Jeffrey Harrison – Nossa outra irmã

Nossa outra irmã

                                                                                             para Ellen

A coisa mais cruel que fiz com minha irmã mais nova
não foi atirar um dardo caseiro em seu joelho,
no qual ficou pendurado por um ofegante momento

antes de cair, mas dizer-lhe que tínhamos
outra irmã mais velha que tinha ido embora.
Quais foram meus motivos eu não me lembro: um capricho,

ou alguma necessidade de brincar com perdas,
sondar a dor de feridas imaginárias?
Mas aquela primeira frase foi como uma cadeia de DNA

que se autorreplicou em um novelo de mentiras
quando minha irmã começou a fazer perguntas desesperadas.
Eu chamei nossa irmã mais velha de Isabel

e dei a ela olhos castanhos e longos cabelos loiros.
Fiz com que ela fugisse para a Califórnia
onde usava drogas e fabricava joias hippies.

Antes que me desse conta, ela se mudou para Santa Fé
e abriu uma loja. Ela enviava um postal
todos os anos, mas tinha parado de ligar.

Ainda consigo ver minha irmã mais nova me encarando,
seus olhos se arregalando de desolação
e depois enchendo-se de lágrimas. Ainda me lembro

de como fiquei extasiado e horrorizado por algo
que eu acabara de inventar
ter esse tipo de poder, e ainda sinto

o dardo do remorso perfurando meu coração,
enquanto me apressava em dizer-lhe que nada daquilo era verdade.
Mas era tarde demais. Nossa outra irmã

já havia ganhado forma e não podíamos
chamá-la de volta de sua vida distante
ou dizer-lhe o quanto sentíamos sua falta.

Trad.: Nelson Santander

Our Other Sister

                                                                                             for Ellen

The cruelest thing I did to my younger sister
wasn’t shooting a homemade blowdart into her knee,
where it dangled for a breathless second

before dropping off, but telling her we had
another, older sister who’d gone away.
What my motives were I can’t recall: a whim,

or was it some need of mine to toy with loss,
to probe the ache of imaginary wounds?
But that first sentence was like a strand of DNA

that replicated itself in coiling lies
when my sister began asking her desperate questions.
I called our older sister Isabel

and gave her hazel eyes and long blonde hair.
I had her run away to California
where she took drugs and made hippie jewelry.

Before I knew it, she’d moved to Santa Fe
and opened a shop. She sent a postcard
every year or so, but she’d stopped calling.

I can still see my younger sister staring at me,
her eyes widening with desolation
then filling with tears. I can still remember

how thrilled and horrified I was
that something I’d just made up
had that kind of power, and I can still feel

the blowdart of remorse stabbing me in the heart
as I rushed to tell her none of it was true.
But it was too late. Our other sister

had already taken shape, and we could not
call her back from her life far away
or tell her how badly we missed her.

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