Francisco Brines – Métodos de conhecimento

No cansaço da noite,
penetrando a mais sombria canção,
recobrei por trás de meus olhos cegos
o frágil testemunho de uma cena remota.

Recendia o mar, e a aurora era a ladra
dos céus; tornava fantasmagóricas
as luzes da casa.
Os comensais eram jovens, e fartos
e sem sede, no naufrágio do banquete,
buscavam a embriaguez
e o colorido cortejo da alegria. O vinho
desbordava das taças, corava
a acesa pele, enrubescia o solo.
Com generoso amor, à luz furiosa,
libertaram seus peitos, a carne, a palavra,
e não lhes importava depois não recordar.
Algum punhal fracassado buscava um coração.

Levantei eu também minha taça, a menor de todas,
cheia de cinzas até as bordas:
ossos articulados de falcão e arqueiro,
e ali bebi, sem sede, duas experiências mortas.

Meu coração serenou, e uma inocente criança
me cobriu a cabeça com um gorro de demente.

Fixei meus olhos lúcidos
em quem supus ter escolhido com tino mais preciso:
aquele que em um canto, dando as costas a todos,
levou aos frescos lábios
uma taça de argila com veneno.
                E brindando ao nada
se precipitou nas sombras.

Trad.: Nelson Santander

Métodos de conocimiento

En el cansancio de la noche,
penetrando la más oscura música,
he recobrado tras mis ojos ciegos
el frágil testimonio de una escena remota.

Olía el mar, y el alba era ladrona
de los cielos; tornaba fantasmales
las luces de la casa.
Los comensales eran jóvenes, y ahítos
y sin sed, en el naufragio del banquete,
buscaban la ebriedad
y el pintado cortejo de alegría. El vino
desbordaba las copas, sonrosaba
la acalorada piel, enrojecía el suelo.
En generoso amor sus pechos desataron
a la furiosa luz, la carne, la palabra,
y no les importaba después no recordar.
Algún puñal fallido buscaba un corazón.

Yo alcé también mi copa, la más leve,
hasta los bordes llena de cenizas:
huesos conjuntos de halcón y ballestero,
y allí bebí, sin sed, dos experiencias muertas.

Mi corazón se serenó, y un inocente niño
me cubrió la cabeza con gorro de demente.

Fijé mis ojos lúcidos
en quien supo escoger con tino más certero:
aquel que en un rincón, dando a todo la espalda,
llevó a sus frescos labios
una taza de barro con veneno.
                Y brindando a la nada
se apresuró en las sombras.

Joan Margarit – Piscina

Não temia a água, mas a ti,
era teu medo o que eu temia,
e o lugar mais profundo,
em que não se veem os azulejos do fundo.
Arrastaste-me até lá, lembro ainda
a força de teus braços obrigando-me,
enquanto tentava abraçar-me a ti.
Não aprendi a nadar até muito tempo depois,
e esqueci tuas tentativas de ensinar-me.
Agora que já nunca voltarás a nadar
vejo, aos meus pés, a água azul, imóvel.
Compreendo que eras tu quem se abraçava
a mim para atravessar aqueles dias.

Trad.: Nelson Santander

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Piscina

No le temía al agua, sino a ti,
era tu miedo lo que yo temía,
y el lugar más profundo,
en el que no se ven las baldosas del fondo.
Me arrastraste hacia allí, recuerdo aún
la fuerza de tus brazos obligándome,
mientras trataba de abrazarme a ti.
No aprendí a nadar hasta mucho después,
y olvidé tus intentos de enseñarme.
Ahora que ya nunca volverás a nadar
veo, a mis pies, el agua azul, inmóvil.
Comprendo que eras tú quien se abrazaba
a mí para cruzar aquellos días.

Antonio Colinas – Envio

Lembras-te ainda do débil canto
do rouxinol perdido na ramagem?
Viste farfalhar comigo naquela noite
a copa do cipreste.
       Desfez-se
o céu em fios de luar sobre teu rosto.
Mas depois do pássaro e da lua
apagaram-se os astros.
       Vi passar
não sei que brisa estranha pelo teu corpo.
Lembras-te das nossas mãos na água?
Lembras-te do silêncio sobre o campo
e, como um deus exangue, do novo dia
incendiando as torres, as pombas?

Trad.: Nelson Santander

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Envío

¿Recuerdas todavía el débil canto
del ruiseñor perdido en la enramada?
Viste temblar conmigo aquella noche
la copa del ciprés.
       Desmadejó
el cielo hilos de luna por tu rostro.
Pero después del pájaro y la luna
se apagaron los astros.
       Vi pasar
no sé qué brisa extraña por tu cuerpo.
¿Recuerdas nuestras manos en el agua?
¿Recuerdas el silencio sobre el campo
y, como un dios sangrante, el nuevo día
incendiando las torres, las palomas?

Meira Delmar – Hóspede sem sombra

Nada deixam meus passos sobre a terra.
No momento do último passeio
hei de levar o que ao nascer me veio:
o rosto em paz e o coração em guerra.

Nenhuma voz repetirá a minha
de saudoso ardor e fiel espanto.
A voz estremecida com que canto
o mar, a rosa, a melancolia.

Não ressuscitará minha visão
da noite para a vida sempre ilesa,
a beber como um vinho a beleza
da iluminada e mágica amplidão.

Este sangue ébrio por formosura
não se tributará a outras veias.
Não tomarão, en passant, mãos alheias
a viva luz que em minhas mãos perdura.

Nem face que meu sonho mutilado
recolha e realize, triunfante.
Une o meu existir tempo presente
sem futuro depois do seu passado.

Conclusão de mim mesma, me rodeio
com o anel ofuscante do canto.
Inútil maré de paixão e pranto
Em mim naufraga o quanto vejo e creio.

Não lego minha solidão. Comigo
ela torna à orla do medo, ignota.
Meço em silêncio a última derrota.
Estremeço de dia. Mas não digo.

Trad.: Nelson Santander

Huésped sin sombra

Nada deja mi paso por la tierra.
En el momento del callado viaje
he de llevar lo que al nacer me traje:
el rostro en paz y el corazón en guerra.

Ninguna voz repetirá la mía
de nostálgico ardor y fiel asombro.
La voz estremecida con que nombro
el mar, la rosa, la melancolía.

No volverán mis ojos renacidos
de la noche a la vida siempre ilesa,
a beber como un vino la belleza
de los mágicos cielos encendidos.

Esta sangre sedienta de hermosura
por otras venas no será cobrada.
No habrá manos que tomen, de pasada,
la viva antorcha que en mis manos dura.

Ni frente que mi sueño mutilado
recoja y cumpla victoriosamente.
Conjuga mi existir tiempo presente
sin futuro después de su pasado.

Término de mí misma, me rodeo
con el anillo cegador del canto.
Vana marea de pasión y llanto
en mí naufraga cuanto miro y creo.

A nadie doy mi soledad. Conmigo
vuelve a la orilla del pavor, ignota.
Mido en silencio la final derrota.
Tiemblo del día. Pero no lo digo.

Joan Margarit – Alguém

Tinha que salvar-me com seus olhos azuis
cravados ainda
em uma lembrança da adolescência,
a estranha fase de precipitar-se,
sem queixa nenhuma, ao fundo do abismo.
Do bonde, a fugaz imagem
de uma garota em uma varanda,
e o número de um telefone anotado
como uma cicatriz na memória.
Nunca estive a seu lado, inventava
seu transparente corpo em um espelho
onde depois me vi com sarcasmo
e também com profética tristeza.
Não me salvou quando chegou a adolescência
nem quando aos cinquenta, na era rubra,
outros olhos azuis me miraram.
Era a mesma mulher: nada desaparece
da urdidura de sonhos que recordam.
Talvez já fosse muito tarde, ou falso,
ou eu estivesse atrás – já – do espelho.
Ou, talvez, ser salvo seja tão só
agarrar-se às rochas sem jamais
comprazer-se em fitar o abismo,
e apesar disso poder ver um véu
de tristeza em lugares onde seus olhos
ainda desafiam o esquecimento.

Trad.: Nelson Santander

Joan Margarit – Quién

Tenía que salvarme con sus ojos azules
clavados todavía
en un recuerdo de la adolescencia,
la extraña edad para precipitarse,
sin queja alguna, al fondo del abismo.
Desde el tranvía, la fugaz imagen
de una muchacha en el balcón,
y el número marcado de un teléfono
como una cicatriz en la memoria.
Nunca estuve a su lado, me inventaba
su transparente cuerpo en un espejo
donde después me he visto con sarcasmo
y también con profética tristeza.
No me salvó al llegar la adolescencia
ni cuando a los cincuenta, en la edad roja,
otros ojos azules me miraron.
Fue la misma mujer: nada desaparece
de la urdimbre de sueños que recuerda.
Quizá ya era muy tarde, o era falso,
o yo estaba detrás —ya— del espejo.
O, quizá, ser salvado es tan sólo
aferrarse a las rocas sin jamás
complacerse en mirar hacia el abismo,
y a pesar de ello poder ver un velo
de tristeza en lugares donde aún
sus ojos desafían al olvido.

Delmore Schwartz – All night, all night

I have been one acquainted whit the night – Robert Frost

Viajou de trem a noite inteira, sob uma luz agoureira. Uma ave
Voou em paralelo com singular determinação. Em ações e anseios de
devaneios
Os demais passageiros curvados, deitados, lendo, dormindo,
Esperando, e esperando um local para se deslocar,
Para a correta rota da segurança ou o rotor da contingência.

Olhou além, para a noite, incapaz de distinguir
As luzes das cidades passageiras das mortiças luzes
Dormentes do teto. E a ave voou em paralelo e em silêncio
Enquanto o trem disparou a linha reta de seus apitos,
Avançando nos tensos trilhos, perfurando o vazio, familiar –

O centro enfadado desta visão e condição olhou e
correu
O olhar através das páginas polidas do periódico (visando
O visível e o invisível) e seu olhar caiu no algar
Da grande escuridão sob a reluzente revista,
E ele era somente um entre oito milhões de lentes e
valentes.

E, enquanto isso, sob o seu vazio sorriso, o bumbo agitado
Da alongada e determinada passagem por ele passou,
Imitado e ecoado por seu corpo. E, então, a composição,
Como a violenta monção, começou a partir e a fugir –
A noite silente e indiferente, pressionando e impressionando
As frontes dos pacientes em uma tensa imagem
Do motor apressado, prosseguiu por um facho de luz
Perfurando as trevas, mudando e transformando o silêncio
Em uma violência de espuma, som, fumaça e sucessão.

Uma entediada criança foi buscar um copo d’água
E esmagou o copo porque a água também era
Sem graça, a mera refrega contra o tédio.
Ao retornar, o petiz por detrás olhou
O que um homem estava lendo até irrita-lo.
Uma volumosa mulher bocejou e viu o líquido verter
E vazar o velo de muitos jantares.

E a ave voou em paralelo e em paralelo voavam
Os postes crucificados de fios telefônicos, quais lápis pretos,
Em intervalos regulares, poste após poste,
Triplamente cruzados, floridos, anônimas árvores.

E então o pássaro clamou como que para todos nós:

Oh, suas vidas, suas vidas solitárias,
O que vocês fizeram com elas,
O que fizeram com o sublime dom da consciência?
O que vocês farão com suas vidas antes da punhalada
 mortal?
Respondam de maneira permanente e pertinente!

De minha parte, senti em meu peito como quem cai,
Cai de paraquedas, cai sem parar, e sente o vasto
Rabisco do abismo sugando-o mais e mais
Um palhaço em queda infinitamente impotente e horrorizado:

É assim que a noite passa, esta
é a interminável viagem noturna para o famoso imperscrutável
abismo.
(1960)

Trad.: Nelson Santander

All night, all night

Rode in the train all night, in the sick light. A bird
Flew parallel with a singular will. In daydream’s moods and
attitudes
The other passengers slumped, dozed, slept, read,
Waiting, and waiting for place to be displaced
On the exact track of safety or the rack of accident.

Looked out at the night, unable to distinguish
Lights in the towns of passage from the yellow lights
Numb on the ceiling. And the bird flew parallel and still
As the train shot forth the straight line of its whistle,
Forward on the taut tracks, piercing empty, familiar –

The bored center of this vision and condition looked and
looked
Down through the slick pages of the magazine (seeking
The seen and the unseen) and his gaze fell down the well
Of the great darkness under the slick glitter,
And he was only one among eight million riders and
readers.

And all the while under his empty smile the shaking drum
Of the long determined passage passed through him
By his body mimicked and echoed. And then the train
Like a suddenly storming rain, began to rush and thresh –
The silent or passive night, pressing and impressing
The patients’ foreheads with a tightening-like image
Of the rushing engine proceeded by a shaft of light
Piercing the dark, changing and transforming the silence
Into a violence of foam, sound, smoke and succession.

A bored child went to get a cup of water,
And crushed the cup because the water too was
Boring and merely boredom’s struggle.
The child, returning, looked over the shoulder
Of a man reading until he annoyed the shoulder.
A fat woman yawned and felt the liquid drops
Drip down the fleece of many dinners.

And the bird flew parallel and parallel flew
The black pencil lines of telephone posts, crucified,
At regular intervals, post after post
Of thrice crossed, blue-belled, anonymous trees.

And then the bird cried as if to all of us:

O your life, your lonely life
What have you ever done with it,
And done with the great gift of consciousness?
What will you ever do with your life before death’s
 knife
Provides the answer ultimate and appropriate!

As I for my part felt in my heart as one who falls,
Falls in a parachute, falls endlessly, and feel the vast
Draft of the abyss sucking him down and down,
An endlessly helplessly falling and appalled clown:

This is the way that night passes by, this
Is the overnight endless trip to the famous unfathomable
abyss.
(1960)

Henry Scott Holland – [A morte não é nada]

A morte não é nada*. Ela não conta. Eu apenas passei para a sala vizinha. Nada aconteceu. Tudo permanece exatamente como sempre foi. Eu sou eu, e você é você, e a velha vida que vivemos carinhosamente juntos permanece intocada, inalterada. O que quer que tenhamos sido um para o outro, ainda o somos. Chame-me pelo meu antigo nome. Fale de mim do mesmo jeito simples de sempre. Não mude o timbre da voz. Não vista nenhum ar forçado de solenidade ou de dor. Ria como sempre ríamos das piadas de que desfrutávamos juntos. Brinque, sorria, pense em mim, ore por mim. Que o meu nome seja sempre aquela palavra de todos conhecida que sempre foi. Que ele seja pronunciado sem esforço, sem o fantasma de uma sombra a pairar sobre ele. A vida tem o mesmo significado que sempre teve. É a mesma que sempre foi. Há uma continuidade absoluta e inquebrável. O que é esta morte senão um insignificante acidente? Por que eu deveria ser esquecido se estiver fora do alcance da visão? Estou simplesmente à sua espera, por um intervalo, em um local bem próximo, ao dobrar a esquina. Está tudo bem. Ninguém está ferido. Nada está perdido. Um breve momento e tudo será como era antes. Como riremos das dificuldades da partida quando nos encontrarmos novamente!

Trad.: Nelson Santander

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Death is nothing at all

Death is nothing at all. It does not count. I have only slipped away into the next room. Nothing has happened. Everything remains exactly as it was. I am I, and you are you, and the old life that we lived so fondly together is untouched, unchanged. Whatever we were to each other, that we are still. Call me by the old familiar name. Speak of me in the easy way which you always used. Put no difference into your tone. Wear no forced air of solemnity or sorrow. Laugh as we always laughed at the little jokes that we enjoyed together. Play, smile, think of me, pray for me. Let my name be ever the household word that it always was. Let it be spoken without an effort, without the ghost of a shadow upon it. Life means all that it ever meant. It is the same as it ever was. There is absolute and unbroken continuity. What is this death but a negligible accident? Why should I be out of mind because I am out of sight? I am but waiting for you, for an interval, somewhere very near, just round the corner. All is well. Nothing is hurt; nothing is lost. One brief moment and all will be as it was before. How we shall laugh at the trouble of parting when we meet again!

*N. do T.: “Death Is Nothing At All” é um trecho de um sermão proferido pelo cônego Henry Scott Holland na Catedral de São Paulo, Londres, em 15 de maio de 1910. Este trecho, por vezes modificado e apresentado em forma de verso, é frequentemente erroneamente atribuído a Santo Agostinho. A confusão pode decorrer das semelhanças evidentes entre o texto de Holland e uma das cartas escritas por Santo Agostinho no século IV (Carta 263, endereçada a Sapida). A carta de Santo Agostinho pode ser lida no seguinte link (em inglês. mas o Google Translator dá conta): http://www.newadvent.org/fathers/1102263.htm.

A título de curiosidade e comparação, segue uma das inúmeras versões em português do poema/oração atribuída a Santo Agostinho (que, aliás, ficou muito bonita):

A morte não é nada.
Apenas passei ao outro lado.
Eu sou eu. Tu és tu.
O que fomos um para o outro ainda o somos.

Dá-me o nome que sempre me deste.
Fala-me como sempre me falaste.
Não mudes o tom a um triste ou solene.
Continua rindo com aquilo que nos fazia rir juntos.
Reza, sorri, pensa em mim, reza comigo.
Que o meu nome se pronuncie em casa
como sempre se pronunciou.

Sem nenhuma ênfase, sem rosto de sombra.
A vida continua significando o que significou,
continua sendo o que era.

O cordão de união não se quebrou.
Porque eu estaria fora de teus pensamentos
apenas porque estou fora de tua vida terrena?

Não estou longe,
Somente estou do outro lado do caminho.
Já verás, tudo estará bem.
Redescobrirás o meu coração,
e nele redescobrirás a ternura mais pura.

Seca tuas lágrimas e se me amas.
Não chores mais.

Margaret Atwood – O momento

O momento em que, depois de muitos anos
de trabalho duro e de uma longa jornada,
encontras-te no centro do teu quarto,
casa, meio acre, milha quadrada, ilha, país,
sabendo por fim como lá chegaste,
e dizes: tudo isso me pertence,

é o mesmo momento em que as árvores desatam
seus braços macios ao teu redor,
as aves reassumem suas vozes,
as falésias se partem e desmoronam,
o ar se afasta de ti como uma onda
e não consegues respirar.

Não, eles sussurram. Nada disso te pertence.
Eras um visitante, vezes sem conta
escalando a montanha, fincando tua bandeira, proclamando.
Nós nunca te pertencemos.
Tu nunca nos encontraste.
Foi sempre o contrário.

Trad.: Nelson Santander

The moment

The moment when, after many years
of hard work and a long voyage
you stand in the centre of your room,
house, half-acre, square mile, island, country,
knowing at last how you got there,
and say, I own this,

is the same moment when the trees unloose
their soft arms from around you,
the birds take back their language,
the cliffs fissure and collapse,
the air moves back from you like a wave
and you can’t breathe.

No, they whisper. You own nothing.
You were a visitor, time after time
climbing the hill, planting the flag, proclaiming.
We never belonged to you.
You never found us.
It was always the other way round.

Michael Krüger – À primeira vista

Na verdade, nada mudou:
o castanheiro diante da casa, martirizado pela hera,
as ameixeiras sobre o seu tapete azul,
o doce perfume da infância e da decadência.
Do vale, rugem os caminhões,
e a sombra se apressa em redor da casa
em sentido anti-horário, perscrutando a dor.
Até o poço ainda está lá como um poema.
Quando olhei para dentro, saudou-me de baixo, do fundo,
um rosto enrugado por sapos.
Sua boca estava aberta, como se ele quisesse gritar.
Só as trilhas para o povoado aumentaram
e uma conduz diretamente ao meu coração.
Mas, de resto, nada mudou.

Trad.: Nelson Santander

Auf den ersten Blick

Eigentlich hat sich nichts verändert:
die Kastanie vor dem Haus, vom Efeu gemartert,
die Pflaumenbäume auf ihrem blauen Teppich,
der süße Geruch der Kindheit und des Verfalls.
Vom Tal herauf dröhnen die Laster,
und der Schatten läuft eilig ums Haus,
gegen die Zeiger der Uhr, und prüft den Kummer.
Sogar der Brunnen steht noch wie ein Gedicht.
Als ich hineinsah, grüßte von unten, von Grund,
ein Gesicht, von Fröschen in Falten gelegt.
Sein Mund stand weit offen, als wollte er schreiren.
Nur die Wege ums Dorf haben sich vermehrt,
und einer führt geradenwegs durch mein Herz.
Aber sonst hat sich nichts verändert.

Joan Margarit – De repente está claro

De repente está claro. O amor é a vitória
que irá me destruir. Como me gangrena
o coração a solidão, como me destroça
nas janelas do crepúsculo a hiena
desolada e exangue. Na era rubra
só o amor nos livra da gélida
gruta do tempo. Conheci
a glória de estar desesperado e a miséria
do bem estar que oferece a derrota.
Entre ruínas de lágrimas deixo-lhes
cartas e versos, sombras que dirão
o quanto eu amei. E talvez,
no âmago mais indefeso de uma mulher,
solitário, serei eternamente amante.

Trad.: Nelson Santander

Joan Margarit – De pronto está claro

De pronto está claro. El amor es la victoria
que me ha de destruir. Cómo me gangrena
el corazón la soledad, cómo me destroza
en los cristales del crepúsculo la hiena
desolada y sangrante. En la edad roja
sólo el amor nos libra de la gélida
cueva del tiempo. Conocí la gloria
de estar desesperado y la miseria
del bienestar que ofrece la derrota.
Entre ruinas de lágrimas os dejo
cartas y versos, sombras que dirán
hasta dónde he amado. Y tal vez,
en lo más indefenso dentro de una mujer,
solitario, seré por siempre amante.