Louise Glück – Matinas (3)

Louise Glück – Matinas (3)

Perdoe-me se eu disser que o amo: aos poderosos
sempre se mente, pois os fracos são sempre
movidos pelo pânico. Não posso amar
o que não consigo conceber, e você revela
quase nada: é como o espinheiro,
sempre a mesma coisa no mesmo lugar,
ou é mais como a dedaleira, inconstante, brotando primeiro
uma espiga rosa na encosta atrás das margaridas,
e no ano seguinte, violeta no roseiral? Você deve perceber
que isso de nada nos serve, esse silêncio que alimenta a crença
de que você deve ser todas as coisas, a dedaleira e o espinheiro,
a rosa vulnerável e a margarida resistente — resta-nos pensar
que você simplesmente não poderia existir. É isso
que você pretende que pensemos? É isso que explica
o silêncio da manhã,
os grilos ainda sem esfregar as asas, os gatos
sem brigar no quintal?

Trad.: Nelson Santander

Matins

Forgive me if I say I love you: the powerful
are always lied to since the weak are always
driven by panic. I cannot love
what I can’t conceive, and you disclose
virtually nothing: are you like the hawthorn tree,
always the same thing in the same place,
or are you more the foxglove, inconsistent, first springing up
a pink spike on the slope behind the daisies,
and the next year, purple in the rose garden? You must see
it is useless to us, this silence that promotes belief
you must be all things, the foxglove and the hawthorn tree,
the vulnerable rose and the tough daisy – we are left to think
you couldn’t possibly exist. Is this
what you mean us to think, does this explain
the silence of the morning,
the crickets not yet rubbing their wings, the cats
not fighting in the yard?

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