Alfredo Buxán – A eternidade das Cinzas

Morrer é um momento, o resto um vazio
que preenchemos de tempo e de silêncio.
Viver, por outro lado, é fácil: prosseguir.
Esta severa dúvida que atravessa os corpos.
Pisar nas pegadas de outros pés sobre o cascalho,
aprender com precisa dor
o modo mais sereno de enfrentar o momento:
nu e sem uivar, apegado à paz
de quem sabe que não pode saber
porque é partícula e não germe, fragmento
no espaço, molhada bruma que se extingue
e emudece em silêncio sob o sol,
sobre a pedra quase eterna que o acolhe.

Trad.: Nelson Santander

Alfredo Buxán – Eternidad de la Ceniza

Morir es un momento, lo demás un vacío
que colmamos de tiempo y de silencio. Vivir, en cambio,
es fácil: proseguir.
Esta severa duda que atraviesa los cuerpos.
Pisar la huella de otros pies sobre la grava,
aprender con certero dolor
el modo más sereno de enfrentar el instante:
desnudo y sin aullar, apegado a la paz
de quien conoce que no puede saber
porque es partícula y no germen, fragmento
en el espacio, mojada brizna que se extingue
y enmudece en silencio bajo el sol,
sobre la piedra casi eterna que lo acoge.

Joan Margarit – Não estava longe, não era difícil

Chegou este tempo
em que já não machuca a vida que se perde,
em que a luxúria é tão só
uma lâmpada inútil, e a inveja se olvida.
É um tempo de perdas prudentes, necessárias,
e não é um tempo de chegar
mas de partir. O amor, agora,
por fim coincide com a inteligência.
Não estava longe,
não era difícil. É um tempo
que não me deixa mais do que o horizonte
como medida da solidão.
Um tempo de tristeza protetora.

Trad.: Nelson Santander

Joan Margarit – No estaba lejos, no era difícil

Ha llegado este tiempo
cuando ya no hace daño la vida que se pierde,
cuando ya la lujuria es tan sólo
una lámpara inútil, y la envidia se olvida.
Es un tiempo de pérdidas prudentes, necesarias,
y no es un tiempo de llegar
sino de irse. El amor, ahora,
por fin coincide con la inteligencia.
No estaba lejos,
no era difícil. Es un tiempo
que no me deja más que el horizonte
como medida de la soledad.
Un tiempo de tristeza protectora.

Joan Margarit – Discurso do Método

Já de criança procurava as janelas
para pode fugir com o olhar.
Desde então, se entro em um lugar,
observo com atenção onde deixo meu casaco
e onde está a porta de saída.
Liberdade, para mim, quer dizer fuga.
Há muitas portas no mundo.
Inclusive o sexo, em caso de emergência,
pode sê-lo, embora todas se vão fechando
e, para fugir, depressa fiquem
apenas as janelas da infância.
De par em par abertas para poder saltar.

Trad.: Nelson Santander

Joan Margarit – Discurso del Método

De niño ya buscaba las ventanas
para poder huir con la mirada.
Desde entonces, si entro en un lugar,
miro con atención dónde dejo el abrigo
y dónde está la puerta de salida.
Libertad, para mí, quiere decir huida.
Hay muchas puertas en el mundo.
Incluso el sexo, en caso de emergencia,
puede serlo, aunque todas van cerrándose
y, para huir, muy pronto quedarán
tan solo las ventanas de la infancia.
De par en par abiertas para poder saltar.

Idea Vilariño – Ou foram nove

Talvez tivemos só sete noites
não sei
não as contei
como poderia ter feito.
Talvez não mais que seis
ou foram nove.
Não sei,
mas valeram a pena
como o amor mais duradouro.
Talvez
com quatro ou cinco noites dessas,
mas precisamente como essas,
talvez
seja possível viver
como de um longo amor
uma vida inteira.

Trad.: Nelson Santander

Idea Vilariño – O fueron nueve

Tal vez tuvimos sólo siete noches
no sé
no las conté
cómo hubiera podido.
Tal vez no más que seis
o fueron nueve.
No sé
pero valieron
como el más largo amor.
Tal vez
de cuatro o cinco noches como esas
pero precisamente como esas
tal vez
pueda vivirse
como de un largo amor
toda una vida.

Eduardo Chirinos – O que meu pai realmente quer de mim

1
Esta noite tive um sonho. Seguia com meu pai
por uma estrada de terra. Os dois íamos a cavalo
e mal trocávamos uma palavra. Ao longe se via
a sombra de alguns salgueiros, as luzes de um povoado
desconhecido e remoto. De repente, meu pai deteve
seu cavalo e perguntou-me se eu sabia para onde íamos.
Respondi que não. Então estamos bem, ele me disse.

2
Os cavalos do sonho sabiam de cor
o caminho. Era caso de abandonar as
rédeas, de deixar-se levar. Isso me causava um
pouco de apreensão, até mesmo um pouco de medo.
Meu pai, por outro lado, parecia muito tranquilo.
Pensei, parece tranquilo porque está morto.

3
Aqui é onde vivo, disse, como se me tirasse
uma venda. Foi muito pouco o que vi. Só um
deserto de pedras, redemoinhos de areia,
ossos amarelos de cavalos. O que você acha?
Não soube o que dizer. Estava com sede e me doía um
pouco a garganta. É um lugar bonito, disse,
mas às vezes gostaria de voltar. Por que
não voltas então?, perguntei. Porque é
mais fácil que tu venhas para cá, disse. E desapareceu.

Trad.: Nelson Santander

Eduardo Chirinos – Lo que mi padre quiere realmente de mí

1
Anoche tuve un sueño. Acompañaba a mi padre
por un camino de tierra. Los dos íbamos a caballo
y apenas cruzábamos palabras. A lo lejos se veía
la sombra de unos sauces, las luces de un pueblo
desconocido y remoto. De pronto, mi padre detuvo
su caballo y preguntó si yo sabía a dónde íbamos.
Le contesté que no. Entonces vamos bien, me dijo.

2
Los caballos del sueño sabían de memoria
el recorrido. Era cuestión de abandonar las
riendas, de dejarse llevar. Eso me causaba un
poco de aprensión, incluso un poco de miedo.
Mi padre, en cambio, parecía muy tranquilo.
Pensé, parece tranquilo porque está muerto.

3
Aquí es donde vivo, dijo como si me quitara
una venda. Fue muy poco lo que vi. Sólo un
páramo de piedras, remolinos de arenisca,
huesos de caballos amarillos. ¿Qué te parece?
No supe qué decir. Tenía sed y me dolía un
poco la garganta. Es un lugar hermoso, dijo,
pero a veces me gustaría regresar. ¿Por qué
no regresas, entonces?, pregunté. Porque es
más fácil que tú vengas me dijo. Y desapareció.

Jaime Gil de Biedma – Happy ending

Embora, à noite, comigo
já não durmas mais,
o acaso dirá talvez
se é definitivo.

Que embora o prazer nunca mais
volte a ser o mesmo,
na vida o esquecimento
não costuma durar.

Trad.: Nelson Santander

Jaime Gil Biedma – Happy ending

Aunque la noche, conmigo,
no la duermas ya,
sólo el azar nos dirá
si es definitivo.

Que aunque el gusto nunca más
vuelve a ser el mismo,
en la vida los olvidos
no suelen durar.

Javier Salvago – Um pouco mais sábios, um pouco mais cegos

Quando você não é mais jovem, se convence
de que o diabo sabe mais porque é velho
e admite que os anos nos ensinam
a distinguir a realidade do sonho.
Talvez não. Talvez a vida só
se nos mostre uma vez – quando temos
olhos para aprecia-la – e depois vamos
esquecendo seu rosto e seu segredo.

Trad.: Nelson Santander

Javier Salvago – Un poco más sabios, un poco más ciegos

Cuando uno ya no es joven, se convence
de que el diablo sabe más por viejo,
y admite que los años nos enseñan
a distinguir la realidad del sueño.
Y, acaso, no. Quizá la vida sólo
se nos muestra una vez — cuando tenemos
ojos para apreciarla — y luego vamos
olvidando su rostro y su secreto.

Javier Salvago – Convém não esquecer

Por esta via
que chamam vida, vamos
com cautela devida,

tal qual um cego.
Mas em cinzas termina
todo e qualquer fogo.

Trad.: Nelson Santander

Javier Salvago – Conviene no Olvidarlo

Por esta senda,
que llaman vida, todos
vamos a tientas,

igual que un ciego.
En ceniza terminan
todos los fuegos.

Mario Benedetti – Tempo sem Tempo

Preciso de tempo, necessito desse tempo
que os outros deixam de lado
porque lhes sobra ou já não sabem
o que fazer com ele
tempo
em branco
em rubro
em verde
mesmo em castanho escuro
não me importa a cor
cândido tempo
que eu não posso abrir
e fechar
como uma porta

tempo para olhar uma árvore, um farol
para caminhar à beira de um descanso
para pensar que bom que hoje é inverno
para morrer um pouco
e nascer em seguida
e dar-me conta
e dar-me corda
preciso do tempo necessário para
chapinhar algumas horas na vida
e investigar por que estou triste
e acostumar-me ao meu velho esqueleto

tempo para esconder-me
no canto de um galo
e para reaparecer
em um relincho
e para estar em dia
para estar à noite
tempo sem recato e sem relógio

vale dizer, preciso
ou seja, necessito
digamos que me faz falta
tempo sem tempo.

trad.: Nelson Santander

Mario Benedetti – Tiempo sin Tiempo

Preciso tiempo necesito ese tiempo
que otros dejan abandonado
porque les sobra o ya no saben
que hacer con él
tiempo
en blanco
en rojo
en verde
hasta en castaño oscuro
no me importa el color
cándido tiempo
que yo no puedo abrir
y cerrar
como una puerta

tiempo para mirar un árbol un farol
para andar por el filo del descanso
para pensar qué bien hoy es invierno
para morir un poco
y nacer enseguida
y para darme cuenta
y para darme cuerda
preciso tiempo el necesario para
chapotear unas horas en la vida
y para investigar por qué estoy triste
y acostumbrarme a mi esqueleto antiguo

tiempo para esconderme
en el canto de un gallo
y para reaparecer
en un relincho
y para estar al día
para estar a la noche
tiempo sin recato y sin reloj

vale decir preciso
o sea necesito
digamos me hace falta
tiempo sin tiempo.

Roger Wolfe – A Última Noite da Terra

O melro de todos os anos voltou a visitar minha casa
E, no entanto, permaneço aqui.
Sua melodia não muda, já o escrevi antes.
Mas o meu trabalho é constatar o óbvio
e é isso que o melro faz-me recordar.
O tempo passa, as pessoas envelhecem, morrem
por sua própria mão ou com ajuda.
As palavras vazam pelo ralo
do que alguém já chamou de “a história secreta”.
Tudo flui e se perde, os rios no mar,
o mar na imensidão incalculável do cosmos,
o cosmos no nada do qual não deveria ter saído.
Enquanto isso, digitamos.
Um surdo tamborilar contra séculos de morte programada
e um futuro de certeira incerteza.
Um batalhão de patéticos amanuenses do esquecimento
exigindo duas camisas para o caminho até o patíbulo.
Todavia, não é o frio o problema, mas o medo.
E é o melro, em sua ignorância, quem conhece a verdade.
Cumpre sem a mínima estridência
o ritual que lhe impôs a biologia.
E depois morrerá. Sem epitáfios, como este,
que desaparecerão com um esgar de indiferença
entre as chamas da última noite da Terra,
quando ninguém já perceber qualquer significado,
se é que algo já fez sentido alguma vez.

Trad.: Nelson Santander

Roger Wolfe – La última noche de la tierra

El mirlo de todos los años ha vuelto a visitar mi casa
y todavía sigo aquí.
Su música no cambia y eso ya lo he escrito.
Pero mi trabajo es constatar lo obvio
y eso es lo que el mirlo me viene a recordar.
El tiempo pasa, la gente se hace vieja, se muere,
por su propia mano o con ayuda.
Las palabras van bajando por el desagüe
de lo que alguien ha llamado la intrahistoria.
Todo fluye y se pierde, los ríos en el mar,
el mar en la inmensidad inabarcable del cosmos,
el cosmos en la nada de la que no debió salir.
Mientras tanto tecleamos.
Un sordo tamborileo contra siglos de muerte programada
y un futuro de certera incertidumbre.
Un batallón de patéticos amanuenses del olvido
exigiendo dos camisas para el camino hacia el patíbulo.
Pero no es el frío el problema, sino el miedo.
Y es el mirlo, en su ignorancia, el que sabe la verdad.
Cumple sin la más mínima estridencia
el ritual que le ha impuesto la biología.
Luego morirá. Sin epitafios, como éste,
que se deshagan con una mueca indiferente
entre las llamas de la última noche de la Tierra,
cuando nadie entienda ya ningún significado,
si es que algo tuvo sentido alguna vez.