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Louise Glück – Amor ao luar

Às vezes, um homem ou uma mulher impõe seu desesperoa outra pessoa, o que é chamado deabrir o coração, ou alternativamente, desnudar a alma —o que significa que, neste momento, eles adquiriram almas —lá fora, em uma noite de verão, um mundo inteiroderramado sobre a lua: grupos de formas prateadasque podem ser edifícios ou árvores,…
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Louise Glück – O espinheiro

Lado a lado, não demãos dadas: eu os observocaminhando no jardim de verão — coisasque não podem se moveraprendem a ver; não é necessáriopersegui-los pelojardim; seres humanos deixamsinais de sentimentospor toda parte, floresespalhadas no caminho de terra, todasbrancas e douradas, algumaslevemente erguidas pelosventos da tarde; não é necessáriosegui-los até onde vocês estão agora,nas profundezas do…
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Louise Glück – O jardim

Eu não poderia fazê-lo de novo,Mal posso olhar para isso — no jardim, sob a chuva leve,o jovem casal plantauma fieira de ervilhas,como se ninguém jamais o tivesse feito antes,as grandes dificuldades ainda nãoforam enfrentadas e resolvidas — Eles não conseguem se ver,na terra fresca, começandosem perspectiva,as colinas verde-claras atrás deles, encobertas pelas flores —…
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Louise Glück – Vento em retirada

Quando os criei, eu os amava.Agora sinto pena de vocês. Dei-lhes tudo o que precisavam:leito de terra, manto de ar azul — À medida que me afasto de vocês,vejo-os com mais clareza.Suas almas deveriam ser vastas agora,não o que são,pequenas criaturas tagarelas — Dei a vocês todas as dádivas,o azul das manhãs de primavera,o tempo…
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Louise Glück – Scilla

Não eu, seu tolo, não eu-mesma, mas nós, nós – ondasde céu azul comouma crítica do firmamento: por quevocês valorizam tanto suas vozesquando ser algoé ser quase nada?Por que olham para cima? Para ouvirum eco como a vozde deus? Vocês são todos iguais para nós,solitários, pairando acima de nós, planejandosuas vidas tolas: vocês vãoonde são…
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Louise Glück – Matinas (4)

Percebo que com você é como com as bétulas:não posso lhe falarde maneira pessoal. Muitose passou entre nós. Ousempre foi apenas de um lado? Euerrei, eu errei, eu lhe pedipara ser humano – não sou mais carentedo que as outras pessoas. Mas a ausênciade todo sentimento, da menorpreocupação por mim – poderia muito bem continuardirigindo-me…
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Louise Glück – Matinas (3)

Perdoe-me se eu disser que o amo: os poderosossempre são enganados, já que os fracos são sempreguiados pelo pânico. Não posso amaro que não consigo conceber, e você revelapraticamente nada: é como o espinheiro,sempre a mesma coisa no mesmo lugar,ou está mais para a dedaleira, inconstante, brotando primeiroum espigão rosa na encosta atrás das margaridas,e…
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Louise Glück – Fim de inverno

Sobre o mundo ainda, um pássaro cantadespertando solitário entre ramos escuros. Vocês desejaram nascer; eu permiti que nascessem.Quando minha dor alguma vezinterferiu em seu prazer? Mergulhandona escuridão e na luz ao mesmo tempo,sedentos por sensações como se fossem algo novo, querendose expressar com todo brilho, toda vivacidade nunca imaginandoque isso lhes custaria algo,nunca concebendo o…
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Louise Glück – Neve de primavera

Olhe para o céu noturno:tenho dois eus, duas formas de poder. Estou aqui com você, à janela,observando sua reação. Ontema lua se ergueu sobre a terra úmida no jardim de baixo.Agora a terra reluz como a lua,como matéria morta crivada de luz. Você pode fechar os olhos agora.Ouvi seus clamores, e os clamores antes dos…
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Louise Glück – Manhã clara

Eu já os observei por tempo suficiente,posso me dirigir a vocês do jeito que eu quiser — Tenho me submetido às suas preferências, observando pacientementeas coisa que vocês amam, comunicando-me apenas através de veículos, emdetalhes da terra, como preferem, gavinhasde clematis azul, luz de fim de tarde —vocês jamais aceitariam uma voz como a minha,…