Karmelo C. Iribarren – A herança

Ultimamente,
quando me vejo no espelho,
é meu avô quem me encara,
mais que meu pai.

Cinquenta anos
para começar a entrar na posse
da única herança que ele me deixou,

e que acabará me matando.

Trad.: Nelson Santander

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La herencia

Últimamente,
cuando me asomo al espejo,
es mi abuelo el que me mira,
más que mi padre.

Cincuenta años
para empezar a cobrar
la única herencia que me dejó,

y que acabará matándome.

Jorge Valdés Díaz-Vélez – Dia dos Mortos

I

Novembro. Dia dos Mortos. Montamos
o nosso altar de papel. O deste ano
decora-se com mais fotografias
do panteão familiar que povoamos
com paciência, sem pausas. Sem chorarmos,
entre os círios e as flores das
tagetes, colocamos as caveiras,
onde cintila o açúcar dos nomes.
Há uma – sorridente – com o meu.

II

Dar a essa luz a sombra que falta,
e à sombra a música, as vozes
rituais do silêncio, e ao silêncio
a Árvore da vida e dos anos
e apagar outra vela até ardermos
de escuridão. Vamos pedir que nasça
já ferida de morte a manhã
para nunca esquecer que partiremos.

Trad.: Inês Dias

Jaime Gil de Biedma – Canção de aniversário

Porque são já seis anos desde então,
porque não há na terra, ainda,
nada tão doce quanto um quarto
para dois, se for teu e meu;
porque até o tempo, esse parente pobre
que conheceu dias melhores,
parece hoje partidário da felicidade,
cantemos, alegria!

E, depois, levantemo-nos mais tarde,
como no domingo. Que a manhã plena
nos faça amarmos-nos novamente,
mas melhor: de um jeito
que à noite não se pode imaginar,
enquanto o quarto se impregna
de sol e calma vizinhança, como o tempo,
e de história serena.

O eco dos dias de prazer,
o desejo, a música acordada
dentro do coração, e que eu mal coloquei
em meus poemas, por romântica;
todo o perfume, todo o passado infiel,
o que foi doce e nostálgico,
não vês como se somam à realidade que então
sonhavas e sonhavas?

A realidade – não tão bonita –
com a inconveniência de serem duas,
suas vergonhosas noites de amor sem desejo
e de desejo sem amor,
que nem em seis séculos dormindo sozinho
as pagaríamos. E com
suas vagas transições, da traição ao tédio,
do tédio à traição.

A vida não é um sonho, tu já sabes
que temos a tendência de esquece-lo.
Mas um pouco de sonho, não mais, um sim não é
para agora, calando-nos
o resto da história, e um instante
– enquanto tu e eu nos desejamos
uma vida feliz e longa em comum -, estou seguro
de que não pode causar dano.

Trad.: Nelson Santander

Canción de aniversario

Porque son ya seis años desde entonces,
porque no hay en la tierra, todavía,
nada que sea tan dulce como una habitación
para dos, si es tuya y mía;
porque hasta el tiempo, ese pariente pobre
que conoció mejores días,
parece hoy partidario de la felicidad,
cantemos, alegría!

Y luego levantémonos más tarde,
como domingo. Que la mañana plena
se nos vaya en hacer otra vez el amor,
pero mejor: de otra manera
que la noche no puede imaginarse,
mientras el cuarto se nos puebla
de sol y vecindad tranquila, igual que el tiempo,
y de historia serena.

El eco de los días de placer,
el deseo, la música acordada
dentro en el corazón, y que yo he puesto apenas
en mis poemas, por romántica;
todo el perfume, todo el pasado infiel,
lo que fue dulce y da nostalgia,
¿no ves cómo se sume en la realidad que entonces
soñabas y soñaba?

La realidad – no demasiado hermosa –
con sus inconvenientes de ser dos,
sus vergonzosas noches de amor sin deseo
y de deseo sin amor,
que ni en seis siglos de dormir a solas
las pagaríamos. Y con
sus transiciones vagas, de la traición al tedio,
del tedio a la traición.

La vida no es un sueño, tú ya sabes
que tenemos tendencia a olvidarlo.
Pero un poco de sueño, no más, un si es no es
por esta vez, callándonos
el resto de la historia, y un instante
– mientras que tú y yo nos deseamos
feliz y larga vida en común -, estoy seguro
que no puede hacer daño.

Joan Margarit – Inverno de 95

Esta carta a escrevo para alguém
que está em um barco pelo norte
de Tenerife, em cinquenta e sete.
Um rapaz que, da amurada,
mira o duro poente sobre o mar
e estuda arquitetura em Barcelona,
para onde retorna agora. Aviso-te
com um sinal de alerta: a alegria
que sentes ao deixar teu pai para trás
revela a solidão sob uma luz dourada.
Teu pai já te espera,
outra vez, no porto de chegada:
não te conhece e olha para nenhuma parte,
nada diz e tampouco te responde.
Lentamente, com o dorso da mão
roças-lhe a face enquanto lhe falas
como se tratasse de ti mesmo,
como se o amanhã fosse agora.
O ontem nos espera no amanhã,
vai sempre mais depressa que nós.

Trad.: Nelson Santander

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Invierno del 95

Esta carta la escribo para alguien
que va en un barco por el norte
de Tenerife, en el cincuenta y siete.
Un muchacho que, desde la baranda,
mira el férreo poniente sobre el mar
y estudia arquitectura en Barcelona,
adonde vuelve ahora. Te aviso
con un gesto de alarma: la alegría
que sientes al dejar tu padre atrás
muestra la soledad bajo una luz dorada.
Tu padre ya te espera,
otra vez, en el puerto de llegada:
no te conoce y mira hacia ninguna parte,
nada dice y tampoco te contesta.
Despacio, con el dorso de la mano
le rozas la mejilla mientras le hablas
como si se tratase de ti mismo,
igual que si el mañana fuese ahora.
El ayer nos espera en el mañana,
va siempre más deprisa que nosotros.

Francisco Brines – Métodos de conhecimento

No cansaço da noite,
penetrando a mais sombria canção,
recobrei por trás de meus olhos cegos
o frágil testemunho de uma cena remota.

Recendia o mar, e a aurora era a ladra
dos céus; tornava fantasmagóricas
as luzes da casa.
Os comensais eram jovens, e fartos
e sem sede, no naufrágio do banquete,
buscavam a embriaguez
e o colorido cortejo da alegria. O vinho
desbordava das taças, corava
a acesa pele, enrubescia o solo.
Com generoso amor, à luz furiosa,
libertaram seus peitos, a carne, a palavra,
e não lhes importava depois não recordar.
Algum punhal fracassado buscava um coração.

Levantei eu também minha taça, a menor de todas,
cheia de cinzas até as bordas:
ossos articulados de falcão e arqueiro,
e ali bebi, sem sede, duas experiências mortas.

Meu coração serenou, e uma inocente criança
me cobriu a cabeça com um gorro de demente.

Fixei meus olhos lúcidos
em quem supus ter escolhido com tino mais preciso:
aquele que em um canto, dando as costas a todos,
levou aos frescos lábios
uma taça de argila com veneno.
                E brindando ao nada
se precipitou nas sombras.

Trad.: Nelson Santander

Métodos de conocimiento

En el cansancio de la noche,
penetrando la más oscura música,
he recobrado tras mis ojos ciegos
el frágil testimonio de una escena remota.

Olía el mar, y el alba era ladrona
de los cielos; tornaba fantasmales
las luces de la casa.
Los comensales eran jóvenes, y ahítos
y sin sed, en el naufragio del banquete,
buscaban la ebriedad
y el pintado cortejo de alegría. El vino
desbordaba las copas, sonrosaba
la acalorada piel, enrojecía el suelo.
En generoso amor sus pechos desataron
a la furiosa luz, la carne, la palabra,
y no les importaba después no recordar.
Algún puñal fallido buscaba un corazón.

Yo alcé también mi copa, la más leve,
hasta los bordes llena de cenizas:
huesos conjuntos de halcón y ballestero,
y allí bebí, sin sed, dos experiencias muertas.

Mi corazón se serenó, y un inocente niño
me cubrió la cabeza con gorro de demente.

Fijé mis ojos lúcidos
en quien supo escoger con tino más certero:
aquel que en un rincón, dando a todo la espalda,
llevó a sus frescos labios
una taza de barro con veneno.
                Y brindando a la nada
se apresuró en las sombras.

Joan Margarit – Piscina

Não temia a água, mas a ti,
era teu medo o que eu temia,
e o lugar mais profundo,
em que não se veem os azulejos do fundo.
Arrastaste-me até lá, lembro ainda
a força de teus braços obrigando-me,
enquanto tentava abraçar-me a ti.
Não aprendi a nadar até muito tempo depois,
e esqueci tuas tentativas de ensinar-me.
Agora que já nunca voltarás a nadar
vejo, aos meus pés, a água azul, imóvel.
Compreendo que eras tu quem se abraçava
a mim para atravessar aqueles dias.

Trad.: Nelson Santander

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Piscina

No le temía al agua, sino a ti,
era tu miedo lo que yo temía,
y el lugar más profundo,
en el que no se ven las baldosas del fondo.
Me arrastraste hacia allí, recuerdo aún
la fuerza de tus brazos obligándome,
mientras trataba de abrazarme a ti.
No aprendí a nadar hasta mucho después,
y olvidé tus intentos de enseñarme.
Ahora que ya nunca volverás a nadar
veo, a mis pies, el agua azul, inmóvil.
Comprendo que eras tú quien se abrazaba
a mí para cruzar aquellos días.

Antonio Colinas – Envio

Lembras-te ainda do débil canto
do rouxinol perdido na ramagem?
Viste farfalhar comigo naquela noite
a copa do cipreste.
       Desfez-se
o céu em fios de luar sobre teu rosto.
Mas depois do pássaro e da lua
apagaram-se os astros.
       Vi passar
não sei que brisa estranha pelo teu corpo.
Lembras-te das nossas mãos na água?
Lembras-te do silêncio sobre o campo
e, como um deus exangue, do novo dia
incendiando as torres, as pombas?

Trad.: Nelson Santander

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Envío

¿Recuerdas todavía el débil canto
del ruiseñor perdido en la enramada?
Viste temblar conmigo aquella noche
la copa del ciprés.
       Desmadejó
el cielo hilos de luna por tu rostro.
Pero después del pájaro y la luna
se apagaron los astros.
       Vi pasar
no sé qué brisa extraña por tu cuerpo.
¿Recuerdas nuestras manos en el agua?
¿Recuerdas el silencio sobre el campo
y, como un dios sangrante, el nuevo día
incendiando las torres, las palomas?

Meira Delmar – Hóspede sem sombra

Nada deixam meus passos sobre a terra.
No momento do último passeio
hei de levar o que ao nascer me veio:
o rosto em paz e o coração em guerra.

Nenhuma voz repetirá a minha
de saudoso ardor e fiel espanto.
A voz estremecida com que canto
o mar, a rosa, a melancolia.

Não ressuscitará minha visão
da noite para a vida sempre ilesa,
a beber como um vinho a beleza
da iluminada e mágica amplidão.

Este sangue ébrio por formosura
não se tributará a outras veias.
Não tomarão, en passant, mãos alheias
a viva luz que em minhas mãos perdura.

Nem face que meu sonho mutilado
recolha e realize, triunfante.
Une o meu existir tempo presente
sem futuro depois do seu passado.

Conclusão de mim mesma, me rodeio
com o anel ofuscante do canto.
Inútil maré de paixão e pranto
Em mim naufraga o quanto vejo e creio.

Não lego minha solidão. Comigo
ela torna à orla do medo, ignota.
Meço em silêncio a última derrota.
Estremeço de dia. Mas não digo.

Trad.: Nelson Santander

Huésped sin sombra

Nada deja mi paso por la tierra.
En el momento del callado viaje
he de llevar lo que al nacer me traje:
el rostro en paz y el corazón en guerra.

Ninguna voz repetirá la mía
de nostálgico ardor y fiel asombro.
La voz estremecida con que nombro
el mar, la rosa, la melancolía.

No volverán mis ojos renacidos
de la noche a la vida siempre ilesa,
a beber como un vino la belleza
de los mágicos cielos encendidos.

Esta sangre sedienta de hermosura
por otras venas no será cobrada.
No habrá manos que tomen, de pasada,
la viva antorcha que en mis manos dura.

Ni frente que mi sueño mutilado
recoja y cumpla victoriosamente.
Conjuga mi existir tiempo presente
sin futuro después de su pasado.

Término de mí misma, me rodeo
con el anillo cegador del canto.
Vana marea de pasión y llanto
en mí naufraga cuanto miro y creo.

A nadie doy mi soledad. Conmigo
vuelve a la orilla del pavor, ignota.
Mido en silencio la final derrota.
Tiemblo del día. Pero no lo digo.

Joan Margarit – Alguém

Tinha que salvar-me com seus olhos azuis
cravados ainda
em uma lembrança da adolescência,
a estranha fase de precipitar-se,
sem queixa nenhuma, ao fundo do abismo.
Do bonde, a fugaz imagem
de uma garota em uma varanda,
e o número de um telefone anotado
como uma cicatriz na memória.
Nunca estive a seu lado, inventava
seu transparente corpo em um espelho
onde depois me vi com sarcasmo
e também com profética tristeza.
Não me salvou quando chegou a adolescência
nem quando aos cinquenta, na era rubra,
outros olhos azuis me miraram.
Era a mesma mulher: nada desaparece
da urdidura de sonhos que recordam.
Talvez já fosse muito tarde, ou falso,
ou eu estivesse atrás – já – do espelho.
Ou, talvez, ser salvo seja tão só
agarrar-se às rochas sem jamais
comprazer-se em fitar o abismo,
e apesar disso poder ver um véu
de tristeza em lugares onde seus olhos
ainda desafiam o esquecimento.

Trad.: Nelson Santander

Joan Margarit – Quién

Tenía que salvarme con sus ojos azules
clavados todavía
en un recuerdo de la adolescencia,
la extraña edad para precipitarse,
sin queja alguna, al fondo del abismo.
Desde el tranvía, la fugaz imagen
de una muchacha en el balcón,
y el número marcado de un teléfono
como una cicatriz en la memoria.
Nunca estuve a su lado, me inventaba
su transparente cuerpo en un espejo
donde después me he visto con sarcasmo
y también con profética tristeza.
No me salvó al llegar la adolescencia
ni cuando a los cincuenta, en la edad roja,
otros ojos azules me miraron.
Fue la misma mujer: nada desaparece
de la urdimbre de sueños que recuerda.
Quizá ya era muy tarde, o era falso,
o yo estaba detrás —ya— del espejo.
O, quizá, ser salvado es tan sólo
aferrarse a las rocas sin jamás
complacerse en mirar hacia el abismo,
y a pesar de ello poder ver un velo
de tristeza en lugares donde aún
sus ojos desafían al olvido.

Joan Margarit – De repente está claro

De repente está claro. O amor é a vitória
que irá me destruir. Como me gangrena
o coração a solidão, como me destroça
nas janelas do crepúsculo a hiena
desolada e exangue. Na era rubra
só o amor nos livra da gélida
gruta do tempo. Conheci
a glória de estar desesperado e a miséria
do bem estar que oferece a derrota.
Entre ruínas de lágrimas deixo-lhes
cartas e versos, sombras que dirão
o quanto eu amei. E talvez,
no âmago mais indefeso de uma mulher,
solitário, serei eternamente amante.

Trad.: Nelson Santander

Joan Margarit – De pronto está claro

De pronto está claro. El amor es la victoria
que me ha de destruir. Cómo me gangrena
el corazón la soledad, cómo me destroza
en los cristales del crepúsculo la hiena
desolada y sangrante. En la edad roja
sólo el amor nos libra de la gélida
cueva del tiempo. Conocí la gloria
de estar desesperado y la miseria
del bienestar que ofrece la derrota.
Entre ruinas de lágrimas os dejo
cartas y versos, sombras que dirán
hasta dónde he amado. Y tal vez,
en lo más indefenso dentro de una mujer,
solitario, seré por siempre amante.