Spencer Reece – Portofino

Prometa-me que não esquecerá de Portofino.
Prometa-me que encontrará a ilusão de ótica
nas paredes do Splendido.
As paredes que criam uma cena inacessível.

Talvez assim compreenda esse anseio
por permanência que mencionei tantas vezes.
Do outro lado do porto? Uma capela amarela. Um penhasco.
Prometa-me que testemunhará o dia se dissipar.

E quando os telhados escurecerem, quando as estrelas vagarem
até se estilhaçarem no horizonte do oceano,
saberá que o que eu lhe disse é verdadeiro
quando afirmei que o abandono é belo.

Trad.: Nelson Santander

REPUBLICAÇÃO, com alterações na tradução. Poema publicado na página originalmente em 05/10/2018

Portofino

Promise me you will not forget Portofino.
Promise me you will find the trompe l’oeil
on the bedroom walls at the Splendido.
The walls make a scene you cannot enter.

Perhaps then you will comprehend this longing
for permanence I often mentioned to you.
Across the harbor? A yellow church. A cliff.
Promise me you will witness the day diminish.

And when the roofs darken, when the stars drift
until they shatter on the sea’s finish,
you will know what I told you is true
when I said abandonment is beautiful.

José María Zonta – Não entres como turista no coração de uma mulher

Não entres como turista no coração de uma mulher, tirando fotos
deixando latas de cerveja
procurando apenas imensas catedrais
e estátuas transparentes

com a mochila cheia de mapas
e fazendo refeições rápidas

há um país
sete cidades
uma cordilheira e um inverno
no coração de uma mulher

não bebas ali só uma taça de mar

não entres em avião
toma o trem da meia-lua
não reveles lá tuas fotos em uma hora

se não estiver muito frio
entra despido

não carregues guarda-chuva
e sobretudo não cortes árvores
no coração de uma mulher
elas não costumam crescer de novo.

Trad.: Nelson Santander

No entrar como turista en el corazón de una mujer

No entrar como turista en el corazón de una mujer haciendo fotos
dejando latas de cerveza
buscando sólo catedrales inmensas
y estatuas transparentes

con la mochila llena de mapas
y haciendo comidas rápidas

hay un país
siete ciudades
una cordillera y un invierno
en el corazón de una mujer

no bebas allí sólo un vaso de Mar

no entres en avión
toma el tren de la media luna
no reveles allí tus fotos en una hora

si no hace demasiado frío
entra desnudo

no lleves paraguas
y sobre todo no tales árboles
en el corazón de una mujer
no acostumbran volver a crecer.

Ann Fischer-Wirth – Milagre de um coração sagrado e três folhas de faia, cada uma machada de verde e carmesim

Agora, as traças comeram seu triste dicionário.
Uma vez, você esteve atrás do balcão,

laços em seus cabelos, medindo e cortando tecidos
para as damas rechonchudas. E agora uma pilha de Kleenex

sobe pelo seu cotovelo enquanto você lida com sua rinite.
Você se tornou uma caixa de sobras, cabelos ralos

e sem viço, unhas azuis de cianose.
Isso te deixa perplexa, não é mesmo? — como ainda brilham,

no ferro-velho do seu coração, aquelas horas, aqueles dias —
a semana na pequena vila de pescadores, mesas

na areia, as anchovas e as gardênias.
Tudo se foi, tudo se foi. E agora, as folhas manchadas.

Mas eu lhe digo: você não é insignificante.
Você é como pêssegos tão delicados que se ferem

onde tocam a vasilha de sassafrás.
Você é líquen verde-oliva no salgueiro,

musgo entre os tijolos. Doces figos maduros,
pequena tartaruga escondida na relva, verde campo

e efêmera verde. Todas essas coisas são você.
E o som do canto dos pássaros depois da chuva.

Trad.: Nelson Santander

Milagro of a Sacred Heart and Three Beech Leaves, Each Mottled with Green and Crimson

Now the silverfish have eaten your sad dictionary.
Once you stood behind the counter,

ribbons in your hair, you measured and cut yardage
for the buxom ladies. And now a pile of Kleenex

rises by your elbow as you cope with your rhinitis.
You have become the remnants bin, hair lank

and thinning, nails blue with cyanosis.
It baffles you, doesn’t it? —how in the junkyard

of the heart, those hours, those days, still shine—
the week in the little fishing village, tables

on the sand, the anchovies and gardenias.
All gone, all gone. And now the mottled leaves.

But I tell you, you’re no minimum.
You’re peaches so tender they bruise

where they touch the sassafras bowl.
You’re silver-olive lichen on the willow oak tree,

moss between the bricks. Sweet ripening figs,
small turtle hiding in the grass, green field

and green ephemera. All these things are you.
And the chip and weave of birdsong after rain.

Fady Joudah – Mimesis

Minha filha
não faria mal a uma aranha
Que se aninhou
Entre as manoplas de sua bicicleta
Por duas semanas
Ela esperou
Até que a aranha fosse embora por conta própria

Se você desmanchasse a teia, eu disse,
Ela simplesmente saberia
Que este não é um lugar para se chamar de lar
E você poderia andar de bicicleta

Ela disse: é assim que os outros
Se tornam refugiados, não é?

Trad.: Nelson Santander

Mimesis

My daughter
wouldn’t hurt a spider
That had nested
Between her bicycle handles
For two weeks
She waited
Until it left of its own accord

If you tear down the web I said
It will simply know
This isn’t a place to call home
And you’d get to go biking

She said that’s how others
Become refugees isn’t it?

Otto D’Sola – Plenitude

Da formiga à estrela mais alta, fomos capazes de tecer uma longa história que nunca acabará;
da rocha aos pinhais,
dos pântanos ao berço de um tênue vento recém-nascido, fomos capazes de dar ao solo duro e seco a alegria de contemplar uma estrela e uma flor aberta.

Permeada de canções, beijos e mariposas, nossa história é a história mais antiga do mundo,
e não é apagada pelo tempo como os ecos, os fantasmas e as colunas que combatem na neblina.

Uma história à maneira das águas cavas e subterrâneas nos teria feito chorar infinitamente até que nossos olhos se tornassem navegáveis.

Nossa história se eleva da terra à estrela mais alta.

Como vemos pequenos os pântanos e os pinhais!

Virão lamentar nossa história todos os anjos que não podem nascer,
a rosa que só nasce e morre à noite sem conhecer o dia,
e as flores de laranjeira que emigram das coroas nupciais.

Da formiga à estrela mais alta, fomos capazes de tecer a história mais antiga do mundo.

Não ouves? Não sentes?

Adão está cantando
e Eva suspira, despertando o ar!

Plenitud

Pudimos hacer desde la hormiga a la estrella más alta una larga historia que no acabará nunca;
desde la roca a los pinares,
desde los páramos a la cuna de un delgado viento reciennacido, pudimos dar al duro suelo sin riego la alegría de verse un astro y una flor abierta.

Traspasada de músicas, besos y mariposas, nuestra historia es la historia más vieja del mundo,
sin borrarse del tiempo como lo hacen los ecos, los fantasmas y las columnas que combaten en la niebla.

Una historia a manera de agua ronca y subterránea nos hubiese hecho sollozar infinitamente hasta hacemos los ojos navegables.

Nuestra historia se alza de la tierra a la estrella más alta.

!Que pequeños miramos los páramos y los pinares!

Vendrán a lamentarse sobre nuestra historia todos los ángeles que no podrán nacer,
la rosa que sólo nace y muere en la noche sin conocer el día,
los azahares que emigran de las coronas nupciales.

Pudimos hacer desde la hormiga a la estrella más alta la historia más vieja del mundo.

¿No oyes? ¿No sientes?

Adán está cantando
y Eva suspira despertando los aires !

Joan Margarit – Era Rubra

     A Àlex Susanna

Levaste tanto tempo para aprender
que chegas tarde ao grande amor:
nunca viveste uma era de ouro.
As rosas de Ronsard*
jamais perfumarão teu olhar,
nenhum outono desfolhará
morosas pétalas nos braços de ninguém.
Com negligência ocultas os espelhos
como se fazia nas casas
onde havia um defunto.
Não voltam as mulheres com as quais
trocaste anos de solidão
por um fugaz momento de ternura.
Tão ardente é a vida no outono
que nas horas de angústia não poderás
amar nem a mulher que já perdeste.

Trad.: Nelson Santander

* N. do T.: o verso ‘As rosas de Ronsard’ pode ser interpretado de duas maneiras distintas. Por um lado, o poeta pode estar se referindo à espécie de rosa conhecida como ‘Rosa Pierre de Ronsard’, uma rosa trepadeira famosa por suas flores exuberantes. Por outro lado, pode estar aludindo ao famoso poema “Quand vous serez bien vieille” (Quando você estiver bem velha, em livre tradução), do poeta renascentista francês Pierre de Ronsard, um um exemplo clássico do tema do ‘carpe diem’. Ambas interpretações são válidas, inclusive concomitantemente, pois o poeta parece estar evocando tanto a beleza transitória das rosas como um símbolo do amor e da juventude efêmeros, quanto a reflexão sobre o tempo e a impossibilidade de alcançar uma era de ouro. A menção às rosas de Ronsard no poema de Margarit traz uma camada adicional de significado, ampliando o tema da fugacidade e da perda no poema.

REPUBLICAÇÃO com alterações na tradução: poema publicado na página originalmente em 30/09/2018

Edad roja

     A Àlex Susanna

Tanto tiempo has tardado en aprender
que llegas tarde al gran amor:
Que nunca habrás vivido una edad de oro.
Las rosas de Ronsard
nunca serán perfume en tu mirada,
ningún otoño habrá de deshojar,
en los brazos de nadie, lentos pétalos.
Con el olvido tapas los espejos
igual que acostumbraban en las casas
donde había un difunto.
No vuelven las mujeres con las cuales
cambiabas años de tu soledad
por un fugaz momento de ternura.
Tan ardiente es la vida en el otoño,
que en las horas de angustia no podrás
amar ni a la mujer que ya has perdido.

Jane Mead – Eu me pergunto se sentirei falta do musgo

Quando eu voar para longe, me pergunto
se sentirei falta do musgo como agora sinto,
só de pensar em partir.

Havia pedras de muitas cores.
Havia gravetos hospedando
líquen e musgo.
Havia portões vermelhos com antiquadas
ferragens forjadas à mão.
Havia campos de capim seco
com o cheiro das primeiras chuvas
e então de lama fresca. Havia lama,
e havia a caminhada,
toda a bela caminhada,
e só isso já me preenchia —
os aromas, os ásperos capins.
Todas as vezes em que dormi sob os arbustos,
certa vez despertando com os abutres acima, olhando para baixo
com suas cabeças inclinadas do jeito que eles costumam fazer,
caricaturas de atenção e curiosidade.
Uma vez também um lagarto.
Uma vez também um rato canguru.
Uma vez também um rato.
Eles não disseram que eu pertencia a eles,
mas eu pertencia.

Sempre que o experimento da
minha vida começar a se aproximar do fim
eu voltarei ao lugar que me amparou
e serei amparada. Tudo bem. Acho
que fiz o que pude. Acho
que cantei um pouco, acho que estendi a mão.

Trad.: Nelson Santander

I Wonder If I Will Miss The Moss

I wonder if I will miss the moss
after I fly off as much as I miss it now
just thinking about leaving.

There were stones of many colors.
There were sticks holding both
lichen and moss.
There were red gates with old
hand-forged hardware.
There were fields of dry grass
smelling of first rain
then of new mud. There was mud,
and there was the walking,
all the beautiful walking,
and it alone filled me—
the smells, the scratchy grass heads.
All the sleeping under bushes,
once waking to vultures above, peering down
with their bent heads the way they do,
caricatures of interest and curiosity.
Once too a lizard.
Once too a kangaroo rat.
Once too a rat.
They did not say I belonged to them,
but I did.

Whenever the experiment on and of
my life begins to draw to a close
I’ll go back to the place that held me
and be held. It’s O.K. I think
I did what I could. I think
I sang some, I think I held my hand out.

Joan Margarit – A partida

Definitivamente, este é o meu Outono,
um tempo de alianças impossíveis,
a era rubra de todos os perigos
para homens maduros e mulheres solitárias.
A era do adultério e da desmemória
sem nenhuma esperança, a era do gelo,
a partida final contra mim mesmo.
Permaneço à mesa, sem esperar pela sorte,
já não há chances neste jogo.
É o tempo de jogar paciência
com as cartas marcadas da vida.

Trad.: Nelson Santander

REPUBLICAÇÃO com alterações na tradução. Poema publicado na página originalmente em 29/09/2018

La partida

Definitivamente se trata de mi otoño,
un tiempo de alianzas imposibles,
la edad roja de todos los peligros
para hombres maduros y chicas solitarias.
La edad del adulterio y el olvido
sin ninguna esperanza, la edad fría,
la partida final contra uno mismo.
Permanezco en la mesa, sin esperar la suerte,
ya no cabe el azar en este juego.
Es el tiempo de hacer un solitario
con las cartas marcadas de la vida.

Meghan O’Rourke – Erro não forçado

Outrora: aqueles longos e úmidos verões em Vermont.
Sem dinheiro e nada para fazer além de ler, nadar
no rio com homens de shorts jeans,
e depois jogar bingo fora da igreja, comemorando quando ganhávamos.
Nada parecia real para mim e tudo aquilo era muito vivo e real.
Levei muito tempo para aprender o quanto eu estava errada —
além da linha do horizonte o sol arde.
Heidegger: “Todo homem nasce como muitos homens,
e morre como um só”.
Os ossos em nós ainda cheios de tutano.
A lua lá em cima, também, um ártico lamento.
Lamento, outro uísque? Nozes?
Eu costumava achar que seguir em frente era o propósito da vida,
sempre em frente, a neve caindo, caindo espalhafatosamente.
Cometi um erro. Agora eu tenho uma testamento. Ele diz: quando eu morrer,
deixe-me continuar a viver. Uma camisa branca, pernas nuas, ossos por baixo.
Números em um quadro-negro. Uma vida pode significar uma maré de sorte,
uma fase ruim, ou um acaso.
Framboesas amarelas ao sol de julho, ameixas amargas, cortinas ao vento.

Trad.: Nelson Santander

N. do T.: o título do poema – “Unforced error” – é uma expressão do tênis que se refere a um erro cometido sem pressão do adversário, literalmente um erro não forçado. No poema – uma reflexão sobre a importância de aceitar a ambiguidade da vida e aprender a conviver com ela -, o eu lírico parece refletir sobre seus erros, insinuando que, de certa forma, eles não foram “forçados”, mas sim resultado de uma escolha pessoal – não obstante reconheça que nem tudo na vida pode ser controlável e que algumas coisas simplesmente acontecem por acaso ou por sorte.

Unforced Error

Once: those long wet Vermont summers.
No money, nothing to do but read books, swim
in the river with men in their jean shorts,
then play bingo outside the church, celebrating when we won.
Nothing seemed real to me and it was all very alive.
It took that long to learn how wrong I was—
over the rim of the horizon the sun burns.
Heidegger: “Every man is born as many men
and dies as a single one.”
The bones in us still marrowful.
The moon up there, too, an arctic sorrow.
I’m sorry, another Scotch? Some nuts?
I used to think pressing forward was the point of life,
endlessly forward, the snow falling, gaudily falling.
I made a mistake. Now I have a will. It says when I die
let me live. A white shirt, bare legs, bones beneath.
Numbers on a board. A life can be a lucky streak,
or a dry spell, or a happenstance.
Yellow raspberries in July sun, bitter plums, curtains in wind.

Cheryl Pearson – Encantamento de proteção para um amado

Você sai com o carro em uma noite chuvosa,
e minha mente corre solta. Bêbados. Pista escorregadia.
Um corpo sob um lençol à beira da estrada. Eu te digo:
Tenha cuidado. O que quero dizer é: Eu te amo,
não vá embora. Eu quero você quente e descontente.
O rejunte entre os ladrilhos do banheiro está lascando;
a umidade na cozinha arruinou o sal. Eu listo
cada meio pelo qual você pode ser destruído, e o cão recebe
uma focinheira e permite que você respire. Nenhuma curva fechada
em duas rodas. Nenhum erro ao conduzir o caminhão articulado.
Eu te dou câncer, rompo seu apêndice. Torno-o
alérgico a abelhas. Houve situações perigosas:
eu as conto como as contas de um rosário, afago nossa sorte.
A vez em que aquaplanamos em uma lâmina de luz. A vez
em que a embreagem do seu carro falhou nos Picos. O amor
sobrevive aos amantes, sim, mas eu não quero ficar
para trás. Eu seguro a cortina, embaço a vidraça. Com
derrame. Com moto. Com infarto.

Trad.: Nelson Santander

Protection Spell For A Lover

You take out the car on a wet night,
and my mind runs wild. Drunks. Black ice.
A body in ribbons at the side of the road. I tell you,
Be careful. What I mean is, I love you,
don’t leave. I want you warm and complaining.
The grout between the bathroom tiles is chipping;
the damp in the kitchen has wrecked the salt. I list
each means of your unmaking, and so the dog
is muzzled, leaves you breathing. No sharp turn
on two wheels. No error in guiding the articulated truck.
I give you cancer, rupture your appendix. I make you
allergic to bees. There have been close calls:
I count them like rosary beads, thumb our luck.
The time we aqua-planed on a sheet of light. The time
the bite of your clutch failed in the Peaks. Love
outlives the lover, yes, but I don’t want to be
left back. I hold the curtain, fog the glass. With
stroke. With motorbike. With heart attack.