Miquel Martí i Pol – No ano que vem

No ano que vem já ninguém reparará em nós.
Agora somos recém-chegados e fitam-nos com desprezo
até mesmo os que andam por cá há quarenta anos
e já nada os muda.
Temos um ar aturdido e tenaz
que faz rir as mulheres
e quase nem nos atrevemos a mexer a cabeça
por temor a perder o equilíbrio.

Daqui a um ano, porém, já teremos mudado de pele,
envergaremos a roupa com mais desenvoltura,
perseguiremos as raparigas
e teremos aprendido a dizer palavras duras
sem que sintamos as pernas a tremer.
Chegará então o momento de esperar os outros,
os recém-chegados do turno de entrar no jogo
e faremos parte, já para sempre, do bando que odiávamos,
será o momento de ensaiar formas novas
de ganhar o fôlego de uma gargalhada
de estúpida cumplicidade
ou talvez uma ruidosa blasfémia de surpresa.

E envelheceremos depressa,
pois nada cansa tanto quanto conquistar
em só um ano tudo aquilo que almejávamos.

Trad.: Miguel Filipe Mochila

 

Miquel Martí i Pol – El año que viene ya nadie se fijará en nosotros…

El año que viene ya nadie se fijará en nosotros.
Ahora somos recién llegados y nos miran con desprecio
hasta los que llevan aquí cuarenta años
y nada les altera.
Tenemos un aire aturdido y tenaz
que hace reír a las mujeres
y apenas si nos atrevemos a girar la cabeza
por temor a perder el equilibrio.

De aquí en un año, sin embargo, habremos mudado la piel,
llevaremos la ropa con más desenvoltura,
perseguiremos a las chicas
y tendremos que decir palabras duras
sin sentir que nos tiemblan las piernas.
Será entonces el momento de esperar a los otros,
a los recién llegados con turno de entrar en el juego
formando parte ya para siempre del bando que odiábamos
el momento de intentar formas nuevas
de ganarse el halago con una risotada
en estúpida complicidad,
o tal vez una ruidosa blasfemia de sorpresa.

Y envejeceremos deprisa,
porque nada cansa tanto como lograr
en un solo año todo lo que anhelábamos.

Manuel de Freitas – “Pela manhã o gato…”

Pela manhã o gato estende-se
vagaroso nesse impreciso lugar
em que luz e sombra
se entretecem. Nas pedras
rondantes do que sempre chamámos
a nossa casa, esse sonho
de irmos por detrás das janelas
encarcerados nas agrestes
paredes do amor.

Todas as manhãs, enquanto
a escola me espera, o
gato é tão certo como os passos
que dele se desviam. Um mero
olhar, a melancolia
de depois te dizer já sem o mesmo encanto
a sua negra quietude, o silêncio
em que se move.

Estamos todos, eu tu e o gato,
neste estranho sossego
de a morte ser um dia destes,
entre luz e sombra.

César Cantoni – Uma Arte Invisível

O poeta caminha
nu pelas ruas,
mas ninguém o vê.

O poeta vai ao cinema,
desvia de putas,
anda de ônibus,
sempre nu,
mas as pessoas
olham para outro lado.

O poeta não tem meios
de chamar a atenção
porque a poesia
é uma arte invisível.

A poesia se escreve
sem palavras.

Trad.: Nelson Santander

 

César Cantoni – Un arte invisible

El poeta camina
desnudo por la calle,
pero la gente no lo ve.

El poeta va al cine,
sale de putas,
viaja en colectivo,
siempre desnudo,
pero la gente
mira para otro lado.

El poeta no tiene modo
de llamar la atención,
porque la poesía
es un arte invisible.

La poesía se escribe
sin palabras.

Carlos Marzal – Estranha Forma de Vida

A Vicente Gallego

 

Sob a bigorna de fogo
que o sol de agosto acende
no muro caiado, derretem-se as pétalas
de uma sedenta buganvília grená.

Que estranha esta beleza moribunda,
esta desaforada desnudez grandiosa,
esta sílaba breve do milagre.

Trad.: Inês Dias

 

Carlos Marzal – Extraña Forma de Vida

Bajo el yunque de fuego
que el sol de agosto enciende
en el muro encalado, se derriten los pétalos
de una sedienta buganvilia grana.

Qué extraña esta belleza moribunda,
esta desaforada desnudez grandiosa,
esta sílaba escueta del milagro.

Billy Collins – Pardal de Natal

A primeira coisa que ouvi esta manhã
foi um rápido bater de asas, suave, insistente –

asas contra vidro, como se percebeu depois,
lá em baixo, quando vi um pequeno pássaro
agitando-se na moldura de uma janela alta,
tentando lançar-se através do
enigma de vidro até a ampla luz.

E então um ruído na garganta do gato
que estava pregado ao tapete
contou-me como o pássaro ficara lá dentro,
transportado na noite fria
através da portinhola na porta da cave,
e posteriormente solto do aperto suave dos dentes.

De pé numa cadeira, prendi as suas pulsações
numa camisa e levei-o para a porta,
tão leve que parecia
ter desaparecido no ninho de tecido.

Mas cá fora, quando abri as mãos,
ele saiu disparado para o seu elemento,
mergulhando sobre o jardim adormecido
num espasmo de bater de asas
e desaparecendo sobre um renque alto de acácias.

Durante o resto do dia,
senti o seu vibrar selvagem
contra a palma das mãos, sempre que pensava
nas horas que a ave deve ter passado
presa nas sombras da sala,
escondida nos ramos pontiagudos
da nossa árvore decorada, onde respirou
entre anjos metálicos, maçãs de louça, estrelas de verga,
os seus olhos abertos, como os meus, deitado aqui esta noite,
imaginando este pardal sortudo e raro
aconchegado agora num arbusto de azevinho,
com a neve caindo através da escuridão, sem uma aragem.

Ana Hatherly – A Verdadeira Mão

A verdadeira mão que o poeta estende
não tem dedos:
é um gesto que se perde
no próprio ato de dar-se

O poeta desaparece
na verdade da sua ausência
dissolve-se no biombo da escrita

O poema é
a única
a verdadeira mão que o poeta estende

E quando o poema é bom
não te aperta a mão:
aperta-te a garganta

Inês Lourenço – Balada dos Amores Difíceis

Não me refiro aos trágicos Romeu e Julieta
Tristão e Isolda, Pedro e Inês nem a alguns ignorados
ícones como Yourcenar e Grace ou Rimbaud e Verlaine. Refiro-me
aos que se buscam sem saber nada
do fogo que arde sem se ver, órficos cantos, mas côncavos
e convexos se combinam cruzando genes e transitórios
tempos de vida enquanto povoam cidades, salas
de parto, comércios, indústrias, portais, geriatrias. E dos campos deixados
à exportação do vinho e dos litorais ainda com redes
e barcos cresce um ruído de formiga banal e curtida
de pequenos destinos. Esses são os grandes herois
dos amores difíceis
que não ficam no poema.

Ana Martins Marques – Religião

‘If I were called in
to construct a religion
I should make use of water’
– Philip Larkin

Inaugurar uma religião:
adorar os pontos em que se formam
as estações do ano
os gestos de desnudar-se
o dia depois da chuva
a distância: entre uma árvore e outra árvore,
entre cidades com o mesmo nome
em diferentes continentes.
Criar relíquias:
os táxis ao entardecer, as colheres
brilhando ao sol
esboços de mãos e pés
de pintores antigos
as presas ensanguentadas
que nos trazem os gatos.
E ainda outras, íntimas, insensatas
a luz nos seus cabelos
as fotografias de parentes
que não sabemos quem são.
Adotar novas bíblias:
longos romances inacabados
palavras lidas sobre os ombros
de alguém no metrô
poemas clássicos traduzidos
por tradutores automáticos.
Reconhecer enfim o divórcio
como um sacramento.
Na liturgia
tocar como partituras
os mapas das cidades.
E no Natal
só celebrar o que nasce
do sexo
para morrer
de fato.

Inês Lourenço – As Coisa que Cessam

Tanto desprezo
pelo que é transitório e finito. Não servirei
senhor que possa morrer. Mas passamos
a vida a amar todas as fragilidades
das coisas que cessam. Há
coisa mais breve do que um sorriso?
Coisa mais curta que a alegria
de um reencontro? Tudo o que amamos
é passageiro e frágil ou
as duas coisas. Mas persegue-nos
a nostalgia do infindável
como uma tara hereditária.

Amalia Bautista – O Anjo Perplexo

Nunca houve deus, nem virgens, nem santos,
nem ídolo que proteja, nem oração que console;
nunca houve milagres ou maravilhas, nem a salvação da alma, nem a vida eterna;
nem palavras mágicas, nenhum bálsamo eficaz
contra a dor que não desaparece nunca;
nem luz do outro lado das sombras,
nem saída do túnel, nem esperança.
Só nos acompanha nesta jornada
um anjo da guarda perplexo que suporta
a mesma vida de cão que todos levamos.

Trad.: Nelson Santander

Amalia Bautista – El Ángel Perplejo

Nunca hubo dios, ni vírgenes, ni santos,
ni icono que proteja, ni oración que consuele;
nuca ha habido milagros o prodigios,
ni salvación del alma o vida eterna;
ni mágicas palabras, ni bálsamo efectivo
contra el dolor que no remite nunca;
ni luz al otro lado de las sombras,
ni salida del túnel, ni esperanza.
Sólo nos acompaña en esta travesía
un ángel de la guarda perplejo que soporta
la misma vida perra que nosotros.