Mary Oliver – O quarto signo do zodíaco

1.
Porque eu deveria ter ficado surpresa?
Caçadores percorrem a floresta
sem um som.
O caçador, armado com seu rifle,
a raposa com seus pés de seda,
a serpente em seu império de músculos —
todos se movem em silêncio,
famintos, cuidadosos, atentos.
Exatamente como o câncer
entrou na floresta do meu corpo,
sem um som.

2.
A questão é,
como será
depois do último dia?
Irei flutuar
pelo céu
ou me desgastarei
na terra ou em um rio —
sem lembrar de nada?
Quão desesperada eu ficaria
se não conseguisse lembrar-me
do nascer do sol, se não conseguisse
lembrar-me das árvores, rios; se não conseguisse
nem mesmo lembrar-me, amado,
do seu amado nome?

3.
Eu sei, você nunca pretendeu ser deste mundo.
Mas está nele do mesmo jeito.

Então por que não começar imediatamente?

Quero dizer, pertencendo a ele.
Há tanto o que admirar, sobre o que chorar.

E sobre o que escrever músicas ou poemas.

Abençoe os pés que a levam para lá e para cá.
Abençoe os olhos e os ouvidos que ouvem.
Abençoe a língua, a maravilha do paladar.
Abençoe o toque.

Você poderia viver cem anos, já aconteceu.
Ou não.
Estou falando da plataforma afortunada
de muitos anos,
nenhum dos quais, penso, eu já desperdicei.
Você precisa de um empurrão?
Você precisa de um pouco de escuridão para prosseguir?
Deixe-me, então, ser urgente como um punhal,
e lembra-la de Keats,
que de tão único de propósito e pensamento, por um tempo
teve uma vida inteira.

4.
No final da tarde de ontem, sob o calor,
todas as frágeis flores azuis em floração
nos arbustos no quintal ao lado haviam
tombado dos arbustos e jaziam
enrugadas e desvanecentes no gramado. Mas
esta manhã os arbustos estavam cheios de
flores azuis novamente. Nenhuma delas
remanescia na grama. Como, eu
me questionei, elas rolaram de volta para os
ramos, que ferozmente queriam,
como todos nós, apenas um pouco mais de
vida?

Trad.: Nelson Santander

The fourth sign of the zodiac

1.
Why should I have been surprised?
Hunters walk the forest
without a sound.
The hunter, strapped to his rifle,
the fox on his feet of silk,
the serpent on his empire of muscles —
all move in a stillness,
hungry, careful, intent.
Just as the cancer
entered the forest of my body,
without a sound.

2.
The question is,
what will it be like
after the last day?
Will I float
into the sky
or will I fray
within the earth or a river —
remembering nothing?
How desperate I would be
if I couldn’t remember
the sun rising, if I couldn’t
remember trees, rivers; if I couldn’t
even remember, beloved,
your beloved name.

3.
I know, you never intended to be in this world.
But you’re in it all the same.

So why not get started immediately.

I mean, belonging to it.
There is so much to admire, to weep over.

And to write music or poems about.

Bless the feet that take you to and fro.
Bless the eyes and the listening ears.
Bless the tongue, the marvel of taste.
Bless touching.

You could live a hundred years, it’s happened.
Or not.
I am speaking from the fortunate platform
of many years,
none of which, I think, I ever wasted.
Do you need a prod?
Do you need a little darkness to get you going?
Let me be urgent as a knife, then,
and remind you of Keats,
so single of purpose and thinking, for a while,
he had a lifetime.

4.
Late yesterday afternoon, in the heat,
all the fragile blue flowers in bloom
in the shrubs in the yard next door had
tumbled from the shrubs and lay
wrinkled and fading in the grass. But
this morning the shrubs were full of
the blue flowers again. There wasn’t
a single one on the grass. How, I
wondered, did they roll back up to
the branches, that fiercely wanting,
as we all do, just a little more of
life?

Robert Hayden – Aqueles domingos de inverno

Também aos domingos
meu pai acordava cedo
e vestia suas roupas no frio azul escuro,
depois, com as mãos rachadas doloridas
do trabalho no tempo durante a semana, ele fazia
os fogos empilhados arderem. Ninguém nunca o agradeceu.

Eu acordava e ouvia o
frio se partindo em fragmentos.
Quando as salas ficavam aquecidas, ele me chamava,
e lentamente eu me levantava e me vestia,
temendo a raiva crônica daquela casa,

Falava indiferentemente
com ele,
que havia expulsado o frio
e também engraxado meus sapatos bons.
O que sabia eu, o que sabia eu
dos austeros e solitários ofícios do amor?

Trad.: Nelson Santander

Those Winter Sundays

Sundays too
my father got up early
and put his clothes on in the blue black cold,
then with cracked hands that ached
from labor in the weekday weather made
banked fires blaze. No one ever thanked him.

I’d wake and hear the
cold splintering, breaking.
When the rooms were warm, he’d call,
and slowly I would rise and dress,
fearing the chronic angers of that house,

Speaking indifferently
to him,
who had driven out the cold
and polished my good shoes as well.
What did I know, what did I know
of love’s austere and lonely offices?

Marisa de la Peña – O tempo que nos resta

“Somos o tempo que nos resta”
J. M. Caballero Bonald.

É isso o que somos: o tempo que nos resta,
o último batimento interrompido,
a palavra não dita,
o deserto cruzado,
e o caminho sem nome
que deixamos para trás.

Somos o abandono, a intempérie,
as luzes apagadas,
e as portas, fechadas para sempre,
ao fim de um adeus forjado nos costumes.

Mas somos o tempo que nos resta,
a voz que não se apaga,
a enxada que ainda golpeia, sem se render,
o poema não escrito,
a ópera inacabada de Puccini,
a derrota assumida, mastigada.
E o que nos resta para viver.

Trad.: Nelson Santander

El tiempo que nos queda

“Somos el tiempo que nos queda”
J. M. Caballero Bonald.

Eso somos: el tiempo que nos queda,
el último latido detenido,
la palabra no dicha,
el desierto cruzado,
y la senda sin nombre
que dejamos atrás.

Somos el abandono, la intemperie,
las luces apagadas,
y las puertas, cerradas para siempre,
tras un adiós forjado en la costumbre.

Pero somos el tiempo que nos queda,
la voz que no se apaga,
la azada que aún golpea, sin rendirse,
el poema no escrito,
la ópera inacabada de Puccini,
la derrota asumida, masticada,
y aquello que nos queda por vivir.

Ricardo Aleixo – Geral

O jo
go é tão

sujo
e você

(entre
bis

onho
e

biz
arro)

torce
justo

para
o juiz?

Continuar lendo “Ricardo Aleixo – Geral”

André Vallias – as instituições estão funcionando

instituições

Rubén Darío – Quando vieres a amar

Quando vieres a amar, se não houveres amado,
saberás que neste mundo
é o sofrimento maior e mais profundo
ser a um só tempo feliz e malfadado.

Corolário: o amor é um algar
de luz e sombra, poesia e prosa,
no qual se faz a coisa mais custosa
que é, a um só tempo, rir e chorar.

O pior, o mais terrível,
é que viver sem ele é impossível.

Trad.: Nelson Santander

Cuando llegues a amar

Cuando llegues a amar, si no has amado,
sabrás que en este mundo
es el dolor más grande y más profundo
ser a un tiempo feliz y desgraciado.

Corolario: el amor es un abismo
de luz y sombra, poesía y prosa,
y en donde se hace la más cara cosa
que es reír y llorar a un tiempo mismo.

Lo peor, lo más terrible,
es que vivir sin él es imposible.

Juan Vicente Piqueras – Ristorante dal 1882–

Ristorante dal 1882–
leio no cardápio e me ponho a pensar
que numa noite, há mais de um século,
numa noite igual a esta,
houve um grupo de amigos que aqui jantou,
como nós fazemos agora,
e riram, conversaram, passaram o sal,
mais ou menos felizes, fugazes, encantados
de estarem juntos rindo
como nós fazemos agora,
e que nenhum deles vive mais
e agora somos nós,
os que reservamos esta grande mesa
neste restaurante
que tanto apreciamos por ser antigo,
o ar fantasma do garçom,
e o cozinheiro que nunca vimos
e que tanto admiramos
por seu saber nos fazer esquecer
com sabores sagrados, requintados,
que esta poderia ser perfeitamente
nossa última ceia.

Trad.: Nelson Santander

Mais do que uma leitura, uma experiência. Clique, compre e contribua para manter a poesia viva em nosso blog

Ristorante dal 1882-

Ristorante dal 1882-
leo en la carta y me da por pensar
que en una noche de hace más de un siglo,
en una noche que era igual a ésta,
hubo un grupo de amigos que cenaron aquí,
como ahora nosotros,
y rieron, charlaron, se pasaron la sal,
más o menos felices, fugaces, encantados
de estar juntos riendo
como ahora nosotros,
y que ninguno de ellos vive ya
y ahora son nosotros,
los que hemos reservado esta gran mesa
en esto restaurante
del que tanto nos gusta que sea antiguo,
el aire fantasma del camarero,
y el cocinero que nunca hemos visto
y al que admiramos tanto
por su saber hacernos olvidar
con sabores piadosos, exquisitos,
que ésta podría ser perfectamente
nuestra última cena.

Sophia de Mello Breyner Andresen – O primeiro homem

Era como uma árvore da terra nascida
Confundindo com o ardor da terra a sua vida,
E no vasto cantar das marés cheias
Continuava o bater das suas veias.

Criados à medida dos elementos
A alma e os sentimentos
Em si não eram tormentos
Mas graves, grandes, vagos,
Lagos
Refletindo o mundo,
E o eco sem fundo
Da ascensão da terra nos espaços
Eram os impulsos do seu peito
Florindo num ritmo perfeito
Nos gestos dos seus braços.

Alfonso Brezmes – Notas marginais

Às vezes, voltamos às páginas
onde outrora fomos felizes.

É tão fácil quanto deixá-las correr
para trás por entre os dedos,
voltar às páginas marcadas,
àquelas breves notas com as quais
quisemos indicar a outro leitor
que ali deveria se deter.

Basta examina-las para ver
que já não são as mesmas:
algo mudou neste breve
intervalo em que nos ausentamos.

Voltar é outra forma de medir
a magnitude incerta da ferida.

Trad.: Nelson Santander

Mais do que uma leitura, uma experiência. Clique, compre e contribua para manter a poesia viva em nosso blog

Notas marginales

A veces volvemos a las páginas
donde una vez fuimos felices.

Es tan fácil como dejar que corran
hacia atrás entre los dedos,
volver a las marcas que dejamos,
a esas breves notas con las que
quisimos indicar a otro lector
que allí debiera detenerse.

Basta con buscarlas para ver
que ya no son las mismas:
algo ha cambiado en este corto
intervalo en que nos fuimos.

Volver es otra forma de medir
la magnitud incierta de la herida.

Wislawa Szymborska – Para o meu próprio poema

Na melhor das hipóteses,
meu poema, você será lido atentamente,
comentado e lembrado.

Na pior das hipóteses
somente lido.

Terceira possibilidade –
embora escrito,
logo jogado no lixo.

Você pode se valer ainda de uma quarta saída –
desaparecer não escrito
murmurando satisfeito algo para si mesmo.

Trad.: Regina Przybycien

Do własnego wiersza

W najlepszym razie
będziesz, mój wierszu, uważnie czytany,
komentowany i zapamiętany.

W gorszym przypadku
tylko przeczytany.

Trzecia możliwość –
wprawdzie napisany,
ale po chwili wrzucony do kosza.

Masz jeszcze czwarte wyjście do wykorzystania –
znikniesz nienapisany,
z zadowoleniem mrucząc coś do siebie.