Louise Glück – Vento em retirada

Quando os criei, eu os amei.
Agora sinto pena de vocês.

Eu lhes dei tudo de que vocês precisavam:
leito de terra, manto de azul celeste —

À medida que me afasto de vocês,
vejo-os com mais clareza.
Suas almas deveriam ser imensas agora,
não o que são,
pequenas coisas falantes —

Eu dei a vocês todas as dádivas,
o azul das manhãs de primavera,
o tempo que não souberam como usar —
vocês queriam mais, a única dádiva
reservada para outra criação.

O que quer que tenham desejado,
vocês não encontrarão no jardim,
entre as plantas em crescimento.
Suas vidas não são circulares como as delas:

suas vidas são como o voo dos pássaros
que começa e termina em silêncio —
que começa e termina, ecoando
este arco da bétula branca
até a macieira.

Trad.: Nelson Santander

Retreating wind

When I made you, I loved you.
Now I pity you.

I gave you all you needed:
bed of earth, blanket of blue air —

As I get further away from you
I see you more clearly.
Your souls should have been immense by now,
not what they are,
small talking things —

I gave you every gift,
blue of the spring morning,
time you didn’t know how to use—
you wanted more, the one gift
reserved for another creation.

Whatever you hoped,
you will not find yourselves in the garden,
among the growing plants.
Your lives are not circular like theirs:

your lives are the bird’s flight
which begins and ends in stillness—
which begins and ends, in form echoing
this arc from the white birch
to the apple tree.