Lucille Clifton – [entardecer e meu falecido ex-marido]

entardecer e meu falecido ex-marido
se ergue do tabuleiro ouija
através do ar trêmulo eu resmungo
os nomes de nossos filhos rebeldes
e peço-lhe que explique por que
faço tanto alvoroço como uma peixeira por que
o câncer e a terrível solidão
e as guerras contra o nosso povo
e o quarto cintila como se lavado
em lágrimas e saindo da névoa uma das mãos
se torna carne e observo
enquanto seus dedos apontando soletram

saber não ajuda em nada

Trad.: Nelson Santander

Mais do que uma leitura, uma experiência. Clique, compre e contribua para manter a poesia viva em nosso blog

[evening and my dead once husband]

evening and my dead once husband
rises up from the spirit board
through trembled air i moan
the names of our wayward sons
and ask him to explain why
i fuss like a fishwife why
cancer and terrible loneliness
and the wars against our people
and the room glimmers as if washed
in tears and out of the mist a hand
becomes flesh and i watch
as its pointing fingers spell

it does not help to know

Sharon Olds – Ode à terra

Querida terra, peço desculpa por tê-la desprezado,
pensei que você fosse apenas o cenário
para os protagonistas — as plantas,
os animais e os animais humanos.
É como se eu amasse apenas as estrelas
e não o céu que deu a elas
espaço para brilhar. Sutil, variada,
sensível, você é a pele do nosso solo,
você é a nossa democracia. Quando compreendi
que nunca a havia honrado como uma igual
viva, senti vergonha de mim mesma,
como se não tivesse reconhecido
uma personagem que parecia tão diferente de mim,
mas agora posso ver-nos a todos, feitos dos
mesmos materiais básicos —
primos daquela primeira explosão do nada —
em nossa intrincada equação juntos. Ó terra,
ajude-nos a encontrar maneiras de servir à sua vida,
você que nos gerou e nos alimentou
e que, no final, vai nos acolher,
e girar conosco, e oscilar e orbitar.

Trad.: Nelson Santander

Mais do que uma leitura, uma experiência. Clique, compre e contribua para manter a poesia viva em nosso blog

Ode to Dirt

Dear dirt, I am sorry I slighted you,
I thought that you were only the background
for the leading characters—the plants
and animals and human animals.
It’s as if I had loved only the stars
and not the sky which gave them space
in which to shine. Subtle, various,
sensitive, you are the skin of our terrain,
you’re our democracy. When I understood
I had never honored you as a living
equal, I was ashamed of myself,
as if I had not recognized
a character who looked so different from me,
but now I can see us all, made of the
same basic materials—
cousins of that first exploding from nothing—
in our intricate equation together. O dirt,
help us find ways to serve your life,
you who have brought us forth, and fed us,
and who at the end will take us in
and rotate with us, and wobble, and orbit.

Juan Vicente Piqueras – Oração do incrédulo

O importante é rezar, não importa a quem,
que as perguntas sejam as orações
do pensamento, plantem sua semente
em nossa solidão, e que não exista paz
que, à força de insistir, seja capaz
de não existir, não tenha remédio
senão atender à voz de quem a chama.

Que deus não exista, acaso
é razão para nele não crer?

Deus é o nome da sede, a sina
e a querência desta solidão
em que ambos consistimos.

De ninguém falo com deus, de deus com ninguém.
Escrevo-o com cuidado e em minúscula.
Sou ateu e laico todos os dias.
Mas há noites amnióticas
em que minha alma reza de joelhos,
não importa a quem,
pergunta, espera, pede.

E minha alma ajoelhada é uma vela
à luz da qual, em cuja noite, escrevo.

Trad.: Nelson Santander

REPUBLICAÇÃO: poema originalmente publicado na página em 14/05/2020

Mais do que uma leitura, uma experiência. Clique, compre e contribua para manter a poesia viva em nosso blog

Plegaria del descreído

Lo importante es rezar, no importa a quién,
que las preguntas sean las plegarias
del pensamiento, planten su semilla
en nuestra soledad, y no haya paz
que, a fuerza de insistir, sea capaz
de no existir, no tenga más remedio
que acudir a la voz de quien la llama.

Que dios no exista, ¿acaso
es razón para no creer en él?

Dios es el nombre de la sed, el sino
y la querencia de esta soledad
en que ambos consistimos.

De nadie hablo con dios, de dios con nadie.
Lo escribo con cuidado y con minúscula.
Yo soy ateo y laico cada día.
Pero hay noches amnióticas
en que mi alma reza de rodillas
no importa a quién,
pregunta, espera, pide.

Y mi alma arrodillada es una vela
a cuya luz, en cuya noche, escribo.

Kim Addonizio – Poema da morte

Tenho que trazer isso à tona de novo, não há outro assunto?
Posso esquecer o pedaço achatado de pele de esquilo
agitando-se na estrada, posso esquecer a estrada
e como não consigo parar de dirigir, não importa o que aconteça,
nem mesmo para abastecer, ou por amor, posso por favor não pensar
no meu pai deixado em alguma cidade atrás de mim,
em seu terno azul, com as mãos cruzadas,
e na minha avó queixando-se da bexiga,
engolindo todas as pílulas, e nas cidades pelas quais estou passando agora,
posso tentar não vê-las, as crianças agachadas
nas valas, os orifícios em seus peitos e testas,
a mulher embalando seu tumor, o cão arrastando seus quadris aleijados?
Posso fechar os olhos e recostar se eu quiser,
posso me apoiar nos ombros dos meus amigos
e comer enquanto eles comem, e beber da garrafa
que está sendo passada de mão em mão; posso me animar,
não posso, Cristo? Posso? Deve ter outro assunto, em um minuto
vou pensar nele. Vou. E se você souber qual é, me ajude.
Ajude-me. Lembre-me por que estou aqui.

Trad.: Nelson Santander

Mais do que uma leitura, uma experiência. Clique, compre e contribua para manter a poesia viva em nosso blog

Death poem

Do I have to bring it up again, isn’t there another subject?
Can I forget about the scrap of flattened squirrel fur
fluttering on the road, can I forget the road
and how I can’t stop driving no matter what,
not even for gas, or love, can I please not think
about my father left in some town behind me,
in his blue suit, with his folded hands,
and my grandmother moaning about her bladder
and swallowing all the pills, and the towns I’m passing now
can I try not to see them, the children squatting
by the ditches, the holes in their chests and foreheads,
the woman cradling her tumor, the dog dragging its crippled hips?
I can close my eyes and sit back if I want to,
I can lean against my friends’ shoulders
and eat as they’re eating, and drink from the bottle
being passed back and forth; I can lighten up, can’t I,
Christ, can’t I? There is another subject, in a minute
I’ll think of it. I will. And if you know it, help me.
Help me. Remind me why I’m here.

Li-Young Lee – Cuidado

Então somos poeira. Enquanto isso, minha esposa e eu
fazemos a cama. Segurando as pontas opostas do lençol,
nós o levantamos, fazendo-o ondular, e depois puxamos com força,
medindo com os olhos enquanto ele cai alinhado
entre nós. Puxamos, dobramos e ajustamos. E se eu tiver sorte,
ela vai se lembrar de um sonho recente e me contar.
Um dia, nos deitaremos e não nos levantaremos.
Um dia, tudo o que guardamos será entregue.
Até lá, seguiremos aprendendo a reconhecer
aquilo que amamos e o que é necessário
para cuidar do que não nos cabe.
Tantas vezes o medo me levou
a abandonar o que sei que, no fim,
terei que renunciar. Mas, por ora,
ouvirei o sonho dela,
e ela o meu, nossa mútua escuta trazendo
mais e mais detalhes à luz
de uma cuidado recíproco e frágil.

Trad.: Nelson Santander

Mais do que uma leitura, uma experiência. Clique, compre e contribua para manter a poesia viva em nosso blog

To Hold

So we’re dust. In the meantime my wife and I
make the bed. Holding opposite edges of the sheet,
we raise it, billowing, then pull it tight,
measuring by eye as it falls into alignment
between us. We tug, fold, tuck. And if I’m lucky,
she’ll remember a recent dream and tell me.
One day we’ll lie down and not get up.
One day, all we guard will be surrendered.
Until then, we’ll go on learning to recognize
what we love, and what it takes
to tend what isn’t for our having.
So often fear has led me
to abandon what I know I must relinquish
in time. But for the moment,
I’ll listen to her dream,
and she to mine, our mutual hearing calling
more and more detail into the light
of a joint and fragile keeping.

Emily Dickinson – Após grande dor sobrevém um sentimento austero

Após grande dor sobrevém um sentimento austero –
Os Nervos ficam cerimoniosos como um cemitério –
Indaga o rijo Coração se foi Ele que sofreu,
Se Ontem, ou Séculos antes aconteceu?

Os pés, mecânicos, circundam sem cessar –
Nos Sopés, no Ar, em qualquer Lugar –
Um caminho de madeira
Que indiferentemente medra
Um contentamento de Quartzo, uma pedra –

A Hora de Chumbo chegou –
Lembrada, para quem perdurou,
Como as pessoas congeladas recordam a neve –
Primeiro – o Frio – após o Torpor – e por fim o até breve –

Trad.: Nelson Santander

REPUBLICAÇÃO: poema originalmente publicado na página em 08/05/2020

Mais do que uma leitura, uma experiência. Clique, compre e contribua para manter a poesia viva em nosso blog

After great pain a formal feeling comes

After great pain a formal feeling comes –
The Nerves sit ceremonious, like Tombs –
The stiff Heart questions was it He, that bore,
And Yesterday, or Centuries before?

The feet, mechanical, go round –
Of Ground, or Air, or Aught –
A Wooden way
Regardless grown,
A Quartz contentment, like a stone –

This is the Hour of Lead –
Remembered, if outlived,
As Freezing persons, recollect the snow –
First – Chill – then Stupor – then the letting go –

Linda Gregg – Noites na vizinhança

Carrego a alegria como um coral canta,
mas discretamente como a noite entoando
cânticos. Para afastar o vento,
e permitir que os que estão ocultos saiam
para a rua e se juntem
à lua e a essa profusão de
estrelas e constelações.
Percebo que aqueles que sofrem
brilham mais do que os outros.
É para que possam ser encontrados,
acho. Encontrados e abrigados.

Trad.: Nelson Santander

Mais do que uma leitura, uma experiência. Clique, compre e contribua para manter a poesia viva em nosso blog

Nights in the Neighborhood

I carry joy as a choir sings,
but quietly as the dark
carols. To keep the wind away
so the hidden ones will come
out into the street and add
themselves to this array of
stars, constellations and moon.
I notice the ones in pain
shine more than the others.
It’s so they can be found,
I think. Found and harbored.

William Carlos Williams – Nevasca

Neve:
anos de fúria seguindo
horas que flutuam indolentes —
a nevasca
deposita seu fardo
cada vez mais fundo por três dias
ou sessenta anos, não? Então
o sol! um tumulto de
flocos amarelos e azuis —
Árvores de aparência hirsuta destacam-se
em longas alamedas
sobre uma selvagem solidão.
O homem se vira e lá —
seu solitário rastro estendendo-se
sobre o mundo.

Trad.: Nelson Santander

REPUBLICAÇÃO: poema originalmente publicado na página em 07/05/2020

Mais do que uma leitura, uma experiência. Clique, compre e contribua para manter a poesia viva em nosso blog

Blizzard

Snow:
years of anger following
hours that float idly down —
the blizzard
drifts its weight
deeper and deeper for three days
or sixty years, eh? Then
the sun! a clutter of
yellow and blue flakes —
Hairy looking trees stand out
in long alleys
over a wild solitude.
The man turns and there —
his solitary track stretched out
upon the world.

Edward Hirsh – Como será a última noite

Você está sentado à janela
de um café vazio à beira-mar.
Já é noite, e o dono está fechando,
embora você ainda esteja curvado sobre o aquecedor,
que lentamente perde calor.

Agora você caminha rumo à costa
para observar os últimos azuis se dissipando nas ondas.
Você viveu em casas pequenas, espaços apertados —
as paredes ao seu redor pareciam se fechar —
mas o céu e o mar também eram seus.

Não há mais ninguém por perto para beber com você
da névoa úmida, das profundezas sombrias.
Você está só com o cosmos em redemoinho.
Adeus, amor, distante, em um lugar quente.
Aqui, a noite é sem fim, e o silêncio, infinito.

Trad.: Nelson Santander

Mais do que uma leitura, uma experiência. Clique, compre e contribua para manter a poesia viva em nosso blog

What the Last Evening Will Be Like

You’re sitting at a small bay window
in an empty café by the sea.
It’s nightfall, and the owner is locking up,
though you’re still hunched over the radiator,
which is slowly losing warmth.

Now you’re walking down to the shore
to watch the last blues fading on the waves.
You’ve lived in small houses, tight spaces—
the walls around you kept closing in—
but the sea and the sky were also yours.

No one else is around to drink with you
from the watery fog, shadowy depths.
You’re alone with the whirling cosmos.
Goodbye, love, far away, in a warm place.
Night is endless here, silence infinite.

Yehuda Amichai – Como a marca de nossos corpos

Como a marca de nossos corpos
Nem um sinal restará de que estivemos neste lugar.
O mundo se fecha atrás de nós,
A areia se recompõe.

Já se avizinha um futuro
Em que você não mais existe,
Já um vento sopra as nuvens
Que não choverão sobre nós.

E seu nome já está nas listas de passageiros de navios
E nos registros de hotéis
Nos quais nomes isolados
Entorpecem o coração.

As três línguas que conheço,
Todas as cores em que vejo e sonho:

Nada me ajudará.

Trad.: Nelson Santander, a partir da versão para o inglês vertida por Assia Gutmann

Mais do que uma leitura, uma experiência. Clique, compre e contribua para manter a poesia viva em nosso blog

Like our bodies’ imprint

Like our bodies’ imprint
Not a sign will remain that we were in this place.
The world closes behind us,
The sand straightens itself.

Dates are already in view
In which you no longer exist,
Already a wind blows clouds
Which will not rain on us both.

And your name is already in the passenger lists of ships,
And in the registers of hotels,
Whose names alone
Deaden the heart.

The three languages I know,
All the colors in which I see and dream:

None will help me.