Rainer Maria Rilker – A Morte da Amada

Da morte ele sabia quase nada:
que nos toma e nos cala de repente.
Como a amada não fora arrebatada,
antes se desprendera docemente
do seu olhar para a morada escura,
e como percebeu que à outra vida
como uma lua plena a formosura
da visitante fora concedida,
dos mortos se tornou tão familiar
que os viu como parentes através dela;
deixou os outros a falar,
sem neles crer; chamou esse lugar
bem-vindo, sempre doce, e pelos pés
da amada o começou a palmilhar.

Trad.: Augusto de Campos

Der Tod der Geliebten

Er wußte nur vom Tod was alle wissen:
daß er uns nimmt und in das Stumme stößt.
Als aber sie, nicht von ihm fortgerissen,
nein, leis aus seinen Augen ausgelöst,

hinüberglitt zu unbekannten Schatten,
und als er fühlte, daß sie drüben nun
wie einen Mond ihr Mädchenlächeln hatten
und ihre Weise wohlzutun:

da wurden ihm die Toten so bekannt,
als wäre er durch sie mit einem jeden
ganz nah verwandt; er ließ die andern reden

und glaubte nicht und nannte jenes Land
das gutgelegene, das immersüße—
Und tastete es ab für ihre Füße.

Robert Graves – Através do pesadelo

Jamais se desencante daquele
Lugar no qual algumas vezes você sonha estar,
Deitada muito além de todo sonho,
Ou daqueles que você lá encontra, embora raramente
se sente na companhia deles.

O indomável, o vivo, o gentil.
Você não os conhece? Quem? Eles transportam
O tempo circular como um sábio-rio ao redor de suas casas
E não há como, pelas veredas da história,
Nomeá-los ou numera-los.

Em seus olhos dormentes eu leio a jornada
A que você, incoerentemente, se refere; o que desperta
Minha admiração amorosa, de que você deve viajar,
Através do pesadelo, para uma terra perdida e isolada,
Tímida por natureza.

Trad.: Nelson Santander

Through Nightmare

Never be disenchanted of
That place you sometimes dream yourself into,
Lying at large remove beyond all dream,
Or those you find there, though but seldom
In their company seated –

The untameable, the live, the gentle.
Have you not known them? Whom? They carry
Time looped so river-wise about their house
There’s no way in by history’s road
To name or number them.

In your sleepy eyes I read the journey
Of which disjointedly you tell; which stirs
My loving admiration, that you should travel
Through nightmare to a lost and moated land
Who are timorous by nature.

Aberto Bresciani – Bisões

E seguimos como bisões,
olhando para a frente,
em disparada, fugindo
de absolutamente nada
e de quase tudo.

No caminho, outros bisões
se juntam ao grupo
e continuamos todos,
aos atropelos, na mesma rota.

Corremos, nós os bisões,
para onde não sabemos,
em uma pradaria fictícia,
que, a exemplo dos rios,
é outra a cada migração

Olhamos para a frente
e nos perguntamos,
os olhos bovinos,
se este é mesmo
o nosso lugar.

Jane Hirshfield – O emissário

Um dia, naquele quarto, um pequeno rato.
Dois dias depois, uma cobra.
Que, vendo-me entrar,
serpenteou a longa listra de seu
corpo para baixo da cama,
e depois se enrolou como um dócil animal doméstico.
Não sei como veio ou saiu.
Mais tarde, a lanterna nada encontrou.
Por um ano, eu observei
como alguma coisa – terror? felicidade? dor? –
entrou e, em seguida, saiu do meu corpo.
Sem saber como entrou,
sem saber como saiu.
Pendurou-se onde as palavras não podiam alcança-la.
Dormiu onde a luz não podia ir.
Seu cheiro não era de cobra nem de rato,
nem sensualista nem ascético.
Existem desvãos em nossas vidas
sobre os quais nada sabemos.
Através deles
o rebanho marcado desloca-se quando quer,
pernas longas e sedento,
coberto por uma poeira estranha.

Trad.: Nelson Santander

The envoy

One day in that room, a small rat.
Two days later, a snake.
Who, seeing me enter,
whipped the long stripe of his
body under the bed,
then curled like a docile house-pet.
I don’t know how either came or left.
Later, the flashlight found nothing.
For a year I watched
as something – terror? happiness? grief? –
entered and then left my body.
Not knowing how it came in,
Not knowing how it went out.
It hung where words could not reach it.
It slept where light could not go.
Its scent was neither snake nor rat,
neither sensualist nor ascetic.
There are openings in our lives
of which we know nothing.
Through them
the belled herds travel at will,
long-legged and thirsty, covered with foreign dust.

May Swenson – Indagações

Corpo minha casa
meu cavalo meu cão de caça
o que farei
quando você ruir?

Onde vou dormir
Como vou montar
O que vou caçar?

Onde posso ir
sem minha montaria
rápida e impaciente?
Como saberei
se na mata à frente
há perigos ou tesouros
quando o corpo, meu cão
bom e fiel, estiver morto

Como será
jazer no céu
sem teto ou porta
e vento por visão?

Com a nuvem como manto
como vou me esconder?

Trad.: Nelson Santander

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Question

Body my house
my horse my hound
what will I do
when you are fallen

Where will I sleep
How will I ride
What will I hunt

Where can I go
without my mount
all eager and quick
How will I know
in thicket ahead
is danger or treasure
when Body my good
bright dog is dead

How will it be
to lie in the sky
without roof or door
and wind for an eye

With cloud for shift
how will I hide?

Mary Oliver – A jornada

Um dia você finalmente soube
o que precisava fazer e começou,
embora as vozes à sua volta
continuassem gritando
seus maus conselhos –
embora a casa toda
começasse a tremer
e você sentisse o velho apelo
em seus tornozelos.
“Remende minha vida!”,
cada voz clamava.
Mas você não parou.
Você sabia o que precisava fazer,
embora o vento tateasse
com seus dedos rijos
as próprias fundações,
e embora a melancolia deles
fosse terrível.
Já era tarde o bastante,
e a noite, feroz,
e a estrada estava cheia de galhos
e pedras espalhadas.
Mas pouco a pouco
ao deixar aquelas vozes para trás,
as estrelas começaram a arder
através das camadas de nuvens,
e havia uma nova voz,
que você lentamente
reconheceu como sua,
e que se manteve a seu lado
enquanto você avançava cada vez mais fundo
no mundo,
decidida a fazer
a única coisa que poderia fazer –
determinada a salvar
a única vida que poderia salvar.

Trad.: Nelson Santander

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The journey

One day you finally knew
what you had to do, and began,
though the voices around you
kept shouting
their bad advice –
though the whole house
began to tremble
and you felt the old tug
at your ankles.
“Mend my life!”
each voice cried.
But you didn’t stop.
You knew what you had to do,
though the wind pried
with its stiff fingers
at the very foundations,
though their melancholy
was terrible.
It was already late
enough, and a wild night,
and the road full of fallen
branches and stones.
But little by little,
as you left their voice behind,
the stars began to burn
through the sheets of clouds,
and there was a new voice
which you slowly
recognized as your own,
that kept you company
as you strode deeper and deeper
into the world,
determined to do
the only thing you could do —
determined to save
the only life that you could save.

William Stafford – O sonho de agora

Quando acorda, da noite e dos outros
sonhos, para o sonho de agora,
você conduz o dia para fora das trevas
como a uma chama.
Quando a primavera acontece no norte e as flores
desabrocham no solo e até adormecem,
você alteia o verão com sua respiração
para que ele não se perca jamais tão profundamente.
Sua vida você vive com a luz que encontra
e escolta da melhor maneira possível,
conduzindo na escuridão por onde quer que vá
sua diminuta chama que outra vez se acenderá.

Trad.: Nelson Santander

The Dream of Now

When you wake to the dream of now
from night and its other dream,
you carry day out of the dark
like a flame.
When spring comes north and flowers
unfold from earth and its even sleep,
you lift summer on with your breath
lest it be lost ever so deep.
Your life you live by the light you find
and follow it on as well as you can,
carrying through darkness wherever you go
your one little fire that will start again.

Mary Oliver – Gansos selvagens

Você não precisa ser bom.
Você não precisa atravessar o deserto de joelhos,
por cem milhas, em penitência.
Você só precisa deixar o suave animal do seu corpo
amar o que ele ama.
Fale-me sobre o desespero, o seu, e eu lhe direi o meu.
Enquanto isso, o mundo continua.
Enquanto isso, o sol e os translúcidos seixos da chuva
movem-se por entre as paisagens,
sobre as pradarias e as árvores profundas,
as montanhas e os rios.
Enquanto isso, os gansos selvagens, altos no límpido ar azul,
estão voltando para casa outra vez.
Quem quer que você seja, não importa o quão solitário esteja,
o mundo se oferta à sua imaginação,
clama por você como os gansos selvagens, ásperos e inspiradores —
incessantemente anunciando o seu lugar
na família das coisas.

Trad.: Nelson Santander

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Wild Geese

You do not have to be good.
You do not have to walk on your knees
for a hundred miles through the desert repenting.
You only have to let the soft animal of your body
love what it loves.
Tell me about despair, yours, and I will tell you mine.
Meanwhile the world goes on.
Meanwhile the sun and the clear pebbles of the rain
are moving across the landscapes,
over the prairies and the deep trees,
the mountains and the rivers.
Meanwhile the wild geese, high in the clean blue air,
are heading home again.
Whoever you are, no matter how lonely,
the world offers itself to your imagination,
calls to you like the wild geese, harsh and exciting –
over and over announcing your place
in the family of things.

Juan Vicente Piqueras – A sala vazia

a Carlos Edmundo de Ory

Era um de teus jogos favoritos.
O que há em uma sala vazia?,
perguntavas. Mantínhamo-nos em silêncio.

O que há em uma sala vazia?

Os que não conheciam o jogo
às vezes diziam: nada, e tu dizias: não.
Nada é nada, e eu disse o quê
.

Até que alguém dizia, por exemplo: silêncio.
E tu dizias: sim.
E outro dizia: .
E o jogo começava a decolar.

Algumas pegadas no chão.
Um fantasma. Uma tomada. O buraco
de um prego. A penumbra.
O quadrado que deixa na parede
a ausência de um quadro. Um fio.
Uma carta no chão.
A marca de uma palma na parede.
Um raio de sol que entra pela janela.
Uma teia de aranha. Uma pedaço
de papel. Uma unha. Uma formiga perdida.
A música que vem da rua
(há música sem alguém que a ouça?).
Uma mancha de fuligem ou umidade.
Garatujas ou pássaros ou nomes
ou um desenho de Laura na parede.

Tua ias dizendo sim ou não.
Tu sabias. Eras o inventor do jogo.
Tu sabias, Carlos, o que há
na sala vazia onde acabas de entrar.

Era um de teus jogos favoritos.
– O que há em uma sala vazia?
– Um fantasma.
– Já disseram isso.
– Sim, mas aquele a que me refiro é outro.

Trad.: Nelson Santander

 

La habitación vacía

a Carlos Edmundo de Ory

Era uno de tus juegos preferidos.
¿Qué hay en una habitación vacía?,
preguntabas. Guardábamos silencio.

¿Qué hay en una habitación vacía?

Los que no conocían el juego
tal vez decían: Nada, y tú decías: No.
Nada es nada, he dicho qué.

Hasta que alguien decía, por ejemplo: Silencio.
Y tú decías: .
Y otro decía: Polvo.
Y el juego comenzaba a tomar vuelo.

Unas huellas de pasos en el suelo.
Un fantasma. Un enchufe. El agujero
de un clavo. La penumbra.
El cuadrado que deja en la pared
la ausencia de un cuadro. Un hilo.
Una carta en el suelo.
La huella de una mano en la pared.
Un rayito de sol que entra por la ventana.
Una telaraña. Un trozo
de papel. Una uña. Una hormiga extraviada.
La música que llega de la calle
(¿hay música sin alguien que la escuche?).
Una mancha de humo o de humedad.
Garabatos o pájaros o nombres
o un dibujo de Laura en la pared.

Tú ibas diciendo sí o no.
Tú lo sabías. Eras el inventor del juego.
Tú ya sabías, Carlos, lo que hay
en la habitación vacía donde acabas de entrar.

Era uno de tus juegos preferidos.
– ¿Qué hay en una habitación vacía?
– Un fantasma.
– Ya lo han dicho.
– Sí, pero el que yo digo es otro.

Raquel Lanseros – Oração

Que não cresça jamais em minhas entranhas
essa paz aparente chamada ceticismo
Fuja eu do amargor,
do cinismo,
da imparcialidade de ombros encolhidos.
Creia eu sempre na vida
Creia eu sempre
nas mil infinitas possibilidades.
Que me enganem os cantos das sereias,
que minha alma guarde sempre um toque de ingenuidade.
Que nunca se pareça minha pele
com a de um imóvel e congelado
paquiderme.
Que eu chore ainda
por sonhos impossíveis
por amores proibidos
por fantasias de menina feitas em pedaços.
Fuja eu do realismo espartilhado.
Conservem-se em meus lábios as canções,
muitas e muito altas e com muitos acordes.

Para o caso de chegarem tempos de silêncio.

Trad.: Nelson Santander

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Invocación

Que no crezca jamás en mis entrañas
esa calma aparente llamada escepticismo.
Huya yo del resabio,
del cinismo,
de la imparcialidad de hombros encogidos.
Crea yo siempre en la vida
crea yo siempre
en las mil infinitas posibilidades.
Engáñenme los cantos de sirenas,
tenga mi alma siempre un pellizco de ingenua.

Que nunca se parezca mi epidermis
a la piel de un paquidermo inconmovible,
helado.
Llore yo todavía
por sueños imposibles
por amores prohibidos
por fantasías de niña hechas añicos.
Huya yo del realismo encorsetado.
Consérvense en mis labios las canciones,
muchas y muy ruidosas y con muchos acordes.

Por si vinieran tiempos de silencio.