Delmore Schwartz – All night, all night

I have been one acquainted whit the night – Robert Frost

Viajou de trem a noite inteira, sob uma luz agoureira. Uma ave
Voou em paralelo com singular determinação. Em ações e anseios de
devaneios
Os demais passageiros curvados, deitados, lendo, dormindo,
Esperando, e esperando um local para se deslocar,
Para a correta rota da segurança ou o rotor da contingência.

Olhou além, para a noite, incapaz de distinguir
As luzes das cidades passageiras das mortiças luzes
Dormentes do teto. E a ave voou em paralelo e em silêncio
Enquanto o trem disparou a linha reta de seus apitos,
Avançando nos tensos trilhos, perfurando o vazio, familiar –

O centro enfadado desta visão e condição olhou e
correu
O olhar através das páginas polidas do periódico (visando
O visível e o invisível) e seu olhar caiu no algar
Da grande escuridão sob a reluzente revista,
E ele era somente um entre oito milhões de lentes e
valentes.

E, enquanto isso, sob o seu vazio sorriso, o bumbo agitado
Da alongada e determinada passagem por ele passou,
Imitado e ecoado por seu corpo. E, então, a composição,
Como a violenta monção, começou a partir e a fugir –
A noite silente e indiferente, pressionando e impressionando
As frontes dos pacientes em uma tensa imagem
Do motor apressado, prosseguiu por um facho de luz
Perfurando as trevas, mudando e transformando o silêncio
Em uma violência de espuma, som, fumaça e sucessão.

Uma entediada criança foi buscar um copo d’água
E esmagou o copo porque a água também era
Sem graça, a mera refrega contra o tédio.
Ao retornar, o petiz por detrás olhou
O que um homem estava lendo até irrita-lo.
Uma volumosa mulher bocejou e viu o líquido verter
E vazar o velo de muitos jantares.

E a ave voou em paralelo e em paralelo voavam
Os postes crucificados de fios telefônicos, quais lápis pretos,
Em intervalos regulares, poste após poste,
Triplamente cruzados, floridos, anônimas árvores.

E então o pássaro clamou como que para todos nós:

Oh, suas vidas, suas vidas solitárias,
O que vocês fizeram com elas,
O que fizeram com o sublime dom da consciência?
O que vocês farão com suas vidas antes da punhalada
 mortal?
Respondam de maneira permanente e pertinente!

De minha parte, senti em meu peito como quem cai,
Cai de paraquedas, cai sem parar, e sente o vasto
Rabisco do abismo sugando-o mais e mais
Um palhaço em queda infinitamente impotente e horrorizado:

É assim que a noite passa, esta
é a interminável viagem noturna para o famoso imperscrutável
abismo.
(1960)

Trad.: Nelson Santander

All night, all night

Rode in the train all night, in the sick light. A bird
Flew parallel with a singular will. In daydream’s moods and
attitudes
The other passengers slumped, dozed, slept, read,
Waiting, and waiting for place to be displaced
On the exact track of safety or the rack of accident.

Looked out at the night, unable to distinguish
Lights in the towns of passage from the yellow lights
Numb on the ceiling. And the bird flew parallel and still
As the train shot forth the straight line of its whistle,
Forward on the taut tracks, piercing empty, familiar –

The bored center of this vision and condition looked and
looked
Down through the slick pages of the magazine (seeking
The seen and the unseen) and his gaze fell down the well
Of the great darkness under the slick glitter,
And he was only one among eight million riders and
readers.

And all the while under his empty smile the shaking drum
Of the long determined passage passed through him
By his body mimicked and echoed. And then the train
Like a suddenly storming rain, began to rush and thresh –
The silent or passive night, pressing and impressing
The patients’ foreheads with a tightening-like image
Of the rushing engine proceeded by a shaft of light
Piercing the dark, changing and transforming the silence
Into a violence of foam, sound, smoke and succession.

A bored child went to get a cup of water,
And crushed the cup because the water too was
Boring and merely boredom’s struggle.
The child, returning, looked over the shoulder
Of a man reading until he annoyed the shoulder.
A fat woman yawned and felt the liquid drops
Drip down the fleece of many dinners.

And the bird flew parallel and parallel flew
The black pencil lines of telephone posts, crucified,
At regular intervals, post after post
Of thrice crossed, blue-belled, anonymous trees.

And then the bird cried as if to all of us:

O your life, your lonely life
What have you ever done with it,
And done with the great gift of consciousness?
What will you ever do with your life before death’s
 knife
Provides the answer ultimate and appropriate!

As I for my part felt in my heart as one who falls,
Falls in a parachute, falls endlessly, and feel the vast
Draft of the abyss sucking him down and down,
An endlessly helplessly falling and appalled clown:

This is the way that night passes by, this
Is the overnight endless trip to the famous unfathomable
abyss.
(1960)

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