T. E. Hulme – Outono

Um fio de frio na noite outonal —
Fui para o quintal
E vi a lua rubra inclinar-se sobre o folharal
Como um rancheiro de rosto rosado.
Não parei para falar, mas dei aval,
E ao redor estavam as tristes estrelas
Com pálidas faces como crianças da cidade.

Trad.: Nelson Santander

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Autumn

A touch of cold in the Autumn night —
I walked abroad,
And saw the ruddy moon lean over a hedge
Like a red-faced farmer.
I did not stop to speak, but nodded,
And round about were the wistful stars
With white faces like town children.

Charles Simic – O dicionário

Talvez haja uma palavra em algum lugar
para descrever o mundo nesta manhã,
uma palavra para o jeito como a primeira luz
se deleita em perseguir as sombras
pelas vitrines e entradas das lojas.

Outra palavra para o modo como ela se detém
sobre um par de óculos de aros finos
que alguém deixou cair na calçada
na noite passada e cambaleou às cegas,
falando sozinho ou começando a cantar.

Trad.: Nelson Santander

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The dictionary

Maybe there is a word in it somewhere
to describe the world this morning,
a word for the way the early light
takes delight in chasing the darkness
out of store windows and doorways.

Another word for the way it lingers
over a pair of wire-rimmed glasses
someone let drop on the sidewalk
last night and staggered off blindly
talking to himself or breaking into song.

Lope de Vega – Desmaiar, ousar, ficar furioso

Desmaiar, ousar, ficar furioso,
áspero, terno, generoso, esquivo,
entretido, mortal, defunto, vivo,
leal, falso, covarde e corajoso;

não achar, para além, paz e repouso,
mostrar-se alegre, triste, humilde, altivo,
irritado, valente, fugitivo,
satisfeito, ofendido, receoso;

furtar o rosto ao claro desengano,
sorver veneno por licor suave,
esquecer o proveito, amar o dano;

crer que um céu em um inferno cabe,
dar a vida e a alma a um desengano;
isto é amor, quem o provou o sabe.

Trad.: Nelson Santander

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Desmayarse, atreverse, estar furioso

Desmayarse, atreverse, estar furioso,
áspero, tierno, liberal, esquivo,
alentado, mortal, difunto, vivo,
leal, traidor, cobarde y animoso;

no hallar, fuera del bien, centro y reposo,
mostrarse alegre, triste, humilde, altivo,
enojado, valiente, fugitivo,
satisfecho, ofendido, receloso;

huir el rostro al claro desengaño,
beber veneno por licor süave,
olvidar el provecho, amar el daño;

creer que un cielo en un infierno cabe,
dar la vida y el alma a un desengaño;
esto es amor, quien lo probó lo sabe.

Juan Vicente Piqueras – História universal

Um homem nasce chora cresce ri
sofre e faz sofrer caminha canta
tem sede fome frio medo
se perde extravasa arde sorri.

Um homem sozinho no meio da noite
assobia para domar as bestas que o habitam.

Abraça empurra mata beija morre
se cansa de si mesmo se apaixona
se entrega à vida sabe que se finda
que o que é escoa por entre os dedos.

Um homem olha o céu as nuvens e se diz
em silêncio o quão breve
bela e fugidia foi a vida.

Trad.: Nelson Santander

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Historia universal

Un hombre nace llora crece ríe
sufre y hace sufrir camina canta
tiene sed hambre frío miedo
se pierde se desborda arde sonríe.

Un hombre solo en medio de la noche
silba para amansar las bestias que lo habitan.

Abraza empuja mata besa muere
se cansa de sí mismo se enamora
se da a la vida sabe que se acaba
que se cae lo que es de entre sus dedos.

Un hombre mira el cielo las nubes y se dice
en silencio lo breve
lo hermosa y fugitiva que es fue la vida.

Hugo Mujica – Há escassos dias

Há escassos dias morreu meu pai,
há muito tempo atrás.

Caiu suavemente,
como as pálpebras ao chegar
a noite, ou uma folha
que o vento não arranca, embala.

Hoje não é como outras chuvas,
hoje chove pela primeira vez
sobre o mármore de sua lápide.

Sob cada chuva
poderia ser eu quem jaz, agora eu sei,
agora que morri em outro.

Trad.: Nelson Santander

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Hace apenas días

Hace apenas días murió mi padre,
hace apenas tanto.

Cayó sin peso,
como los párpados al llegar
la noche o una hoja
cuando el viento no arranca, acuna.

Hoy no es como otras lluvias
hoy llueve por vez primera
sobre el mármol de su tumba.

Bajo cada lluvia
podría ser yo quien yace, ahora lo sé,
ahora que he muerto en otro.

Joan Margarit – A aventura

Quando me ausento por um momento, ao finalizar
uma inspeção de obra em algum bairro estranho
e entro para tomar café em um pequeno bar
onde não me conhecem, penso que sou
alguém que parte para não mais voltar.
Quando me refugio no vazio
de um entreato e procuro a escada
que leva aos banheiros,
sinto que ali poderia começar minha ausência.
Instantes que são fendas para o frio.
Imagino as ruas que sempre nos aguardam
em futuros perdidos dentro de um só instante.
Ao redor está a eternidade:
atravessamo-la velozes
neste trem blindado que é o tempo.
A eternidade
se move tão devagar que a lua
na janela é a mesma da infância.
Não sei o que mais me surpreende nesta história,
se o quanto odeio o mundo cotidiano
ou quantos anos poderei
permanecer paralisado por uma covardia.

Trad.: Nelson Santander

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La aventura

Cuando me ausento un rato, al acabarse
una visita de obra en algún barrio extraño
y entro a tomar café en un pequeño bar
donde no me conocen, pienso que soy
alguien que se está yendo para ya no volver.
Cuando me escapo en el vacío
de un entreacto y busco la escalera
que va hacia los lavabos,
siento que allí podría dar comienzo mi ausencia.
Instantes que son grietas hacia el frío.
Imagino las calles que siempre nos aguardan
en futuros perdidos dentro de un solo instante.
Alrededor está la eternidad:
la atravesamos raudos
en este tren blindado que es el tiempo.
La eternidad
se mueve tan despacio que la luna
del cristal es la misma de la infancia.
De esta historia no sé lo que más me sorprende,
si cómo se odia el mundo cotidiano
o cuántos años puedo
permanecer helado por una cobardía.

Ernesto Pérez Vallejo – A garota de preto

Hoje eu podia ter-me apaixonado por ti,
apesar de tuas botas sem salto,
podia até ter-te beijado assim, com o mar ao fundo,
os beijos aos domingos têm um sabor distinto,
mais intenso.
Podia ter-te levado pelas mãos até a praia
e ter-te despido docemente
enquanto me ajoelhava na terra
e perfumava o meu nariz.
Nunca o mar teria visto nada tão erótico,
nem ela, com seu biquíni laranja.
Hoje eu podia ter feito muitas coisas contigo
mas tenho medo do desconhecido
e embora tenhas me falado o teu nome
não foi suficiente.

Trad.: Nelson Santander

La chica de negro

Hoy podía haberme enamorado de ti
a pesar de tus botas planas,
podía incluso haberte besado así con el mar de fondo,
los besos los domingos saben distintos,
más intensos.
Podía haberte llevado de la mano a la orilla
y haberte desnudado dulcemente
mientras yo hincaba rodilla en tierra
y me perfumaba la nariz.
Nunca el mar hubiera visto nada tan erótico,
ni siquiera a ella con su bikini naranja.
Hoy podía haber hecho muchas cosas contigo
pero me da miedo lo desconocido
y aunque me dijiste tu nombre
no fue suficiente.

Jenny Joseph – Advertência

Quando estiver velha, usarei roxo
Com um chapéu vermelho que não combina e que não me cai bem.
E torrarei minha aposentadoria em conhaques e luvas de verão
e sandálias de cetim, e direi que não temos dinheiro para manteiga.
Sentarei na calçada quando me cansar
E provarei amostras nas lojas e tocarei as campainhas
E correrei minha bengala pelas grades públicas
E compensarei a sobriedade de minha juventude.
Sairei de chinelos na chuva
E colherei flores dos jardins de outras pessoas
E aprenderei a cuspir.

Você pode vestir camisetas horrorosas e cultivar mais gordura
E comer três quilos de salsicha de uma só vez
ou apenas pão com picles por uma semana
E guardar lápis e canetas e bolachas de chope
e coisas em caixas.

Mas agora precisamos ter roupas que nos mantenham secos
E pagar o aluguel e não praguejar na rua
E dar um bom exemplo para as crianças.
Precisamos ter amigos com quem jantar e ler os jornais.

Mas e se eu praticasse um pouco agora?
Assim, as pessoas que me conhecem não ficariam tão chocadas e surpresas
Quando eu subitamente envelhecesse, e começasse a usar roxo.

Trad.: Nelson Santander

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Warning

When I am an old woman I shall wear purple
With a red hat which doesn’t go, and doesn’t suit me.
And I shall spend my pension on brandy and summer gloves
And satin sandals, and say we’ve no money for butter.
I shall sit down on the pavement when I’m tired
And gobble up samples in shops and press alarm bells
And run my stick along the public railings
And make up for the sobriety of my youth.
I shall go out in my slippers in the rain
And pick flowers in other people’s gardens
And learn to spit.

You can wear terrible shirts and grow more fat
And eat three pounds of sausages at a go
Or only bread and pickle for a week
And hoard pens and pencils and beermats and things in boxes.

But now we must have clothes that keep us dry
And pay our rent and not swear in the street
And set a good example for the children.
We must have friends to dinner and read the papers.

But maybe I ought to practice a little now?
So people who know me are not too shocked and surprised
When suddenly I am old, and start to wear purple.

Hugo Vera Miranda – Os cavaleiros do apocalipse

Como defender-se dos furtivos invernos
que aninham as moradas obscuras do desejo?
Como voltar por um instante
ao tempo feroz da infância
onde um velho com cara de sapo
solta pombas enquanto o trem passa?
Como decifrar a carícia longínqua
que agora atormenta a insônia?
Vamos ficando sozinhos,
cercados por demônios dançarinos
e um tiro de misericórdia
que produzirá efeitos
tão logo cruzemos
o umbral da esperança.

Trad.: Nelson Santander

Los jinetes del apocalipsis

¿Cómo defenderse de los solapados inviernos
que anidan las moradas oscuras del deseo?
¿Cómo volver por un instante
al tiempo feroz de la infancia
donde un viejo con cara de sapo
lanza palomas al paso del tren?
¿Cómo descifrar la caricia lejana
y que ahora atormenta el insomnio?
Nos vamos quedando solos,
rodeados de demonios danzando
y un tiro de gracia
que se hará efectivo
apenas crucemos
el umbral de la esperanza.

Joan Margarit – Noite escura na rua Balmes

Cumpridas as ameaças e temores
— hoje já todas as ruas levam à velhice —,
passo defronte à clínica em que tu nasceste,
vinte e seis anos atrás, em uma noite
de corredores feridos pela luz.
Aqui foi a tua chegada, pequena e indefesa,
à praia feliz do teu sorriso,
à dificuldade da palavra,
às escolas que não te quiseram,
aos ossos cansados, à calma
cruel e aparente dos corredores
que observam batas brancas silenciosas
com o frio burburinho dos anjos.
Polegares torcidos, o nariz
como bico de pássaro e as desordenadas
linhas da mão: nossas fisionomias
e, ao mesmo tempo, a da síndrome,
como se se tratasse de outra mãe
desconhecida, oculta no jardim.
Longe da beleza e da inteligência:
agora só importa a ternura,
o resto é uma questão de um mundo inóspito
do qual nos é difícil escondermo-nos
em raras rotas de felicidade.

Volto ao jardim escuro, à máquina
de café que me fez companhia
ao longo daquelas madrugadas.
Volto à culpa e ao remorso,
velhos escombros que ainda atravesso.
Como agora respeito aquelas mãos,
sua lucidez recusando o que desejava.
Hoje, voltas contra mim,
me agarram pelo pescoço na velhice,
forçando-me a enfrentar a manhã
em que tua ternura te salvou.
A antiga confusão da felicidade
e um mundo ao redor, nem amigo, nem inimigo:
vejo pessoas passando pelas ruas,
pelas obras, escritórios,
sempre indagando sobre as lágrimas perdidas.

Tu eras a flor, nós, um ramo
e, ao desfolhar-te, o vento
nos embalava desnudos de dor.
Ainda te protejo e ao passar tão perto
do escuro jardim daquele verão,
olho e vejo novamente
a débil luz daquela máquina
de café. Há vinte e seis anos.
E sei que sou feliz, que tive a vida
que deveria merecer. Nunca serei
nada diferente dela, azar e fogo.
Azar, pela vida.
Fogo, pela morte. E não ter nenhum túmulo.

Trad.: Nelson Santander

Noche Oscura en la Calle Balmes

Cumplidos amenazas y temores
— hoy ya todas las calles llevan a la vejez —,
paso frente a la clínica en la que tú naciste,
hace veintiséis años, una noche
de pasillos herida por la luz.
Aquí fue tu llegada, pequeña e indefensa,
a la playa feliz de tu sonrisa,
a la dificultad de la palabra,
a las escuelas que no te quisieron,
a los huesos cansados, a la calma
cruel y aparente de los corredores
que vigilan calladas batas blancas
con frío rumor de ángeles.
Torcidos los pulgares, la nariz
como pico de pájaro y las desordenadas
líneas de la mano: nuestras fisonomías
y a la vez la del síndrome,
como si se tratara de otra madre
desconocida, oculta en el jardín.
Lejos de la belleza y de la inteligencia:
ahora sólo importa la ternura,
lo demás es cuestión de un mundo inhóspito
del cual nos es difícil escondernos
en raras vías de felicidad.

Vuelvo al jardín oscuro, a la máquina
de café que me hizo compañía
a lo largo de aquellas madrugadas.
Vuelvo a la culpa y al remordimiento,
viejos escombros que atravieso aún.
Cómo respeto ahora aquellas manos,
su lucidez negándose a lo que deseaba.
Hoy, vueltas contra mí,
me agarran por el cuello en la vejez,
forzándome a enfrentarme a la mañana
en la que tu ternura te salvó.
La antigua confusión de la felicidad
y un mundo alrededor, ni amigo ni enemigo:
veo gente que pasa por las calles,
las obras, los despachos,
siempre indagando acerca de lágrimas perdidas.

Tú eras la flor, nosotros una rama
y, al deshojarte, el viento
nos mecía desnudos de dolor.
Aún te protejo y al pasar tan cerca
del oscuro jardín de aquel verano,
me asomo y vuelvo a ver
la débil luz de aquella máquina
de hacer café. Hace veintiséis años.
Y sé que soy feliz, que he tenido la vida
que debí merecer. No seré nunca
nada distinto de ella, azar y fuego.
Azar para la vida.
Fuego para la muerte. Y no tener ni tumba.