Javier Salvago – Retrato

Fala pouco, e a bem poucos
se permite chamar de amigos,
segue adiante se há tumulto,
não visita os vizinhos,

cruza a rua fumando,
sempre voltado para dentro,
vendo o mundo de fora
como quem lê um livro,

enredado – sem saída –
no próprio labirinto,
mas nem surdo nem cego
nem indiferente nem frio:

um solitário que vive
com uma mulher e um filho.

Trad.: Nelson Santander

Retrato

Habla poco, y a muy pocos
se atreve a llamar amigos,
pasa de largo si hay bulla,
no visita a sus vecinos,

cruza la calle fumando,
siempre dentro de sí mismo,
viendo el mundo desde fuera
igual que quien lee un libro,

atrapado — sin salida —
en su propio laberinto,
pero ni sordo ni ciego
ni indiferente ni frío:

un solitario que vive
con una mujer y un niño.

Carlos Drummond de Andrade – Mãos dadas

Não serei o poeta de um mundo caduco.
Também não cantarei o mundo futuro.
Estou preso à vida e olho meus companheiros.
Estão taciturnos mas nutrem grandes esperanças.
Entre eles, considero a enorme realidade.
O presente é tão grande, não nos afastemos.
Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas.

Não serei o cantor de uma mulher, de uma história,
não direi os suspiros ao anoitecer, a paisagem vista da janela,
não distribuirei entorpecentes ou cartas de suicida,
não fugirei para as ilhas nem serei raptado por serafins.
O tempo é a minha matéria, do tempo presente, os homens presentes,
a vida presente.

Eugénio de Andrade – Não é verdade

Cai, como antigamente, das estrelas
um frio que se espalha na cidade.
Não é noite nem dia, é o tempo ardente
da memória das coisas sem idade.

O que sonhei cabe nas tuas mãos
gastas a tecer melancolia:
um país crescendo em liberdade,
entre medas de trigo e de alegria.

Porém a morte passeia nos quartos,
ronda as esquinas, entra nos navios,
o seu olhar é verde, o seu vestido branco,
cheiram a cinza os seus dedos frios.

Entre um céu sem cor e montes de carvão
o ardor das estações cai apodrecido;
os mastros e as casas escorrem sombra,
só o sangue brilha endurecido.

Não é verdade tanta loja de perfumes,
não é verdade tanta rosa decepada,
tanta ponte de fumo, tanta roupa escura,
tanto relógio, tanta pomba assassinada.

Não quero para mim tanto veneno,
tanta madrugada varrida pelo gelo,
nem olhos pintados onde morre o dia,
nem beijos de lágrimas no meu cabelo.

Amanhece.
Um galo risca o silêncio
desenhando o teu rosto nos telhados.
Eu falo do jardim onde começa
um dia claro de amantes enlaçados.

Miguel Torga – Rogo

Não, não rezes por mim.
Nenhum deus me perdoa a humanidade.
Vim sem vontade
E vou desesperado.
Mas assinei a vida que vivi.
Doeu-me o que sofri.
Fui sempre o senhorio do meu fado.

Por isso, quero a morte que mereço.
A morte natural,
Solitária e maldita
De quem não acredita
Em nenhuma oração
De salvação.
De quem sabe que nunca ressuscita.

Coimbra, 16 de Abril de 1979

Konstantinos Kaváfis – Um velho

No meio do café ruidoso, sem ninguém,
por companhia, está sentado um velho. Tem
à frente um jornal e se inclina sobre a mesa.

Imerso na velhice aviltada e sombria,
pensa quão pouco desfrutou as alegrias
dos anos de vigor, eloqüência, beleza.

Sabe que envelheceu bastante. Vê, conhece.
No entanto, o seu tempo de moço lhe parece
ser ainda ontem: faz tão pouco, faz tão pouco. ..

Medita no quanto a Prudência dele rira;
em como acreditara sempre na mentira
do “Deixa para amanhã. Há tempo.” Que louco!

Pensa nos ímpetos que teve de conter,
nas alegrias frustras por seu tolo saber,
que cada ocasião perdida agora escarnece.

Porém, tanto pensar, tanta recordação,
põem o velho confuso, e sobre a mesa, então,
daquele café, debruçado, ele adormece.

Trad.: José Paulo Paes

Sophia de Mello Breyner Andresen – Fundo do mar

No fundo do mar há brancos pavores,
Onde as plantas são animais
E os animais são flores.

Mundo silencioso que não atinge
A agitação das ondas.
Abrem-se rindo conchas redondas,
Baloiça o cavalo-marinho.
Um polvo avança
No desalinho
Dos seus mil braços,
Uma flor dança,
Sem ruído vibram os espaços.

Sobre a areia o tempo poisa
Leve como um lenço.

Mas por mais bela que seja cada coisa
Tem um monstro em si suspenso.

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Susan Mitchell – Os mortos

À noite, os mortos descem até o rio para beber.
Livram-se dos medos e de suas preocupações
por nós. Tiram dos bolsos as velhas fotografias.
Alisam as linhas de nossas mãos e leem nosso futuro,
rachado e amarelado.
Alguns mortos encontram o caminho até nossas casas.
Sobem aos sótãos.
Leem as cartas que nos enviaram, insaciáveis
por vestígios de seu amor.
Contam histórias uns aos outros.
Fazem tanto barulho
que nos acordam
como faziam quando éramos crianças e eles ficavam
a noite inteira bebendo na cozinha.

Trad.: Nelson Santander

The Dead

At night the dead come down to the river to drink.
They unburden themselves of their fears,
their worries for us. They take out the old photographs.
They pat the lines in our hands and tell our futures,
which are cracked and yellow.
Some dead find their way to our houses.
They go up to the attics.
They read the letters they sent us, insatiable
for signs of their love.
They tell each other stories.
They make so much noise
they wake us
as they did when we were children and they stayed up
drinking all night in the kitchen.

Dana Gioia – Obrigado por se lembrar de nós

As flores enviadas para cá por engano,
assinadas com um nome que ninguém conhece,
estão murchando. O que faremos?
Nossa vizinha diz que não são para ela,
e ninguém está perto de fazer aniversário.
Deveríamos agradecer a alguém pelo equívoco.
Será que um de nós está tendo um caso?
A princípio rimos, depois nos perguntamos.

A íris foi a primeira a morrer,
envolta em seu perfume
adocicado e persistente. As rosas
se desmancharam, pétala por pétala,
e agora as samambaias estão secando.
O quarto cheira a velório,
mas lá estão elas, à vontade demais,
acusando-nos de algum crime menor,
como o de um amor esquecido, e não conseguimos
jogar fora um presente que nunca foi nosso.

Trad.: Nelson Santander

Thanks For Remembering Us

The flowers sent here by mistake,
signed with a name that no one knew,
are turning bad. What shall we do?
Our neighbor says they’re not for her,
and no one has a birthday near.
We should thank someone for the blunder.
Is one of us having an affair?
At first we laugh, and then we wonder.

The iris was the first to die,
enshrouded in its sickly-sweet
and lingering perfume. The roses
fell one petal at a time,
and now the ferns are turning dry.
The room smells like a funeral,
but there they sit, too much at home,
accusing us of some small crime,
like love forgotten, and we can’t
throw out a gift we’ve never owned.

Ernesto Pérez Vallejo – Com vista para dentro

Não sou o melhor homem que já conheceste,
nem metade do bom que ainda te falta descobrir por aí,
nem sequer tenho estudos, e minha voz
treme diante de qualquer um que me olha nos olhos.
Minha tristeza pesa mais aos domingos,
mas na verdade é meu estado mais corriqueiro.
Às vezes, tenho crises de ansiedade,
às vezes, de raiva;
tenho uns vinte segundos complicados nos quais posso
desde matar um homem até dormir em paz.
Não diria que sou louco, mas um são fora do padrão.

Sério, sou um desastre,
nem fiel eu sou.
Se ouço uns saltos altos, ensaio um bailado lúbrico,
se vejo um decote, busco o mar em outros portos,
melhor nem falar se o poente
resolver levantar uma saia na minha frente.
A última vez que pedi perdão
eu tinha dezenove anos,
e ele já não podia me ouvir.

Faz tempo que não confio em ninguém,
a esperança me parece um ato masoquista,
a fé, um truque barato de ilusionismo,
o destino, uma folha em branco
em que escrevo com erros ortográficos
só para que ele também não saiba me guiar.

Talvez se fores agora,
alguém possa te dar o prazer
que não concebo sem dor.
Alguém, qualquer um,
poderá fazer-te promessas lindas, dessas
que nunca se cumprem
e tu consigas sorrir com alguma dignidade,
atando teus sonhos a um futuro inexistente.

Creio, quando olho tua boca,
que há mulheres que deviam ter mais cuidado
em ocultar o sorriso do que a calcinha.
Mas isso quase só me acontece contigo.

Suponho que tua boca seja capaz de escravizar um homem.
E, sinceramente, a esta altura de minha vida
o fácil seria não resistir.
Me deixar levar ou me jogar,
porque quando a abres assim, como quem boceja do nada,
eu vejo um precipício onde cair é erguer-se
e fugir é conseguir que o abismo
te persiga até te derrubar.
E uma vez deitados, já sabes: o amor
para mim sempre teve sabor de boceta.

Mas é verdade:
devias ir embora,
deixar que o amor te surpreenda pelas costas,
e deixar na porta um eu te amo
pra que, se um dia eu sair e não souber quem sou, possa lembrar.

Porque se ficares,
não saberás o que penso quando penso demais,
nem ouvirás um eu também depois de um eu te amo,
porque eu jamais soube forçar palavras,
e já é tarde para contrariar meu próprio abecedário.
E nunca saberei pedir que fiques,
nem que esse seja meu maior desejo,
porque se eu pudesse fugir de mim mesmo,
também o faria.

E mesmo que decidas ficar,
não serei capaz de escrever nenhum verso decente em teu nome
porque seria demasiado feliz
para ser poeta.

Talvez tu não entendas que há pessoas
que precisam sentir saudade
para não se sentirem demais.
Que há quem ache que sorrir hoje em dia
é um insulto,
respirar, um ato de ousadia,
viver, um surto,
perder, uma rotina.

Talvez não percebas que sou esse tipo de pessoa.
Alguém incapaz de voar sem ressaca,
um cara que aposta na carta mais alta
sua próxima derrocada.
Um algo que não é alguém
se seu nome não soa
do buraco mais profundo
de um boteco de beira de estrada.

Deverias partir,
recolher tuas carícias de minha pele,
atravessar-me o coração de dentro para fora,
de modo que, pelo buraco no meu peito,
possas ver os escombros que deixaste com tua partida.
Ignorar o que vês em meus olhos,
o que gritam minhas pálpebras quando olho para ti
porque, no fim das contas, somente a ignorância
pode fazer felizes as pessoas.

E descer as escadas com teus saltos pretos,
os mesmos que eu descalçava de ti com a boca,
toda noite em que o desejo
nos punha de joelhos.
E perder-te rua abaixo,
como se perdem os ônibus e os carros
e as putas da rua Magdalena
e as mães dos meninos de colégio.
Como se perdem as nuvens que não molham
ou o sol que não aquece.
Sem um adeus, sem um até nunca,
só silêncio.

Deverias partir agora mesmo,
porque é o único jeito de sabermos
se eu realmente preciso de ti.

Trad.: Nelson Santander

 

Con vistas al interior

No soy el mejor hombre que has conocido,
ni la mitad de bueno de los que te quedarían por explorar,
ni siquiera tengo estudios y mi voz
se quiebra ante cualquiera que me mire a los ojos.
Mi tristeza se acentúa los domingos
pero en realidad es mi estado más corriente.
A veces sufro ansiedad,
también ira,
tengo veinte segundos complicados en los que puedo
desde matar a un hombre a dormir sin ella.
No diría que estoy loco pero soy un cuerdo anormal.

En serio, soy un desastre,
ni siquiera soy fiel,
si escucho tacones bailo canciones perversas,
si veo un escote busco el mar en otros puertos,
mejor no hablar si al poniente
le da por levantar una falda en mi presencia.
La última vez que pedí perdón
tenía diecinueve años
y el ya no podía escucharme.

Hace tiempo que no confío en nadie,
la esperanza me resulta un acto masoquista,
la fe un mal truco de magia,
el destino un folio en blanco
que escribo con faltas de ortografía
para que el tampoco sepa guiarme.

Quizás si te vas ahora,
alguien podrá darte el placer
que no concibo sin dolor.
Alguien, cualquiera,
podrá hacerte promesas preciosas de esas
que jamás se cumplen
y tu puedas sonreír dignamente,
atando tus sueños a un futuro que no existe.

Creo cuando miro tu boca,
que hay mujeres que deberían poner más cuidado
en esconder la sonrisa que las bragas.
Pero esto casi solo me ocurre contigo.

Supongo que tu boca es capaz de hacer esclavo a un hombre.
Y seguramente a estas alturas de mi vida
lo fácil sería no rebelarse.
Y dejarme llevar o caer,
porque cuando la abres así como quién bosteza sin más
yo veo un precipicio donde caer es levantarse
y huir de ella es conseguir que el vértigo
te persiga hasta que te tumbe.
Y tumbados ya sabes que el amor
a mí siempre me ha sabido a coño.

Pero es cierto,
que deberías marcharte,
a que el amor te sorprenda por la espalda
y dejar en la puerta un te quiero
por si un día al salir no se quien soy.

Porque si te quedas,
no sabrás que pienso cuando pienso tanto,
ni oirás un yo también después de un te amo,
porque jamás supe forzar una palabra
y ya es tarde para contradecir mi abecedario.
Y no sabré decir nunca que te quedes,
ni aunque sea mi deseo primordial
porque si yo pudiera irme de mi mismo,
también lo haría.

Ni siquiera si decides quedarte
podré escribir algún verso decente en tu nombre
porque sería demasiado feliz
para ser poeta.

Quizás no entiendas que hay gente,
que necesita echar de menos
para no echarse de más.
Que hay gente a la que sonreír en estos tiempos
le parece un insulto,
que respirar una osadía,
que vivir un arrebato,
que perder una rutina.

Quizás no entiendas que soy de ese tipo de gente.
Alguien incapaz de volar sin resaca,
un tipo que se juega a la carta más alta
su próximo desequilibrio.
Un algo que no es alguien
si no suena su nombre
desde la garganta más profunda
de un bar de carretera.

Deberías irte,
recoger tus caricias de mi espalda,
atravesar mi corazón hacía fuera,
que pueda verse en el agujero de mi pecho
los escombros que has dejado tras tu marcha.
Ignorar aquello que ves en mis ojos,
lo que te gritan mis párpados cuando te observo
porque en realidad solamente la ignorancia
puede hacer feliz a las personas.

Y bajar las escaleras con tus tacones negros,
los mismos que te quitaba con la boca,
cada noche que el deseo
nos ponía de rodillas.
Y perderte calle abajo,
como se pierden los autobuses y los coches
y las putas de la calle Magdalena
y las madres de los niños de colegio.
Como si pierden las nubes que no mojan
o el sol que no calienta.
Sin un adiós, sin hasta nunca,
solo silencio.

Deberías irte ahora mismo,
porque es el único modo que tenemos de saber
si de verdad te necesito.

Jeffrey Harrison – Nossa outra irmã

                    Nossa outra irmã

para Ellen

A coisa mais cruel que fiz à minha irmã mais nova
não foi disparar um dardo caseiro em seu joelho,
onde ficou pendurado por um ofegante momento

antes de cair, mas sim contar que tínhamos
outra irmã, mais velha, que havia ido embora.
Quais foram meus motivos não consigo lembrar: um capricho,

ou talvez uma necessidade de brincar com a perda,
de sondar a dor de feridas inventadas?
Mas aquela primeira frase foi como uma cadeia de DNA

que se replicou em espirais de mentiras
quando minha irmã começou a fazer perguntas desesperadas.
Chamei nossa irmã mais velha de Isabel

e dei-lhe olhos cor de avelã e longos cabelos loiros.
Fiz com que fugisse para a Califórnia
onde se drogava e fazia bijuterias hippies.

Antes que eu percebesse, ela já morava em Santa Fé
e abrira uma loja. Enviava cartões postais
de vez em quando, mas parara de ligar.

Ainda consigo ver minha irmã mais nova me encarando,
os olhos se arregalando de desolação
até se encherem de lágrimas. Ainda me lembro

do espanto - e do horror - que senti ao ver que algo
que eu acabara de inventar
podia ter tanto poder, e ainda posso sentir

o dardo do remorso perfurando meu coração,
enquanto corria para dizer-lhe que nada daquilo era verdade.
Mas era tarde demais. Nossa outra irmã

já tinha tomado forma e não podíamos
chamá-la de volta de sua vida distante
nem dizer o quanto sentíamos sua falta.

Trad.: Nelson Santander

                    Our Other Sister

for Ellen

The cruelest thing I did to my younger sister
wasn’t shooting a homemade blowdart into her knee,
where it dangled for a breathless second

before dropping off, but telling her we had
another, older sister who’d gone away.
What my motives were I can’t recall: a whim,

or was it some need of mine to toy with loss,
to probe the ache of imaginary wounds?
But that first sentence was like a strand of DNA

that replicated itself in coiling lies
when my sister began asking her desperate questions.
I called our older sister Isabel

and gave her hazel eyes and long blonde hair.
I had her run away to California
where she took drugs and made hippie jewelry.

Before I knew it, she’d moved to Santa Fe
and opened a shop. She sent a postcard
every year or so, but she’d stopped calling.

I can still see my younger sister staring at me,
her eyes widening with desolation
then filling with tears. I can still remember

how thrilled and horrified I was
that something I’d just made up
had that kind of power, and I can still feel

the blowdart of remorse stabbing me in the heart
as I rushed to tell her none of it was true.
But it was too late. Our other sister

had already taken shape, and we could not
call her back from her life far away
or tell her how badly we missed her.