Delmore Schwartz – Calmamente caminhamos neste dia de abril

Calmamente caminhamos neste dia de abril,
Poesia urbana por todo lado,
No parque sentam-se indigentes e usurários,
As crianças gritando, o carro
Em fuga que passa correndo por nós,
Entre o trabalhador e o milionário
Os números expressam as distâncias,
Estamos em mil novecentos e trinta e sete agora,
Muitos camaradas foram levados para longe,
O que será de você e de mim
(Esta é a escola em que aprendemos…)
Além da foto e da lembrança?
(…que o tempo é o fogo em que nos queimamos.)

(Esta é a escola em que aprendemos…)
O que é o eu no meio deste incêndio?
O que sou eu agora que fui então?
Que devo sofrer e fazer novamente,
A teodiceia que escrevi em meus tempos de colégio
Restaurou toda a vida desde a infância,
As crianças gritando resplandecem enquanto correm
(Esta é a escola em que elas aprendem…)
Inteiramente arrebatadas em seu brincar passageiro!
(…que o tempo é o fogo em que nos queimamos.)

Ávida em sua urgência, essa chama vacilante!
Onde estão meu pai e Eleanor?
Não onde eles estão agora, mortos há sete anos,
Mas o que eles eram então?
               Não mais? Não mais?
De mil novecentos e quatorze até o presente,
Bert Spira e Rhoda consomem, consomem
Não onde estão eles agora (onde eles estão agora?)
Mas o que eles eram então, ambos belos;

Cada minuto explode no quarto em chamas,
O grande globo se contorce sob o fogo solar,
Consumindo o único e o trivial.
(Como todas as coisas pulsam! Como todas as coisas brilham!)
O que sou eu agora que fui então?
Que a memória restaure de novo e de novo
A mínima cor do menor dos dias:
O Tempo é a escola em que aprendemos,
O Tempo é o fogo em que nos queimamos.

Trad.: Nelson Santander

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Calmly we walk through this April’s day

Calmly we walk through this April’s day,
Metropolitan poetry here and there,
In the park sit pauper and rentier,
The screaming children, the motor-car
Fugitive about us, running away,
Between the worker and the millionaire
Number provides all distances,
It is Nineteen Thirty-Seven now,
Many great dears are taken away,
What will become of you and me
(This is the school in which we learn …)
Besides the photo and the memory?
(… that time is the fire in which we burn.)

(This is the school in which we learn …)
What is the self amid this blaze?
What am I now that I was then
Which I shall suffer and act again,
The theodicy I wrote in my high school days
Restored all life from infancy,
The children shouting are bright as they run
(This is the school in which they learn …)
Ravished entirely in their passing play!
(… that time is the fire in which they burn.)

Avid its rush, that reeling blaze!
Where is my father and Eleanor?
Not where are they now, dead seven years,
But what they were then?
               No more? No more?
From Nineteen-Fourteen to the present day,
Bert Spira and Rhoda consume, consume
Not where they are now (where are they now?)
But what they were then, both beautiful;

Each minute bursts in the burning room,
The great globe reels in the solar fire,
Spinning the trivial and unique away.
(How all things flash! How all things flare!)
What am I now that I was then?
May memory restore again and again
The smallest color of the smallest day:
Time is the school in which we learn,
Time is the fire in which we burn.

Joan Margarit – El Primer Frío

Acompanhei-te até o museu, no parque,
em uma manhã de inverno. Detivemo-nos
diante daquela escultura: El primer frío1.
Era de mármore cinzento: um velho, nu,
olha ao longe, entre as folhas mortas
que o vento carrega.
A arte não é diferente da vida,
lembro que disseste. Mas eu
via apenas um mármore frio,
um tanto retórico, e pensava em garotas.
Entre aquele dia e hoje, como um mar,
minha vida se expandiu.
E se aproximam, singrando este mar cinzento,
cascos negros de embarcações, minhas recordações.
Retorno ao museu nesta manhã de inverno
e estou pensando em ti ao cruzar o parque:
olho ao longe, entre as folhas mortas
que o vento carrega.

Trad.: Nelson Santander

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Joan Margarit – El Primer Frío

Te acompañé al museo, en el parque,
una invernal mañana. Nos paramos
ante aquella escultura: El primer frío.
Era de mármol gris: un viejo que, desnudo,
mira a lo lejos entre la hojarasca
que va arrastrando el viento.
El arte no es distinto de la vida,
recuerdo que dijiste. Pero yo
veía solamente un mármol frío,
más bien retórico, y pensaba en chicas.
Entre aquel día y hoy, igual que un mar,
se ha extendido mi vida.
Y se acercan, surcando este mar gris,
cascos negros de buques, mis recuerdos.
Vuelvo al museo esta invernal mañana
y voy pensando en ti al cruzar el parque:
miro a lo lejos entre la hojarasca
que va arrastrando el viento.

  1. Escultura em mármore branco de Miguel Blay i Fábregas (1892) (vide a foto que ilustra o poema), representando um homem idoso nu com uma jovem menina, interpretada como alegoria da passagem do tempo e da fragilidade da vida. Obra-prima da escultura catalã, exposta no Museu Nacional d’Art de Catalunya (Barcelona) e no Museu Nacional de Belas Artes (Buenos Aires). ↩︎

Robert Penn Warren – Conta-me uma história

A

Há muito tempo, no Kentucky, eu, apenas um rapaz, estava
Em uma estrada de terra, ao anoitecer, e ouvi
A algaravia dos gansos que rumavam para o norte.

Não pude vê-los, pois não havia lua,
E escassos eram os astros. Eu os ouvi.

Não sabia o que se passava em meu coração.

Era a estação antes dos sabugueiros florescerem,
Por isso eles rumavam para o norte.

O som rumava para o norte.

B

Conta-me uma história.

Neste século e momento de insanidade,
Conta-me uma história.

Faz dela uma história sobre as grandes distâncias, e a luz das estrelas.
O nome da história será Tempo,
Mas não deves pronunciar tal nome.

Conta-me uma história de intenso contentamento.

Trad.: Nelson Santander

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Tell Me a Story

A

Long ago, in Kentucky, I, a boy, stood
By a dirt road, in first dark, and heard
The great geese hoot northward.

I could not see them, there being no moon
And the stars sparse. I heard them.

I did not know what was happening in my heart.

It was the season before the elderberry blooms,
Therefore they were going north.

The sound was passing northward.

B

Tell me a story.

In this century, and moment of mania,
Tell me a story.

Make it a story of great distances, and starlight.

The name of the story will be Time,
But you must not pronounce its name.

Tell me a story of deep delight.

William Ernest Henley – Invictus

No meio da noite que me abraça,
Negra como um Poço em sua inteireza,
Agradeço a cada Deus pela graça
De minha invencível natureza.

Nas terríveis garras das circunstâncias
Não recuei nem alteei meu pranto.
Debaixo dos golpes das contingências
Minha fronte sangra – altiva, no entanto.

Além deste lugar de desenganos,
Somente o Horror das sombras desponta,
E entretanto a ameaça dos anos
Deve me encontrar sem medo, e encontra.

Não importa se o portão é mofino,
Se a Lei é repleta de punição
Eu sou o condutor do meu destino
Eu sou de minha alma o capitão

Trad.: Nelson Santander

Invictus

Out of the night that covers me,
Black as the Pit from pole to pole,
I thank whatever gods may be
For my unconquerable soul.

In the fell clutch of circumstance
I have not winced nor cried aloud.
Under the bludgeonings of chance
My head is bloody, but unbowed.

Beyond this place of wrath and tears
Looms but the Horror of the shade,
And yet the menace of the years
Finds and shall find me unafraid.

It matters not how strait the gate,
How charged with punishments the scroll
I am the master of my fate:
I am the captain of my soul.

Ángel González – O amanhã é um mar profundo que precisamos atravessar a nado

Queria ser alga, alga enredada
na parte suave de tuas coxas.
Sopro de brisa nas tuas bochechas.
Leve areia sob tua pegada.

Queria ser água, água salgada
quando corres nua no litoral.
Sol cortando em sombra tua banal
Silhueta virgem recém-molhada.

Tudo quisera ser, indefinido,
ao teu redor: vista, luz, ambiente
gaivota, céu, navio, vela, vento…

A concha que aproximas ao ouvido,
para poder unir, timidamente,
com o rumor do mar, meu sentimento.

Trad.: Nelson Santander

Mañana es un mar hondo que hay que cruzar a nado

Alga quisiera ser, alga enredada,
en lo más suave de tu pantorrilla.
Soplo de brisa contra tu mejilla.
Arena leve bajo tu pisada.

Agua quisiera ser, agua salada
cuando corres desnuda hacia la orilla.
Sol recortando en sombra tu sencilla
silueta virgen de recién bañada.

Todo quisiera ser, indefinido,
en torno a ti: paisaje, luz, ambiente,
gaviota, cielo, nave, vela, viento…

Caracola que acercas a tu oído,
para poder reunir, tímidamente,
con el rumor del mar, mi sentimiento.

Joan Margarit – Astapovo

De madrugada, quando só se ouvem
relógios no escuro,
eu o imagino, com seus oitenta anos,
fugindo em um trem russo que ia para o sul,
de lugar nenhum, para onde os velhos sonham ir.
Tolstói temia aquele inverno
que o acompanhou durante a velhice
até o leito de morte ferroviário,
na noite em que o telégrafo
transmitiu a mais breve e cruel
de todas as suas mensagens.
Quis correr mais rápido que o frio,
mas seu trem foi coberto para sempre
pelos flocos de neve que caíam
na gare de Astapovo.
Iniciei minha fuga muito antes,
pois aprendi com Tolstói
que é preciso entrar na última estação
em alta velocidade. Assim a morte,
sem tempo para nos avisar com sinais,
agitando uma lanterna nos linhas,
com um golpe certeiro,
muda a direção dos trilhos.

Trad.: Nelson Santander

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Joan Margarit – Astápovo

De madrugada, cuando sólo se oyen
relojes en lo oscuro,
me lo imagino, a sus ochenta años,
huyendo en un tren ruso que iba al sur
de ningún sitio, adonde los viejos quieren ir.
Tolstoi temía aquel invierno
que le siguió durante su vejez
hasta el lecho de muerte ferroviario,
la noche en que el teclado del telégrafo
transmitió el más breve y cruel
de todos sus relatos.
Quiso correr más rápido que el frío,
pero su tren quedó cubierto para siempre
por los copos de nieve que caían
en la estación de Astápovo.
Yo he empezado la fuga mucho antes,
porque aprendí de Tolstoi
que hay que entrar en la última estación
a gran velocidad. Así la muerte,
sin tiempo de avisarnos con señales
agitando un farol desde las vías,
de un golpe seco, cambia las agujas.

William Butler Yeats – As quatro idades do homem

Com seu corpo principiou uma rinha
O corpo venceu; ereto ele caminha.

Ele lutou então com o coração;
Sua inocência e sua paz já se vão.

Ele combateu então usando a mente;
Ficou pra trás o coração insolente.

Agora suas guerras são com Jeová;
Ao soar a meia-noite Ele vencerá

Trad.: Nelson Santander

The Four Ages of Man

He with body waged a fight,
But body won; it walks upright.

Then he struggled with the heart;
Innocence and peace depart.

Then he struggled with the mind;
His proud heart he left behind.

Now his wars on God begin;
At stroke of midnight God shall win.

A. A. Milne – Narciso

Ela vestiu seu chapéu-de-sol,
E pôs o seu mais verde vestido;
Virou-se para o vento austral
E prestou-lhe o cortejo devido.
Virou-se então para a luz do sol
E os cabelos louros agitou,
E sussurrou para o seu vizinho:
“O inverno acabou”

Trad.: Nelson Santander

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Daffadowndilly

She wore her yellow sun-bonnet,
She wore her greenest gown;
She turned to the south wind
And curtsied up and down.
She turned to the sunlight
And shook her yellow head,
And whispered to her neighbour:
“Winter is dead.”

Joseph Stroud – Tributo a Rolf Jacobsen

A jaqueta amarela fica batendo contra a vidraça
tentando sair. Desde o começo era apenas uma questão
de abrir a janela, encontrar as palavras,
e você por aí – em um outro, maior mundo.
Para os mortos, o paraíso é a calçada na qual você caminha
olhando as janelas, cantarolando, parando para um café.

Trad.: Nelson Santander

Homage To Rolf Jacobsen

The yellow jacket keeps crashing against the pane
trying to get out. All along it’s only a matter
of opening the window, finding the words,
and you’re out there — in the other, larger world.
To the dead, paradise is the sidewalk you stroll down
looking in windows, humming, stopping for coffee.

Luis Alberto de Cuenca – O desjejum

Gosto quando dizes disparates,
quando fazes asneiras, quando mentes,
quando vais às compras com tua mãe
e chego atrasado ao cinema por tua culpa.
Gosto mais quando é meu aniversário
e me cobres de beijos e bolos,
ou quando estás feliz e dá para notar,
ou quando és genial com uma frase
que resume tudo, ou quando ris
(teu riso é uma ducha no inferno),
ou quando me perdoas um esquecimento.
Mas eu ainda gosto mais, tanto que quase
não posso resistir ao tanto que te gosto,
quando, cheia de vida, despertas
e a primeira coisa que fazes é dizer-me:
“Estou morrendo de fome esta manhã.
Vou começar por ti o desjejum”

Trad.: Nelson Santander

 

El desayuno

Me gustas cuando dices tonterías,
cuando metes la pata, cuando mientes,
cuando te vas de compras con tu madre
y llego tarde al cine por tu culpa.
Me gustas más cuando es mi cumpleaños
y me cubres de besos y de tartas,
o cuando eres feliz y se te nota,
o cuando eres genial con una frase
que lo resume todo, o cuando ríes
(tu risa es una ducha en el infierno),
o cuando me perdonas un olvido.
Pero aún me gustas más, tanto que casi
no puedo resistir lo que me gustas,
cuando, llena de vida, te despiertas
y lo primero que haces es decirme:
«Tengo un hambre feroz esta mañana.
Voy a empezar contigo el desayuno».