Abdellatif Laâbi – A Língua Materna

Abdellatif Laâbi – A Língua Materna

Faz vinte anos que vi minha mãe pela última vez
Ela se deixou morrer de fome
Dizem que todas as manhãs
ela tirava o lenço da cabeça
e batia sete vezes no chão
amaldiçoando o céu e o Tirano
Eu estava na caverna
onde o condenado lê nas sombras
e pinta nas paredes o bestiário do futuro
Faz vinte anos que vi minha mãe pela última vez
Ela me deixou um jogo de café chinês
cujas xícaras se quebraram uma a uma
sem que eu as lamente, de tão feias que eram
Mas isso só me faz gostar ainda mais do café
Hoje, quando estou sozinho
tomo emprestada a voz da minha mãe
ou melhor, é quem fala na minha boca
com seus palavrões, suas grosserias e suas imprecações
o rosário inencontrável de seus diminutivos
toda a espécie ameaçada de suas palavras
Faz vinte anos que vi minha mãe pela última vez
mas sou o último homem
que ainda fala a língua dela

Trad.: Nelson Santander, a partir da versão inglesa de André Naffis-Sahely, cotejada com o original em francês.

N. do T. “A Língua Materna” foi publicado originalmente em L’Étreinte du monde (1993). Abdellatif Laâbi, preso no Marrocos entre 1972 e 1980 por sua atividade política e intelectual, contou que seus pais eram analfabetos, mas descreveu a mãe como uma mulher de linguagem rica em imagens e dotada de grande senso de humor. Segundo o poeta, foi talvez ouvindo-a falar que nasceu nele o desejo de escrever. O “Tirano” do poema é geralmente interpretado como uma alusão a Hassan II, sob cujo reinado Laâbi foi preso, embora o poema não o nomeie.

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My Mother’s Language

It’s been twenty years since I last saw my mother
She starved herself to death
They say that each morning
she would pull her headscarf off
and strike the floor seven times
cursing the heavens and the Tyrant
I was in the cave
where convicts read in the dark
and painted the bestiary of the future on the walls
It’s been twenty years since I last saw my mother
She left me a china coffee set
and though the cups have broken one by one
they were so ugly I didn’t regret their loss
even though coffee’s the only drink I like
These days, when I’m alone
I start to sound like my mother
or rather, it’s as if she were using my mouth
to voice her profanities, curses and gibberish
the unfindable rosary of her nicknames
all the endangered species of her sayings
It’s been twenty years since I last saw my mother
but I am the last man
who still speaks her language

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2 respostas a “Abdellatif Laâbi – A Língua Materna”

  1. Toda semana entro neste site. Obrigado por tornar meus dias melhores e por este trabalho extremamente necessário.

  2. Fico profundamente tocado com suas palavras. Saber que o que faço tem um impacto positivo em seus dias é uma das maiores recompensas que poderia receber. Muito obrigado por acompanhar meu trabalho com tanto carinho e por me motivar a continuar. Sua presença aqui faz toda a diferença!

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