Ian Hamilton – Fantasmas

O caixão lustroso e suntuosamente adornado
Desliza como um novo navio para as profundezas em chamas.
Na terra firme,
A congregação se ajoelha em murmúrios.

Do meu banco no canto
Tenho uma visão livre e desimpedida
de sua partida.
Se você estivesse deitada de lado
Talvez pudesse captar seu olhar insuspeito.

No pátio, ao anoitecer,
Os tributos florais. Eu poderia jurar
Ter visto você
Aspirando o aroma das coroas de flores
E contando as cabeças inclinadas dos enlutados por você.

Trad.: Nelson Santander

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Ghosts

The scrubbed, magnificently decked coffin
Skates, like a new ship, into the fiery deep.
On dry land,
The congregation rustles to its knees.

From my corner pew
I command an unobstructed view
Of your departure.
If you had been lying on your side
I might have caught your unsuspecting eye.

Out on the patio, at dusk,
The floral tributes. I could almost swear
That it was you I saw
Sniffing the wreath-scented air
And counting the bowed heads of your bereaved.

Joan Margarit – Banheiro

Cuido para que não caias ao banhar-te,
e ao secar-te as costas sigo suavemente
a grande cicatriz da espinha.
O futuro está sempre na janela.
Tua vida é este pequeno espaço
de tua cama e tua música, este céu
de umas poucas pessoas e uma casa.
E pela primeira vez
não estarei mais contigo.
Não virei mesmo que me chames.
Ficarei te olhando
nas fotografias dos álbuns
que folheias amiúde. Teu herói
ainda não aprendeu a lidar com a morte.

Trad.: Nelson Santander

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Joan Margarit – Cuarto de Baño

Cuido que no te caigas al ducharte,
y al secarte la espalda sigo con suavidad
la larga cicatriz del espinazo.
El futuro está siempre en la ventana.
Tu vida es este pequeño espacio
de tu cama y tu música, este cielo
de unas pocas personas y una casa.
Y por primera vez
ya no estaré contigo.
No vendré aunque me llames.
Me quedaré mirándote
en las fotografía de los álbumes
que hojeas a menudo.
Tu héroe no ha aprendido aún a morir.

Joseph Stroud – Lázaro em Varanasi

De uma pira no flamejante ghat1,
um cadáver se ergue lentamente entre as chamas.
Como se lembrasse de algo importante.
Como se quisesse olhar ao redor uma última vez.
Como se finalmente tivesse algo a dizer.
Como se houvesse uma saída para isso.

Trad.: Nelson Santander

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Lazarus In Varanasi

From a pyre on the burning ghat
a corpse slowly sits up in the flames.
As if remembering something important.
As if to look around one more time.
As if he has something at last to say.
As if there might be a way out of this.

  1. Os ghats são conjuntos de degraus que levam à beira de rios sagrados na Índia, tradicionalmente usados para banhos rituais, cerimônias religiosas e cremações. Varanasi, mencionada no título do poema, é uma cidade situada às margens do rio Ganges (considerado sagrado pelos indianos), reconhecida por suas cerimônias de cremação e sua profunda ligação com a espiritualidade e os ritos mortuários. ↩︎

Joseph Stroud – Lendo Kaváfis sozinho na cama

Eu, também, me lembro do passado, meu quarto iluminado por velas,
e da noite em que ela entrou e tocou meu rosto
com seu rosto, com boca e língua e lábios,
do pomar à noite, do odor das frutas,
seus seios – lembra, corpo? – aquele quarto,
lembra? – nossos gritos, as velas bruxuleantes?

Trad.: Nelson Santander

Reading Cavafy Alone In Bed

I, too, remember the past, my room lit by candles,
and the night she entered and touched my face
with her face, with mouth and tongue and lips,
in the orchard night, in the odor of fruit,
her breasts — remember, body? — that room,
remember? — our cries, the flickering candles?

Carlos Bousoño – À distância

Passa a juventude, e passa a vida,
passa o amor, a morte também passa,
o vento, a amargura que trespassa
a pátria espessa, hirta e adormecida.

Adormecida, em sonho eterno, olvida.
Mortos e vivos na mesma argamassa
dormem igual sina e alegria escassa.
Pátria, profundeza, pedra perdida.

Pedra perdida, imersa, vivos, mortos.
Toda Espanha dorme já sua história.
As campinas tristes e os céus hirtos.

Sobre a folha escrita está tua glória:
pretender edificar nos desertos;
ambicionar à luz mais ilusória.

Trad.: Nelson Santander

Desde lejos

Pasa la juventud, pasa la vida,
pasa el amor, la muerte también pasa,
el viento, la amargura que transpasa
la patria densa, inmóvil y dormida.

Dormida, en sueño para siempre, olvida.
Muertos y vivos en la misma masa
duermen común destino y dicha escasa.
Patria, profundidad, piedra perdida.

Piedra perdida, hundida, vivos, muertos.
España entera duerme ya su historia.
Los campos tristes y los cielos yertos.

Sobre el papel escrita está su gloria:
querer edificar en los desiertos;
aspirar a la luz más ilusoria.

Ian Hamilton – Vizinhos

Das janelas
Do decadente hotel do outro lado da rua
Misteriosos hóspedes noturnos emergem
Em suas varandas
Para aspirar o ar fresco da noite.

Nós os deixamos nos observar
Em nossas vidas pacatas.
Eles nos permitem imaginar
o que o destino lhes reservou.

Trad.: Nelson Santander

Neighbours

From the bay windows
Of the mouldering hotel across the road from us
Mysterious, one-night itinerants emerge
On to their balconies
To breathe the cool night air.

We let them stare
In at our quiet lives.
They let us wonder what’s become of them.

Joan Margarit – Por que fomos covardes

Não poderás esquecer meu corpo esguio e ágil.
Sempre farás amor com uma sombra
de olhos azuis, e estarás tão só
como em uma vingança.
Ao longe, as luzes de Roses cintilam
assim como a minha memória.
Há uma fúria triste, mas ninguém no final.
Perdemos o cavalo sem cavaleiro
que nunca passa uma segunda vez.

Trad.: Nelson Santander

Por si fuésemos cobardes

No podrás olvidar mi cuerpo esbelto y ágil.
Siempre harás el amor con una sombra
de ojos azules, y estarás tan solo
como en una venganza.
A lo lejos, las luces de Roses centellean
igual que mi memoria.
Hay una furia triste, pero nadie al final.
Perdimos el caballo sin jinete
que nunca pasa por segunda vez.

Idea Vilariño – Não mais

Não mais será
não mais
não viveremos juntos
não criarei teu filho
não coserei tua roupa
não te terei à noite
não te beijarei ao partir
nunca saberás quem fui
por que outros me amaram.
Não chegarei a saber
por que nem porque nunca
nem se era verdadeiro
o que disseste que era
nem quem foste
nem o que fui para ti
nem como teria sido
vivermos juntos
amarmo-nos
esperarmo-nos
estarmos juntos.
Agora não sou mais do que eu
para sempre e tu

não serás para mim
mais do que tu. Já não estás
em algum dia futuro
não saberei onde vives
com quem
nem se te lembras.
Não me abraçarás nunca
como naquela noite
nunca.
Não voltarei a tocar-te.
Não te verei morrer.

Trad.: Nelson Santander

Ya no

Ya no será
ya no
no viviremos juntos
no criaré a tu hijo
no coseré tu ropa
no te tendré de noche
no te besaré al irme
nunca sabrás quién fui
por qué me amaron otros.
No llegaré a saber
por qué ni cómo nunca
ni si era de verdad
lo que dijiste que era
ni quién fuiste
ni qué fui para ti
ni cómo hubiera sido
vivir juntos
querernos
esperarnos
estar.
Ya no soy más que yo
para siempre y tú
ya
no serás para mí
más que tú. Ya no estás
en un día futuro
no sabré dónde vives
con quién
ni si te acuerdas.
No me abrazarás nunca
como esa noche
nunca.
No volveré a tocarte.
No te veré morir.

Ian Hamilton – Última Valsa

De onde estamos quase que podemos identificar
Os rostos destas pessoas que não conhecemos:
Um semi-círculo sombreado
Ao redor do enorme aparelho de TV doado
Que domina nossa ala.

A ‘Última Valsa’ espalha-se sobre eles
Iluminando
Amistosos, exaustos sorrisos. E nós,
Como se nos importássemos, também sorrimos.

Para cada alma perdida, nesta hora tardia
Um sedado espasmo de felicidade.

Trad.: Nelson Santander

Last Waltz

From where we sit, we can just about identify
The faces of these people we don’t know:
A shadowed semi-circle
Ranged around the huge, donated television set
That dominates the ward.

The ‘Last Waltz’ floods over them
Illuminating
Fond, exhausted smiles. And we,
As if we cared, are smiling too.

To each lost soul, at this late hour
A medicated pang of happiness.

Jaime Gil de Biedma – Depois da morte de Jaime Gil de Biedma

No jardim, lendo,
a sombra da casa tolda as páginas
e o frio repentino do final de agosto
faz-me pensar em ti.

O jardim e a casa vizinha
onde piam os pássaros nas trepadeiras,
uma tarde de agosto, quando começa a anoitecer
e tem-se ainda o livro nas mãos,
eram, lembro-me, teu símbolo da morte.
Oxalá no inferno
de teus últimos dias te desse esta visão
um pouco de doçura, embora não acredite nisso.

Finalmente em paz comigo mesmo,
posso já recordar-te
não nas horas horríveis, mas sim aqui,
no verão do ano passado
quando, de um só golpe,
– tantos meses apagadas –
regressam as imagens felizes
trazidas por tua imagem da morte…
Agosto no jardim, em plena luz do dia.

Taças de vinho branco
deixadas na grama, perto da piscina,
calor sob as árvores. E vozes
que gritam nomes.
          Ángel,
Juan, María Rosa, Marcelino, Joaquina
– Joaquina dos peitinhos de maçã.
Tu retornavas rindo do telefone
anunciando mais pessoas que viriam:
recordo-te correndo,
a abafada explosão de teu corpo na água.

E as noites também de liberdade completa
na casa espaçosa, inteira para nós
como um convento abandonado,
e a nostalgia de portas secretas,
aquele correr pelos quartos,
olhar nos armários
e divertir-se na alternância
entre estar nu e vestido, tirando o pó
de batinas, botas de cano alto e calções,
arbitrárias cenas,
velhos sonhos eróticos de nossa adolescência,
rapaz solitário.
          Lembras-te de Carmina,
da gorda Carmina subindo as escadas
com o rabo para cima
e levando na mão um candelabro?

Foi um verão feliz.
          … O último verão
de nossa juventude
, disseste a Juan
em Barcelona ao regressar,
nostálgicos,
e tinhas razão. Depois veio o inverno,
o inferno de meses
e meses de agonia
e a última noite de pílulas e álcool
e vômito na alfombra.
          Eu me salvei escrevendo
depois da morte de Jaime Gil de Biedma.

Dos dois, eras tu quem melhor escrevia.
Agora sei até que ponto eram teus
o desejo de perfeição e a ironia,
a surdina romântica que palpita em meus poemas
preferidos, por exemplo, em Pandêmia… *
Às vezes me pergunto
como minha poesia ficará sem ti?

Embora talvez tenha sido eu quem te ensinou.
Quem te ensinou a vingar-te de meus sonhos,
por covardia, corrompendo-os.

Trad.: Nelson Santander

* O poeta se refere ao poema “Pandêmia e Celeste”, também traduzido por mim e que pode ser lido aqui:

https://wordpress.com/post/nsantand.wordpress.com/6119

Después de la muerte de Jaime Gil de Biedma

En el jardín, leyendo,
la sombra de la casa me oscurece las páginas
y el frío repentino de final de agosto
hace que piense en ti.

El jardín y la casa cercana
donde pían los pájaros en las enredaderas,
una tarde de agosto, cuando va a oscurecer
y se tiene aún el libro en la mano,
eran, me acuerdo, símbolo tuyo de la muerte.
Ojalá en el infierno
de tus últimos días te diera esta visión
un poco de dulzura, aunque no lo creo.

En paz al fin conmigo,
puedo ya recordarte
no en las horas horribles, sino aquí
en el verano del año pasado,
cuando agolpadamente
-tantos meses borradas-
regresan las imágenes felices
traídas por tu imagen de la muerte…
Agosto en el jardín, a pleno día.

Vasos de vino blanco
dejados en la hierba, cerca de la piscina,
calor bajo los árboles. Y voces
que gritan nombres.
          Ángel,
Juan, María Rosa, Marcelino, Joaquina
-Joaquina de pechitos de manzana.
Tú volvías riendo del teléfono
anunciando más gente que venía:
te recuerdo correr,
la apagada explosión de tu cuerpo en el agua.

Y las noches también de libertad completa
en la casa espaciosa, toda para nosotros
lo mismo que un convento abandonado,
y la nostalgia de puertas secretas,
aquel correr por las habitaciones,
buscar en los armarios
y divertirse en la alternancia
de desnudo y disfraz, desempolvando
batines, botas altas y calzones,
arbitrarias escenas,
viejos sueños eróticos de nuestra adolescencia,
muchacho solitario.
          Te acuerdas de Carmina,
de la gorda Carmina subiendo la escalera
con el culo en pompa
y llevando en la mano un candelabro?

Fue un verano feliz.
          …El último verano
de nuestra juventud
, dijiste a Juan
en Barcelona al regresar
nostálgicos,
y tenías razón. Luego vino el invierno,
el infierno de meses
y meses de agonía
y la noche final de pastillas y alcohol
y vómito en la alfombra.
          Yo me salvé escribiendo
después de la muerte de Jaime Gil de Biedma.

De los dos, eras tú quien mejor escribía.
Ahora sé hasta qué punto tuyos eran
el deseo de ensueño y la ironía,
la sordina romántica que late en los poemas
míos que yo prefiero, por ejemplo en Pandémica…
A veces me pregunto
cómo será sin ti mi poesía.

Aunque acaso fui yo quien te enseñó.
Quien te enseñó a vengarte de mis sueños,
por cobardía, corrompiéndolos.