Categoria: Poesia em Língua Espanhola
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Joan Margarit – Amor e tempo

Lembras quando ainda desconheciasque a vida não teria piedade de ti?Amor e tempo: o tempo nos habitacomo a areia do rio que, lentamente,vai moldando a forma da margem.O amor, que refletiu em teu olharo esplendor da ilha do tesouro.Sensual, solitária, cercadapela sonora senectude do mare os gritos militares das gaivotas.O sonho clandestino dos cinquenta anos.…
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Julia Hartwig – Assim será

Tudo retornaráE não será em forma de cinzas ou ruínastudo será como antes da extinção à vista e em florAmizades não desfeitaspoços não envenenadoscombates ainda repletos de esperança de êxito Incontáveis estrelasUma lua desconhecidaNós ainda ignorantesdo que pode ser realizadoe daquilo que para semprenos será arrebatado Trad.: Nelson Santander, a partir da versão em espanhol…
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Manuel Vilas – O último Elvis

Respeita sempre a decadência das mulherese dos homens que amaram ou pelo menos tentaram amara vida e esta os chamuscou ou lhes quebrou os ossos da face,as entranhas e as veias e o fígado e o nobre coração.Respeita todos os sagrados e humildes naufrágiosdos seres humanos. Respeita aqueles que se suicidaram. Respeita aqueles que se…
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José María Cumbreño – Identidade

Durante anos, a roupa que vesti herdei do meu irmão mais velho.Meu nome me foi dado em homenagem ao meu avô.O primeiro carro que dirigi era de segunda mão.A primeira mulher que me beijou já havia beijado outros.A casa em que moro é alugada.Tudo o que eu vier a escrever alguém já terá escrito muito…
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Juan Luis Panero – Mensagem de Antonio a Cleópatra

Mensagem de Antonio a Cleópatra I Elogiem outrostua beleza adormecida,a suavidade de tua pele em repouso,a medida perfeição de teus membros.Eu não vim por isso,vim somente para te penetrarpela frente e por tráscomo um punhal que atravessaa água límpidae afunda e se perdeno poço sombrio. Mensagem de Cleópatra a Antonio II Não louves minha beleza,outros…
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José Asunción Silva – Obra Humana

No interior da floresta intocadaem que, uma noite, no início de maio,tocou a velha ramagem folhadada pálida lua o primeiro raio, poucos meses depois a luz de gásda aurora na estação iluminouo curso da locomotiva audazque por trilhos duríssimos cruzou. E onde fora certa vez um abrigo,porto seguro de um alado enxame,atravessou o espaço um…
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Berta Piñán – Duas Garças

Chegaram no sábado. Vimo-lascedo porque nesse dia chegoutambém o frio e passamosa manhã falando do tempo.São duas, e me pergunto quedestino imprevisto as trouxea esta árvore precisa, a este exatolugar onde o tempo delascruza, como um enigma confuso,nosso tempo.À tarde, conversamos sobre elas:“Esta espera delas, imóvel, paciente – dizes -,não sei que imagem estranha e…
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Francisco Brines – Os Verões

A Carmen Marí Foram longos e ardentes os verões!Ficamos nus juntos ao mar,e o mar ainda mais nu. Com os olhos,e em corpos ágeis, praticávamosa mais prazerosa posse do mundo. Éramos tocados por vozes banhadas de lua,e era a vida vulcânica e violenta,ingratos com o sonho, fluíamos.O ritmo sombrio das ondasnos abrasava eternamente, e éramos…
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Francisco X. Alarcón – Prece

Quero um deuspor cúmpliceque vire a noiteem espeluncasde má reputaçãoe acorde tardeaos sábados um deusque assobiepelas ruase estremeçadiante dos lábiosdo seu amor um deusque fique na filaà entradados cinemase tome café com leite um deusque cuspasangue detuberculosoe não tenhanem para o ônibus um deusque desmaiecom uma cacetadada polícianum atode protesto um deusque se urinede medo…
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Joan Margarit – Cemitério de Montjuïc

Algo resta das almas,como a brisa que surgedepois de alguém passar,e que faz estremeceruma fina cortina na janela.Pela trilha de pedras ásperas que não esquecemmas calam, severas, o que sabem,o vento deixa um silêncio de lágrimaspor vidas como a nossa, perdidas.“Jazigo perpétuo”, a terrasempre dura, fileiras de ciprestes:provinciano teatro da morte.Nosso amor é como o…