tornaleve, raro, estéril.Nós respiramos, brevemente.Nossos olhos, brevemente,enxergam comuma dolorosa nitidez.Nossa memória, … Continue lendo Maya Angelou – Quando as grandes árvores caem

Joyce Sutphen – Como acabamos juntos

Ele era bom em uma emergência, calmono meio de uma tormenta. Acidentesnão o surpreendiam; ele estava sempre pronto para o que quer que surgisse. Vocêpodia contar com ele; você podia fazerum acordo que ele cumpriria, mesmo se você não pudesse. Os acordos dele eram impossíveis;os acordos dele eram feitos para você falhar,e ao falhar você … Continue lendo Joyce Sutphen – Como acabamos juntos

Eugénio de Andrade – Despedida

Junho chegara ao fim, a magoada luz dos jacarandás, que me pousava nos ombros, era agora o que tinha para repartir contigo, e um coração desmantelado que só aos gatos servirá de abrigo

Daniel Filipe – A invenção do amor

Em todas as esquinas da cidadenas paredes dos bares à porta dos edifícios públicos nas janelas dos autocarrosmesmo naquele muro arruinado por entre anúncios de aparelhos de rádio edetergentesna vitrine da pequena loja onde não entra ninguémno átrio da estação de caminhos de ferro que foi o lar da nossaesperança de fugaum cartaz denuncia o … Continue lendo Daniel Filipe – A invenção do amor

Billy Collins – Como se para demonstrar um eclipse

Pego uma laranja de um cesto de vimee a coloco na mesapara representar o sol.Depois, na outra ponta,uma bola de gude azul e brancase torna a terra perto da qual eu coloco a pequena lua de uma aspirina.Pego uma taça no armário,abro uma garrafa de vinho,sento-me em uma cadeira de espaldar alto,um deus benevolente presidindoum … Continue lendo Billy Collins – Como se para demonstrar um eclipse

Joan Margarit – Arcadi Volodos: Sonata D894

É uma música modestacomo um jantar na cozinha,hospitaleira como ter tido filhos.Compadece-se do corpoque a maré arrastaà praia invernal de cada um.Que franqueza nas notas mais abruptasdizendo-me: é amortambém aquilo que parece hostil.Quando se extingue o eco do piano,o que escutei ainda me estremece.A música de Schuberté uma forma de caridade. Trad.: Nelson Santander Arkadi … Continue lendo Joan Margarit – Arcadi Volodos: Sonata D894

Jorge Valdés Díaz-Vélez – Matzhevá

/   Em um livro do meu pai, leioa frase: «A ti, que me lês».É o título de uma elegiaescrita há dois séculos, ou um soprode solitude que se elevouao leitor imaginário de fora dos círculos do tempo.Essa linha guarda em cada sílabaa fresca impressão de sua veemência:ser uma semente indócil em algum dialimítrofe ao de agora, … Continue lendo Jorge Valdés Díaz-Vélez – Matzhevá

Carlos Drummond de Andrade – Os mortos

Na ambígua intimidade que nos concedem podemos andar nus diante de seus retratos. Não reprovam nem sorriem como se neles a nudez fosse maior. Conheça outros livros de Carlos Drummond de Andrade clicando aqui