Robert Creeley – O fim

Quando percebo o que as pessoas pensam de mim
fico imerso em minha solidão. O cinza

chapéu previamente adquirido enjoa.
Não tenho mais nenhum propósito identificável.

Uma sensação de estar sendo sufocado
penetra em minha garganta.

Trad.: Nelson Santander

The End

When I know what people think of me
I am plunged into my loneliness. The grey

hat bought earlier sickens.
I have no purpose no longer distinguishable.

A feeling like being choked
enters my throat.

David Mourão-Ferreira – Herança

Ouvir, ouvir de noite uma ambulância,
E desejar que estejas a morrer;
Fechar a porta à minha própria infância;
Amigos, conhecidos, nem os ver;

Quebrar nas mãos o aro da esperança;
Mas de mim para mim depois dizer:
“Calma! Quem nada espera tudo alcança…”;
E guardar o revólver; e beber,

A sós, o vinho que na taça baste
A recompor-te, viva, na distância:
Isto foi, como herança, o que deixaste.

E ainda o mais que não te quis dizer:
Ouvir, ouvir de noite uma ambulância,
E desejar ser eu quem vai morrer…

Konstantinos Kaváfis – Vozes

Vozes queridas, vozes ideais
daqueles que morreram ou daqueles que estão
perdidos para nós, como se mortos.

Eles nos falam em sonho, algumas vezes;
outras vezes, em pensamento as escutamos.

E, quando soam, por um instante eis que retornam
os sons da poesia primeva em nossa vida,
qual música distante que se perde noite afora.

Trad.: José Paulo Paes

Jorge Valdés Díaz-Vélez – O fotógrafo e a modelo

O tempo que foi sempre teu inimigo
se deteve em tua imagem. Já és aquela
garota do calendário, a princesa
sem fábulas, o anjo que consigo

pendurar em qualquer nuvem. De ouro e trigo
a luz encaracolada em tua cabeça,
a areia que acaba onde começa
a linha de teu sexo. Estás comigo

e não tens tristezas nem pesares
nem compromissos por honrar. Apenas repousas
imóvel no quadro, entre palmeiras
de plástico e congeladas mariposas

roubadas do Cântico dos Cânticos.
Não sabes que não morreste. Se soubesses…

Trad.: Nelson Santander

El fotógrafo y la modelo

El tiempo que fue siempre tu enemigo
se detuvo en tu imagen. Ya eres esa
chica de calendario, la princesa
sin fábulas, el ángel que consigo

colgar de cualquier nube. De oro y trigo
la luz ensortijada en tu cabeza,
la arena que se acaba en donde empieza
la línea de tu sexo. Estás conmigo

y no tienes tristezas ni pesares
ni citas por cumplir. Sólo reposas
inmóvil en el cuadro, entre palmeras
de plástico y heladas mariposas

robadas del Cantar de los cantares.
No sabes que no has muerto. Si supieras.

Adriano Nunes – Cantar é preciso

     para Antonio Cicero

Cantar é preciso,
Ainda que seja
O vazio, o nada,
A tristeza, a perda,
O que quer que até
Alcance a cabeça.

Cantar e cantar,
Mesmo que depois
O existir se perca
Na eterna estranheza
Da cantiga, para
Que o agora exerça

A sua potência
De luz, porque já
Pouquíssimo importa
Senão cantar. Canta!
Canta a lida quântica,
A que vinga, íntima.

Cantar é preciso,
Ainda que seja
O vácuo, o não-ser,
O pesar à espreita,
O que quer que até
Confunda a cabeça.

Doug Dorph – Planeta esquecido

Peço à minha filha que diga os nomes dos planetas.
“Vênus… Marte… e Plunis!”, ela responde.
Quando eu tinha seis ou sete anos, meu pai
me acordou no meio da noite.
Descemos até o playground e deitamos
de costas no concreto, olhando para cima
à espera das estrelas cadentes que a TV prometera.

Não me lembro de nenhuma estrela cadente. Lembro
de minhas costas pressionadas contra o planeta Terra,
da massa do meu pai como gravidade ao meu lado,
dos ruídos ocasionais vindos de sua garganta,
dos prédios com suas janelas apagadas,
do céu perto o suficiente para eu cutucar com o dedo.

Hoje, o saber corrói o deslumbramento.
Uma voz insistente me lembra que o sol
também brilha no lado escuro da lua.
A ignorância da minha filha é minha alegria.
Através dos olhos dela eu espio como um voyeur.

Eu viajo em um foguete até o planeta Plunis.
Em Plunis já não anseio pelo passado.
Em Plunis há surpresas de verdade.
Em Plunis, sou feliz.

Trad.: Nelson Santander

Forgotten Planet

I ask my daughter to name the planets.
“Venus… Mars… and Plunis!” she says.
When I was six or seven my father
woke me in the middle of the night.
We went down to the playground and lay
on our backs on the concrete looking up
for the meteors the tv said would shower.

I don’t remember any meteors. I remember
my back pressed to the planet Earth,
my father’s bulk like gravity next to me,
the occasional rumble from his throat,
the apartment buildings dark-windowed,
the sky close enough to poke with my finger.

Now, knowledge erodes wonder.
The niggling voce reminds me that the sun
does shine on the dark side of the moon.
My daughter’s ignorance is my bliss.
Through her eyes I spy like a voyeur.

I travel in a rocket ship to the planet Plunis.
On Plunis I no longer long for the past.
On Plunis there are actual surprises.
On Plunis I am happy.

Juan Vicente Piqueras – Lázaro se recusa a ressuscitar

Um dia ouvi vozes que vinham de fora.
Finalmente!, vozes de fora, pensei – vozes de outros
que levam a luz dentro de si e a revelam,
que vem até mim do ar, e não de mim.

Vozes que ao se aproximarem, viraram sussurros.
Passos que pararam diante da minha porta.
Alguém disse: Aqui jaz, como se lesse.
Os demais ficaram em silêncio.
Uma voz me chamou: Lázaro, disse,
levanta-te e anda.
Eu a reconheci, mas fingi não ouvi-la.
Lembrei-me de Jonas. Fiquei em silêncio.
Pensei: Preferiria
não fazê-lo
, nunca sair daqui.

Conheço bem demais o mundo.
Lá fora, eu sei, espreita o mau amor,
seu mel amargo, seu engano, sua ameaça.

Levanta-te de ti. Sai de tua tumba.
Mas eu detestava os milagres.
E, além disso, tinha
demasiado apreço pela minha vida de morto.

Deixei passarem os anos. Agora espero
uma voz que me chame, que me diga
o que devo fazer, o que desejo.

Trad.: Nelson Santander

Lázaro se niega a resucitar

Un día oí unas voces que venían de afuera.
Por fin voces de afuera, pensé, voces de otros
que llevan la luz dentro y que la dicen,
que me llegan del aire y no de mí.

Voces que al acercarse eran susurros.
Pasos que se pararon delante de mi puerta.
Alguien dijo: Aquí yace, como si lo leyese.
Callaron los demás.
Una voz me llamó: Lázaro, dijo,
levántate y anda.
Yo la reconocí pero fingí no oírla.
Me acordé de Jonás. Me quedé quieto.
Pensé: preferiría
no hacerlo
, no salir nunca de aquí.

Conozco demasiado bien el mundo.
Allá afuera, lo sé, acecha el mal amor,
su amarga miel, su engaño, su amenaza.

Levántate de ti. Sal de tu tumba.
Pero yo detestaba los milagros.
Y además le tenía
demasiado cariño a mi vida de muerto.

Dejé pasar los años. Ahora espero
una voz que me llame, que me diga
lo que tengo que hacer, lo que deseo.

Joan Margarit – Último trem

Último trem
Crematório de Collserola

Se visses a chuva que enverniza
o verde escuro e espesso do jardim.
Teu vagão solitário está chegando
à sala espaçosa, sem adornos,
mobiliário, ou luminárias,
da Estación de Francia da morte.
Só se escuta o murmúrio do motor
que arrasta o peso
da infância e da juventude
– de teu anônimo tempo, já perdido,
que nunca mais será reclamado –,
rumo à fornalha e sua boca incandescente
refletida na vidraça molhada de chuva.
As lágrimas adornam esse lugar,
feio como um subúrbio, e, ainda assim,
recupero-te em um inverno longínquo,
numa manhã azul sob os plátanos:
imóvel, com as mãos atrás das costas,
observas a multidão entre os quiosques
como um sobrevivente que se esforça
para reconhecer, em seu redor,
os destroços do naufrágio.

Trad.: Nelson Santander

Último tren
Crematorio de Collserola

Si tú vieras la lluvia que barniza
el verde oscuro y denso del jardín.
Tu vagón solitario está llegando
a la sala espaciosa, sin adornos,
ni mobiliario, ni ninguna lámpara
de la Estación de Francia de la muerte.
Sólo se oye el murmullo del motor
que va arrastrando el peso
de infancia y juventud
—de tu anónimo tiempo ya perdido
que no reclamará nunca más nadie—,
hacia el horno y su boca incandescente
que se refleja en el cristal de lluvia.
Las lágrimas adornan el lugar,
feo como un suburbio, y aún así,
te recupero en un lejano invierno,
una mañana azul bajo los plátanos:
inmóvil, con las manos a la espalda,
miras la multitud entre los quioscos
como un superviviente que se esfuerza
por identificar en torno suyo
los restos del naufragio.

Paulo Henriques Britto – de “Vers de circonstance”

I. Imunidade de Rebanho

A estupidez é sua própria recompensa.
Graças a ela, o mundo faz sentido,
um só, que é fácil de identificar.
E só o fácil satisfaz a quem não pensa.

Pensar é coisa trabalhosa. A ignorância
é o sumo bem dos cidadãos de bem,
é a verdadeira marca dos eleitos.
Ter sucesso é não ter que saber. Saber cansa,

e o objetivo central de qualquer existência
só pode ser não se cansar. Olhai
as vacas do campo: não lhes faz falta a ciência,

pastam em plena bem-aventurança,
sem que nenhuma antevisão do matadouro
perturbe a santa paz da ruminança.

Wendell Berry – De “Sabbaths” (2001)

[…]

III

Peça ao mundo que revele sua quietude —
não o silêncio das máquinas quando cessam,
mas a verdadeira quietude onde os cantos das aves,
as árvores, os sinos-das-sombras, os caracóis, as nuvens, as tempestades
se tornam o que são – e nada além disso.

[…]

V

O vento do outono chegou.
Está por toda parte. Move
cada folha de cada
árvore. É o único movimento
do rio. As folhas verdes
se cansam de sua cor.
Agora também o entardecer paira no ar.
Os falcões vívidos do dia
se recolhem. As corujas despertam.
Pequenas criaturas morrem porque
criaturas maiores têm fome.
Quão superior a esta
humana confusão de ganância
e fé cega, sangue e fogo.

VI

A pergunta diante de mim, agora que
estou velho, não é como estar morto,
– disso já sei o suficiente, por prática –
mas como estar vivo, como estas gastas
colinas ainda contam, e certas telas
de Cézanne, e esta humilde
curruíra cantante, que crê estar viva
para sempre, neste instante – e talvez esteja.

Trad.: Nelson Santander

From “Sabbaths” (2001)

[…]

III

Ask the world to reveal its quietude —
not the silence of machines when they are still,
but the true quiet by which birdsongs,
trees, bellworts, snails, clouds, storms
become what they are, and are nothing else.

[…]

V

The wind of the fall is here.
It is everywhere. It moves
every leaf of every
tree. It is the only motion
of the river. Green leaves
grow weary of their color.
Now evening too is in the air.
The bright hawks of the day
subside. The owls waken.
Small creatures die because
larger creatures are hungry.
How superior to this
human confusion of greed
and creed, blood and fire.

VI

The question before me, now that I
am old, is not how to be dead,
which I know from enough practice,
but how to be alive, as these worn
hills still tell, and some paintings
of Paul Cézanne, and this mere
singing wren, who thinks he’s alive
forever, this instant, and may be.