Categoria: Nelson Santander – Traduções
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Louise Glück – Lamium

Assim se vive quando se tem um coração frio.Como eu: nas sombras, arrastando-se sobre a rocha fria,sob os grandes carvalhos. O sol mal me toca.Às vezes o avisto no início da primavera, surgindo muito distante.Então as folhas crescem sobre ele, ocultando-o completamente. Eu o sintobrilhando por entre aas folhas, errático,como alguém batendo na lateral de…
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Louise Glück – Trillium*

Quando acordei, estava em uma floresta. A escuridãoparecia natural, o céu entre os pinheirosrepleto de muitas luzes. Eu não sabia nada; eu não podia fazer nada além de olhar.E enquanto observava, todas as luzes do céuse apagaram para formar uma única coisa, um fogoardendo por entre os frescos abetos.Então, não era mais possível olharpara o…
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Louise Glück – Matinas (2)

Pai inalcançável, quando fomos, pela primeira vez,exilados do paraíso, criasteuma réplica, um lugar em certo sentidodiferente do paraíso,concebido para ensinar uma lição: de outro modo,o mesmo – beleza em ambos os lados, belezasem alternativa – Excetoque não sabíamos qual era a lição. Deixados sozinhos,nos consumimos. Anosde escuridão se seguiram; nos revezávamoscuidando do jardim, as primeiras…
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Louise Glück – Matinas* (1)

Brilha o sol; perto da caixa de correio, folhasde uma bétula dividida, dobradas, plissadas como barbatanas.Abaixo, hastes ocas de narcisos brancos, Tulipas,Cantatrice**; folhasescuras de violetas selvagens. Noah dizque os depressivos odeiam a primavera, desequilíbrioentre o mundo interior e exterior. Eu defendooutra perspectiva – deprimida, sim, mas de alguma forma apaixonadamenteunida à árvore viva, meu corporealmente…
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Louise Glück – A íris selvagem

No fim do meu sofrimentohavia uma saída. Ouça-me: aquilo que você chama de morteeu me recordo. Acima, ruídos, ramos de pinheiros se movendo.Depois, nada. O sol fracocintilava sobre a superfície ressequida. É terrível sobrevivercomo consciênciaenterrada na terra escura. E então acabou: aquilo que você teme, sendouma alma e incapazde falar, terminando abruptamente, a terra duracedendo…
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Wendell Berry – Antes do Anoitecer

Da varanda no crepúsculo, observeium martim-pescador selvagem em um vooque ele só poderia estar realizando por deleite. Ele desceu pelo rio, chapinhandocontra o rosto turvo da águacomo uma pedra saltitante, passando rio abaixo até sumir de vista. E aindaeu podia ouvir o chapinharcada vez mais distante à medida que escurecia. Ele voltoupelo mesmo caminho, escuro…
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Joseph Stroud – Primeira Canção

Naquela distante manhã na fazenda de Ruthquando me escondi entre as glicíniase observei os beija-flores. Eu penseique o rubi ou o ouro que reluzia em seus pescoçosfosse o sangue adocicado das flores.Eles mergulhavam seus bicos perfurantesem uma coroa de pétalas até suas cabeçasdesaparecerem. As flores se confundiam com as asas,e a respiração que eu ouviavinha…
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Joan Margarit – Água-forte

O granizo metralha as vidraças,as rajadas arrasam as calçadas.E tu e eu aqui, onde o mau temporesume os obstáculos que às vezesnos levam à beira do abismo.Olhos brilhantes de desacertos,mãos queimadas por se salvarem agarradasaos gelados corrimãos do inferno.Que o acaso continue disparandosem razão, como sempre, nas vidraças.Além do amor – desse nosso amor –nada…
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Manuel Vilas – Delia’s Gone

“Delia’s Gone”, um poema de Manuel Vilas que aborda de forma provocativa e irônica a relação entre amor, abandono e suicídio, evocando figuras como Ian Curtis, Mariano José de Larra e Sylvia Plath para refletir sobre a idealização trágica da morte por amor e o vazio deixado pela perda.
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Joan Margarit – Anos Sessenta

Lento, muito mais lento, tempo meu: falemos sobre o amor mesmo que as rosas tenham que acabar sempre na lixeira. Deslumbrou-nos um futuro. Que futuro? Sem esperança alguma, críamos em algo, ou, porque era difícil a fé em algo, nunca perdemos a esperança. Restam as bandeiras vermelhas de perigo defronte ao mar bravio. Lembro-me de…