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Peter Everwine – Chuva

Ao anoitecer, quando a luz vaciloue a pereira diante de minha janela escureceu,pousei meu livro e me postei junto à porta aberta,as primeiras gotas de chuva golpeando os beirais,um cheiro de terra molhada no vento.Sessenta anos atrás, deitado ao lado do meu pai,meio adormecido, sobre uma cama de ramos de pinheiro,enquanto a chuva tamborilava contra…
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Eduardo Chirinos – O que meu pai realmente quer de mim

1Esta noite tive um sonho. Seguia meu paipor uma estrada de terra. Os dois íamos a cavaloe mal trocávamos uma palavra. Ao longe, avistava-sea sombra de alguns salgueiros, as luzes de um povoadodesconhecido e remoto. De repente, meu pai deteveseu cavalo e perguntou se eu sabia para onde íamos.Respondi que não. Então estamos bem, ele…
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Mary Oliver – Sobre viajar para lugares bonitos

Ainda procuro Deus todos os diase ainda o encontro por toda parte,no pó, nas floreiras.Seguramente, nos oceanos,nas ilhas distantes, continentes de gelo, países de areia,cada um com seu próprio conjunto de serese um Deus, qualquer que seja seu nome.Que perfeito estar a bordo de um naviotalvez ainda com cem anos pela frente.Mas é tarde, para…
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Wislawa Szymborska – Gato num apartamento vazio

Morrer — isso não se faz a um gato.Pois o que há de fazer um gatonum apartamento vazio.Trepar pelas paredes.Esfregar-se nos móveis.Nada aqui parece mudadoe no entanto algo mudou.Nada parece mexidoe no entanto está diferente.E à noite a lâmpada já não se acende. Ouvem-se passos na escadamas não são aqueles.A mão que põe o peixe…
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Jack Gilbert – Poemas e Elegias para Michiko Nogami: VII – Encontrando algo

Digo que a lua são cavalos na suave escuridãoporque cavalos são o que mais se parecem com o luar.Sento-me no terraço desta velha casa que o telegrafistado rei construiu em uma montanha que dá paraum mar azul e a pequena balsa brancaque cruza lentamente para a ilha vizinha a cada meio-dia.Michiko está morrendo no edifício…
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Jack Gilbert – Poemas e Elegias para Michiko Nogami: VI – Sozinho

Nunca pensei que Michiko voltariadepois de morrer. Mas se voltasse, eu sabiaque seria como uma dama em um longo branco.É estranho que ela tenha voltadocomo a dálmata de alguém. Eu encontroo homem que a leva para passear, de coleira,quase toda semana. Ele diz bom diae me curvo para acalma-la. Ele disse uma vezque ela nunca…
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Jack Gilbert – Poemas e Elegias para Michiko Nogami: V – Michiko morta

Ele se comporta como quem carrega uma caixamuito pesada, primeiro com os braçospor baixo. Quando suas forças se esgotam, ele move as mãos para frente, encaixando-asnas quinas, puxando o peso contra oo peito. Ele move ligeiramente os polegaresquando os dedos começam a se cansar, e isso fazcom que diferentes músculos assumam o controle. Depois,ele a…
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Jack Gilbert – Poemas e Elegias para Michiko Nogami: IV – Saudades de mim

Não foi pelas lamentações no tapetenem pelas noites de saudades dela que eume perdi. Nem por ter sofrido tanto com a perda de Michiko. Isso é apenas dor.Eu sou como este relógio que funciona mal porquea nova e grossa pulseira o separa do pulso. Trad.: Nelson Santander Missing Me It is not because of groaning…
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Jack Gilbert – Poemas e Elegias para Michiko Nogami: III – Michiko Nogami (1946-1982)

Michiko Nogami (1946-1982) Ela está mais aparente porque já não émais, para sempre? Sua brancura está mais brancaporque ela era da cor de mel claro?Uma chaminé tornando o céu mais visível.Uma mulher morta enchendo o mundo todo. Michikodisse: “As rosas que você me deu me mantiveram despertacom o som de suas pétalas caindo.” Trad.: Nelson…
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Jack Gilbert – Poemas e Elegias para Michiko Nogami: II – Casados

Voltei do funeral e rastejeipelo apartamento, chorando intensamente,procurando pelos cabelos da minha esposa.Por dois meses, eu os retirei do ralo,do aspirador de pó, debaixo da geladeira,e das roupas no closet.Mas depois que outras mulheres japonesas vieram,não havia como ter certeza de quais eram osdela, e parei. Um ano depois,ao replantar o abacate de Michiko, encontreium…