Wendell Berry – Antes do Anoitecer

Da varanda no crepúsculo, observei
um martim-pescador selvagem em um voo
que ele só poderia estar realizando por deleite.

Ele desceu pelo rio, chapinhando
contra o rosto turvo da água
como uma pedra saltitante, passando

rio abaixo até sumir de vista. E ainda
eu podia ouvir o chapinhar
cada vez mais distante

à medida que escurecia. Ele voltou
pelo mesmo caminho, escuro como sua sombra,
súbito além dos salgueiros.

O chapinhar foi se tornando inaudível.
Estava escuro então. A noite
o havia acolhido em algum lugar.

— no lugar para onde ele se dirigia
ou onde, guiado por sua alegria,
ele chegou.

Trad.: Nelson Santander

REPUBLICAÇÃO: poema publicado na página originalmente em 15/11/2019

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Before dark

From the porch at dusk I watched
a kingfisher wild in flight
he could only have made for joy.

He came down the river, splashing
against the water’s dimming face
like a skipped rock, passing

on down out of sight. And still
I could hear the splashes
farther and farther away

as it grew darker. He came back
the same way, dusky as his shadow,
sudden beyond the willows.

The splashes went on out of hearing.
It was dark then. Somewhere
the night had accommodated him

— at the place he was headed for
or where, led by his delight,
he came.

Franz Wright – Missa das cinco

A igreja é um navio em uma tempestade de neve que se dissipa;
feixes de luz adentrando pelos vitrais azuis.
Já é quase noite e começa a clarear!
O planeta também está à deriva
em uma infinita nevasca de estrelas –
onde a maioria de nós está doente
e faminta na turbulenta escuridão, e os que
celebram lá em cima
também não sabem onde estamos.
Nós nos amamos. Em verdade, não conhecemos
ninguém muito bem, mas
nos amamos uns aos
outros.

Trad.: Nelson Santander

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5:00 Mass

The church is a ship in the brightening snowstorm;
shafts of light falling in through blue windows.
It’s almost night and starting to get light!
The planet, too, adrift
in an infinite blizzard of stars –
Where most of us are sick
and starving in the pitching dark, and the partying
masters up above
don’t know where we are either.
We love one another. We don’t really know
anyone well, but
we love one
another.

Joseph Stroud – Primeira Canção

Naquela distante manhã na fazenda de Ruth
quando me escondi entre as glicínias
e observei os beija-flores. Eu pensei
que o rubi ou o ouro que reluzia em seus pescoços
fosse o sangue adocicado das flores.
Eles mergulhavam seus bicos perfurantes
em uma coroa de pétalas até suas cabeças
desaparecerem. As flores se confundiam com as asas,
e a respiração que eu ouvia
vinha das finas hastes das glicínias em movimento.
Naquela noite, meu rosto pressionado contra a janela,
olhei para fora na escuridão
onde a lua se afogava nos salgueiros
junto à lagoa. Meu coração, sanguíneo jaspe,
mudou. Aquela longa noite, a fazenda,
aqueles rútilos pássaros, todos esses anos idos.
Os cavalos em pé quietos e enormes
na escuridão trespassada pela lua.

Trad.: Nelson Santander

REPUBLICAÇÃO: poema publicado na página originalmente em 14/11/2019

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First Song

That long-ago morning at Ruth’s farm
when I hid in the wisteria
and watched hummingbirds. I thought
the ruby or gold that gleamed on their throats
was the honeyed blood of flowers.
They would stick their piercing beaks
into a crown of petals until their heads
disappeared. The blossoms blurred into wings,
and the breathing I heard
was the thin, moving stems of wisteria.
That night, my face pressed against the window,
I looked out into the dark
where the moon drowned in the willows
by the pond. My heart, bloodstone,
turned. That long night, the farm,
those jeweled birds, all these gone years.
The horses standing quiet and huge
in the moon-crossing blackness.

Alberto Ríos – Manhã de dezembro no deserto

A manhã está nublada e os pássaros, encolhidos,
Mais pelo frio que pela fome, mais entorpecidos que ruidosos,

Nesta costa árida do Arizona, onde o deserto se encontra
Com as fronteiras do mundo invernal.

É uma gélida revelação em um anúncio gritante,
A miríade de estrelas fazendo a escuridão brilhar,

Com se o próprio céu tivesse sido coberto de neve.
Mas as estrelas, todas aquelas estrelas,

Para onde vai o claro ruído de seu árduo labor? Essas
Tomadas acionam o motor de um céu que de outra forma seria silencioso,

Seu movimento cintilante por toda parte dessa vastidão branca:
Deveríamos ouvir as estrelas como um imenso bramido

Obtido a partir do movimento de suas bilhões de partes, esta grande
Máquina ardente da Via Láctea deslizando pela noite asfaltada,

As faíscas, agrupadas e em movimento, e brasas flutuantes
Que se elevam das fogueiras de tantos outros mundos.

Para onde vai o ruído de tudo isso
Senão para os ouvidos, e para os corações dos pássaros ao nosso redor,

Seus corações batendo tão rápido e suas asas igualmente
rápidas e seus cantos agudos,

E também para as abelhas, com seu zumbido pesado,
E para as vespas e mariposas, os morcegos, as libélulas —

Nenhum deles tem certeza se tudo isso vai funcionar,
Esse universo — nós, humanos, alheios

Bebendo café, ainda meio sonolentos, calmos e
Calçando os chinelos de nossas manhãs de segunda-feira,

Tremendo porque, pensamos,
Está um pouco frio lá fora.

Trad.: Nelson Santander

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December Morning in the Desert

The morning is clouded and the birds are hunched,
More cold than hungry, more numb than loud,

This crisp, Arizona shore, where desert meets
The coming edge of the winter world.

It is a cold news in stark announcement,
The myriad stars making bright the black,

As if the sky itself had been snowed upon.
But the stars—all those stars,

Where does the sure noise of their hard work go?
These plugs sparking the motor of an otherwise quiet sky,

Their flickering work everywhere in a white vastness:
We should hear the stars as a great roar

Gathered from the moving of their billion parts, this great
Hot rod skid of the Milky Way across the asphalt night,

The assembled, moving glints and far-floating embers
Risen from the hearth-fires of so many other worlds.

Where does the noise of it all go
If not into the ears, then hearts of the birds all around us,

Their hearts beating so fast and their equally fast
Wings and high songs,

And the bees, too, with their lumbering hum,
And the wasps and moths, the bats, the dragonflies—

None of them sure if any of this is going to work,
This universe—we humans oblivious,

Drinking coffee, not quite awake, calm and moving
Into the slippers of our Monday mornings,

Shivering because, we think,
It’s a little cold out there.

Joan Margarit – Água-forte

O granizo metralha as vidraças,
as rajadas arrasam as calçadas.
E tu e eu aqui, onde o mau tempo
resume os obstáculos que às vezes
nos levam à beira do abismo.
Olhos brilhantes de desacertos,
mãos queimadas por se salvarem agarradas
aos gelados corrimãos do inferno.
Que o acaso continue disparando
sem razão, como sempre, nas vidraças.
Além do amor – desse nosso amor –
nada faz sentido.

Trad.: Nelson Santander

REPUBLICAÇÃO: poema publicado na página originalmente em 12/11/2019

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Joan Margarit – Aguafuerte

El granizo ametralla los cristales,
las ráfagas arrasan las aceras.
Tú y yo estamos aquí, donde el mal tiempo
resume los obstáculos que a veces
nos han llevado al borde del abismo.
Ojos brillantes de equivocaciones,
manos quemadas por salvarse asidas
a la helada baranda del infierno.
Que el azar continúe disparando
sin razón, como siempre, a los cristales.
Más allá del amor —de nuestro amor—
nada tiene sentido.

Abdellatif Laâbi – A Língua Materna

Faz vinte anos que vi minha mãe pela última vez
Ela se deixou morrer de fome
Dizem que todas as manhãs
ela retirava o lenço da cabeça
e batia com ele no chão sete vezes
amaldiçoando os céus e o Tirano
Eu estava na caverna
onde os condenados liam no escuro
e pintavam nas paredes o bestiário do futuro
Faz vinte anos que vi minha mãe pela última vez
Ela me deixou um conjunto de café em porcelana
e embora as xícaras tenham quebrado uma por uma
eram tão feias que não lamentei sua perda
embora o café seja a única bebida que aprecio
Hoje em dia, quando estou sozinho
começo a soar como minha mãe
ou melhor, é como se ela usasse minha boca
para proferir suas blasfêmias, maldições e bobagens
o incontável rosário de seus apelidos
todas as espécies em extinção de seus ditados
Faz vinte anos que vi minha mãe pela última vez
mas sou o último homem
que ainda fala a língua dela

Trad.: Nelson Santander, a partir da versão vertida pra o inglês por André Naffis-Sahely

N. do T. Li este belo poema, pela primeira vez, na versão digital do The Guardian. No texto que apresenta o poeta, o livro do qual o poema foi extraído e o que pode ser a inspiração para a sua criação, o jornal britânico esclarece: “(…) My Mother’s Language é um característico poema autobiográfico pós-prisão em verso livre simples que confia na linguagem cotidiana e rejeita o uso de uma persona. Um traço do poeta mais experimental sobrevive com relação à pontuação. Não são usados sinais de pontuação: a presença invisível de um ponto final parece ser indicada quando a palavra seguinte recebe uma letra inicial maiúscula. A mãe do poeta, assim como sua língua, permanece sem nome, mas nós a conhecemos e a ouvimos no poema. Na entrevista de conclusão do livro, o poeta conta a Christopher Schaefer um pouco sobre seus pais. Analfabeta como seu pai artesão, sua mãe, que teve 11 filhos, oito dos quais sobreviveram, possuía “uma linguagem rica, cheia de imagens e um grande senso de humor. Ela frequentemente se irritava com sua condição, e foi ouvindo-a falar que talvez – e eu digo talvez – tenha nascido em mim o desejo de escrever”. De acordo com a lenda, a família foi exilada da Espanha, e Laâbi descreve sua mãe como de pele branca e olhos azuis. A referência à litania na 19ª linha, “the unfindable rosary of her nicknames” (o incontável rosário de seus apelidos), pode aludir a alguma mistura cultural distante com o catolicismo. O poema começa com a perda do filho: passa rapidamente, quase com dureza, para o desespero e o aparente suicídio da mãe, e então, com detalhes vívidos, evoca sua fúria: “Dizem que todas as manhãs / ela retirava o lenço da cabeça / e batia com ele no chão sete vezes / amaldiçoando os céus e o Tirano”. Imagina-se o próprio lenço sendo usado como um chicote furioso – uma imagem poderosa. O “Tirano” é, presumivelmente, Hassan II, que governou de 1961 a 1999, o período dos “anos de chumbo”. A imagem da cela da prisão como uma caverna lembra a caverna de Platão, bem como as cavernas pré-históricas cujas pinturas nas paredes sobreviveram. Sugere-se que a escuridão da tirania e do sofrimento pode ser instrutiva, um meio de educação. O “bestiário do futuro” pode não parecer, em um primeiro momento, uma imagem otimista, mas as pinturas rupestres possivelmente retratavam cenas de caça – representando, portanto, alimento e esperança. O bestiário dos prisioneiros não é necessariamente uma perpetuação da brutalidade. A repetição do primeiro verso marca uma mudança de humor para a terna memória tragicômica das xícaras de café de porcelana (presumivelmente, certa vez estimadas). O apego sentimental aos bens herdados é rejeitado com tato: as xícaras feias que se quebram não são lamentadas. O legado da mãe para o filho é algo mais radical. Em uma imagem impressionante, ela ela parece estar usando a boca do filho. Ela se torna claramente audível com “blasfêmias, maldições e bobagens” – a terra idiomática da poesia. A “língua” nesse poema é certamente usada no sentido mais amplo. Não é relevante, aqui, se a mãe fala o dialeto árabe marroquino, ou francês, ou amazigh, ou qualquer outra língua. É o “como” e não o “o quê”, a maneira como ela faz do idioma que usa, a sua e de seus filhos, o idioleto pessoal e familiar e todo o seu contexto e conotação caseiros e inimitáveis. Aquelas xícaras de café começam a ganhar uma dimensão metafórica relevante. O poeta amante do café não lamenta as xícaras quebradas. O café é mais importante do que as xícaras em que é servido, assim como a fala é mais do que uma casca requintada de significantes. (…) My Mother’s Language, como sempre na obra madura de Laâbi, capta a ressonância política no nível da intimidade humana. A intrusão particular de um regime autoritário, que encerrou prematuramente a conexão entre o filho e sua mãe, contém as inevitáveis separações e silenciamentos da existência. O filho que se lembra da mãe, de sua morte não testemunhada e de “todas as espécies em extinção de seus ditados” é, até certo ponto, uma figura universal.

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My Mother’s Language

It’s been twenty years since I last saw my mother
She starved herself to death
They say that each morning
she would pull her headscarf off
and strike the floor seven times
cursing the heavens and the Tyrant
I was in the cave
where convicts read in the dark
and painted the bestiary of the future on the walls
It’s been twenty years since I last saw my mother
She left me a china coffee set
and though the cups have broken one by one
they were so ugly I didn’t regret their loss
even though coffee’s the only drink I like
These days, when I’m alone
I start to sound like my mother
or rather, it’s as if she were using my mouth
to voice her profanities, curses and gibberish
the unfindable rosary of her nicknames
all the endangered species of her sayings
It’s been twenty years since I last saw my mother
but I am the last man
who still speaks her language

Wislawa Szymborska – Bagagem de volta

Uma quadra de pequenas tumbas no cemitério.
Nós, que vivemos muito, passamos furtivamente,
como os ricos passam pelos bairros dos pobres.

Aqui jazem a Zosia, o Jacek, o Dominik,
prematuramente tirados do sol, da lua,
da mudança das estações, das nuvens.

Não juntaram muito na bagagem de volta.
Fragmentos de vista
não muito no plural.
Um punhado de ar com uma borboleta voando.
Uma colherzinha de saber amargo no sabor amargo do remédio.

Desobediências miúdas,
algumas delas mortais.
Corrida alegre atrás de uma bola na estrada.
Patinação feliz sobre o gelo fino.

Aquela ali e aquela ao lado e aqueles mais além:
antes de alcançarem a altura da maçaneta,
quebrarem o relógio,
estilhaçaram a primeira vidraça.

Malgorzata, de quatro anos,
dois dos quais deitada a fitar o teto.
Rafalek: faltou um mês para completar cinco anos,
e à Zuzia faltou a festa natalina
com a fumacinha da respiração no ar gelado.

Que dizer então de um dia de vida,
de um minuto, um segundo:
escuridão, o fulgor de uma lâmpada, escuridão de novo?

KÓSMOS MAKRÓS
CHRÓNOS PARÁDOKSOS
Só o grego pétreo tem palavras para isto.

Trad.: Regina Przybycien

REPUBLICAÇÃO: poema publicado na página originalmente em 08/11/2019

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Bagaż powrotny

Kwatera małych grobów na cmentarzu.
My, długo żyjący, mijamy ją chyłkiem,
jak mijają bogacze dzielnicę nędzarzy.

Tu leżą Zosia, Jacek, Dominik,
przedwcześnie odebrani słońcu, księżycowi,
obrotom roku, chmurom.

Niewiele uciułali w bagażu powrotnym.
Strzępki widoków
w liczbie nie za bardzo mnogiej.
Garstkę powietrza z przelatującym motylem.
Łyżeczkę gorzkiej wiedzy o smaku lekarstwa.

Drobne nieposłuszeństwa,
w tym któreś śmiertelne.
Wesołą pogoń za piłką po szosie.
Szczęście ślizgania się po kruchym lodzie.

Ten tam i tamta obok, i ci z brzegu,
zanim zdążyli dorosnąć do klamki,
zepsuć zegarek,
rozbić pierwszą szybę.

Małgorzatka, lat cztery,
z czego dwa na leżąco i patrząco w sufit.
Rafałek: do lat pięciu brakło mu miesiąca,
a Zuzi świąt zimowych
z mgiełką oddechu na mrozie.

Co dopiero powiedzieć o jednym dniu życia,
o minucie, sekundzie:
ciemność i błysk żarówki i znów ciemność?

KÓSMOS MAKRÓS
CHRÓNOS PARÁDOKSOS
Tylko kamienna greka ma na to wyrazy.

Mary Oliver – Robert Schumann

Mal passa um dia sem que eu pense nele
no hospício: mais jovem

do que sou agora, trilhando a longa estrada
da loucura em direção à morte.

Sua música explode pelo
mundo todo, de um modo que ele

nunca imaginou. E agora compreendo
algo tão assustador e maravilhoso –

como a mente se apega ao caminho conhecido, precipitando-se
pelos cruzamentos, agarrando-se

como fiapo ao que lhe é familiar. Por isso,
mal passa um dia sem que eu

pense nele: aos dezenove anos, digamos, é
primavera na Alemanha

e ele acaba de conhecer uma garota chamada Clara1 e 2.
Ele vira a esquina,

ele raspa a terra das solas dos sapatos,
ele sobe correndo a escada escura, cantarolando.

Trad.: Nelson Santander

N. do T.:

1. Clara Schumann, nascida Clara Wieck, foi uma virtuosa pianista e compositora alemã do século XIX, reconhecida por suas contribuições significativas para a música clássica. Ela também foi esposa do compositor Robert Schumann. A relação entre Robert e Clara Schumann foi profundamente inspiradora e desempenhou um papel crucial em suas vidas pessoais e carreiras musicais. Clara foi uma grande apoiadora de Robert, interpretando e promovendo suas obras, além de ser uma compositora talentosa em seu próprio direito. Sua conexão amorosa e intelectual influenciou diretamente a música e a arte do período romântico, tornando-os um dos casais mais icônicos da história da música.

2. O belo poema “Romantics”, de Lisel Mueller, que também traduzi para a página, oferece uma perspectiva sensível sobre o relacionamento entre Johannes Brahms e Clara Schumann, destacando a complexidade e a delicadeza das relações interpessoais no século XIX. Vale também a leitura.

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Robert Schumann

Hardly a day passes I don’t think of him
in the asylum: younger

than I am now, trudging the long road down
through madness toward death.

Everywhere in this world his music
explodes out of itself, as he

could not. And now I understand
something so frightening, and wonderful–

how the mind clings to the road it knows, rushing
through crossroads, sticking

like lint to the familiar. So!
Hardly a day passes I don’t

think of him: nineteen, say, and it is
spring in Germany

and he has just met a girl named Clara.
He turns the corner,

he scrapes the dirt from his soles,
he runs up the dark staircase, humming.

Ferreira Gullar – Morrer no Rio de Janeiro

Se for março
  quando o verão esmerila a grossa luz
  nas montanhas do Rio
teu coração estará funcionando normalmente
entre tantas outras coisas que pulsam na manhã
  ainda que possam de repente enguiçar.

Se for março e de manhã
  as brisas cheirando a maresia
quando uma lancha deixa seu rastro de espumas
no dorso da baía
  e as águas se agitam alegres por existirem
  se for março
nenhum indício haverá
  nas frutas sobre a mesa
  nem nos móveis que estarão ali como agora
  – e depois do desenlace – calados.

Tu de nada suspeitas
  e te preparas para mais um dia no mundo.
Pode ser que de golpe
  ao abrires a janela para a esplêndida manhã
te invada o temor:
  ”um dia não mais estarei presente à festa da vida”.
Mas que pode a morte em face do céu azul?
  do escândalo do verão?

A cidade estará em pleno funcionamento
  com suas avenidas ruidosas
  e aciona este dia
que atravessa apartamentos e barracos
da Barra ao morro do Borel, na Glória
onde mendigos estendem roupas
sob uma passarela do Aterro
e é quando um passarinho
  entra inadvertidamente em tua varanda, pia
saltita e se vai.
Uma saudação? um aviso?

Essas perguntas te assaltam misturadas
  ao jorrar do chuveiro
persistem durante o café da manhã
com iogurte e geleia. Mas o dia
  te convida a viver, quem sabe
um passeio a Santa Teresa para ver do alto
a cidade noutro tempo do agora.
  Em cada recanto da metrópole desigual
nos tufos de capim no Lido
nos matos por trás dos edifícios da rua Toneleros
por toda a parte a cidade
  minuciosamente vive o fim do século,
sua história de homens e de bichos,
de plantas e larvas,
de lesmas e de levas
  de formigas e outros minúsculos seres
transitando nos talos, nos pistilos, nos grelos que se abrem
  como clitóris na floresta.
São sorrisos, são ânus, caramelos,
são carícias de línguas e de lábios
  enquanto
         terminado o café
         passas o olho no jornal.

A morte se aproxima e não o sentes
         nem pressentes
não tens ouvido para o lento rumor que avança escuro
  com as nuvens
  sobre o morro Dois Irmãos
  e dança nas ondas
  derrama-se nas areias do Arpoador
sem que o suspeites a morte
  desafina no cantarolar da vizinha na janela.

Teu coração
(que começou a bater quando nem teu corpo existia)
  prossegue
         suga e expele sangue
  para manter-te vivo
  e vivas
  em tua carne
as tardes e ruas (do Catete,
  da Lapa, de Ipanema)
– as lancinantes vertigens dos poemas
que te mostraram a morte num punhado de pó
  o torso de Apolo
ardendo como pele de fera a boca da carranca
dizendo sempre a mesma água pura na noite
com seus abismos azuis

  Teu coração,
esse mínimo pulsar dentro da Via Láctea,
  em meio a tempestades solares,
  quando se deterá?
Não o sabes pois a natureza ama se ocultar.
  E é melhor que não o saibas
para que seja por mais tempo doce em teu rosto
a brisa deste dia
  e continues a executar
sem partitura
a sinfonia do verão como parte que és
desta orquestra regida pelo sol.

REPUBLICAÇÃO: poema publicado na página originalmente em 07/11/2019

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Joan Margarit – A perda a inocência

Não escrevas tuas memórias.
Elas lançarão a teus pés aquele que foste,
como um cadáver inimigo.
Quando o passado se torna mentira
pouco resta para levar contigo:
uma convicção inútil e indigna,
alguma equivocada crueldade. Quase nada
sobre o que tenhas que voltar a falar.
A alegria de um velho é o silêncio.

Trad.: Nelson Santander

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La Pérdida de la Ignorancia

No escribas tus memorias.
Lanzarán a tus pies a aquel que fuiste,
como un cadáver enemigo.
Cuando el pasado empieza a ser mentira
queda muy poco ya para llevarse:
una inútil e indigna convicción,
alguna equivocada crueldad. Apenas algo
de lo que tengas que volver a hablar.
La alegría de un viejo es el silencio.