Categoria: Nelson Santander – Traduções
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Joan Margarit – Inverno de 95

Esta carta a escrevo para alguémque está em um barco pelo nortede Tenerife, em cinquenta e sete.Um rapaz que, da amurada,mira o duro poente sobre o mare estuda arquitetura em Barcelona,para onde retorna agora. Aviso-tecom um sinal de alerta: a alegriaque sentes ao deixar teu pai para trásrevela a solidão sob uma luz dourada.Teu pai…
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Henry Reed – A nomeação das peças

Hoje temos a nomeação das peças. OntemTivemos a limpeza diária. E amanhã de manhã,Teremos o que fazer depois da ordem de “fogo”. Mas hoje,Hoje nós temos a nomeação das peças. A japonicaArde como coral em todos os jardins adjacentes,E hoje nós temos a nomeação das peças. Isto é o zarelho móvel inferior. E istoÉ o…
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Francisco Brines – Métodos de conhecimento

No cansaço da noite, penetrando a mais sombria canção, recobrei por trás de meus olhos cegos o frágil testemunho de uma cena remota. Recendia o mar, e a aurora era a ladra dos céus; tornava fantasmagóricas as luzes da casa. Os comensais eram jovens, e fartos e sem sede, no naufrágio do banquete, buscavam a…
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Joan Margarit – Piscina

Não temia a água, mas a ti,era teu medo o que eu temia,e o lugar mais profundo,em que não se veem os azulejos do fundo.Arrastaste-me até lá, lembro aindaa força de teus braços obrigando-me,enquanto tentava abraçar-me a ti.Não aprendi a nadar até muito tempo depois,e esqueci tuas tentativas de ensinar-me.Agora que já nunca voltarás a…
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Antonio Colinas – Envio

Lembras-te ainda do débil cantodo rouxinol perdido na ramagem?Viste farfalhar comigo naquela noitea copa do cipreste. Desfez-seo céu em fios de luar sobre teu rosto.Mas depois do pássaro e da luaapagaram-se os astros. Vi passarnão sei que brisa estranha pelo teu corpo.Lembras-te das nossas mãos na água?Lembras-te do silêncio sobre o campoe, como um deus exangue, do…
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Meira Delmar – Hóspede sem sombra

Nada deixam meus passos sobre a terra. No momento do último passeio hei de levar o que ao nascer me veio: o rosto em paz e o coração em guerra. Nenhuma voz repetirá a minha de saudoso ardor e fiel espanto. A voz estremecida com que canto o mar, a rosa, a melancolia. Não ressuscitará…
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Joan Margarit – Alguém

Tinha que salvar-me com seus olhos azuis cravados ainda em uma lembrança da adolescência, a estranha fase de precipitar-se, sem queixa nenhuma, ao fundo do abismo. Do bonde, a fugaz imagem de uma garota em uma varanda, e o número de um telefone anotado como uma cicatriz na memória. Nunca estive a seu lado, inventava…
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Delmore Schwartz – All night, all night

I have been one acquainted whit the night – Robert Frost Viajou de trem a noite inteira, sob uma luz agoureira. Uma ave Voou em paralelo com singular determinação. Em ações e anseios de devaneios Os demais passageiros curvados, deitados, lendo, dormindo, Esperando, e esperando um local para se deslocar, Para a correta rota da…
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Henry Scott Holland – [A morte não é nada]
![Henry Scott Holland – [A morte não é nada]](https://singularidadepoetica.art/wp-content/uploads/2019/09/67390f30a7a3629e3d14b98198d622ff.jpg)
A morte não é nada*. Ela não conta. Eu apenas passei para a sala vizinha. Nada aconteceu. Tudo permanece exatamente como sempre foi. Eu sou eu, e você é você, e a velha vida que vivemos carinhosamente juntos permanece intocada, inalterada. O que quer que tenhamos sido um para o outro, ainda o somos. Chame-me…
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Margaret Atwood – O momento

O momento em que, depois de muitos anosde trabalho árduo e uma longa jornada,você está de pé no centro de seu quarto,casa, meio acre, milha quadrada, ilha, país,sabendo enfim como chegou ali,e diz: isto é meu, é o mesmo momento em que as árvores soltam de você seus braços macios,as aves reassumem suas vozes,as falésias…