Alfonsina Storni – Leva-me

Quero esquecer que vivo: leva-me a algum lugar;
Ata-me a tua alma; a alva a brilhar.

Toma-me pelas mãos como em um branco casulo
E mostra-me aos deuses com glória e com orgulho.

Leva-me! É uma noite muito negra e sombria!…
A morte caça pelo mundo tal qual harpia.

Faz-me esquecer o muito que me pesa nos ombros
Esta carga pesada de pesados escombros.

Liberta-me! Em tuas mãos quero pesar menos
Do que pesam – luzes – os pensamentos serenos.

Mais leve do que o ar, do que o ar muito mais leve
Como bolha de espuma a voar na manhã breve.

Espuma, brisa, aroma, casulo, flor, fragrância:
Leva-me para sempre sem rumo nem distância.

Trad.: Nelson Santander

Alfonsina Storni – Llévame

Quiero olvidar que vivo: llévame a donde sea;
Enrédame en tu alma; la aurora centellea.

Tómame entre tus manos como blanco capullo
Y muéstrame a los dioses con gloria y con orgullo.

¡Llévame! Está la noche muy negra y muy sombría!…
La muerte por los mundos anda de cacería.

Hazme olvidar lo mucho que me pesa en los hombros
Esta carga pesada de pesados escombros.

¡Libértame! En tus manos yo quiero pesar menos
De lo que pesan — luces — los pensamientos buenos.

Liviana más que el aire, más que el aire liviana;
Como globo de espuma que asciende en la mañana.

Espuma, brisa, aroma, capullo, flor, fragancia:
Llévame para siempre sin rumbo ni distancia.

Amalia Bautista – Ver o Sol

Era tudo mentira e me convenço
no momento mais inoportuno.
O amor não era amor. Eram os beijos
uma maneira de saciar a sede.
As carícias, o modo de nos guiarmos
no meio da noite. Ouço agora
a voz da tristeza: se pretendes
ver o sol, deves à contraluz
contemplar um ovo semicozido.

Trad.: Nelson Santander

Ver el sol

Era todo mentira y me convenzo
en el momento más inoportuno.
El amor no era amor. Eran los besos
una manera de apagar la sed.
Las caricias, el modo de orientarnos
en medio de la noche. Oigo ahora
la voz de la tristeza: si pretendes
ver el sol, deberías al trasluz
mirar un huevo pasado por agua.

José Mateos – Caminhantes na Neblina

Símbolo da morte é esta neblina
que hoje me envolve nos ecos do bosque solitário,
que apaga os caminhos e tudo iguala,
que faz mais longe o próximo?

Assim será a morte?
Ouvir ao lado
as pessoas que amamos e não vê-las?
Saber que em nossa casa nos aguardam,
e não poder,
e não saber chegar até ela?
Onde estais amigos, pai, irmão?
E todas essas sombras
antes não eram árvores douradas?

Trad.: Nelson Santander

Paseantes en la Niebla

¿Símbolo de la muerte es esta niebla
que hoy me envuelve en los ecos del bosque solitario,
que borra sendas y la iguala todo,
que hace que esté más lejos lo cercano?

¿Así será la muerte?
¿Oír al lado
las personas que amamos y no verlas?
¿Saber que en nuestra casa nos aguardan,
y no poder,
y no saber llegar a ella?
¿A dónde estáis, amigos, padre, hermano?
Y todas esas sombras
¿antes no eran árboles dorados?

 

Angela Figuera Aymerich – Princípio e Fim (na morte de minha mãe)

Já tenho minha raiz debaixo da terra.
Já um pouco morta contigo, mãe,
há algo da minha vida que se decompõe
contigo, com teus ossos delicados,
com tuas veias azuis, com teu ventre
que côncavo sofreu, dando-me forma.
Na ignorância, mãe, não no pecado
mostraste-me como a vida brota.
Como a carne cresce e se divide
no centro sagrado da mulher.
Pequena e frágil foste. Pesava-te
um filho atrás do outro no regaço
com um humilde assombro de perceber-te
permanentemente repleta e frutificada.
E eu saí de ti com outra força.
Com uma ardente audácia de perguntas
que tu jamais havias formulado
quando a vida se te dava em júbilo
ou te assediava em duro sofrimento.
Que não estavam sequer na terrível
angústia suplicante de teus olhos
que só me pediam uma trégua,
um impossível alívio
para essa dor, para esse medo infinito
de bicho na armadilha sem saída
com que a morte, mãe, se te incutia.
Eu te vi partir. Sem te deteres.
Sem ajudar-te. Ninguém pode faze-lo
nessa hora. Todos vamos sozinhos
à nossa própria destruição. Não pude,
não pude acompanhar-te, minha mãe,
dar-te segurança em tua jornada
nem sorrir-te do outro lado
da pesada porta silente
que um dia se nos abre bruscamente,
sempre para fora, nunca como via de retorno.
E tive que soltar, fria, indefesa,
tua mão que à minha se aferrava
pedinte de um calor e uma esperança
que haviam desertado de teu sangue.
Eu sei que confiavas, supondo
em mim uma vaga onipotência, alguma coisa qualquer
capaz de te dar apoio. E eu somente
sentia uma dulcíssima ternura,
uma tremenda compaixão inútil
por teu absoluto, enorme desamparo.
E nada pude fazer. Nem sequer
ficar junto a ti. Colocas-te-me
terrivelmente distante. Separada.
Alheia. Quase hostil em teu mistério.
Indecifrável em tua quietude. Agora
aquilo de mim que estava em tuas entranhas,
que foi o meu princípio e persistia
em tua secreta intimidade, apodrece
contigo – minha raiz – ou talvez viva
como um caule profundo, recatado,
na terra que fecundas enquanto me esperas.

Trad.: Nelson Santander

Principio Y Fin (En la muerte de mi Madre)

Ya tengo mi raíz bajo la tierra.
Un poco muerta ya contigo, madre,
hay algo de mi vida que se pudre
contigo, con tus huesos delicados,
con tus azules venas, con tu vientre
que cóncavo sufrió dándome forma.
En la ignorancia, madre, no en pecado
me hiciste tú como la vida brota.
Como la carne crece y se divide
en el sagrado centro de la hembra.
Pequeña y débil fuiste. Te pesaba
un hijo tras de otro en el regazo
con un humilde asombro de mirarte
continuamente llena y frutecida.
Y yo salí de ti con otra fuerza.
Con una ardiente audacia de preguntas
que tú jamás te habías formulado
cuando la vida se te daba en júbilo
o te acosaba en duro sufrimiento.
Que no estaban siquiera en la terrible
angustia suplicante de tus ojos
que sólo me pedían una tregua,
un imposible alivio
a ese dolor, a ese infinito miedo
de bestezuela en cepo sin huida
con que la muerte, madre, te llegaba.
Yo te veía ir. Sin retenerte.
Sin ayudarte. Nadie puede hacerlo
en esa hora. Todos vamos solos
a nuestra propia destrucción. No pude,
no pude acompañarte, madre mía,
poner seguridad en tu camino
ni sonreírte desde el otro lado
de la pesada puerta silenciosa
que un día se nos abre bruscamente,
siempre hacia afuera, nunca hacia el retorno.
Y tuve que soltar, fría, indefensa,
tu mano que a la mía se acogía
mendiga de un calor y una esperanza
que habían desertado de tu sangre.
Yo sé que confiabas, suponiendo
en mí una vaga omnipotencia, un algo
capaz de sostenerte. Y yo tan solo
sentía una blandísima ternura,
una tremenda compasión inútil
por tu absoluto, enorme desamparo.
Y nada pude hacer. Ni tan siquiera
quedarme junto a ti. Te me pusiste
horriblemente lejos. Separada.
Ajena. Casi hostil en tu misterio.
Indescifrable en tu quietud. Ahora
eso de mí que estaba en tus entrañas,
que fue principio mío y persistía
en tu secreta intimidad, se pudre
contigo –mi raíz– o acaso vive
como un tallo profundo, recatado,
en tierra que tú abonas aguardándome.

Spencer Reece – Portofino

Prometa-me que você não esquecerá Portofino.
Prometa-me que você encontrará o trompe l’oeil
nas paredes daquele quarto no Splendido.
As paredes que criam um cenário em que você não pode entrar.

Talvez então você compreenda esse anseio
por permanência do qual sempre lhe falei.
Além do porto? Uma capela amarela. Um penhasco.
Prometa-me que você assistirá ao dia declinar.

E quando o céu escurecer, quando as estrelas se alastrarem
até se estilhaçarem no fim do oceano,
você saberá que o que eu falei é verdade
quando disse que o abandono é lindo.

Trad.: Nelson Santander

Portofino

Promise me you will not forget Portofino.
Promise me you will find the trompe l’oeil
on the bedroom walls at the Splendido.
The walls make a scene you cannot enter.

Perhaps then you will comprehend this longing
for permanence I often mentioned to you.
Across the harbor? A yellow church. A cliff.
Promise me you will witness the day diminish.

And when the roofs darken, when the stars drift
until they shatter on the sea’s finish,
you will know what I told you is true
when I said abandonment is beautiful.

Joan Margarit – Era Rubra

     A Àlex Susanna

Tanto tempo demoraste a aprender
que estás atrasado para o grande amor:
que nunca viveste uma era de ouro.
As rosas de Ronsard
jamais serão perfume em teu olhar,
nenhum outono haverá de desfolhar
morosas pétalas nos braços de ninguém.
Com negligência tapas os espelhos
como era costume em casas
onde havia um finado.
Não voltam as mulheres com as quais
permutavas anos de tua solidão
por um fugaz momento de ternura.
Tão ardente é a vida no outono
que nas horas de angústia não poderás
amar nem a mulher que já perdeste.

Trad.: Nelson Santander

Edad roja

     A Àlex Susanna

Tanto tiempo has tardado en aprender
que llegas tarde al gran amor:
Que nunca habrás vivido una edad de oro.
Las rosas de Ronsard
nunca serán perfume en tu mirada,
ningún otoño habrá de deshojar,
en los brazos de nadie, lentos pétalos.
Con el olvido tapas los espejos
igual que acostumbraban en las casas
donde había un difunto.
No vuelven las mujeres con las cuales
cambiabas años de tu soledad
por un fugaz momento de ternura.
Tan ardiente es la vida en el otoño,
que en las horas de angustia no podrás
amar ni a la mujer que ya has perdido.

Joan Margarit – A partida

Definitivamente, este é o meu Outono,
um tempo de alianças impossíveis,
a era rubra de todos os perigos
para homens maduros e mulheres solitárias.
A idade do adultério e da desmemória
sem nenhuma esperança, a era do gelo,
a partida final contra mim mesmo.
Mantenho-me à mesa, sem esperar pela sorte,
já não há chances neste jogo.
É o tempo de jogar paciência
com as cartas marcadas da vida.

Trad.: Nelson Santander

La partida

Definitivamente se trata de mi otoño,
un tiempo de alianzas imposibles,
la edad roja de todos los peligros
para hombres maduros y chicas solitarias.
La edad del adulterio y el olvido
sin ninguna esperanza, la edad fría,
la partida final contra uno mismo.
Permanezco en la mesa, sin esperar la suerte,
ya no cabe el azar en este juego.
Es el tiempo de hacer un solitario
con las cartas marcadas de la vida.

Wendell Berry – A Paz das Coisas Selvagens

Quando as dores do mundo crescem em mim
e eu desperto na noite a um mínimo ruído
temendo pelo que poderá ser de minha vida e das de meus filhos,
eu saio e me deito onde o pato carolino
descansa em sua beleza na água, e a garça se alimenta.
Eu penetro na paz das coisas selvagens
que não tributa suas vidas com premeditações
de tristeza. Eu me coloco na presença da água parada.
E eu sinto acima de mim as estrelas cegas
esperando com suas luzes. Por um tempo
eu descanso na graça do mundo, e me sinto livre.

Trad.: Nelson Santander

The Peace of the Wild Things

When despair for the world grows in me
and I wake in the night at the least sound
in fear of what my life and my children’s lives may be,
I go and lie down where the wood drake
rests in his beauty on the water, and the great heron feeds.
I come into the peace of wild things
who do not tax their lives with forethought
of grief. I come into the presence of still water.
And I feel above me the day-blind stars
waiting with their light. For a time
I rest in the grace of the world, and am free.

Tamara Kamenszain – O Eco de Minha Mãe

Não posso narrar.
Que pretérito me serviria
se minha mãe já não se afasta mais de mim?
Exúbere então me detenho
ante um estado de coisas demasiado presente:
ser a descuidada que dela cuida
enquanto outros a negligenciam por mim.
São as pessoas que me restaram
e a gramática se torna um escândalo
quando ela que esqueceu as palavras
ultrapassa seu bebê furioso
com o fim de dizer tudo
embora não se entenda nada.

Trad.: Nelson Santander
 

El eco de mi madre

No puedo narrar.
¿Qué pretérito me serviría
si mi madre ya no me teje más?
Desmadrada entonces me detengo
ante un estado de cosas demasiado presente:
ser la descuidada que la cuida
mientras otros la descuidan por mí.
Son personas que me sobran
y la gramática se torna un escándalo
cuando ella que olvidó las palabras
adelanta su bebé furioso
con el fin de decirlo todo
aunque no se entienda nada.

José Mateos – In Memoriam

   Para Pedro Sevilla

Sempre, frente à dor, estamos sozinhos,
não se quer viver, e tu sabes disso.
Há um instante viste, na penumbra
de um quarto de hospital, a mão hirta,
seu rosto naufragado que o lençol cobriu.
E era como mirar-se em um espelho
e ver que somos menos que essa ausência,
menos que a névoa que o ar entorna.

Já sei; sentes que agora a noite
somente declara sua absurda palavra,
e vês a humilhação, vês o esforço
que foi esta despedida.
            Não obstante,
escuta-me: não sofras. Porque sempre
– mesmo nos dia nublados,
ou quando acontece o inevitável, mesmo então –
a resposta é a vida que foge e segue,
nunca a dor nem tuas indagações ao Nada.

Trad.: Nelson Santander

En Memoria

   Para Pedro Sevilla

Siempre frente al dolor uno está solo,
no se quiere vivir, y tú lo sabes.
Hace un momento has visto, en la penumbra
de un cuarto de hospital, la mano yerta,
su rostro hundido que cubrió la sábana.
Y era como mirarse en un espejo
y ver que somos menos que esa ausencia,
menos que el humo que despeja el aire.

Ya sé; sientes que ahora únicamente
dice la noche su palabra absurda,
y ves la humillación, ves el esfuerzo
que fue esta despedida.
            Sin embargo,
escúchame: no sufras. Porque siempre
– incluso cuando un día pasan nubes,
pasa lo inevitable, incluso entonces —
la respuesta es la vida que huye y sigue,
nunca el dolor ni su pregunta a Nadie.