Francisco Brines – Os Verões

        A Carmen Marí

Foram longos e ardentes os verões!
Ficamos nus juntos ao mar,
e o mar ainda mais nu. Com os olhos,
e em corpos ágeis, praticamos
a mais prazerosa posse do mundo.

Soavam para nós as vozes iluminadas de lua,
e era a vida abrasadora e violenta,
ingratos com o sonho, fluíamos.
O ritmo sombrio das ondas
nos abrasava eternamente, e éramos apenas tempo.
Apagavam-se as estrelas ao amanhecer
e, com a luz que fria regressava,
furioso e delicado se iniciava o amor.

Hoje parece um engano que fôssemos felizes
ao modo imerecido dos deuses.
Que estranha e breve foi a juventude!

Trad.: Nelson Santander

Los Veranos

¡Fueron largos y ardientes los veranos!
Estábamos desnudos junto al mar,
y el mar aún más desnudo. Con los ojos,
y en unos cuerpos ágiles, hacíamos
la más dichosa posesión del mundo.

Nos sonaban las voces encendidas de luna,
y era la vida cálida y violenta,
ingratos con el sueño transcurríamos.
El ritmo tan oscuro de las olas
nos abrasaba eternos, y éramos solo tiempo.
Se borraban los astros en el amanecer
y, con la luz que fría regresaba,
furioso y delicado se iniciaba el amor.

Hoy parece un engaño que fuésemos felices
al modo inmerecido de los dioses.
¡Qué extraña y breve fue la juventud!

Javier Salvago – Ano Novo

Como as coisas não podiam
ficar pior
– escreveu Kafka,
em seu Diário – melhoraram.

Como eu gostaria, ante este negro
e inóspito horizonte que se abre,
diante de mim – como mais um ano,
ou como menos um ano -,
de poder dizer o mesmo.
Mas sinto
que ainda não cheguei ao fundo,
que há mais miséria, mais dor, mais tédio
mais adiante, que as coisas
podem piorar.
Que o pior, por assim dizer,
ainda está por vir.

Trad.: Nelson Santander

Javier Salvago – Año Nuevo

Como las cosas no podían
ir a peor
— escribió Kafka,
en su Diario —, mejoraron.

Cómo me gustaría, ante este negro
e inhóspito horizonte que se abre,
ante mí — como un año más,
o como un año menos —,
poder decir lo mismo.
Pero siento
que no he tocado fondo,
que hay más miseria, más dolor, más tedio
más adelante, que las cosas
pueden empeorar.
Que lo peor, como quien dice,
aún está por llegar.

Nota do tradutor: 1º de janeiro de 2019: o dia em que Jair Messias Bolsonaro tomou posse como o 38º Presidente da República Federativa do Brasil. Ano novo?

The White Buffalo – This Year

Acho que toda mensagem de “Feliz Ano Novo” se resume à ideia contida na letra desta música: tente melhorar sempre e sempre. Se não der, tente de novo no ano que vem. E no outro. E no outro. Uma hora dá certo. Ou não.

Feliz 2019!

The White BuffaloThis Year (Tradução e Legendas: Nelson Santander)

Joan Margarit – Canção de Ninar

Dorme, Joana.
E que este Loverman obscuro e trágico
do sax de teu irmão em Montjuïc
possa acompanhar-te
toda a eternidade pelos caminhos
que são bem conhecidos pela música.
Dorme, Joana, dorme.
E de preferência não esqueças
de teus anos no ninho
que dentro de nós tu deixaste.
Enquanto envelhecemos,
conservaremos todas as cores
que brilharam em teus olhos.
Dorme, Joana. Esta é nossa casa,
e tudo ilumina teu sorriso.
Um tranquilo silêncio: aqui esperamos
arredondar estas pedras de dor
para que o quanto foste seja música,
a música que preenche o nosso inverno.

Trad.: Nelson Santander

Canción de Cuna

Duerme, Joana.
Y que este Loverman oscuro y trágico
del saxo de tu hermano en Montjuïc
te pueda acompañar
toda la eternidad por los caminos
que son bien conocidos por la música.
Duerme, Joana, duerme.
Y a poder ser no olvides
tus años en el nido
que dentro de nosotros has dejado.
Mientras envejecemos,
conservaremos todos los colores
que han brillado en tus ojos.
Duerme, Joana. Esta es nuestra casa,
y todo lo ilumina tu sonrisa.
Un tranquilo silencio: aquí esperamos
redondear estas piedras del dolor
para que cuanto fuiste sea música,
la música que llene nuestro invierno.

José Mateos – Canção 10

Canção 10

(Ruínas de Bolonha)

Disse o sol do entardecer,
aqui, defronte ao mar:
Morrer
é começar a voltar.

Trad.: Nelson Santander

José Mateos – Canción 10

(Ruinas de Bolonia)

Aquí, frente al mar, lo dice
el sol del atardecer:
Morir
es empezar a volver.

Joan Margarit – Cemitério de Montjuïc

Algo permanece das almas,
como a brisa que surge
depois que alguém passou,
e que faz estremecer
uma leve cortina na janela.
Pelo caminho de pedras ásperas que não esquecem
mas calam, severas, o que sabem,
o vento deixa um silêncio de lágrimas
por vidas como as nossas, perdidas.
“Jazigo perpétuo”, a terra
sempre dura, fileiras de ciprestes:
provinciano teatro da morte.
Nosso amor é como o eles perderam.
Já é de noite. Olhe, do cume
da colina dos mortos, sob o céu negro,
as luzes da cidade:
um navio ancorado no firmamento
esperando-nos para zarpar.

Trad.: Nelson Santander

Joan Margarit – Cementerio de Montjuïc

Algo queda de las ánimas,
como la brisa que surge
después de que alguien ha pasado,
y que hace estremecer
una leve cortina en la ventana.
Por la senda de piedras ásperas que no olvidan
pero callan, severas, lo que saben,
el viento deja un silencio de lágrimas
por vidas como la nuestra, perdidas.
«Concesión perpetua», la tierra
siempre dura, hileras de cipreses:
provinciano teatro de la muerte.
Nuestro amor es como el que ellos perdieron.
Ya es de noche. Mira, desde la cumbre
de la colina de los muertos, bajo el cielo negro,
las luces de la ciudad:
un navío anclado en el firmamento
que está esperándonos para zarpar.

Luis Alberto de Cuenca – Quando Penso nos Velhos Amigos

Quando penso nos velhos amigos que saíram
de minha vida, unindo-se a más mulheres
que alimentam seu medo e os enchem de filhos
para tê-los por perto, controlados e inermes.

Quando penso nos velhos amigos que se foram
para o país da morte, sem passagem de volta,
só porque procuraram o deleite nos corpos
e o olvido nas drogas que abrandam a tristeza.

Quando penso nos velhos amigos que, no fundo
das águas da memória, me ofertaram um dia
a estranha sensação de não me sentir só
e a cumplicidade de um sorriso sincero…

Trad.: Nelson Santander
 

Luis Alberto de Cuenca – Cuando pienso en los viejos amigos

Cuando pienso en los viejos amigos que se han ido
de mi vida, pactando con terribles mujeres
que alimentan su miedo y los cubren de hijos
para tenerlos cerca, controlados e inermes.

Cuando pienso en los viejos amigos que se fueron
al país de la muerte, sin billete de vuelta,
sólo porque buscaron el placer en los cuerpos
y el olvido en las drogas que alivian la tristeza.

Cuando pienso en los viejos amigos que, en el fondo
del mar de la memoria, me ofrecieron un día
la extraña sensación de no sentirme solo
y la complicidad de una franca sonrisa…

Ian Hamilton – Poema de Aniversário

Firme em suas mãos
Sua caneca de barbear com a Exposição do Império.
Você a conserva agora
Como escarradeira, as pombas presunçosas,
O 1938 dela
Manchados por gotas de seu sangue.
Esta noite,
Meio sufocado, canceroso,
Desiludido,
Você bate os dentes contra sua boca dourada de porcelana
E espera por um ataque.

Trad.: Nelson Santander

Ian Hamilton – Birthday Poem

Tight in your hands,
Your Empire Exhibition shaving mug.
You keep it now
As a spittoon, its bloated doves,
Its 1938
Stained by the droppings of your blood.
Tonight,
Half-suffocated, cancerous,
Deceived,
You bite against its gilded china mouth
And wait for an attack.

Ian Hamilton – Memorial

Quatro lápides desgastadas inclinam-se contra a parede
do seu hospício Vitoriano.
Além dos limites, você se ajoelha na grama alta
Decifrando nomes obliterados:
Velhos lunáticos que aqui morreram.

Trad.: Nelson Santander

Ian Hamilton – Memorial

Four weathered gravestones tilt against the wall
Of your Victorian asylum.
Out of bounds, you kneel in the long grass
Deciphering obliterated names:
Old lunatics who died here.

Joan Margarit – Tchaicovsky

Não te suicides nunca. Olha a escuridão:
nunca poderás saber quem te estende a mão.
Lembras-te do inverno de luz nos cristais
e a cumplicidade daquela música?
Ouço a Patética e me vejo
desejando que a morte de Joana
nos devolvesse a ordem e a felicidade
que acreditamos perder quando ela nasceu.
Amor meu, Joana, a ternura
que desejava matar como a aquelas crianças
que nas tragédias são uma ameaça
para o futuro dos assassinos.
Como as deteremos, nossas mãos?
Escuto a Patética derrotado,
como tu, pelo tempo e pelo amor.
Tenho seus olhos – quem os inventou, olhares? -,
os olhos que não os tinham estátua nenhuma
de Fídias. Estes olhos,
que já me perdoaram, de Joana.

Trad.: Nelson Santander

Joan Margarit – Tchaicovsky

No te suicides nunca. Mira la oscuridad:
jamás podrás saber quien te tiende la mano.
¿Recuerdas el invierno de luz en los cristales
y la complicidad de aquella música?
Escucho la Patética y me veo
deseando que la muerte de Joana
nos devolviera el orden y la felicidad
que creímos perder cuando nació.
Amor mío, Joana, la ternura
que deseava matar como a esos niños
que en las tragedias son una ameaza
para el futuro de los asesinos.
¿Cómo las detuvimos, nuestras manos?
Escucho la Patética vencido,
como tú, por el tiempo y el amor.
Tengo sus ojos – ¿quién os inventó, miradas? -,
los ojos que no tuvo estatua alguna
de Fidias. Estos ojos,
que ya me han perdonado, de Joana.