Raúl Ferruz – Com os olhos bem abertos

Quando meu avô sorria depois de cada gole de água,
isso significava. Não sabes o que é beber o próprio mijo.
Quando desenhava uma parábola no ar que só ele via,
isso significava. Fogo cruzado.
Quando tapava o rosto para que não o víssemos chorar,
isso significava. Os alemães nos infligiram horrores.
Quando fechava a porta do banheiro para que não o víssemos mijar,
isso também significava. Os alemães nos infligiram horrores.
Um dia, estendeu os braços para mim, e isso significou. Estou morrendo.
Depois disso caiu no chão. E
morreu com os olhos bem abertos.
Encarando o céu inimigo.
Duas guerras depois.

Trad.: Nelson Santander

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Con los ojos muy abiertos

Cuando mi abuelo sonreía después de cada sorbo de agua,
eso significaba. No sabes lo que es beber tu propia meada.
Cuando dibujaba una parábola en el aire que sólo él veía,
eso significaba. Fuego cruzado.
Cuando se tapaba la cara para que no pudiésemos verle llorar,
eso significaba. Los alemanes nos hicieron cosas horribles.
Cuando cerraba la puerta del baño para que no pudiésemos verle mear,
eso también significaba. Los alemanes nos hicieron cosas horribles.
Un día, me tendió los brazos, y eso significó. Me estoy muriendo.
Después de eso, se desplomó sobre el suelo. Y
murió con los ojos muy abiertos.
Mirando el cielo enemigo.
Dos guerras después.

Anne Sexton – A noite estrelada

A noite estrelada

Isso não me impede de ter uma terrível necessidade de — devo dizer a palavra — religião. Então, saio à noite para pintar as estrelas.

– Vincent Van Gogh, em uma carta ao seu irmão

A cidade não existe,
exceto onde uma árvore de cabelos negros desliza
como uma mulher afogada no ar abrasador.
A cidade está em silêncio. A noite fervilha com onze estrelas.
Ó, noite estrelada! É assim que
quero morrer.

Elas se movem. Todas estão vivas.
Até a lua incha em seus ferros laranja
para, como um deus, afastar as crianças de seu olho.
A antiga serpente invisível engole as estrelas.
Ó, noite estrelada! É assim que
quero morrer:

naquela fera veloz da noite,
sugada por aquele grande dragão, para me separar
de minha vida sem bandeira,
sem ventre,
sem grito.

Trad.: Nelson Santander

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The starry night

That does not keep me from having a terrible need of — shall I say the word — religion. Then I go out at night to paint the stars.

– Vincent Van Gogh in a letter to his brother

The town does not exist
except where one black-haired tree slips
up like a drowned woman into the hot sky.
The town is silent. The night boils with eleven stars.
Oh starry starry night! This is how
I want to die.

It moves. They are all alive.
Even the moon bulges in its orange irons
to push children, like a god, from its eye.
The old unseen serpent swallows up the stars.
Oh starry starry night! This is how
I want to die:

into that rushing beast of the night,
sucked up by that great dragon, to split
from my life with no flag,
no belly,
no cry.

Jorge Valdés Díaz-Vélez – Cruzeiro do Sul

Ardem as folhas do outono
na umidade crepuscular
de Buenos Aires. Contra um parque
dividido por três colinas,
a opacidade de sua beleza
procura nas folhagens o olhar
que acompanhou a luz. As lâmpadas
douradas mantêm suas memórias
e acendem sombras no gramado.

Ao entardecer, se organizam
o horizonte de troncos
e o suave tato dos olhos
para construir-se outro cômodo
para os pássaros. Em silêncio
sobes as ruas e regressas
ao canto da noite. Permanece
em teus lábios o murmúrio
que, ao abandono, pronunciaste,
a sobra de palavras
deixadas na solidão
de um quarto acolhedor, já escuro.

Áspero em sua constelação,
o Cruzeiro do Sul abre suas pontas
enquanto aguardo tua chegada
porque não és tu quem voltaste
a resplandecer junto ao eco,
mas tuas pegadas fundas, tênues
fragmentos de um espelho em chamas
que te viu entrar cegamente
nas membranas do desejo.

Trad.: Nelson Santander

Cruz del sur

Arden las hojas del otoño
en la humedad crepuscular
de Buenos Aires. Contra un parque
dividido por tres colinas,
la opacidad de su belleza
busca en follajes la mirada
que acompañó la luz. Las lámparas
doradas guardan sus memorias
y encienden sombras en el césped.

Al atardecer se disponen
el horizonte de cortezas
y el suave tacto de los ojos
para construirse otra estancia
con los pájaros. En silencio
subes las calles y regresas
al canto de la noche. Queda
entre tus labios el murmullo
que al abandono pronunciaste,
la rozadura de palabras
dejadas en la soledad
de un cuarto cálido, ya oscuro.

Áspera en su constelación,
la Cruz del Sur abre sus puntas
mientras aguardo tu llegada
porque no eres tú quien ha vuelto
a resplandecer junto al eco,
sino tus huellas hondas, tenues
fragmentos de un espejo en llamas
que te observó al entrar a ciegas
en las membranas del deseo.

James Elroy Flecker – A um poeta daqui a mil anos

Eu, que há mil anos concluí meu percurso,
E escrevi esta doce e arcaica canção,
Por arautos te envio este discurso
Por estradas que meus pés não trilharão.

Não me importa se os mares tu transpões,
Ou se galgas em segurança um céu mau,
Se eriges exímias fortificações
Feitas de alvenaria ou de metal.

Mas ainda tens canções e o hidromel,
E estátuas e amores de olhos brilhantes,
E tolas ideias sobre o bem e o mal
E as orações para seres arrogantes?

E como iremos triunfar? Como um vento
vespertino que nossos sonhos propala,
como o velho e cego Homero, agourento,
três mil anos antes já imaginara.

Ó amigo oculto, ignoto, não nascido,
da doce língua inglesa um estudante,
Lê à noite e sozinho o que eu digo:
Eu estava em meu auge, eu era um vate.

Como nunca poderei ver tua fronte,
E minha mão tu nunca apertarás,
Vai minh’alma além do tempo e do horizonte
Para cortejá-lo. Tu entenderás.

Trad.: Nelson Santander

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To a poet a thousand years hence

I who am dead a thousand years,
And wrote this sweet archaic song,
Send you my words for messengers
The way I shall not pass along.

I care not if you bridge the seas,
Or ride secure the cruel sky,
Or build consummate palaces
Of metal or of masonry.

But have you wine and music still,
And statues and a bright-eyed love,
And foolish thoughts of good and ill,
And prayers to them who sit above?

How shall we conquer? Like a wind
That falls at eve our fancies blow,
And old Maeonides the blind
Said it three thousand years ago.

O friend unseen, unborn, unknown,
Student of our sweet English tongue,
Read out my words at night, alone:
I was a poet, I was young.

Since I can never see your face,
And never shake you by the hand,
I send my soul through time and space
To greet you. You will understand.

Juan Vicente Piqueras – Oração do incrédulo

O importante é rezar, não importa a quem,
que as perguntas sejam as orações
do pensamento, plantem sua semente
em nossa solidão, e que não exista paz
que, à força de insistir, seja capaz
de não existir, não tenha remédio
senão atender à voz de quem a chama.

Que deus não exista, acaso
é razão para nele não crer?

Deus é o nome da sede, a sina
e a querência desta solidão
em que ambos consistimos.

De ninguém falo com deus, de deus com ninguém.
Escrevo-o com cuidado e em minúscula.
Sou ateu e laico todos os dias.
Mas há noites amnióticas
em que minha alma reza de joelhos,
não importa a quem,
pergunta, espera, pede.

E minha alma ajoelhada é uma vela
à luz da qual, em cuja noite, escrevo.

Trad.: Nelson Santander

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Plegaria del descreído

Lo importante es rezar, no importa a quién,
que las preguntas sean las plegarias
del pensamiento, planten su semilla
en nuestra soledad, y no haya paz
que, a fuerza de insistir, sea capaz
de no existir, no tenga más remedio
que acudir a la voz de quien la llama.

Que dios no exista, ¿acaso
es razón para no creer en él?

Dios es el nombre de la sed, el sino
y la querencia de esta soledad
en que ambos consistimos.

De nadie hablo con dios, de dios con nadie.
Lo escribo con cuidado y con minúscula.
Yo soy ateo y laico cada día.
Pero hay noches amnióticas
en que mi alma reza de rodillas
no importa a quién,
pregunta, espera, pide.

Y mi alma arrodillada es una vela
a cuya luz, en cuya noche, escribo.

Charles Bukowiski – oh, sim

há coisas piores do que
estar sozinho
mas muitas vezes leva décadas
para perceber isso
e na maioria das vezes
quando você percebe
é tarde demais
e não há nada pior
do que
tarde demais

Trad.: Nelson Santander

oh, yes

there are worse things than
being alone
but it often takes decades
to realize this
and most often
when you do
it’s too late
and there’s nothing worse
than
too late

Emily Dickinson – Após grande dor sobrevém um sentimento austero

Após grande dor sobrevém um sentimento austero –
Os Nervos ficam cerimoniosos como um cemitério –
Indaga o rijo Coração se foi Ele que sofreu,
Se Ontem, ou Séculos antes aconteceu?

Os pés, mecânicos, circundam sem cessar –
Nos Sopés, no Ar, em qualquer Lugar –
Um caminho de madeira
Que indiferentemente medra
Um contentamento de Quartzo, uma pedra –

A Hora de Chumbo chegou –
Lembrada, para quem perdurou,
Como as pessoas congeladas recordam a neve –
Primeiro – o Frio – após o Torpor – e por fim o até breve –

Trad.: Nelson Santander

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After great pain a formal feeling comes

After great pain a formal feeling comes –
The Nerves sit ceremonious, like Tombs –
The stiff Heart questions was it He, that bore,
And Yesterday, or Centuries before?

The feet, mechanical, go round –
Of Ground, or Air, or Aught –
A Wooden way
Regardless grown,
A Quartz contentment, like a stone –

This is the Hour of Lead –
Remembered, if outlived,
As Freezing persons, recollect the snow –
First – Chill – then Stupor – then the letting go –

William Carlos Williams – Nevasca

Neve:
anos de fúria seguindo
horas que flutuam indolentes —
a nevasca
deposita seu fardo
cada vez mais fundo por três dias
ou sessenta anos, não? Então
o sol! um tumulto de
flocos amarelos e azuis —
Árvores de aparência hirsuta destacam-se
em longas alamedas
sobre uma selvagem solidão.
O homem se vira e lá —
seu solitário rastro estendendo-se
sobre o mundo.

Trad.: Nelson Santander

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Blizzard

Snow:
years of anger following
hours that float idly down —
the blizzard
drifts its weight
deeper and deeper for three days
or sixty years, eh? Then
the sun! a clutter of
yellow and blue flakes —
Hairy looking trees stand out
in long alleys
over a wild solitude.
The man turns and there —
his solitary track stretched out
upon the world.

Susana Cattaneo – Quando já não estiver…

Quem porá o pé
sobre a marca que o meu deixou?
Quem olhará estas árvores
onde meus olhos deixaram sinais?
Alguém ouvirá cantar um pássaro
que será outro.
Alguém respirará os mesmos pinheiros
de um verde mais cansado.
A vida será uma folha em branco
e não poderei timbrá-la com minha palavra.

Trad.: Nelson Santander

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Cuando ya no esté…

¿Quién pondrá el pie
sobre la marca que dejó el mío?
¿Quién mirará estos árboles
donde mis ojos dejaron huellas?
Alguien oirá cantar un pájaro
que será otro.
Alguien respirará los mismos pinos
de un verde más cansado.
La vida será un papel en blanco
y no lo podré sellar con mi palabra.

Laurie Lee – A sombra abandonada

Percorrendo a sombra abandonada
das habitações da minha infância,
meus ouvidos relembram o badalar,
ouvindo suas vozes soterradas.

Ouço o verão primordial,
as margens da aurora iluminadas por aves,
o pulsar de sangue da escrevedeira-amarela
dourando meus olhos de berço.

Ouço a lua-de-estanho subir
e a moeda do crepúsculo cair,
o rastejar da geada e o gemido
do degelo e o pio dos piscos no inverno.

Ouço novamente a casa falante
e as quatro vogais do vento,
e o sussurrar dos monstros da meia-noite
na lívida garganta do meu quarto.

Liturgia das estações e da paisagem,
o texugo e a persistência da chuva,
o trissar dos morcegos e o salto dos
coelhos borbulhando sob a colina:

Cada língua antiga e ecoada
canta para o meu olhar que recua,
mas a voz do menino, o menino que procuro,
na minha boca está muda.

Trad.: Nelson Santander

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The abandoned shade

Walking the abandoned shade
of childhood’s habitations,
my ears remembering chime,
hearing their buried voices.

Hearing original summer,
the birdlit banks of dawn,
the yellow-hammer beat of blood
gilding my cradle eyes.

Hearing the tin-moon rise
and the sunset’s penny fall,
the creep of frost and weep of thaw
and bells of winter robins.

Hearing again the talking house
and the four vowels of the wind,
and midnight monsters whispering
In the white throat of my room.

Season and landscape’s liturgy,
badger and sneeze of rain,
the bleat of bats, and bounce of rabbits
bubbling under the hill:

Each old and echo-salted tongue
sings to my backward glance;
but the voice of the boy, the boy I seek,
within my mouth is dumb.