Francisco Brines – “Collige, virgo, rosas”

Estás já com quem queres. Ri e goza. Ama.
E anima-te na noite que agora começa,
e entre tantos amigos (e comigo)
abre os grandes olhos para a vida
com a avidez preciosa de tua idade.
A noite, longa, há de acabar ao amanhecer,
e virão esquadrões de espiões com a luz,
apagar-se-ão as estrelas, e também a memória,
e a alegria acabará em seu nada.
Mas, mesmo que isso aconteça, anima-te na noite,
pois por trás do esquecimento pode ser que ela renasça,
e a recobres pura, e aumentada em beleza,
se nela, por acaso, que será uma escolha,
cerrares a vida com o melhor que tinhas,
quando a noite humana se acabar de vez,
e vier esta outra luz, rancorosa e estranha,
que antes que tu conheças, eu já terei conhecido.

Trad.: Nelson Santander

“Collige, virgo, rosas”

Estás ya con quien quieres. Ríete y goza. Ama.
Y enciéndete en la noche que ahora empieza,
y entre tantos amigos (y conmigo)
abre los grandes ojos a la vida
con la avidez preciosa de tus años.
La noche, larga, ha de acabar al alba,
y vendrán escuadrones de espías con la luz,
se borrarán los astros, y también el recuerdo,
y la alegría acabará en su nada.
Mas, aunque así suceda, enciéndete en la noche,
pues detrás del olvido puede que ella renazca,
y la recobres pura, y aumentada en belleza,
si en ella, por azar, que ya será elección,
sellas la vida en lo mejor que tuvo,
cuando la noche humana se acabe ya del todo,
y venga esa otra luz, rencorosa y extraña,
que antes que tú conozcas, yo ya habré conocido.

Garcilaso de la Vega – Soneto XXIII

Enquanto que de rosa e de açucena
se mostra toda a cor neste teu rosto,
enquanto o teu olhar ardente, honesto,
acende o coração e o serena;

e enquanto o teu cabelo, que das franjas
do ouro se escolheu, com voo presto,
sobre o formoso colo branco, ereto,
o vento move, espalha e desarranja:

colhe de tua alegre primavera
o doce fruto, antes que o tempo airado
recubra de neve o formoso cume;

murchará a rosa o vento gelado.
Mudará tudo o tempo que não espera,
tão só por não mudares teu costume.

Trad.: Nelson Santander

Soneto XXIII

En tanto que de rosa y azucena
se muestra la color en vuestro gesto,
y que vuestro mirar ardiente, honesto,
enciende al corazón y lo refrena;

y en tanto que el cabello, que en la vena
del oro se escogió, con vuelo presto,
por el hermoso cuello blanco, enhiesto,
el viento mueve, esparce y desordena:

coged de vuestra alegre primavera
el dulce fruto, antes que el tiempo airado
cubra de nieve la hermosa cumbre;

marchitará la rosa el viento helado.
Todo lo mudará la edad ligera
por no hacer mudanza en su costumbre.

Joan Margarit – Espaço e Tempo

E de repente a casa é demasiado grande.
Tua mãe e eu esvaziamos teus armários
e seguimos por mesas e prateleiras,
de retrato em retrato, teus sorrisos.
À noite os espelhos, sob a luz elétrica,
expõem com mais ênfase o teu vazio.
Os móveis são agora mais escuros.
Pela escada desce a cálida balaustrada
que ainda se lembra de tua pequena mão,
e os degraus que ainda sentem
o roçar de teus passos. E a casa,
grande e vazia agora,
mira e remira o seu próprio silêncio.

Trad.: Nelson Santander
 

Espacio y Tiempo

Y de pronto la casa es demasiado grande.
Tu madre y yo vaciamos tus armarios
y seguimos por mesas y anaqueles,
de retrato en retrato, tus sonrisas.
De noche los espejos, bajo la luz eléctrica,
muestran con más relieve tu vacío.
Los muebles son ahora más oscuros.
Por la escalera bajan la cálida baranda,
que aún recuerda tu pequeña mano,
y los peldaños que aún sienten
el roce de tus pasos. Y la casa,
grande y vacía ahora,
a su propio silencio mira y mira.

Jane Hirshfield – O Homem Gentil

Eu vendi o relógio do meu avô,
seu ouro nacarado e padrões pontilhados,
para ser derretido.
Engrenagem condenada.
Tampa faltando.
Corrente — deve ter havido uma —
faltando.
Números que foram pintados
com um única e hábil cerda.
Dei corda na coroa
antes de entrega-lo por sobre o balcão.
O homem gentil agarrou
o que eu lhe trouxe como se fosse para a Stasi.
Ele pesou o mel do tempo.

Trad.: Nelson Santander

The kind man

I sold my grandfather’s watch,
its rosy gold and stippled pattern
to be melted.
Movement unreparable.
Lid missing.
Chain — there must have been one —
missing.
Its numbers painted
with a single, expert bristle.
I touched the winding stem
before I passed it over the counter.
The kind man took it,
what I’d brought him as if to the Stasi.
He weighed the honey of time.

Joan Margarit – Despedir-se

Removi tapetes e cortinas,
todas as mesas em que há tempos
não como nem escrevo.
Tirei os quadros e pintei as paredes
para apagar os sinais dos anos.
Guardo uns poucos livros. Sei bem quais.
Destruí
cartas de amor que não me amavam mais.
Silenciosos, agora, os amores
são icebergs errantes do pensamento.
A casa, sem desvãos para o medo,
deixa meus olhos mais nus.
Nada, nem a esperança,
pode perturbar já a última morte.
Não há outra casa para os que amo.

Trad.: Nelson Santander

Joan Margarit – Despedirse

He retirado alfombras y cortinas,
todas las mesas en las que hace tiempo
que ni como ni escribo.
He sacado los cuadros y he pintado los muros
para borrar señales de los años.
Guardo unos pocos libros. Sé bien cuáles.
He destruido
cartas de amor que no me amaban ya.
Silenciosos, ahora, los amores
son icebergs errantes del pensar.
La casa, sin rincones para el miedo,
deja mis ojos más desnudos.
Nada, ni la esperanza,
podrá perturbar ya la última muerte.
No hay otra casa para los que amo.

Miriam Reyes – Imóvel

abandonado a teu peso de homem imóvel
olhas-me com antiquíssimos ressentimentos.

Ouve-me bem:
sou inocente de teu passado
não sou a tua puta mãe
nem a tua enferma mãe
nem a tua louca mãe
embora seja uma puta louca.
Não mereço receber agressões alheias,
atrasadas e caducas.
Não projetes em mim os fantasmas de tua infância,
tenho forma, cor e dimensões próprias.

Tampouco venhas para mim
chorando como um bebê
quando não o és
este colo que te acolhe também te deseja.

Não exageres,
a mim também me expulsaram do paraíso
antes do tempo
e sem notificação prévia,
a quem é que não?

Vamos, homem,
sai dessa!

Trad.: Nelson Santander

Miriam Reyes – Inmóvil

abandonado a tu pesadez de hombre inmóvil
me miras con antiquísimos resentimientos.

Óyeme bien
soy inocente de tu pasado
no soy tu puta madre
ni tu enferma madre
ni tu loca madre
aunque sea puta loca.
No merezco recibir agresiones ajenas
retrasadas y caducas.
No proyectes sobre mí los espectros de tu niñez
tengo forma, color y dimensiones propias.

Tampoco vengas a mí
llorando como un niño
cuando no lo eres
este regazo que te acoge también te desea.

No sobreactúes
a mí también me expulsaron del paraíso
antes de tiempo
y sin notificación previa
¿a quién no?

Anda hombre
levántate de ti.

Joan Margarit – Um pobre instante

A morte não é mais do que isto: um quarto,
a luminosa tarde na janela,
e este toca-fitas na mesinha
tão desligado como o teu coração
com todas as tuas canções cantadas para sempre.
Teu último suspiro segue dentro de mim,
todavia em suspenso: não deixo que termine.
Sabes qual é, Joana, o próximo concerto?
Ouves como no pátio da escola
as crianças estão brincando?
Sabes, ao final da tarde,
como será esta noite,
noite de primavera? Pessoas virão.
A casa acenderá todas as suas luzes.

Trad.: Nelson Santander

Joan Margarit – Un pobre instante

La muerte no es más que esto: el dormitorio,
la luminosa tarde en la ventana,
y este radiocasete en la mesita
tan apagado como tu corazón
con todas tus canciones cantadas para siempre.
Tu último suspiro sigue dentro de mí
todavía en suspenso: no dejo que termine.
¿Sabes cual es, Joana, el próximo concierto?
¿Oyes como en el patio de la escuela
están jugando los niños?
¿Sabes, al acabar la tarde,
cómo serà esta noche,
noche de primavera? Vendrá gente.
La casa encenderá todas sus luces.

Miquel Martí i Pol – Tua Solidão

Enquanto puderes, não desperdices
tua solidão, dedicando-a a uma absurda
busca do nada, nem persigas a ti próprio
obsessivamente por escuras galerias.
Assustado pela luz dos preceitos.
Sai no sol a pino e olha
para as coisas difíceis.
Considera que o jogo desmedido das palavras
não te servirá de nada se não te apoiares
naquilo que te rodeia. Há as pedras
e as árvores e as pessoas e tantas coisas
que podes tocar com as mãos!
Que não te apercebas
algum dia, com sobressalto, que os anos estão passando
e te moves ao redor da própria sombra.

Trad.: Nelson Santander

Tu soledad

En cuanto puedas, no malgastes
Tu soledad, dedicándola a una absurda
búsqueda de nada, ni te persigas
obsesivamente por pasadizos oscuros.
Asustado por la luz de los preceptos.
Sal a pleno sol y fíjate
en cosas duras.
Piensa que el juego desmedido de las palabras
no te servirá de nada si no te apoyas
en aquello que te rodea. Están las piedras
y los árboles y la gente y tantas cosas
que puedes tocar con las manos!
Que no te des cuenta
algún día, con sobresalto, que los años te van pasando
y te mueves sólo alrededor de tu sombra.
 

La teva solitud

En tant que puguis, no malbaratis
La teva solitud, dedicant-la a una absurda
recerca de no-res, ni et persegueixis
tossudament per corredors obscurs,
esporuguit per la llum dels preceptes.
Surt a ple sol i fixa’t
en coses dures. Pensa
que el joc desmesurat de les paraules
no et servirà de res si no el recolzes
damunt d’allò que et volta. Hi ha les pedres
i els arbres i la gent i tantes coses
que pots tocar amb les mans! Que no t’adonis
algun dia, amb espant, que els anys et passen
i et mous només entorn de la teva ombra.

 
Aqui: http://comandodharma.blogspot.com.br/2010/09/la-teva-solitud-miquel-marti-i-pol.html

Joan Margarit – Quando se perde o sinal

À noite, em um pequeno aeroporto,
vês um avião que está decolando.
Vai-se perdendo o sinal.
Sem nenhuma piedade pelo que foste,
pois a piedade é demasiado efêmera e
não há tempo para construir nada sobre ela,
convences-te de que vives,
embora sem esperanças, uma época
que é a mais feliz de tua vida.
Há uma outra poesia, haverá sempre,
como há outra música. A de Beethoven surdo.
Quando se perde o sinal.

Trad.: Nelson Santander

Joan Margarit – Se pierde la señal

De noche, en un pequeño aeropuerto,
ves un avión que va elevándose.
Se va perdiendo la señal.
Sin ninguna piedad por lo que has sido,
pues la piedad es demasiado efímera
no hay tiempo a construir nada sobre ella ,
te sientes convencido de vivir,
aunque sin esperanzas, unos años
que son los más felices de tu vida.
Hay otra poesía, la habrá siempre,
como hay otra música. La de Beethoven sordo.
Cuando se pierde la señal.

Piedad Bonnett – Volta à Poesia

Outra vez volto a ti.
Cansada venho, definitivamente solitária.
Minha bolsa cheia de tristeza trago, carregada
de penas infinitas,
de dor.
Dos desertos venho com os lábios ardentes
e o olhar cego
pelo vento forte e a dura areia.
Abrasada de sede,
venho beber de teus profundos mananciais,
render-me em teus braços,
fundos braços de mãe, e em teu peito
de amante, misterioso,
onde bate teu coração como um enigma.
Agora
que descansando estou junto ao caminho,
te vejo aparecer em tudo:
na humilde carroça
em que o verde da couve é mais verde,
e no azul em que a tarde eclode.
Humilde, volto a ti de alma nua
a buscar o reflexo de meu rosto,
meu verdadeiro rosto
entre tuas águas.

Trad.: Nelson Santander

Piedad Bonnett – Vuelta a la Poesía

Otra vez vuelvo a tí.
Cansada vengo, definitivamente solitaria.
Mi faltriquera llena de penas traigo, desbordada
de penas infinitas,
de dolor.
De los desiertos vengo con los labios ardidos
y la mirada ciega
de tanto duro viento y ardua arena.
Abrazada de sed,
vengo a beber de tus profundos manantiales,
a rendirme en tus brazos,
hondos brazos de madre, y en tu pecho
de amante, misterioso,
donde late tu corazón como un enigma.
Ahora
que descansando estoy junto al camino,
te veo aparecer en cada cosa:
en la humilde carreta
en que es más verde el verde de las coles,
y en el azul en que la tarde estalla.
Humilde vuelvo a ti con el alma desnuda
a buscar el reflejo de mi rostro,
mi verdadero rostro
entre tus aguas.