Julio Cortázar – O futuro

E sei muito bem que não estarás.
Não estarás na rua, no sussurro que brota de noite
dos postes, nem no gesto
de escolher o cardápio, nem no sorriso
que alivia as lotações dos metrôs,
nem nos livros emprestados nem no até amanhã.

Não estarás nos meus sonhos,
no destino original de minhas palavras,
nem em um número de telefone estarás,
ou na cor de um par de luvas ou uma blusa.
Me irritarei, meu amor, sem que seja por ti,
e comprarei bombons, mas não para ti,
esperarei na esquina a qual não virás,
e direi as palavras que se dizem
e comerei as coisas que se comem
e sonharei as coisas que se sonham
e sei muito bem que não estarás,
nem aqui dentro, a prisão onde ainda te prendo,
nem lá fora, este rio de ruas e de pontes.
Não estarás para nada, não serás nem lembrança,
e quando pensar em ti, pensarei um pensamento
que vagamente trata de lembrar-se de ti.

Trad.: Leopoldo Cavalcante

El futuro

Y sé muy bien que no estarás.
No estarás en la calle, en el murmullo que brota de noche
de los postes de alumbrado, ni en el gesto
de elegir el menú, ni en la sonrisa
que alivia los completos en los subtes,
ni en los libros prestados ni en el hasta mañana.

No estarás en mis sueños,
en el destino original de mis palabras,
ni en una cifra telefónica estarás
o en el color de un par de guantes o una blusa.
Me enojaré, amor mío, sin que sea por ti,
y compraré bombones pero no para ti,
me pararé en la esquina a la que no vendrás,
y diré las palabras que se dicen
y comeré las cosas que se comen
y soñaré los sueños que se sueñan
y sé muy bien que no estarás,
ni aquí adentro, la cárcel donde aún te retengo,
ni allí fuera, este río de calles y de puentes.
No estarás para nada, no serás ni recuerdo,
y cuando piense en ti pensaré un pensamiento
que oscuramente trata de acordarse de ti.

Amalia Bautista – Nu de Mulher

Para ti nunca passei de um bloco
de mármore. Esculpiste nele o meu corpo,
um corpo de mulher branco e formoso,
em que não viste nada a não ser pedra
e o orgulho, isso sim, do teu trabalho.
Nunca imaginaste que eu te amava
e que tremia quando, docemente,
me modelavas os seios e os ombros,
ou alisavas as coxas e o ventre.
Hoje, estou num jardim, onde suporto
os rigores do frio pelo Inverno,
e no Verão aqueço de tal modo
que nem sequer os pardalitos vêm
pousar nas minhas mãos pois estas queimam.
Mas, de tudo isto, o que mais me dói
é baixar a cabeça e ver a placa:
”Nu de mulher”, como há tantas outras.
Nem te lembraste de me dar um nome.

Trad.: Inês Dias

REPUBLICAÇÃO: poema publicado na página originalmente em 11/12/2018

Amalia Bautista – Desnudo de Mujer

Para ti nunca fui más que un pedazo
de mármol. Esculpiste en él mi cuerpo,
un cuerpo de mujer blanco y hermoso,
en el que nunca viste más que piedra
y el orgullo, eso sí, de tu trabajo.
Jamás imaginaste que te amaba
y que me estremecía cuando, dulce,
moldeabas mis senos y mis hombros,
o alisabas mis muslos y mi vientre.
Hoy estoy en un parque, donde sufro
los rigores del frío en el invierno,
y en verano me abraso de tal modo
que ni siquiera los gorriones vienen
a posarse en mis manos porque queman.
Pero, de todo, lo que más me duele
es bajar la cabeza y ver la placa:
«Desnudo de mujer», como otras muchas.
Ni de ponerme un nombre te acordaste.

José Mateos – Canção 1

Ainda quase um menino
sentaste a esperar à
margem do grande silêncio.

Pensavas que estando só
com tua voz talvez pudesses
roubar ao mar seu segredo.

Foi-se a tua juventude.
Mudos passaram os anos
e agora estás vazio por dentro.

Serias capaz, caso soasse
o acorde do grande silêncio,
de reproduzir o seu eco?

Trad.: Nelson Santander

REPUBLICAÇÃO com alterações na tradução: poema publicado na página originalmente em 26/11/2018

José Mateos – Canción 1

Todavía casi un niño
y te sentaste a esperar
a orillas del gran silencio.

Pensabas que estando a solas
con tu voz quizás pudieras
robarle al mar su secreto.

Se te fue la juventud.
Mudos pasaron los anos
y ahora estás hueco por dentro.

¿Podrías, si al fin sonara
del gran silencio el acorde,
llegar a cantar su eco?

Francisco Brines – O Triunfo do Amor

Eu te amei em Queroneia. Vivos éramos.
Em meio à tristeza derruída,
um sopro mortal: éramos vivos.
Séculos se passaram, e outros olhos
contemplam as ruínas, ainda intactas.
Quem percorreu este lugar? Apenas o vazio
foi o tecido do tempo nesta planície.

Eu te amei em Queroneia. Impalpável
era o calor das cinzas humanas,
e na manhã solitária jazem
sombras de colunas tombadas, corpos
ardentes sob sua sombra. Quantas
mortes teriam que ocorrer? Apagou-se
tua bela juventude, ventou na minha,
aqui nada perdurou, onde buscamos
que o coração se acelere, como
se fosse o único sinal de vida.

Na manhã solitária, amados,
acelerai o coração, como
se fosse o único sinal de vida.
Apenas o vazio é duradouro.

Trad.: Nelson Santander

REPUBLICAÇÃO, com alterações na tradução: poema publicado na página originalmente em 19/11/2018

El Triunfo Del Amor

Yo te amé en Queronea. Vivos éramos.
Entre la pesadumbre derruida
Un hálito mortal: éramos vivos.
Los siglos han pasado, y otros ojos
Contemplan las ruinas, aún intactas.
¿Quién aquí transcurrió? Sólo el vacío
fue el tejido del tiempo en este llano.

Yo te amé en Queronea. Impalpable
era el calor de la ceniza humana,
y en la mañana solitaria yacen
sombras de fustes derribados, cuerpos
ardientes fuimos en su sombra. Cuánta
muerte tendría que llegar, borró
tu hermosa juventud, sopló en la mía,
nada perduró aquí, donde buscamos
que el corazón se acelere, como
si fuese el solo signo de la vida.

En la mañana solitaria, amaros,
acelerad el corazón, como
si fuese el solo signo de la vida.
Perdurable tan sólo es el vacío.

Joan Margarit – Aventura Doméstica

Sozinho em casa, vasculhando os armários.
Encontro um antigo mapa rodoviário,
contratos vencidos, canetas-tinteiro
que já não escreverão mais cartas,
calculadoras com pilhas descarregadas
e relógios que o tempo derrotou.
Nas profundezas das gavetas, como um rato triste,
aninha-se o passado. Vazios, os vestidos
pendem como velhos personagens
que nos interpretaram.
De repente, encontro também tua lingerie,
cor de areia, da noite, com pequenos bordados.
Calcinhas, sutiãs, meias que desdobro
e que me fazem voltar à brilhante
– e ao mesmo tempo misteriosa –
essência do amor e do sexo:
o que verdadeiramente dá vida às casas,
assim como se lhe dá aos portos distantes
a luz de seus cafés e de seus barcos

Trad.: Nelson Santander

REPUBLICAÇÃO, com alterações na tradução: poema publicado na página originalmente em 17/11/2018

Joan Margarit – Aventura Doméstica

Solo en casa y mirando en los armarios.
Encuentro algún antiguo mapa de carreteras,
contratos que han vencido, estilográficas
que ya no escribirán ninguna carta,
calculadoras con las pilas secas
y relojes que el tiempo ha derrotado.
En los cajones suele, como una rata triste,
anidar el pasado. Vacíos, los vestidos
cuelgan igual que viejos personajes
que nos interpretaron.
Pero encuentro también tu lencería,
color arena, o noche, con pequños bordados.
Bragas, sostenes, medias que despliego
y que me hacen volver hasta el brillante
– y a la vez misterioso – fondo de amor y sexo:
lo que da, de verdad, vida a las casas,
igual que se la da a los puertos lejanos
la luz de sus cafés y de sus barcos.

Juan Ramón Jiménez – Com tua Voz

Quando estiver entre as raízes
chama-me com tua voz.
Sentirei que penetra
tremulando a luz do sol.

Trad.: Nelson Santander

REPUBLICAÇÃO, com alterações na tradução: poema publicado originalmente na página em 23/11/2018

Con tu voz

Cuando esté con las raíces
llámame tú con tu voz.
Me parecerá que entra
temblando la luz del sol.

Jorge Luis Borges – Maio 20, 1928

Agora é invulnerável como os deuses.
Nada na terra pode feri-lo, nem o desamor de uma 
     mulher, nem a tísica, nem as ansiedades do verso, 
     nem essa coisa branca, a lua, que já não precisa fixar 
     em palavras.
Caminha lentamente sob as tílias; olha as balaustradas 
     e as portas, não para recordá-las.
Já sabe quantas noites e quantas manhãs lhe faltam.
Sua vontade lhe impôs uma severa disciplina. Cumprirá 
     determinados atos, cruzará previstas esquinas, tocará 
     uma árvore ou um gradil, para que o futuro seja tão 
     irrevogável quanto o passado.
Age dessa maneira para que o fato que deseja e teme não 
     seja senão o termo final de uma série.
Caminha pela rua 49; pensa que nunca atravessará este 
     ou aquele saguão lateral.
Sem que ninguém desconfiasse, já se despediu de muitos 
     amigos.
Pensa naquilo que nunca saberá, se o dia seguinte será 
     um dia de chuva.
Cruza com um conhecido e lhe faz um gracejo. Sabe que 
     este episódio, por algum tempo, fará parte do 
     anedotário.
Agora é invulnerável como os mortos.
Na hora marcada, subirá alguns degraus de mármore. 
     (Isto irá perdurar na memória de outros.)
Descerá até o banheiro; no piso axadrezado a água 
     apagará rapidamente o sangue. O espelho o aguarda.
Ajeitará os cabelos, ajustará o nó da gravata (sempre foi 
     um pouco dândi, como convém a um jovem poeta) e 
     tentará imaginar que o outro, o do cristal, executa os 
     atos e que ele, seu duplo, repete-os. Sua mão não irá 
     tremer quando ocorrer o último. Docilmente, 
     magicamente, já terá apoiado a arma contra a 
     têmpora.
Assim, creio, passaram-se as coisas.

Trad.: Josely Vianna Baptista

mayo 20, 1928

Ahora es invulnerable como los dioses.
Nada en la tierra puede herirlo, ni el desamor de una mujer, ni la tisis, ni las ansiedades del verso, ni esa cosa blanca, la luna, que ya no tiene que fijar en palabras.
Camina lentamente bajo los tilos; mira las balaustradas y las puertas, no para recordarlas.
Ya sabe cuántas noches y cuántas mañanas le faltan.
Su voluntad le ha impuesto una disciplina precisa. Hará determinados actos, cruzará previstas esquinas, tocará un árbol o una reja, para que el porvenir sea tan irrevocable como el pasado.
Obra de esa manera para que el hecho que desea y que teme no sea otra cosa que el término final de una serie.
Camina por la calle 49; piensa que nunca atravesará tal o cual zaguán lateral.
Sin que lo sospecharan, se ha despedido ya de muchos amigos.
Piensa lo que nunca sabrá, si el día siguiente será un día de lluvia.
Se cruza con un conocido y le hace una broma. Sabe que este episodio será, durante algún tiempo, una anécdota.
Ahora es invulnerable como los muertos.
En la hora fijada, subirá por unos escalones de mármol. (Esto perdurará en la memoria de otros.)
Bajará al lavatorio; en el piso ajedrezado el agua borrará muy pronto la sangre. El espejo lo aguarda.
Se alisará el pelo, se ajustará el nudo de la corbata (siempre fue un poco dandy, como cuadra a un joven poeta) y tratará de imaginar que el otro, el del cristal, ejecuta los actos y que él, su doble, los repite. La mano no le temblará cuando ocurra el último. Dócilmente, mágicamente, ya habrá apoyado el arma contra la sien.
Así, lo creo, sucedieron las cosas.

Jaime Sabines – Sobre a Morte do Major Sabines

Primeira Parte

I

Deixa-me repousar,
relaxar os músculos do coração
e colocar a alma para dormir
para poder falar,
para poder recordar estes dias,
os mais longos dos tempos.

Mal convalescemos da aflição
e estamos fracos, assustados,
despertando duas ou três vezes do nosso escasso sonho
para ver-te na noite e saber que respiras.
Precisamos despertar para estar mais despertos
deste pesadelo repleto de gente e de ruídos.

Tu eras o tronco invulnerável e nós os galhos,
é por isso que este machado nos sacode.
Diante de tua morte nunca paramos
para refletir sobre a morte,
nem te vimos nunca senão com força e alegria.
Não sabemos bem, mas de repente chega
um aviso incessante,
uma desprendida espada da boca de Deus
que cai e cai e cai lentamente.
E aqui estamos, tremendo de medo,
sufocando com nosso pranto reprimido,
apertando nossa garganta, o medo.
Começamos a andar e não paramos
jamais de andar, depois da meia noite,
no corredor daquele sanatório silencioso
onde há uma enfermeira acordada de plantão.
Esperar que morresses era morrer lentamente,
pingar do tubo da morte,
morrer aos poucos, aos pedaços.

Não houve hora mais interminável do que quando não estavas dormindo,
nem túnel mais espesso de horror e de miséria
do que aquele que se encheu de teus lamentos,
de teu pobre corpo ferido.

II

Do mar, também do mar,
do tecido envolvente do mar,
dos golpes do mar e de sua boca,
de sua vagina escura,
de seu vômito,
de sua pureza sombria e profunda,
vem a morte, Deus, o aguaceiro
golpeando as persianas,
a noite, o vento.

Da terra também,
das raízes agudas das casas,
das bases descalças e ensanguentadas das árvores,
de algumas rochas antigas que não podem ser removidas,
de tristes atoleiros, ataúdes de água,
de troncos caídos em que agora dorme o raio,
e do capim, que é a sombra dos ramos do céu,
vem Deus, o maneta de cem mãos,
cego de muitos olhos,
dulcíssimo, impotente
(Omniausente, cheio de amor,
o velho surdo, sem filhos,
derrama seu coração no cálice de seu ventre).

Dos ossos também,
do mais puro sal do sangue,
do ácido mais fiel,
da alma mais profunda e verdadeira,
do alimento mais inspirado,
do fígado e do pranto,
vem as ondas tensas da morte,
o frio suor da esperança,
e vem Deus sorrindo.

Caminham os livros para a fogueira.
Sobe o pano: aparece o mar.

(Eu não sou o autor do mar).

III

Sete quedas sofreu a espiga em minha mão
antes que minha fome a encontrasse,
sete vezes mil eu morri
e estou sorridente como no primeiro dia.
Ninguém dirá: ele não sabia da vida
mais do que os bois, nem menos do que as andorinhas.
Sempre fui homem, amigo fiel do cão,
desmemoriado filho de Deus,
irmão do vento.
Fodam-se as lágrimas!, eu disse,
e me pus a chorar
como alguém dando à luz.
Estou descalço, gosto de passear a água e as pedras,
as mulheres, o tempo,
gosto de passear a erva que crescerá sobre meu túmulo
(se é que terei um túmulo algum dia).
Gosto do minha roseira de cera
no jardim que a noite visita.
Gosto de meus avós de palha de milho
e gosto dos meus sapatos vazios
esperando por mim como o dia de amanhã.
Foda-se a morte!, eu disse,
sombra do meu sonho,
perversão dos anjos,
e me entreguei à morte
como uma pedra ao rio,
como um disparo nos pássaros voando.

IV

Vamos falar sobre o Príncipe Câncer,
Senhor dos Pulmões, Varão da Próstata,
que se diverte atirando dardos
nos ovários de seda, nas vaginas murchas,
nas virilhas multitudinárias.

Meu pai tem o mais belo nódulo de câncer
na base do pescoço, sob a clavícula,
tubérculo do bom Deus,
ampulheta da boa morte,
e eu mando à merda todos os sóis do mundo.
O Senhor Câncer, O Senhor Sacana,
é só um instrumento nas mãos escuras
daqueles doces personagens que criam a vida.

Nas quatro gavetas do arquivo de madeira
eu guardo os nomes que amo,
as roupas dos fantasmas da família,
as palavras que assombram
e minhas peles sucessivas.

Também estão os rostos de algumas mulheres
os olhos amados e solitários
e o beijo casto da cópula.
E das gavetas saem meus filhos.
Bem haja a sombra da árvore
que atinge a terra,
porque é a luz que chega!

V

Das nove em diante,
vendo televisão e conversando
estou esperando a morte do meu pai.
Há três meses, esperando.
No trabalho e na embriaguez,
na cama sem ninguém e no quarto das crianças,
em sua dor tão plena e fecunda,
sua insônia, sua queixa e seu protesto,
no tanque de oxigênio e nos dentes
do dia que amanhece, buscando a esperança.

Olhando o seu cadáver nos ossos
que são agora meu pai,
e introduzindo agulhas nas escassas veias,
tentando enfiar-lhe vida,
soprar-lhe na boca o ar…

(Envergonho-me de mim
por tentar escrever estas coisas.
Maldito o que crê que isto é um poema!)

O que eu quero dizer é que não sou enfermeiro,
cafetão da morte,
orador de cemitérios, gigolô,
menino de recados de Deus, sacerdote das aflições.
O que eu quero dizer é que a mim me sobra ar…

VI

Enterramos-te ontem.
Ontem te enterramos.
Cobrimos-te de terra ontem.
Ficaste na terra ontem.
Estás rodeado de terra
desde ontem.
Acima e abaixo e dos lados
por teus pés e tua cabeça
está a terra desde ontem.
Metemos-te na terra,
cercamos-te com terra ontem.
Pertences à terra
desde ontem.
Ontem te enterramos
na terra, ontem.

VII

Mãe generosa
de todos os mortos,
mãe terra, mãe,
vagina do frio,
braços da intempérie,
colo do vento,
ninho da noite,
mãe da morte,
recolhe-o, abriga-o,
desnuda-o, toma-o,
guarda-o, termina-o.

VIII

Não poderás morrer.
Debaixo da terra
não poderás morrer.
Sem água e sem ar
não poderás morrer.

Sem açúcar, sem leite,
sem feijão, sem carne,
sem farinha, sem figos,
não poderás morrer.
Sem mulher e sem filhos
não poderás morrer.
Debaixo da vida
não poderás morrer
Em teu tanque de terra
não poderás morrer.
Em teu caixão de defunto
não poderás morrer.

Em tuas veias sem sangue
não poderás morrer.

Em teu peito vazio
não poderás morrer.
Em tua boca sem fogo
não poderás morrer.
Em teus olhos sem ninguém
não poderás morrer.
Em tua carne sem pranto
não poderás morrer.
Não poderás morrer.
Não poderás morrer.
Não poderás morrer.

Enterramos teu terno,
teus sapatos, o câncer;
não poderás morrer.
Teu silêncio enterramos.
Teu corpo com cadeados.
Teus finos cabelos grisalhos,
tua dor enclausurada.
Não poderás morrer.

IX

Tu foste não sei para onde.
Teu quarto espera por ti.
Mamãe, Juan e Jorge
estamos todos esperando por ti.
Deram-nos abraços
de condolência, e recebemos
cartas, telegramas, noticias
de que te enterramos,
mas tua neta mais nova
te procura no quarto,
e todos, sem dize-lo,
estamos esperando por ti.

X

És um interminável pesadelo,
um filme estúpido de terror,
um túnel sem fim
cheio de pedras e poças.
Que tempo maldito este,
que revolve as horas e os anos,
o sonho e a consciência,
o olho aberto e o morrer lentamente!

XI

Recém-nascido no leito de morte,
criatura de paz, imóvel, terno,
Neném do sol de rosto negro,
embalado no berço do silêncio,
amamentando-se da escuridão, boca vazia,
olhar apagado, coração deserto.

Pulmão sem ar, meu filho, meu velho,
céu enterrado, primavera aérea,
tornar-me-ei um pranto clandestino
para direcionar meus olhos para teu peito.

XII

Morrer é retirar-se, por-se de lado,
ocultar-se por um tempo, ficar quieto,
atravessar o ar de costa a costa a nado
e estar em todo lugar mas discreto.

Morrer é esquecer, ser esquecido,
refugiar-se nu no discreto
calor de Deus, e em seu obstruído
punho, crescer como um feto.

Morrer é se acender em decúbito frontal
e olhar para o osso e a cal e a fumaça
e tornar-se terra num esforço laboral.

Apagar-se é morrer, devagar e depressa,
capturar a eternidade por missão
e espalhar a alma na carcaça.

XIII

Meu pai, meu senhor, irmão meu,
amigo de minha alma, terno e forte,
recupera teu velho corpo, velho meu,
recupera teu corpo da morte.

Recupera teu coração como um rio,
tua fronte limpa que era meu consolo,
teu braço como um árvore no frio,
recupera todo teu corpo do solo.

Amo teus cabelos brancos, teu maxilar austero,
tua boca firme e tua visão alerta,
teu peito vasto e sólido e certeiro.

Eu te chamo, derrubo tua porta aberta.
Parece que sou eu que me dilacero:
Meu pai, desperta!

XIV

Não se quebrou o copo em que bebeste,
nem a taça, nem o tubo, nem teu prato.
Não se queimou a cama em que morreste,
nem sacrificamos um gato.

Tudo sobrevive a ti. Tudo permanece
apesar de tua morte e de minha mágoa.
É como se a vida nos descompusesse
como o câncer sobre tua espádua.

Te enterramos, te choramos, te morremos,
Estás bem morto e bem fodido e sem sementes
enquanto pensamos no que não fizemos

e queremos ter-te mesmo que estejas doente.
Nada do que eras, foste e fomos
a não ser de teu inferno habitantes.

XV

Meu pai por trinta ou quarenta anos,
meu melhor amigo o tempo todo,
guardião de meus medos, minha força,
fala nítida, coração resoluto,

morreste quando menos falta fazias,
quando mais falta me fazes, pai, avô,
filho e irmão meu, esponja do meu sangue,
lenço dos meus olhos, travesseiro dos meus sonhos.

Morreste e me mataste um pouco.
Porque não estás, já não seremos nunca
completos, em um lugar, de alguma maneira.

Algo está faltando ao mundo, e tu achaste por bem
empobrece-lo ainda mais e, por conta própria,
fazer tua gente triste e teu Deus feliz.

XVI

(27 de novembro)

É possível que abras os olhos e nos veja agora?
Poderás nos ouvir?
Poderás estender tuas mãos por um momento?

Estamos aqui, ao teu lado. Teu aniversário
é nossa festa, meu velho.
Tua esposa e teus filhos, tuas noras e teus netos
viemos todos abraçar-te, meu velho.
Tens que estar ouvindo!
Não comeces a chorar como nós,
porque tua morte não é senão um pretexto
para chorar por todos,
pelos que estão vivendo.
Um muro caído nos separa,
somente o corpo de Deus, somente teu corpo.

XVII

Acostumei-me a conservar-te, carregar-te comigo
como alguém carrega seu braço, seu corpo, sua cabeça.
Não eras distinto de mim, nem eras parecido.
Eras, quando estou triste, minha tristeza.

Eras, quando eu caía, meu abismo,
quando levantava, minha fortaleza.
Eras brisa e suor e cataclismo
e eras o pão quente sobre a mesa.

Amputado de ti, homem semifeito
ou sombra de ti, apenas tua cria,
de alma desmantelada, aberto o peito,

ofereço um crucifixo à tua agonia:
dou-te um pau, uma pedra, um feto,
meus filhos, minha angústia e meus dias.

Parte Final

I

Enquanto as crianças crescem, tu, com todos os mortos,
pouco a pouco te acabas.
Estive te observando durante as noites
por cima do mármore, em tua pequena casa.
Um dia já sem olhos, sem nariz, sem orelhas,
outro dia sem garganta,
a pele de tua fronte rompendo-se, afundando,
colhendo sombriamente o trigo de teus cabelos grisalhos.
Todo teu ser imerso em umidade e gases
produzindo teus restos, tua desordem, tua alma,
tua carne cada vez mais como teu terno,
mais madeira teus ossos, e mais ossos as tábuas.
Terra molhada onde havia tua boca,
ar putrefato, luz aniquilada,
o silêncio abarcando todo teu ser,
germinando borbulhas sob as plantas aquáticas.
(Sete palmos acima da terra, flores dominicais
querem te dar um beijo e não te dão nada).

II

Enquanto as crianças crescem e as horas nos falam,
tu, subterraneamente, lentamente, te extingues.
Lume enterrado e solitário, pavio da sombra,
veio de horror para quem te escava.

É tão fácil dizer “meu pai”
e tão difícil encontrar-te, larva
de Deus, semente de esperança!

Às vezes quero chorar e não quero
porque me traspassas
como um desabamento, porque te moves
como um vento formidável, como um calafrio
sob os lençóis,
como uma lerda larva ao largo da alma.

Se ao menos pudesse dizer: “papai, cebola,
pó, cansaço, nada, nada, nada”!
Se com um gole eu pudesse tragar-te!
Se, com esta dor, apunhalar-te!
Se, com este desvelo de memórias
– ferida aberta, vômito de sangue –
agarrar-te a face!

Eu sei que nem você nem eu,
nem um par de válvulas,
nem um bezerro de cobre, nem um par de asas
sustendo a morte, nem a espuma
em que naufraga o mar, nem – não – as praias,
a areia, a pedra, submissa ao vento e à água,
nem a árvore que é o avô de sua sombra,
nem nosso sol, enteado de seus ramos,
nem a fruta madura, incandescente,
nem a raiz de pérolas e de escamas,
nem teu tio, nem teu tetraneto, nem teus soluços,
nem minha loucura, e nem tuas costas
saberão do tempo sombrio que nos permeia
das veias mornas aos cabelos brancos.

(Tempo vazio, frasco de vinagre,
caracol recordando a ressaca)

Eis que tudo vem, tudo vai,
tudo, tudo chega ao fim.
Mas tu? Eu? Nós?
Para que nós levantamos nossas vozes?
De que serviu o amor?
Qual era a muralha
que detinha a morte? Onde estava
a negra criança que te velava?

Anjos degolados coloquei aos pés do teu caixão,
e cobri-te de terra, pedras, lágrimas,
para que não partas, para que não partas.

III

O mundo segue em frente, o tempo não para,
máscaras vem e vão.
Amanhece a dor um dia após o outro,
nos rodeamos de amigos e fantasmas,
às vezes parece que um arame extrai
o sangue, que uma flor rebenta,
que o coração dá frutos, e o cansaço
canta.

Embriagados, fartando-se de mulher e de bebida,
esperando crescer como as plantas,
fixo, imóvel, girando
na chama invisível.
Enquanto você, o forte, o generoso,
o despojado de mentiras e infâmias,
guerreiro da paz, juiz de vitórias
– cedro do Líbano, carvalhal de Chiapas –
te ocultas na terra, regressas
à tua raiz escura e desolada.

IV

Um ano ou dois ou três,
o que te importa?
O que é o tempo na morte? Que sino
incessante, silencioso, soa e soa?
Que subterrânea voz não pronunciada?
Que grito submerso, naufragando, interminável,
dos dentes de trás, na garganta
aérea, flutuante, detém as escamas?

Viver para isso? Para sentir os braços
e as pernas e a face penhorados,
arrendados à cova, os sucos
enlaçados nas cascas?
Para espremer os olhos noite
após noite no tremor escuro da cama,
redemoinho de imóveis transparências,
declínio da náusea?

Morrer para isso?
Para inventar a alma,
a veste de Deus, a eternidade, a água
do aguaceiro da morte, a esperança?
Morrer para pescar?
Para capturar a aranha com sua teia?

Estás em uma praia de algodões
e teus moais de sombras sobem e descem.

V

Minha mãe solitária, afundada em sua velhice,
sem dor e sem lamúria,
ferida por tua morte e por tua vida.

Foi isto o que deixaste. Tua paixão altiva,
Teu estro firme, teu labor sombrio.
Árvore frutífera a um passo da lenha,
seu curvo sonho que te ressuscita.
Foi isto o que deixaste. O que deixaste e não querias.

Passou o vendaval. Tudo o que restou da casa
foram o poço destampado e a base em ruínas.
E chorar é em vão. E se golpeias
as paredes de Deus, e se arrancas
os próprios cabelos ou tua camisa,
ninguém te ouve jamais, ninguém te olha.
Ninguém, nada regressa. Não retorna
o pó de ouro da vida.

Trad.: Nelson Santander

REPUBLICAÇÃO, com alterações na tradução: poema publicado na página originalmente em 18/10/2018

Algo Sobre la Muerte de Mayor Sabines

Primera parte

I

Déjame reposar,
aflojar los músculos del corazón
y poner a dormitar el alma
para poder hablar,
para poder recordar estos días,
los más largos del tiempo.

Convalecemos de la angustia apenas
y estamos débiles, asustadizos,
despertando dos o tres veces de nuestro escaso sueño
para verte en la noche y saber que respiras.
Necesitamos despertar para estar más despiertos
en esta pesadilla llena de gentes y de ruidos.

Tú eres el tronco invulnerable y nosotros las ramas,
por eso es que este hachazo nos sacude.
Nunca frente a tu muerte nos paramos
a pensar en la muerte,
ni te hemos visto nunca sino como la fuerza y la alegría.
No lo sabemos bien, pero de pronto llega
un incesante aviso,
una escapada espada de la boca de Dios
que cae y cae y cae lentamente.
Y he aquí que temblamos de miedo,
que nos ahoga el llanto contenido,
que nos aprieta la garganta el miedo.
Nos echamos a andar y no paramos
de andar jamás, después de medianoche,
en ese pasillo del sanatorio silencioso
donde hay una enfermera despierta de ángel.
Esperar que murieras era morir despacio,
estar goteando del tubo de la muerte,
morir poco, a pedazos.

No ha habido hora más larga que cuando no dormías,
ni túnel más espeso de horror y de miseria
que el que llenaban tus lamentos,
tu pobre cuerpo herido.

II

Del mar, también del mar,
de la tela del mar que nos envuelve,
de los golpes del mar y de su boca,
de su vagina obscura,
de su vómito,
de su pureza tétrica y profunda,
vienen la muerte, Dios, el aguacero
golpeando las persianas,
la noche, el viento.

De la tierra también,
de las raíces agudas de las casas,
del pie desnudo y sangrante de los árboles,
de algunas rocas viejas que no pueden moverse,
de lamentables charcos, ataúdes del agua,
de troncos derribados en que ahora duerme el rayo,
y de la yerba, que es la sombra de las ramas del cielo,
viene Dios, el manco de cien manos,
ciego de tantos ojos,
dulcísimo, impotente.
(Omniausente, lleno de amor,
el viejo sordo, sin hijos,
derrama su corazón en la copa de su vientre).

De los huesos también,
de la sal más entera de la sangre,
del ácido más fiel,
del alma más profunda y verdadera,
del alimento más entusiasmado,
del hígado y del llanto,
viene el oleaje tenso de la muerte,
el frío sudor de la esperanza,
y viene Dios riendo.

Caminan los libros a la hoguera.
Se levanta el telón: aparece el mar.

(Yo no soy el autor del mar).

III

Siete caídas sufrió el elote de mi mano
antes de que mi hambre lo encontrara,
siete veces mil veces he muerto
y estoy risueño como en el primer día.
Nadie dirá: no supo de la vida
más que los bueyes, ni menos que las golondrinas.
Yo siempre he sido el hombre, amigo fiel del perro,
hijo de Dios desmemoriado,
hermano del viento.
¡A la chingada las lágrimas!, dije,
y me puse a llorar
como se ponen a parir.
Estoy descalzo, me gusta pisar el agua y las piedras,
las mujeres, el tiempo,
me gusta pisar la yerba que crecerá sobre mi tumba
(si es que tengo una tumba algún día).
Me gusta mi rosal de cera
en el jardín que la noche visita.
Me gustan mis abuelos de totomoste
y me gustan mis zapatos vacíos
esperándome como el día de mañana.
¡A la chingada la muerte!, dije,
sombra de mi sueño,
perversión de los ángeles,
y me entregué a morir
como una piedra al río,
como un disparo al vuelo de los pájaros.

IV

Vamos a hablar del Príncipe Cáncer,
Señor de los Pulmones, Varón de la Próstata,
que se divierte arrojando dardos
a los ovarios tersos, a las vaginas mustias,
a las ingles multitudinarias.

Mi padre tiene el ganglio más hermoso del cáncer
en la raíz del cuello, sobre la subclavia,
tubérculo del bueno de Dios,
ampolleta de la buena muerte,
y yo mando a la chingada a todos los soles del mundo.
El Señor Cáncer, El Señor Pendejo,
es sólo un instrumento en las manos obscuras
de los dulces personajes que hacen la vida.

En las cuatro gavetas del archivero de madera
guardo los nombres queridos,
la ropa de los fantasmas familiares,
las palabras que rondan
y mis pieles sucesivas.

También están los rostros de algunas mujeres
los ojos amados y solos
y el beso casto del coito.
Y de las gavetas salen mis hijos.
¡Bien haya la sombra del árbol
llegando a la tierra,
porque es la luz que llega!

V

De las nueve de la noche en adelante,
viendo televisión y conversando
estoy esperando la muerte de mi padre.
Desde hace tres meses, esperando.
En el trabajo y en la borrachera,
en la cama sin nadie y en el cuarto de niños,
en su dolor tan lleno y derramado,
su no dormir, su queja y su protesta,
en el tanque de oxígeno y las muelas
del día que amanece, buscando la esperanza.

Mirando su cadáver en los huesos
que es ahora mi padre,
e introduciendo agujas en las escasas venas,
tratando de meterle la vida,
de soplarle en la boca el aire…

(Me avergüenzo de mí hasta los pelos
por tratar de escribir estas cosas.
¡Maldito el que crea que esto es un poema!)

Quiero decir que no soy enfermero,
padrote de la muerte,
orador de panteones, alcahuete,
pinche de Dios, sacerdote de las penas.
Quiero decir que a mí me sobra el aire…

VI

Te enterramos ayer.
Ayer te enterramos.
Te echamos tierra ayer.
Quedaste en la tierra ayer.
Estás rodeado de tierra
desde ayer.
Arriba y abajo y a los lados
por tus pies y por tu cabeza
está la tierra desde ayer.
Te metimos en la tierra,
te tapamos con tierra ayer.
Perteneces a la tierra
desde ayer.
Ayer te enterramos
en la tierra, ayer.

VII

Madre generosa
de todos los muertos,
madre tierra, madre,
vagina del frío,
brazos de intemperie,
regazo del viento,
nido de la noche,
madre de la muerte,
recógelo, abrígalo,
desnúdalo, tómalo,
guárdalo, acábalo.

VIII

No podrás morir.
Debajo de la tierra
no podrás morir.
Sin agua y sin aire
no podrás morir.

Sin azúcar, sin leche,
sin frijoles, sin carne,
sin harina, sin higos,
no podrás morir.
Sin mujer y sin hijos
no podrás morir.
Debajo de la vida
no podrás morir.
En tu tanque de tierra
no podrás morir.
En tu caja de muerto
no podrás morir.

En tus venas sin sangre
no podrás morir.

En tu pecho vacío
no podrás morir.
En tu boca sin fuego
no podrás morir.
En tus ojos sin nadie
no podrás morir.
En tu carne sin llanto
no podrás morir.
No podrás morir.
No podrás morir.
No podrás morir.

Enterramos tu traje,
tus zapatos, el cáncer;
no podrás morir.
Tu silencio enterramos.
Tu cuerpo con candados.
Tus canas finas,
tu dolor clausurado.
No podrás morir.

IX

Te fuiste no sé a dónde.
Te espera tu cuarto.
Mi mamá, Juan y Jorge
te estamos esperando.
Nos han dado abrazos
de condolencia, y recibimos
cartas, telegramas, noticias
de que te enterramos,
pero tu nieta más pequeña
te busca en el cuarto,
y todos, sin decirlo,
te estamos esperando.

X

Es un mal sueño largo,
una tonta película de espanto,
un túnel que no acaba
lleno de piedras y de charcos.
¡Qué tiempo éste, maldito,
que revuelve las horas y los años,
el sueño y la conciencia,
el ojo abierto y el morir despacio!

XI

Recién parido en el lecho de la muerte,
criatura de la paz, inmóvil, tierno,
recién niño del sol de rostro negro,
arrullado en la cuna del silencio,
mamando obscuridad, boca vacía,
ojo apagado, corazón desierto.

Pulmón sin aire, niño mío, viejo,
cielo enterrado y manantial aéreo
voy a volverme un llanto subterráneo
para echarte mis ojos en tu pecho.

XII

Morir es retirarse, hacerse a un lado,
ocultarse un momento, estarse quieto,
pasar el aire de una orilla a nado
y estar en todas partes en secreto.

Morir es olvidar, ser olvidado,
refugiarse desnudo en el discreto
calor de Dios, y en su cerrado
puño, crecer igual que un feto.

Morir es encenderse bocabajo
hacia el humo y el hueso y la caliza
y hacerse tierra y tierra con trabajo.

Apagarse es morir, lento y aprisa
tomar la eternidad como a destajo
y repartir el alma en la ceniza.

XIII

Padre mío, señor mío, hermano mío,
amigo de mi alma, tierno y fuerte,
saca tu cuerpo viejo, viejo mío,
saca tu cuerpo de la muerte.

Saca tu corazón igual que un río,
tu frente limpia en que aprendí a quererte,
tu brazo como un árbol en el frío
saca todo tu cuerpo de la muerte.

Amo tus canas, tu mentón austero,
tu boca firme y tu mirada abierta,
tu pecho vasto y sólido y certero.

Estoy llamando, tirándote la puerta.
Parece que yo soy el que me muero:
¡padre mío, despierta!

XIV

No se ha roto ese vaso en que bebiste,
ni la taza, ni el tubo, ni tu plato.
Ni se quemó la cama en que moriste,
ni sacrificamos un gato.

Te sobrevive todo. Todo existe
a pesar de tu muerte y de mi flato.
Parece que la vida nos embiste
igual que el cáncer sobre tu omoplato.

Te enterramos, te lloramos, te morimos,
te estás bien muerto y bien jodido y yermo
mientras pensamos en lo que no hicimos

y queremos tenerte aunque sea enfermo.
Nada de lo que fuiste, fuiste y fuimos
a no ser habitantes de tu infierno.

XV

Papá por treinta o por cuarenta años,
amigo de mi vida todo el tiempo,
protector de mi miedo, brazo mío,
palabra clara, corazón resuelto,

te has muerto cuando menos falta hacías,
cuando más falta me haces, padre, abuelo,
hijo y hermano mío, esponja de mi sangre,
pañuelo de mis ojos, almohada de mi sueño.

Te has muerto y me has matado un poco.
Porque no estás, ya no estaremos nunca
completos, en un sitio, de algún modo.

Algo le falta al mundo, y tú te has puesto
a empobrecerlo más, y a hacer a solas
tus gentes tristes y tu Dios contento.

XVI

(Noviembre 27)

¿Será posible que abras los ojos y nos veas ahora?
¿Podrás oírnos?
¿Podrás sacar tus manos un momento?

Estamos a tu lado. Es nuestra fiesta,
tu cumpleaños, viejo.
Tu mujer y tus hijos, tus nueras y tus nietos
venimos a abrazarte, todos, viejo.
¡Tienes que estar oyendo!
No vayas a llorar como nosotros
porque tu muerte no es sino un pretexto
para llorar por todos,
por los que están viviendo.
Una pared caída nos separa,
sólo el cuerpo de Dios, sólo su cuerpo.

XVII

Me acostumbré a guardarte, a llevarte lo mismo
que lleva uno su brazo, su cuerpo, su cabeza.
No eras distinto a mí, ni eras lo mismo.
Eras, cuando estoy triste, mi tristeza.

Eras, cuando caía, eras mi abismo,
cuando me levantaba, mi fortaleza.
Eras brisa y sudor y cataclismo
y eras el pan caliente sobre la mesa.

Amputado de ti, a medias hecho
hombre o sombra de ti, sólo tu hijo,
desmantelada el alma, abierto el pecho,

ofrezco a tu dolor un crucifijo:
te doy un palo, una piedra, un helecho,
mis hijos y mis días, y me aflijo.

Parte Final

I

Mientras los niños crecen, tú, con todos los muertos,
poco a poco te acabas.
Yo te he ido mirando a través de las noches
por encima del mármol, en tu pequeña casa.
Un día ya sin ojos, sin nariz, sin orejas,
otro día sin garganta,
la piel sobre tu frente agrietándose, hundiéndose,
tronchando obscuramente el trigal de tus canas.
Todo tú sumergido en humedad y gases
haciendo tus desechos, tu desorden, tu alma,
cada vez más igual tu carne que tu traje,
más madera tus huesos y más huesos las tablas.
Tierra mojada donde había tu boca,
aire podrido, luz aniquilada,
el silencio tendido a todo tu tamaño
germinando burbujas bajo las hojas de agua.
(Flores dominicales a dos metros arriba
te quieren pasar besos y no te pasan nada.)

II

Mientras los niños crecen y las horas nos hablan
tú, subterráneamente, lentamente, te apagas.
Lumbre enterrada y sola, pabilo de la sombra,
veta de horror para el que te escarba.

¡Es tan fácil decirte “padre mío”
y es tan difícil encontrarte, larva
de Dios, semilla de esperanza!

Quiero llorar a veces, y no quiero
llorar porque me pasas
como un derrumbe, porque pasas
como un viento tremendo, como un escalofrío
debajo de las sábanas,
como un gusano lento a lo largo del alma.

¡Si sólo se pudiera decir: “papá, cebolla,
polvo, cansancio, nada, nada, nada”!
¡Si con un trago te tragara!
¡Si con este dolor te apuñalara!
¡Si con este desvelo de memorias
—herida abierta, vómito de sangre—
te agarrara la cara!

Yo sé que tú ni yo,
ni un par de valvas,
ni un becerro de cobre, ni unas alas
sosteniendo la muerte, ni la espuma
en que naufraga el mar, ni —no— las playas,
la arena, la sumisa piedra con viento y agua,
ni el árbol que es abuelo de su sombra,
ni nuestro sol, hijastro de sus ramas,
ni la fruta madura, incandescente,
ni la raíz de perlas y de escamas,
ni tu tío, ni tu chozno, ni tu hipo,
ni mi locura, y ni tus espaldas,
sabrán del tiempo obscuro que nos corre
desde las venas tibias a las canas.

(Tiempo vacío, ampolla de vinagre,
caracol recordando la resaca.)

He aquí que todo viene, todo pasa,
todo, todo se acaba.
¿Pero tú? ¿pero yo? ¿pero nosotros?
¿para qué levantamos la palabra?
¿de qué sirvió el amor?
¿cuál era la muralla
que detenía la muerte? ¿dónde estaba
el niño negro de tu guarda?

Ángeles degollados puse al pie de tu caja,
y te eché encima tierra, piedras, lágrimas,
para que ya no salgas, para que no salgas.

III

Sigue el mundo su paso, rueda el tiempo
y van y vienen máscaras.
Amanece el dolor un día tras otro,
nos rodeamos de amigos y fantasmas,
parece a veces que un alambre estira
la sangre, que una flor estalla,
que el corazón da frutas, y el cansancio
canta.

Embrocados, bebiendo en la mujer y el trago,
apostando a crecer como las plantas,
fijos, inmóviles, girando
en la invisible llama.
Y mientras tú, el fuerte, el generoso,
el limpio de mentiras y de infamias,
guerrero de la paz, juez de victorias
—cedro del Líbano, robledal de Chiapas—
te ocultas en la tierra, te remontas
a tu raíz obscura y desolada.

IV

Un año o dos o tres,
te da lo mismo.
¿Cuál reloj en la muerte?, ¿qué campana
incesante, silenciosa, llama y llama?
¿qué subterránea voz no pronunciada?
¿qué grito hundido, hundiéndose, infinito
de los dientes atrás, en la garganta
aérea, flotante, pare escamas?

¿Para esto vivir? ¿para sentir prestados
los brazos y las piernas y la cara,
arrendados al hoyo, entretenidos
los jugos en la cáscara?
¿para exprimir los ojos noche
a noche en el temblor obscuro de la cama,
remolino de quietas transparencias,
descendimiento de la náusea?

¿Para esto morir?
¿para inventar el alma,
el vestido de Dios, la eternidad, el agua
del aguacero de la muerte, la esperanza?
¿morir para pescar?
¿para atrapar con su red a la araña?

Estás sobre la playa de algodones
y tu maea de sombras sube y baja.

V

Mi madre sola, en su vejez hundida,
sin dolor y sin lástima,
herida de tu muerte y de tu vida.

Esto dejaste. Su pasión enhiesta,
su celo firme, su labor sombría.
Árbol frutal a un paso de la leña,
su curvo sueño que te resucita.
Esto dejaste. Esto dejaste y no querías.

Pasó el viento. Quedaron de la casa
el pozo abierto y la raíz en ruinas.
Y es en vano llorar. Y si golpeas
las paredes de Dios, y si te arrancas
el pelo o la camisa,
nadie te oye jamás, nadie te mira.
No vuelve nadie, nada. No retorna
el polvo de oro de la vida.

Joan Margarit – A moça do semáforo

Tens a mesma idade que eu tinha
quando comecei a sonhar em encontrar-te.
Ignorava então, assim como tu ignoras,
que o amor se transforma na arma carregada
de solidão e melancolia
que aponta agora para ti em meus olhos.
Tu és a moça que busquei
durante tanto tempo, quando ainda não existias.
E eu o homem a quem, um dia,
desejarás que oriente teus passos.
Mas estarei tão distante de ti então
quanto estás agora de mim neste semáforo.

Trad.: Nelson Santander

REPUBLICAÇÃO, com alterações na tradução: poema publicado na página originalmente em 14/10/2018

Joan Margarit – La muchacha del semáforo

Tienes la misma edad que yo tenía
cuando empecé a soñar con encontrarte.
Entonces ignoraba, igual que tú lo ignoras,
que el amor se transforma en el arma cargada
de soledad y de melancolía
que ahora está apuntándote en mis ojos.
Tú eres la muchacha que busqué
durante tanto tiempo cuando aún no existías.
Y yo el hombre hacia quien querrás
alguna vez encaminar tus pasos.
Pero estaré tan lejos de ti entonces
como lo estás ahora de mí en este semáforo.

Alfonsina Storni – Leva-me

Quero esquecer que vivo: leva-me a algum lugar;
Ata-me a tua alma; a alva a brilhar.

Colhe-me entre tuas mãos como em um branco casulo
E mostra-me aos deuses com glória e com orgulho.

Leva-me! É uma noite muito escura e sombria!…
A morte caça pelo mundo tal qual harpia.

Faz-me esquecer o peso que carrego nos ombros
Essa carga pesada de pesados escombros.

Liberta-me! Em tuas mãos quero pesar menos
Do que pesam – luzes – os pensamentos serenos.

Mais leve do que o ar, mais leve que o próprio ar
Como bolha de espuma que sobe ao clarear.

Espuma, brisa, aroma, casulo, flor, fragrância:
Leva-me para sempre, sem rumo nem distância.

Trad.: Nelson Santander

REPUBLICAÇÃO, com alterações na tradução: poema publicado na página originalmente em 12/10/2018

Llévame

Quiero olvidar que vivo: llévame a donde sea;
Enrédame en tu alma; la aurora centellea.

Tómame entre tus manos como blanco capullo
Y muéstrame a los dioses con gloria y con orgullo.

¡Llévame! Está la noche muy negra y muy sombría!…
La muerte por los mundos anda de cacería.

Hazme olvidar lo mucho que me pesa en los hombros
Esta carga pesada de pesados escombros.

¡Libértame! En tus manos yo quiero pesar menos
De lo que pesan — luces — los pensamientos buenos.

Liviana más que el aire, más que el aire liviana;
Como globo de espuma que asciende en la mañana.

Espuma, brisa, aroma, capullo, flor, fragancia:
Llévame para siempre sin rumbo ni distancia.