Jaime Gil de Biedma – Canção de aniversário

Porque são já seis anos desde então,
porque não há na terra, ainda,
nada tão doce quanto um quarto
para dois, se for teu e meu;
porque até o tempo, esse parente pobre
que conheceu dias melhores,
parece hoje partidário da felicidade,
cantemos, alegria!

E, depois, levantemo-nos mais tarde,
como no domingo. Que a manhã plena
nos faça amarmos-nos novamente,
mas melhor: de um jeito
que à noite não se pode imaginar,
enquanto o quarto se impregna
de sol e calma vizinhança, como o tempo,
e de história serena.

O eco dos dias de prazer,
o desejo, a música acordada
dentro do coração, e que eu mal coloquei
em meus poemas, por romântica;
todo o perfume, todo o passado infiel,
o que foi doce e nostálgico,
não vês como se somam à realidade que então
sonhavas e sonhavas?

A realidade – não tão bonita –
com a inconveniência de serem duas,
suas vergonhosas noites de amor sem desejo
e de desejo sem amor,
que nem em seis séculos dormindo sozinho
as pagaríamos. E com
suas vagas transições, da traição ao tédio,
do tédio à traição.

A vida não é um sonho, tu já sabes
que temos a tendência de esquece-lo.
Mas um pouco de sonho, não mais, um sim não é
para agora, calando-nos
o resto da história, e um instante
– enquanto tu e eu nos desejamos
uma vida feliz e longa em comum -, estou seguro
de que não pode causar dano.

Trad.: Nelson Santander

Canción de aniversario

Porque son ya seis años desde entonces,
porque no hay en la tierra, todavía,
nada que sea tan dulce como una habitación
para dos, si es tuya y mía;
porque hasta el tiempo, ese pariente pobre
que conoció mejores días,
parece hoy partidario de la felicidad,
cantemos, alegría!

Y luego levantémonos más tarde,
como domingo. Que la mañana plena
se nos vaya en hacer otra vez el amor,
pero mejor: de otra manera
que la noche no puede imaginarse,
mientras el cuarto se nos puebla
de sol y vecindad tranquila, igual que el tiempo,
y de historia serena.

El eco de los días de placer,
el deseo, la música acordada
dentro en el corazón, y que yo he puesto apenas
en mis poemas, por romántica;
todo el perfume, todo el pasado infiel,
lo que fue dulce y da nostalgia,
¿no ves cómo se sume en la realidad que entonces
soñabas y soñaba?

La realidad – no demasiado hermosa –
con sus inconvenientes de ser dos,
sus vergonzosas noches de amor sin deseo
y de deseo sin amor,
que ni en seis siglos de dormir a solas
las pagaríamos. Y con
sus transiciones vagas, de la traición al tedio,
del tedio a la traición.

La vida no es un sueño, tú ya sabes
que tenemos tendencia a olvidarlo.
Pero un poco de sueño, no más, un si es no es
por esta vez, callándonos
el resto de la historia, y un instante
– mientras que tú y yo nos deseamos
feliz y larga vida en común -, estoy seguro
que no puede hacer daño.

Joan Margarit – Inverno de 95

Esta carta a escrevo para alguém
que está em um barco pelo norte
de Tenerife, em cinquenta e sete.
Um rapaz que, da amurada,
mira o duro poente sobre o mar
e estuda arquitetura em Barcelona,
para onde retorna agora. Aviso-te
com um sinal de alerta: a alegria
que sentes ao deixar teu pai para trás
revela a solidão sob uma luz dourada.
Teu pai já te espera,
outra vez, no porto de chegada:
não te conhece e olha para nenhuma parte,
nada diz e tampouco te responde.
Lentamente, com o dorso da mão
roças-lhe a face enquanto lhe falas
como se tratasse de ti mesmo,
como se o amanhã fosse agora.
O ontem nos espera no amanhã,
vai sempre mais depressa que nós.

Trad.: Nelson Santander

Mais do que uma leitura, uma experiência. Clique, compre e contribua para manter a poesia viva em nosso blog

Invierno del 95

Esta carta la escribo para alguien
que va en un barco por el norte
de Tenerife, en el cincuenta y siete.
Un muchacho que, desde la baranda,
mira el férreo poniente sobre el mar
y estudia arquitectura en Barcelona,
adonde vuelve ahora. Te aviso
con un gesto de alarma: la alegría
que sientes al dejar tu padre atrás
muestra la soledad bajo una luz dorada.
Tu padre ya te espera,
otra vez, en el puerto de llegada:
no te conoce y mira hacia ninguna parte,
nada dice y tampoco te contesta.
Despacio, con el dorso de la mano
le rozas la mejilla mientras le hablas
como si se tratase de ti mismo,
igual que si el mañana fuese ahora.
El ayer nos espera en el mañana,
va siempre más deprisa que nosotros.

Henry Reed – A nomeação das peças

Hoje temos a nomeação das peças. Ontem
Tivemos a limpeza diária. E amanhã de manhã,
Teremos o que fazer depois da ordem de “fogo”. Mas hoje,
Hoje nós temos a nomeação das peças. A japonica
Arde como coral em todos os jardins adjacentes,
E hoje nós temos a nomeação das peças.

Isto é o zarelho móvel inferior. E isto
É o zarelho móvel superior, cuja utilidade você entenderá
quando receber sua bandoleira. E este é o elo de encaixe,
Que no seu caso você não tem. Os ramos
Mantêm nos jardins seus gestos silenciosos e eloquentes,
Que no nosso caso nós não temos.

Esta é a trava de segurança, que é sempre liberada
Com um simples movimento do polegar. E por favor não quero
Ver ninguém usando o dedo. Você pode fazer isso com facilidade
Se tiver alguma força no polegar. As flores
São frágeis e imóveis, nunca permitem que alguém as veja
usando seus dedos.

E isto que você vê é o ferrolho. A finalidade dele
É o de destravar a culatra, como pode ver. Podemos deslizá-lo
Rapidamente para trás e para frente: chamamos isso de
Libertar a retratora. E rapidamente para trás e para frente
As primeiras abelhas estão apalpando e assediando as flores:
Chamam isso de libertar a primavera.

Chamam isso de libertar a primavera: é perfeitamente fácil
Se você tiver alguma força no polegar: como o ferrolho,
e a culatra, e a peça de armar, e o ponto de equilíbrio,
Que no nosso caso não temos; e a amendoeira em flor
Silenciosa em todos os jardins e as abelhas indo para trás e para frente
Pois hoje temos a nomeação das peças.

Trad.: Nelson Santander

Um pouco sobre o poema e sua tradução

The naming of parts, escrito em 1942 pelo poeta inglês Henry Reed, é a Parte I de uma coletânea de seis poemas chamada Lessons of War (Lições de Guerra). Reed, que era visceralmente contra a guerra, utiliza os poemas dessa coletânea para expressar seu posicionamento pacifista, fazendo uma espécie de paródia do treinamento do Exército Britânico durante a Segunda Guerra Mundial.

As cinco estrofes de The Naming of Parts (que traduzi por A Nomeação das Peças) se estruturam, cada uma, em torno de duas vozes: a de um instrutor que ensina o funcionamento de um rifle, usando uma linguagem rigorosamente técnica, e a que parece ser a de um recruta mais interessado na natureza ao seu redor do que na aula que está sendo ministrada. Em vez de aprender sobre a arma, o recruta se apropria de parte das expressões e palavras do instrutor para transfigura-las poeticamente, dando-lhes novo significado.

Na primeira estrofe, por exemplo, o instrutor esclarece que aquele dia é dedicado à nomeação das peças do rifle. O dia anterior foi reservado para a limpeza das armas e no dia seguinte eles irão para o campo de batalha. O recruta, todavia, está absorto nas camélias que ardem “como coral em todos os jardins adjacentes”.

Na estrofe seguinte, o instrutor demonstra como funciona a colocação da correia de transporte do rifle (também conhecida no Brasil como “bandoleira”) e aponta a existência de um dispositivo de encaixe que, no entanto, não está presente nos rifles dos recrutas (a passagem é intencionalmente irônica, já que o Exército da Rainha estava mal preparado e mal equipado para a guerra). O recruta não está preocupado com isso: ele está de olho nas árvores vizinhas, cujos galhos se justapõem e se encaixam silenciosamente, mas de forma eloquente.

As demais estrofes têm a mesma estrutura lógico-formal, contrastando o palavreado técnico e monótono do instrutor com a visão poética e reveladora do recruta. Surgem também, aqui e ali, insinuações de cunho sexual (segundo alguns intérpretes, uma alusão sub-reptícia à sexualidade reprimida dos soldados em razão da guerra), evidenciadas pela menção às abelhas polinizando as flores, em contraposição ao movimento de vai-e-vem do ferrolho do rifle. A última estrofe resume as lições aprendidas com o instrutor e, por que não?, com o recruta.

A tradução do poema apresentou algumas dificuldades que não sei se consegui resolver satisfatoriamente.

Logo na primeira estrofe, Reed usa os verbos “firing” e “glistens” (em português, “disparar” e “brilhar”, respectivamente, mas que também podem significar “arder”) pra demonstrar a brutal diferença entre atirar em alguém e iluminar o mundo com a beleza. Em português, os verbos utilizados para designar o disparo de uma arma de fogo são “atirar”, “disparar”, “descarregar”, etc. Ou seja, em língua portuguesa o termo “fogo” não tem um correspondente verbal. Por essa razão, e para manter a conexão entre o verbo “firing” (disparar com uma arma de fogo) e o brilho das camélias, optei, por um lado, por usar a palavra “fogo” extraída de um comando militar (o famoso “Preparar… apontar… Fogo!”) e, de outro, uma das acepções da palavra “glistens” em português – “arder” – que significa “estar em chamas, abrasado; incendiar-se, queimar” (todas relativas ao fogo), mas que, no caso, está empregada no sentido de produzir brilho, cintilar.

Na primeira estrofe encontramos também a palavra Japonica. A Japonica é uma das espécies da flor conhecida como Camélia, cujo nome científico é Camellia japonica, nativa das florestas do sul do Japão. Reed não escolheu esta flor ao acaso. O nome remete diretamente ao Japão, que durante a Segunda Guerra Mundial se aliou à Alemanha e Itália para formar o Eixo, inimigo das forças Aliadas das quais a Inglaterra fazia parte. Em português, não é comum fora dos círculos especializados o uso de expressões científicas para denominar as plantas. Ninguém além dos botânicos chama a mini-rosa de Rosa chinensis, a margarida de Leucanthemum vulgare ou a Flor-de-lis de Sprekelia Formosissima. Todavia, não é totalmente fora de propósito, nesse caso, o uso do nome científico já que ele se presta a especificar a qual espécie de camélia estamos nos referindo. Assim, fica mantida a alusão poética desejada pelo autor.

Outra dificuldade foi identificar corretamente os nomes das peças mencionadas no poema e encontrar a nomenclatura correspondente em português, ainda mais considerando que estamos falando de um rifle da Segunda Guerra Mundial, que provavelmente nem mesmo é mais fabricado. Recorri à internet e tenho dúvidas sobre se consegui encontrar, em português, todos os termos técnicos das peças citadas no poema. O certo é que, em algumas passagens, optei deliberadamente por não buscar o exato termo em nossa língua (embora mantendo o sentido técnico original), para tentar emular a conexão que o texto faz entre as peças da arma e os devaneios do recruta. Por exemplo, “Piling swivel” poderia ser traduzido como “argola móvel para empilhamento/agrupamento (dos rifles)” – e desconheço se há uma peça com a mesma função em rifles brasileiros, e qual o nome que é dado a ela no Brasil. No poema, a peça “piling swivel” se correlaciona com os ramos de árvores que “Mantêm nos jardins seus gestos silenciosos e eloquentes”. Assim, optei por traduzir o nome desta peça como “elo de encaixe”, que, além de, imagino eu, indicar corretamente a função da peça, faz referência aos galhos de árvores que se encaixam uns aos outros.

Dentro ainda da técnica de alusão “arma-natureza” utilizada pelo poeta, uma expressão em especial se mostrou impossível de ser recuperada com os dois significados usados no poema. A expressão “easing the spring”, em inglês, pode tanto significar tanto “soltar/libertar/distensionar a mola” quanto “soltar/libertar a primavera”. Habilmente, Reed utiliza as duas acepções desta expressão para justapor o universo da guerra ao da natureza, numa estrofe com evidente conotação sexual (bem por isso, traduzi “cocking-piece” por “peça de armar”). Foi impossível encontrar uma palavra em português que significasse simultaneamente “mola” e “primavera”. Por isso, optei por uma palavra (“retratora”, relativa à mola retratora e recuperadora do ferrolho) que recupera ao menos parte da fonética da sua correspondente no último verso da estrofe (“primavera”).

Observação final: como iria republicar este poema, aproveitei para fazer alguns ajustes na tradução, em 08/08/2024.

Mais do que uma leitura, uma experiência. Clique, compre e contribua para manter a poesia viva em nosso blog

The naming of parts

Today we have naming of parts. Yesterday,
We had daily cleaning. And tomorrow morning,
We shall have what to do after firing. But today,
Today we have naming of parts. Japonica
Glistens like coral in all of the neighboring gardens,
And today we have naming of parts.

This is the lower sling swivel. And this
Is the upper sling swivel, whose use you will see,
When you are given your slings. And this is the piling swivel,
Which in your case you have not got. The branches
Hold in the gardens their silent, eloquent gestures,
Which in our case we have not got.

This is the safety-catch, which is always released
With an easy flick of the thumb. And please do not let me
See anyone using his finger. You can do it quite easy
If you have any strength in your thumb. The blossoms
Are fragile and motionless, never letting anyone see
Any of them using their finger.

And this you can see is the bolt. The purpose of this
Is to open the breech, as you see. We can slide it
Rapidly backwards and forwards: we call this
Easing the spring. And rapidly backwards and forwards
The early bees are assaulting and fumbling the flowers:
They call it easing the Spring.

They call it easing the Spring: it is perfectly easy
If you have any strength in your thumb: like the bolt,
And the breech, and the cocking-piece, and the point of balance,
Which in our case we have not got; and the almond-blossom
Silent in all of the gardens and the bees going backwards and forwards
For today we have naming of parts.

Francisco Brines – Métodos de conhecimento

No cansaço da noite,
penetrando a mais sombria canção,
recobrei por trás de meus olhos cegos
o frágil testemunho de uma cena remota.

Recendia o mar, e a aurora era a ladra
dos céus; tornava fantasmagóricas
as luzes da casa.
Os comensais eram jovens, e fartos
e sem sede, no naufrágio do banquete,
buscavam a embriaguez
e o colorido cortejo da alegria. O vinho
desbordava das taças, corava
a acesa pele, enrubescia o solo.
Com generoso amor, à luz furiosa,
libertaram seus peitos, a carne, a palavra,
e não lhes importava depois não recordar.
Algum punhal fracassado buscava um coração.

Levantei eu também minha taça, a menor de todas,
cheia de cinzas até as bordas:
ossos articulados de falcão e arqueiro,
e ali bebi, sem sede, duas experiências mortas.

Meu coração serenou, e uma inocente criança
me cobriu a cabeça com um gorro de demente.

Fixei meus olhos lúcidos
em quem supus ter escolhido com tino mais preciso:
aquele que em um canto, dando as costas a todos,
levou aos frescos lábios
uma taça de argila com veneno.
                E brindando ao nada
se precipitou nas sombras.

Trad.: Nelson Santander

Métodos de conocimiento

En el cansancio de la noche,
penetrando la más oscura música,
he recobrado tras mis ojos ciegos
el frágil testimonio de una escena remota.

Olía el mar, y el alba era ladrona
de los cielos; tornaba fantasmales
las luces de la casa.
Los comensales eran jóvenes, y ahítos
y sin sed, en el naufragio del banquete,
buscaban la ebriedad
y el pintado cortejo de alegría. El vino
desbordaba las copas, sonrosaba
la acalorada piel, enrojecía el suelo.
En generoso amor sus pechos desataron
a la furiosa luz, la carne, la palabra,
y no les importaba después no recordar.
Algún puñal fallido buscaba un corazón.

Yo alcé también mi copa, la más leve,
hasta los bordes llena de cenizas:
huesos conjuntos de halcón y ballestero,
y allí bebí, sin sed, dos experiencias muertas.

Mi corazón se serenó, y un inocente niño
me cubrió la cabeza con gorro de demente.

Fijé mis ojos lúcidos
en quien supo escoger con tino más certero:
aquel que en un rincón, dando a todo la espalda,
llevó a sus frescos labios
una taza de barro con veneno.
                Y brindando a la nada
se apresuró en las sombras.

Joan Margarit – Piscina

Não temia a água, mas a ti,
era teu medo o que eu temia,
e o lugar mais profundo,
em que não se veem os azulejos do fundo.
Arrastaste-me até lá, lembro ainda
a força de teus braços obrigando-me,
enquanto tentava abraçar-me a ti.
Não aprendi a nadar até muito tempo depois,
e esqueci tuas tentativas de ensinar-me.
Agora que já nunca voltarás a nadar
vejo, aos meus pés, a água azul, imóvel.
Compreendo que eras tu quem se abraçava
a mim para atravessar aqueles dias.

Trad.: Nelson Santander

Mais do que uma leitura, uma experiência. Clique, compre e contribua para manter a poesia viva em nosso blog

Piscina

No le temía al agua, sino a ti,
era tu miedo lo que yo temía,
y el lugar más profundo,
en el que no se ven las baldosas del fondo.
Me arrastraste hacia allí, recuerdo aún
la fuerza de tus brazos obligándome,
mientras trataba de abrazarme a ti.
No aprendí a nadar hasta mucho después,
y olvidé tus intentos de enseñarme.
Ahora que ya nunca volverás a nadar
veo, a mis pies, el agua azul, inmóvil.
Comprendo que eras tú quien se abrazaba
a mí para cruzar aquellos días.

Antonio Colinas – Envio

Lembras-te ainda do débil canto
do rouxinol perdido na ramagem?
Viste farfalhar comigo naquela noite
a copa do cipreste.
       Desfez-se
o céu em fios de luar sobre teu rosto.
Mas depois do pássaro e da lua
apagaram-se os astros.
       Vi passar
não sei que brisa estranha pelo teu corpo.
Lembras-te das nossas mãos na água?
Lembras-te do silêncio sobre o campo
e, como um deus exangue, do novo dia
incendiando as torres, as pombas?

Trad.: Nelson Santander

Mais do que uma leitura, uma experiência. Clique, compre e contribua para manter a poesia viva em nosso blog

Envío

¿Recuerdas todavía el débil canto
del ruiseñor perdido en la enramada?
Viste temblar conmigo aquella noche
la copa del ciprés.
       Desmadejó
el cielo hilos de luna por tu rostro.
Pero después del pájaro y la luna
se apagaron los astros.
       Vi pasar
no sé qué brisa extraña por tu cuerpo.
¿Recuerdas nuestras manos en el agua?
¿Recuerdas el silencio sobre el campo
y, como un dios sangrante, el nuevo día
incendiando las torres, las palomas?

Meira Delmar – Hóspede sem sombra

Nada deixam meus passos sobre a terra.
No momento do último passeio
hei de levar o que ao nascer me veio:
o rosto em paz e o coração em guerra.

Nenhuma voz repetirá a minha
de saudoso ardor e fiel espanto.
A voz estremecida com que canto
o mar, a rosa, a melancolia.

Não ressuscitará minha visão
da noite para a vida sempre ilesa,
a beber como um vinho a beleza
da iluminada e mágica amplidão.

Este sangue ébrio por formosura
não se tributará a outras veias.
Não tomarão, en passant, mãos alheias
a viva luz que em minhas mãos perdura.

Nem face que meu sonho mutilado
recolha e realize, triunfante.
Une o meu existir tempo presente
sem futuro depois do seu passado.

Conclusão de mim mesma, me rodeio
com o anel ofuscante do canto.
Inútil maré de paixão e pranto
Em mim naufraga o quanto vejo e creio.

Não lego minha solidão. Comigo
ela torna à orla do medo, ignota.
Meço em silêncio a última derrota.
Estremeço de dia. Mas não digo.

Trad.: Nelson Santander

Huésped sin sombra

Nada deja mi paso por la tierra.
En el momento del callado viaje
he de llevar lo que al nacer me traje:
el rostro en paz y el corazón en guerra.

Ninguna voz repetirá la mía
de nostálgico ardor y fiel asombro.
La voz estremecida con que nombro
el mar, la rosa, la melancolía.

No volverán mis ojos renacidos
de la noche a la vida siempre ilesa,
a beber como un vino la belleza
de los mágicos cielos encendidos.

Esta sangre sedienta de hermosura
por otras venas no será cobrada.
No habrá manos que tomen, de pasada,
la viva antorcha que en mis manos dura.

Ni frente que mi sueño mutilado
recoja y cumpla victoriosamente.
Conjuga mi existir tiempo presente
sin futuro después de su pasado.

Término de mí misma, me rodeo
con el anillo cegador del canto.
Vana marea de pasión y llanto
en mí naufraga cuanto miro y creo.

A nadie doy mi soledad. Conmigo
vuelve a la orilla del pavor, ignota.
Mido en silencio la final derrota.
Tiemblo del día. Pero no lo digo.

Joan Margarit – Alguém

Tinha que salvar-me com seus olhos azuis
cravados ainda
em uma lembrança da adolescência,
a estranha fase de precipitar-se,
sem queixa nenhuma, ao fundo do abismo.
Do bonde, a fugaz imagem
de uma garota em uma varanda,
e o número de um telefone anotado
como uma cicatriz na memória.
Nunca estive a seu lado, inventava
seu transparente corpo em um espelho
onde depois me vi com sarcasmo
e também com profética tristeza.
Não me salvou quando chegou a adolescência
nem quando aos cinquenta, na era rubra,
outros olhos azuis me miraram.
Era a mesma mulher: nada desaparece
da urdidura de sonhos que recordam.
Talvez já fosse muito tarde, ou falso,
ou eu estivesse atrás – já – do espelho.
Ou, talvez, ser salvo seja tão só
agarrar-se às rochas sem jamais
comprazer-se em fitar o abismo,
e apesar disso poder ver um véu
de tristeza em lugares onde seus olhos
ainda desafiam o esquecimento.

Trad.: Nelson Santander

Joan Margarit – Quién

Tenía que salvarme con sus ojos azules
clavados todavía
en un recuerdo de la adolescencia,
la extraña edad para precipitarse,
sin queja alguna, al fondo del abismo.
Desde el tranvía, la fugaz imagen
de una muchacha en el balcón,
y el número marcado de un teléfono
como una cicatriz en la memoria.
Nunca estuve a su lado, me inventaba
su transparente cuerpo en un espejo
donde después me he visto con sarcasmo
y también con profética tristeza.
No me salvó al llegar la adolescencia
ni cuando a los cincuenta, en la edad roja,
otros ojos azules me miraron.
Fue la misma mujer: nada desaparece
de la urdimbre de sueños que recuerda.
Quizá ya era muy tarde, o era falso,
o yo estaba detrás —ya— del espejo.
O, quizá, ser salvado es tan sólo
aferrarse a las rocas sin jamás
complacerse en mirar hacia el abismo,
y a pesar de ello poder ver un velo
de tristeza en lugares donde aún
sus ojos desafían al olvido.

Delmore Schwartz – All night, all night

I have been one acquainted whit the night – Robert Frost

Viajou de trem a noite inteira, sob uma luz agoureira. Uma ave
Voou em paralelo com singular determinação. Em ações e anseios de
devaneios
Os demais passageiros curvados, deitados, lendo, dormindo,
Esperando, e esperando um local para se deslocar,
Para a correta rota da segurança ou o rotor da contingência.

Olhou além, para a noite, incapaz de distinguir
As luzes das cidades passageiras das mortiças luzes
Dormentes do teto. E a ave voou em paralelo e em silêncio
Enquanto o trem disparou a linha reta de seus apitos,
Avançando nos tensos trilhos, perfurando o vazio, familiar –

O centro enfadado desta visão e condição olhou e
correu
O olhar através das páginas polidas do periódico (visando
O visível e o invisível) e seu olhar caiu no algar
Da grande escuridão sob a reluzente revista,
E ele era somente um entre oito milhões de lentes e
valentes.

E, enquanto isso, sob o seu vazio sorriso, o bumbo agitado
Da alongada e determinada passagem por ele passou,
Imitado e ecoado por seu corpo. E, então, a composição,
Como a violenta monção, começou a partir e a fugir –
A noite silente e indiferente, pressionando e impressionando
As frontes dos pacientes em uma tensa imagem
Do motor apressado, prosseguiu por um facho de luz
Perfurando as trevas, mudando e transformando o silêncio
Em uma violência de espuma, som, fumaça e sucessão.

Uma entediada criança foi buscar um copo d’água
E esmagou o copo porque a água também era
Sem graça, a mera refrega contra o tédio.
Ao retornar, o petiz por detrás olhou
O que um homem estava lendo até irrita-lo.
Uma volumosa mulher bocejou e viu o líquido verter
E vazar o velo de muitos jantares.

E a ave voou em paralelo e em paralelo voavam
Os postes crucificados de fios telefônicos, quais lápis pretos,
Em intervalos regulares, poste após poste,
Triplamente cruzados, floridos, anônimas árvores.

E então o pássaro clamou como que para todos nós:

Oh, suas vidas, suas vidas solitárias,
O que vocês fizeram com elas,
O que fizeram com o sublime dom da consciência?
O que vocês farão com suas vidas antes da punhalada
 mortal?
Respondam de maneira permanente e pertinente!

De minha parte, senti em meu peito como quem cai,
Cai de paraquedas, cai sem parar, e sente o vasto
Rabisco do abismo sugando-o mais e mais
Um palhaço em queda infinitamente impotente e horrorizado:

É assim que a noite passa, esta
é a interminável viagem noturna para o famoso imperscrutável
abismo.
(1960)

Trad.: Nelson Santander

All night, all night

Rode in the train all night, in the sick light. A bird
Flew parallel with a singular will. In daydream’s moods and
attitudes
The other passengers slumped, dozed, slept, read,
Waiting, and waiting for place to be displaced
On the exact track of safety or the rack of accident.

Looked out at the night, unable to distinguish
Lights in the towns of passage from the yellow lights
Numb on the ceiling. And the bird flew parallel and still
As the train shot forth the straight line of its whistle,
Forward on the taut tracks, piercing empty, familiar –

The bored center of this vision and condition looked and
looked
Down through the slick pages of the magazine (seeking
The seen and the unseen) and his gaze fell down the well
Of the great darkness under the slick glitter,
And he was only one among eight million riders and
readers.

And all the while under his empty smile the shaking drum
Of the long determined passage passed through him
By his body mimicked and echoed. And then the train
Like a suddenly storming rain, began to rush and thresh –
The silent or passive night, pressing and impressing
The patients’ foreheads with a tightening-like image
Of the rushing engine proceeded by a shaft of light
Piercing the dark, changing and transforming the silence
Into a violence of foam, sound, smoke and succession.

A bored child went to get a cup of water,
And crushed the cup because the water too was
Boring and merely boredom’s struggle.
The child, returning, looked over the shoulder
Of a man reading until he annoyed the shoulder.
A fat woman yawned and felt the liquid drops
Drip down the fleece of many dinners.

And the bird flew parallel and parallel flew
The black pencil lines of telephone posts, crucified,
At regular intervals, post after post
Of thrice crossed, blue-belled, anonymous trees.

And then the bird cried as if to all of us:

O your life, your lonely life
What have you ever done with it,
And done with the great gift of consciousness?
What will you ever do with your life before death’s
 knife
Provides the answer ultimate and appropriate!

As I for my part felt in my heart as one who falls,
Falls in a parachute, falls endlessly, and feel the vast
Draft of the abyss sucking him down and down,
An endlessly helplessly falling and appalled clown:

This is the way that night passes by, this
Is the overnight endless trip to the famous unfathomable
abyss.
(1960)

Henry Scott Holland – [A morte não é nada]

A morte não é nada*. Ela não conta. Eu apenas passei para a sala vizinha. Nada aconteceu. Tudo permanece exatamente como sempre foi. Eu sou eu, e você é você, e a velha vida que vivemos carinhosamente juntos permanece intocada, inalterada. O que quer que tenhamos sido um para o outro, ainda o somos. Chame-me pelo meu antigo nome. Fale de mim do mesmo jeito simples de sempre. Não mude o timbre da voz. Não vista nenhum ar forçado de solenidade ou de dor. Ria como sempre ríamos das piadas de que desfrutávamos juntos. Brinque, sorria, pense em mim, ore por mim. Que o meu nome seja sempre aquela palavra de todos conhecida que sempre foi. Que ele seja pronunciado sem esforço, sem o fantasma de uma sombra a pairar sobre ele. A vida tem o mesmo significado que sempre teve. É a mesma que sempre foi. Há uma continuidade absoluta e inquebrável. O que é esta morte senão um insignificante acidente? Por que eu deveria ser esquecido se estiver fora do alcance da visão? Estou simplesmente à sua espera, por um intervalo, em um local bem próximo, ao dobrar a esquina. Está tudo bem. Ninguém está ferido. Nada está perdido. Um breve momento e tudo será como era antes. Como riremos das dificuldades da partida quando nos encontrarmos novamente!

Trad.: Nelson Santander

Mais do que uma leitura, uma experiência. Clique, compre e contribua para manter a poesia viva em nosso blog

Death is nothing at all

Death is nothing at all. It does not count. I have only slipped away into the next room. Nothing has happened. Everything remains exactly as it was. I am I, and you are you, and the old life that we lived so fondly together is untouched, unchanged. Whatever we were to each other, that we are still. Call me by the old familiar name. Speak of me in the easy way which you always used. Put no difference into your tone. Wear no forced air of solemnity or sorrow. Laugh as we always laughed at the little jokes that we enjoyed together. Play, smile, think of me, pray for me. Let my name be ever the household word that it always was. Let it be spoken without an effort, without the ghost of a shadow upon it. Life means all that it ever meant. It is the same as it ever was. There is absolute and unbroken continuity. What is this death but a negligible accident? Why should I be out of mind because I am out of sight? I am but waiting for you, for an interval, somewhere very near, just round the corner. All is well. Nothing is hurt; nothing is lost. One brief moment and all will be as it was before. How we shall laugh at the trouble of parting when we meet again!

*N. do T.: “Death Is Nothing At All” é um trecho de um sermão proferido pelo cônego Henry Scott Holland na Catedral de São Paulo, Londres, em 15 de maio de 1910. Este trecho, por vezes modificado e apresentado em forma de verso, é frequentemente erroneamente atribuído a Santo Agostinho. A confusão pode decorrer das semelhanças evidentes entre o texto de Holland e uma das cartas escritas por Santo Agostinho no século IV (Carta 263, endereçada a Sapida). A carta de Santo Agostinho pode ser lida no seguinte link (em inglês. mas o Google Translator dá conta): http://www.newadvent.org/fathers/1102263.htm.

A título de curiosidade e comparação, segue uma das inúmeras versões em português do poema/oração atribuída a Santo Agostinho (que, aliás, ficou muito bonita):

A morte não é nada.
Apenas passei ao outro lado.
Eu sou eu. Tu és tu.
O que fomos um para o outro ainda o somos.

Dá-me o nome que sempre me deste.
Fala-me como sempre me falaste.
Não mudes o tom a um triste ou solene.
Continua rindo com aquilo que nos fazia rir juntos.
Reza, sorri, pensa em mim, reza comigo.
Que o meu nome se pronuncie em casa
como sempre se pronunciou.

Sem nenhuma ênfase, sem rosto de sombra.
A vida continua significando o que significou,
continua sendo o que era.

O cordão de união não se quebrou.
Porque eu estaria fora de teus pensamentos
apenas porque estou fora de tua vida terrena?

Não estou longe,
Somente estou do outro lado do caminho.
Já verás, tudo estará bem.
Redescobrirás o meu coração,
e nele redescobrirás a ternura mais pura.

Seca tuas lágrimas e se me amas.
Não chores mais.