ainda é possível ouvir (mais fundo, mais fundo, você encontra) o som da lama se arrastando por baixo das portas e aos pés do sofá (o que há é o homem, esse bicho) nos vãos da estante e no meio dos livros nas gavetas da geladeira (que invade a terra procurando outro homem) na altura do peito e entre os dentes na clareira dos cabelos e na mão (o que há é o homem, fera descontente) entre os dedos do pé e entre os dedos da mão no jardim morto (cavando sua própria cova) na linha da memória e na pia (mais fundo, mais fundo) nos sulcos do azulejo (rasgando o manto da terra para chegar a si mesmo) nas gretas e nos interstícios (o que há é esse bicho) nos orifícios e nas grutas do corpo (incansável, surdo de si, sem projeto) no oco do sonho no toco das unhas (comendo os próprios pés e o chão sob eles) invadindo os relógios e os lençóis nas palavras (cada vala, cada veia) e entre os versos nos parágrafos e nas ideias abandonadas (ali está, espelho) caindo do chuveiro dura (o homem diante do homem) e inegociável comendo o pão e o chão (o lobo e suas garras roendo) bebendo toda a água da casa (mais fundo, mais fundo) engasgando vozes (ali está o homem) fundindo meus gritos aos seus ruminando (cada vez mais homem, cada vez mais bicho) como fede como fende come o tempo come a fuga come (homem não tem limite) e cospe e rói (bicho não pede licença) e cospe e
Tantos suicidas em Paris, Nova Iorque,
Genebra, Londres, Estocolmo e Madrid.
Homens e mulheres que se jogam pelas janelas,
do décimo ou décimo primeiro andar,
tentando voar no absurdo vento das cidades.
Bendito seja o suicídio, que nos iguala aos anjos
mais famosos na escala do Universo.
É temperamental, a morte por amor.
Suicida-te, não significa nada, o mundo resplandecerá
ainda mais e não haverá tristeza alguma porque já então ninguém te ama.
Homens e mulheres que dispararam de negras pistolas
contra suas inocentes e derrotadas têmporas,
que castigaram seu sistema digestivo
com cápsulas verdes e brancas, rubras e amarelas.
Não suportei quando me abandonaste, meu amor.
Não suportei ficar desempregado, meu amor.
Não podia ver-te com outra, meu amor.
São Ian Curtis, São Mariano José de Larra, Santa Silvia Plath,
a santa forca, a santa pistola e o santo gás,
e o amor sempre,
o amor
tão assassino.
Diga adeus ao teu corpo, já vazio.
Bendito seja o suicídio,
que nos afasta do escrutínio de todos os Imperadores.
Bendito seja o suicídio, o grande adeus dos lunáticos.
Que bela é a morte e seu irmão, o sonho,
disse um inglês ilustre.
Não podia suportar as nuvens, o mar, as ruas,
meu amor.
Cobre-me de terra, estarei bem não estando,
meu amor.
Compra-me um caixão barato, ficarei bem assim.
Não preciso que te lembres de mim, meu amor.
Trad.: Nelson Santander
Delia’s Gone
Bendito sea el suicidio.
Lo mejor de nuestro amor fue suicidarnos.
Tantos suicidas en París, en Nueva York,
en Ginebra, en Londres, en Estocolmo y en Madrid.
Hombres y mujeres que se arrojan por las ventanas,
desde décimos o undécimos pisos,
intentando volar en el absurdo viento de las ciudades.
Bendito sea el suicidio, que nos iguala a los ángeles
más famosos en las rutinarias gradas del Universo.
Es temperamental, la muerte por amor.
Suicídate, no significa nada, el mundo resplandecerá
aún más y no habrá tristeza alguna porque nadie te ama ya.
Hombres y mujeres que dispararon negras pistolas
contra sus inocentes y vencidas sienes,
que castigaron su aparato digestivo
con cápsulas verdes y blancas, rojas y amarillas.
No soporté que me abandonaras, amor mío.
No soporté quedarme sin trabajo, amor mío.
No podía verte con otra, amor mío.
San Ian Curtis, San Mariano José de Larra, Santa Silvia Plath,
la santa horca, la santa pistola y el santo gas,
y el amor siempre,
el amor
tan asesino.
Di adiós a tu cuerpo, se ha quedado vacío.
Bendito sea el suicidio,
que nos aleja de la mirada de todos los Emperadores.
Bendito sea el suicidio, el gran adiós de los lunáticos.
Qué bella es la muerte y su hermano el sueño,
dijo un inglés ilustre.
No podía soportar las nubes, el mar, las calles,
amor mío.
Cúbreme de tierra, estaré bien no estando,
amor mío.
Uma quadra de pequenas tumbas no cemitério.
Nós, que vivemos muito, passamos furtivamente,
como os ricos passam pelos bairros dos pobres.
Aqui jazem a Zosia, o Jacek, o Dominik,
prematuramente tirados do sol, da lua,
da mudança das estações, das nuvens.
Não juntaram muito na bagagem de volta.
Fragmentos de vista
não muito no plural.
Um punhado de ar com uma borboleta voando.
Uma colherzinha de saber amargo no sabor amargo do remédio.
Desobediências miúdas,
algumas delas mortais.
Corrida alegre atrás de uma bola na estrada.
Patinação feliz sobre o gelo fino.
Aquela ali e aquela ao lado e aqueles mais além:
antes de alcançarem a altura da maçaneta,
quebrarem o relógio,
estilhaçaram a primeira vidraça.
Malgorzata, de quatro anos,
dois dos quais deitada a fitar o teto.
Rafalek: faltou um mês para completar cinco anos,
e à Zuzia faltou a festa natalina
com a fumacinha da respiração no ar gelado.
Que dizer então de um dia de vida,
de um minuto, um segundo:
escuridão, o fulgor de uma lâmpada, escuridão de novo?
KÓSMOS MAKRÓS
CHRÓNOS PARÁDOKSOS
Só o grego pétreo tem palavras para isto.
Trad.: Regina Przybycien
Bagaż powrotny
Kwatera małych grobów na cmentarzu.
My, długo żyjący, mijamy ją chyłkiem,
jak mijają bogacze dzielnicę nędzarzy.
Tu leżą Zosia, Jacek, Dominik,
przedwcześnie odebrani słońcu, księżycowi,
obrotom roku, chmurom.
Niewiele uciułali w bagażu powrotnym.
Strzępki widoków
w liczbie nie za bardzo mnogiej.
Garstkę powietrza z przelatującym motylem.
Łyżeczkę gorzkiej wiedzy o smaku lekarstwa.
Drobne nieposłuszeństwa,
w tym któreś śmiertelne.
Wesołą pogoń za piłką po szosie.
Szczęście ślizgania się po kruchym lodzie.
Ten tam i tamta obok, i ci z brzegu,
zanim zdążyli dorosnąć do klamki,
zepsuć zegarek,
rozbić pierwszą szybę.
Małgorzatka, lat cztery,
z czego dwa na leżąco i patrząco w sufit.
Rafałek: do lat pięciu brakło mu miesiąca,
a Zuzi świąt zimowych
z mgiełką oddechu na mrozie.
Co dopiero powiedzieć o jednym dniu życia,
o minucie, sekundzie:
ciemność i błysk żarówki i znów ciemność?
KÓSMOS MAKRÓS
CHRÓNOS PARÁDOKSOS
Tylko kamienna greka ma na to wyrazy.
Se for março
quando o verão esmerila a grossa luz
nas montanhas do Rio
teu coração estará funcionando normalmente
entre tantas outras coisas que pulsam na manhã
ainda que possam de repente enguiçar.
Se for março e de manhã
as brisas cheirando a maresia
quando uma lancha deixa seu rastro de espumas
no dorso da baía
e as águas se agitam alegres por existirem
se for março
nenhum indício haverá
nas frutas sobre a mesa
nem nos móveis que estarão ali como agora
– e depois do desenlace – calados.
Tu de nada suspeitas
e te preparas para mais um dia no mundo.
Pode ser que de golpe
ao abrires a janela para a esplêndida manhã
te invada o temor:
”um dia não mais estarei presente à festa da vida”.
Mas que pode a morte em face do céu azul?
do escândalo do verão?
A cidade estará em pleno funcionamento
com suas avenidas ruidosas
e aciona este dia
que atravessa apartamentos e barracos
da Barra ao morro do Borel, na Glória
onde mendigos estendem roupas
sob uma passarela do Aterro
e é quando um passarinho
entra inadvertidamente em tua varanda, pia
saltita e se vai.
Uma saudação? um aviso?
Essas perguntas te assaltam misturadas
ao jorrar do chuveiro
persistem durante o café da manhã
com iogurte e geleia. Mas o dia
te convida a viver, quem sabe
um passeio a Santa Teresa para ver do alto
a cidade noutro tempo do agora.
Em cada recanto da metrópole desigual
nos tufos de capim no Lido
nos matos por trás dos edifícios da rua Toneleros
por toda a parte a cidade
minuciosamente vive o fim do século,
sua história de homens e de bichos,
de plantas e larvas,
de lesmas e de levas
de formigas e outros minúsculos seres
transitando nos talos, nos pistilos, nos grelos que se abrem
como clitóris na floresta.
São sorrisos, são ânus, caramelos,
são carícias de línguas e de lábios
enquanto
terminado o café
passas o olho no jornal.
A morte se aproxima e não o sentes
nem pressentes
não tens ouvido para o lento rumor que avança escuro
com as nuvens
sobre o morro Dois Irmãos
e dança nas ondas
derrama-se nas areias do Arpoador
sem que o suspeites a morte
desafina no cantarolar da vizinha na janela.
Teu coração
(que começou a bater quando nem teu corpo existia)
prossegue
suga e expele sangue
para manter-te vivo
e vivas
em tua carne
as tardes e ruas (do Catete,
da Lapa, de Ipanema)
– as lancinantes vertigens dos poemas
que te mostraram a morte num punhado de pó
o torso de Apolo
ardendo como pele de fera a boca da carranca
dizendo sempre a mesma água pura na noite
com seus abismos azuis –
Teu coração,
esse mínimo pulsar dentro da Via Láctea,
em meio a tempestades solares,
quando se deterá?
Não o sabes pois a natureza ama se ocultar.
E é melhor que não o saibas
para que seja por mais tempo doce em teu rosto
a brisa deste dia
e continues a executar
sem partitura
a sinfonia do verão como parte que és
desta orquestra regida pelo sol.
Lento, muito mais lento, tempo meu:
falemos sobre o amor mesmo que as rosas
tenham que acabar sempre na lixeira.
Deslumbrou-nos um futuro. Que futuro?
Sem esperança alguma, críamos em algo,
ou, porque era difícil a fé em algo,
nunca perdemos a esperança.
Restam as bandeiras vermelhas de perigo
defronte ao mar bravio.
Lembro-me de nós querendo fugir,
buscando em algum atlas
um distante país civilizado
– a despojada Islândia –
onde encontrar proteção por meio do esquecimento.
O espanto do cônsul, lembras?
Em seu escritório,
o gordo importador de bacalhau
não nos ofereceu mais
do que o fedor de peixes e os intermináveis invernos.
O sonho era destruir ícones.
E isso precisamente
foi-se tornando pouco a pouco realidade
sem nenhum drama, no dia a dia.
Trad.: Nelson Santander
Joan Margarit – Años Sesenta
Lento, mucho más lento, tiempo mío:
hablemos del amor aunque las rosas
tengan que acabar siempre en la basura.
Nos deslumbró un futuro. ¿Qué futuro?
Sin esperanza alguna, creíamos en algo
o, porque era difícil la fe en algo,
nunca perdimos la esperanza.
Quedan banderas rojas de peligro
frente a la mala mar.
Nos recuerdo a los dos queriendo huir,
buscando en algún atlas
un lejano país civilizado
—la despeinada Islandia—
donde hallar protección a través del olvido.
La extrañeza del cónsul, ¿la recuerdas?
En su oficina,
el gordo importador de bacalao
no nos ofreció más
que el hedor a pescado y los largos inviernos.
El sueño era destruir moldes.
Y eso precisamente
se ha hecho poco a poco realidad
sin dramatismo alguno, día a día.
Nos veremos novamente onde sempre é de dia
e os feios são bonitos e eternamente jovens,
onde os poderosos não abusam dos mais fracos
e, das árvores, pendem brinquedos e gibis.
Nesta morada de luz que não fere os olhos
Voltaremos, tu e eu, a dizer-nos bobagens
de mãos dadas, contemplando as ondas a morrer
sem estresse nem pressa, onde o sol não se põe.
E vivenciarei em teus lábios o amor que a Terra
sentiu pelo Céu quando o mundo era uma criança,
e o tempo deixará de solfejar sua lúgubre
canção de despedida enquanto nos abraçamos.
Volveremos a vernos
Volveremos a vernos donde siempre es de día
y los feos son guapos y eternamente jóvenes,
donde los poderosos no abusan de los débiles
y cuelgan de los árboles juguetes y tebeos.
En ese hogar de luz que no hiere los ojos
volveremos tú y yo a decirnos bobadas
cogidos de la mano, viendo morir las olas
sin agobios ni prisas, donde el sol no se pone.
Y viviré en tus labios el amor que la Tierra
sintiera por el Cielo cuando el mundo era un niño,
y el tiempo dejará de salmodiar su lúgubre
canción de despedida mientras nos abrazamos.
Por todo o transcorrido eterno e no vindouro,
A Noite universal povoa-se infinita
E cegamente em coágulos onde se agita
A vida que rabisca em arabescos de ouro.
Eis que um daqueles, tão desassistido e só,
Junto a seus deuses, artes, erros e mania,
Seu lodaçal, miséria e cantos de ironia,
Escreve história, grita ao céu e vira pó.
No tempo, é um minuto; um átomo, no espaço,
E um dia o globo morto, tumba do que fora,
Some no nada, sem deixar o nome – ou traço.
Tudo se vai! E o que lhe fez viver outrora?
Onde encontrar sentido no dolente entrudo?
O céu, eterno e azul: melhor quedar-se mudo.
Trad.: André Valias
Le silence bleu
Depuis l’éternité passée et pour toujours,
La Nuit universelle en tous sens infinie
Se peuple aveuglément de blocs grouillants de vie,
En paraboles d’or entrelaçant leurs cours.
L’un d’eux, dans ces splendeurs perdu, seul, sans secours, Avec ses dieux, ses arts, ses erreurs, son génie, Ses fanges, sa misère et ses chants d’ironie Déroule son histoire en criant aux cieux sourds.
Minute dans le temps, atome dans l’espace, Un jour ce globe mort, tombeau de ce qu’il fut, S’éparpille. – Plus rien – pas un nom – nulle trace.
Il n’est plus! Et tout va ! Quel était donc son but ? Où chercher le pourquoi de ce poignant mystère? – Les cieux sont éternels et bleus, il faut se taire.
Novembro. Dia dos Mortos. Montamos
o nosso altar de papel. O deste ano
decora-se com mais fotografias
do panteão familiar que povoamos
com paciência, sem pausas. Sem chorarmos,
entre os círios e as flores das
tagetes, colocamos as caveiras,
onde cintila o açúcar dos nomes.
Há uma – sorridente – com o meu.
II
Dar a essa luz a sombra que falta,
e à sombra a música, as vozes
rituais do silêncio, e ao silêncio
a Árvore da vida e dos anos
e apagar outra vela até ardermos
de escuridão. Vamos pedir que nasça
já ferida de morte a manhã
para nunca esquecer que partiremos.