ouvidos
Quando estou sozinha,
sento os mortos à mesa
e dou-lhes de comer –
um prato a cada um, em
troca dessas histórias que
morro de saudades de os
ouvir contar. E escuto-os
com a velha paixão – tal
qual estivessem vivos –
para não me fugirem as
suas vozes da memória.
Às vezes choro, claro –
e nem é por eles já não
terem dentes e me
deixarem quase tudo no
prato; mas por os ver ali,
ao pé de mim, e me sentir
na mesma tão sozinha.
José Emílio Pacheco – Crianças e adultos
Aos dez anos, acreditava
que o mundo era dos adultos.
Podiam fazer amor, fumar, beber à vontade,
ir aonde quisessem.
Sobretudo, nos esmagar com seu poder indomável.
Agora sei, por vasta experiência, o lugar-comum:
em verdade, não há adultos,
apenas crianças envelhecidas.
Desejam o que não têm:
o brinquedo do outro.
Sentem medo de tudo.
Obedecem sempre a alguém.
Não governam a própria existência.
Choram por qualquer motivo.
Mas não são valentes como eram aos dez anos:
fazem-no à noite e em silêncio e sozinhos.
Trad.: Nelson Santander
REPUBLICAÇÃO: poema originalmente publicado na página em 01/03/2020
Niños y adultos
A los diez años creía
que la tierra era de los adultos.
Podían hacer el amor, fumar, beber a su antojo,
ir a donde quisieran.
Sobre todo, aplastarnos con su poder indomable.
Ahora sé por larga experiencia el lugar común:
en realidad no hay adultos,
sólo niños envejecidos.
Quieren lo que no tienen:
el juguete del otro.
Sienten miedo de todo.
Obedecen siempre a alguien.
No disponen de su existencia.
Lloran por cualquier cosa.
Pero no son valientes como lo fueron a los diez años:
lo hacen de noche y en silencio y a solas.
Juana Bignozzi – [agora que estou velha]
agora que estou velha
e és um senhor idoso
gostaria que recordasses apenas
das fotos das viagens
dos vestidos leves e floridos
que eu usava entre os opulentos jardins
e entre as ruínas
agora que antes de adormecer
sem que percebas te toco para ver se ainda respiras
Trad.: Nelson Santander
ahora que soy vieja
y vos un señor mayor
quisiera que sólo recordaras
las fotos de los viajes
aquellos livianos vestidos de flores
que usaba entre los jardines lujosos
y entre las ruinas
ahora que antes de dormirme
sin que lo notes te toco para saber si aún respirás
Juan Vicente Piqueras – Ristorante dal 1882–
Ristorante dal 1882–
leio no cardápio e me ponho a pensar
que numa noite, há mais de um século,
numa noite igual a esta,
houve um grupo de amigos que aqui jantou,
como nós fazemos agora,
e riram, conversaram, passaram o sal,
mais ou menos felizes, fugazes, encantados
de estarem juntos rindo
como nós fazemos agora,
e que nenhum deles vive mais
e agora somos nós,
os que reservamos esta grande mesa
neste restaurante
que tanto apreciamos por ser antigo,
o ar fantasma do garçom,
e o cozinheiro que nunca vimos
e que tanto admiramos
por seu saber nos fazer esquecer
com sabores sagrados, requintados,
que esta poderia ser perfeitamente
nossa última ceia.
Trad.: Nelson Santander
REPUBLICAÇÃO: poema originalmente publicado na página em 16/02/2020
Ristorante dal 1882-
Ristorante dal 1882-
leo en la carta y me da por pensar
que en una noche de hace más de un siglo,
en una noche que era igual a ésta,
hubo un grupo de amigos que cenaron aquí,
como ahora nosotros,
y rieron, charlaron, se pasaron la sal,
más o menos felices, fugaces, encantados
de estar juntos riendo
como ahora nosotros,
y que ninguno de ellos vive ya
y ahora son nosotros,
los que hemos reservado esta gran mesa
en esto restaurante
del que tanto nos gusta que sea antiguo,
el aire fantasma del camarero,
y el cocinero que nunca hemos visto
y al que admiramos tanto
por su saber hacernos olvidar
con sabores piadosos, exquisitos,
que ésta podría ser perfectamente
nuestra última cena.
Adam Zagajewski – Uma chama
Senhor, dai-nos um longo inverno
música suave, bocas pacientes,
e um pouco de orgulho — antes
que nossa era termine.
Dai-nos assombro
e uma chama, alta e brilhante.
Trad.: Nelson Santander a partir da versão do poema em inglês traduzido por Clare Cavanagh
A Flame
God, give us a long winter
and quiet music, and patient mouths,
and a little pride – before
our age ends.
Give us astonishment
and a flame, high, bright.
Alfonso Brezmes – Notas marginais
Às vezes, voltamos às páginas
onde outrora fomos felizes.
É tão fácil quanto deixá-las correr
para trás por entre os dedos,
voltar às páginas marcadas,
àquelas breves notas com as quais
quisemos indicar a outro leitor
que ali deveria se deter.
Basta examina-las para ver
que já não são as mesmas:
algo mudou neste breve
intervalo em que nos ausentamos.
Voltar é outra forma de medir
a magnitude incerta da ferida.
Trad.: Nelson Santander
REPUBLICAÇÃO: poema originalmente publicado na página em 14/02/2020
Notas marginales
A veces volvemos a las páginas
donde una vez fuimos felices.
Es tan fácil como dejar que corran
hacia atrás entre los dedos,
volver a las marcas que dejamos,
a esas breves notas con las que
quisimos indicar a otro lector
que allí debiera detenerse.
Basta con buscarlas para ver
que ya no son las mismas:
algo ha cambiado en este corto
intervalo en que nos fuimos.
Volver es otra forma de medir
la magnitud incierta de la herida.
Thom Gunn – Versos para o meu 55º aniversário
O amor dos idosos tem pouco valor,
É desolado e seco até no ardor.
Não dá pra saber o que é entusiasmo
e o que é um involuntário espasmo.
Trad.: Nelson Santander
Lines for My 55th Birthday
The love of old men is not worth a lot,
Desperate and dry even when it is hot.
You cannot tell what is enthusiasm
And what involuntary clawing spasm.
Carlos Montemayor – Memória
Estou aqui, em casa, a sós.
Aqui estão os móveis, o ar, os ruídos.
Tenho um sentimento tão transparente
quanto a vidraça de uma janela.
É como a janela pela qual olhava a neve ao amanhecer,
há muitos anos, quando criança,
e colava o rosto contra o vidro e compreendia toda a vida.
É um desejo calmo, como a tarde.
É estar como estão todas as coisas.
Ter meu lugar como tudo o que há na casa.
Perdurar pelo tempo que for, como as coisas.
Não ser mais nem melhor que elas.
Apenas ser, em meio à minha vida,
parte do silêncio de todas as coisas.
Trad.: Nelson Santander
REPUBLICAÇÃO: poema originalmente publicado na página em 12/02/2020
Memoria
Estoy aquí, en la casa, a solas.
Aquí están los muebles, el aire, los ruidos.
Tengo un sentimiento tan transparente
como el vidrio de una ventana.
Es como la ventana en que miraba la nieve al amanecer,
hace muchos años, cuando era niño,
y pegaba la cara contra el cristal y comprendía toda la vida.
Es un deseo en calma, como la tarde.
Es estar como están todas las cosas.
Tener mi sitio como todo lo que está en la casa.
Perdurar el tiempo que sea, como las cosas.
No ser más ni mejor que ellas.
Sólo ser, en medio de la mi vida,
parte del silencio de todas las cosas
Linda Pastan – O dia mais feliz
O dia mais feliz
Era início de maio, eu acho,
um momento de lilás ou corniso
quando tantas promessas são feitas
e pouco importa se algumas forem quebradas.
Meus pais ainda pairavam
no cenário, eram parte da paisagem
como as casas em que cresci,
e se seriam demolidas mais tarde
isso era algo que eu sabia
mas não acreditava. Nossos filhos dormiam
ou brincavam, o mais jovem tão novo
quanto o novo aroma dos lilases,
e como eu poderia imaginar que
suas raízes eram rasas
e poderiam ser facilmente transplantadas?
Eu sequer imaginava que estava feliz.
As pequenas irritações que me incomodavam
eram como o sal em um melão,
embora, na verdade, elas simplesmente
tornassem o sabor da fruta mais doce.
Então nos sentamos na varanda
naquela fresca manhã, tomando
café quente. Por trás das notícias do dia —
greves e pequenas guerras, um incêndio em algum lugar —
eu podia ver o topo de sua cabeça escura
e não pensava em conflagrações abertas
mas em como ela se sentiria repousando em meu ombro nu.
Se alguém pudesse parar a câmera então…
se alguém pudesse apenas deter a câmera
e me perguntar: você está feliz?
Talvez eu tivesse notado
como a manhã brilhava na cor
refletida do lilás. Sim, eu poderia ter dito
e oferecido uma xícara de café fumegante.
Trad.: Nelson Santander
The Happiest Day
It was early May, I think
a moment of lilac or dogwood
when so many promises are made
it hardly matters if a few are broken.
My mother and father still hovered
in the background, part of the scenery
like the houses I had grown up in,
and if they would be torn down later
that was something I knew
but didn’t believe. Our children were asleep
or playing, the youngest as new
as the new smell of the lilacs,
and how could I have guessed
their roots were shallow
and would be easily transplanted.
I didn’t even guess that I was happy.
The small irritations that are like salt
on melon were what I dwelt on,
though in truth they simply
made the fruit taste sweeter.
So we sat on the porch
in the cool morning, sipping
hot coffee. Behind the news of the day—
strikes and small wars, a fire somewhere—
I could see the top of your dark head
and thought not of public conflagrations
but of how it would feel on my bare shoulder.
If someone could stop the camera then…
if someone could only stop the camera
and ask me: are you happy?
Perhaps I would have noticed
how the morning shone in the reflected
color of lilac. Yes, I might have said
and offered a steaming cup of coffee.
Jorge Valdés Díaz-Vélez – S.T.T.R. Sit Tibi Terra Levis
Hoje lembro os mortos da minha casa
Octavio Paz
De todos os nossos mortos, jamais esqueceremos
o primeiro. O meu habita a raiz do outono,
sob os álamos. Sua memória
me oferece uma murta enquanto se inclina
com os braços abertos de outros dias. Lembro
de sua estatura nas sombras, prestes a afastar-se
do espelho, seu rosto velado, o ornamento
das obstinadas lições de algum piano. Cruzou,
em uma tarde sem sol, a linha que une
a vida à morte. Seu corpo era a ausência
presente, o nome sem ser nomeado. Foi o primeiro
morto a morrer subitamente, e para sempre
haverá de sê-lo. O menino que fui então agora
o distingue sentado no peitoril da janela. Víamos
um barco na pureza impassível das nuvens,
e diásporas de formigas nas lieder de Schubert;
e me falava de Stevenson ou Melville, da jornada
que quis realizar quando jovem, ao fim da nostalgia
que se alçava em sua voz quando cantava. Fez
aquela única viagem naquela tarde. Até então
nunca havia perscrutado os olhos de um morto,
o eco imóvel de dois diáfanos poços,
nem os prantos dos meus, perplexos, que eram outros.
Ele foi o primeiro ausente de tantos e de ninguém,
a presença, o não-ser, a fatigada luz
exposta, o que se nomeia sob as árvores,
de repente, ao esquecermos que já não está
mais aqui sua solidão, sua frágil anedota de navios
fantasmas, de arpejos que iluminaram o sonho
daquela nossa vida. Que lhe seja leve a terra
que fecunda, seu exílio sem fim sob nossas folhas.
Trad.: Nelson Santander
REPUBLICAÇÃO: poema originalmente publicado na página em 11/02/2020
S.T.T.L. Sit Tibi Terra Levis
Hoy recuerdo a los muertos de mi casa
Octavio Paz
De todos nuestros muertos jamás olvidaremos
al primero. Habita en la raíz del otoño,
debajo de los álamos, el mío. Su memoria
me ofrece un arrayán al tiempo que se inclina
con los brazos abiertos de otros días. Recuerdo
su estatura en penumbras a punto de apartarse
del espejo, su rostro velado, el abalorio
de las tercas lecciones de algún piano. Cruzó
la línea que reúne la vida con la muerte
una tarde sin sol. Su cuerpo era la ausencia
presente, lo nombrado sin nombrar. Era el muerto
primero en estar muerto de súbito, y por siempre
habrá de serlo. El niño que fui entonces ahora
lo distingue sentado en un alféizar. Veíamos
un barco en la pureza impasible de las nubes,
y diásporas de hormigas en los lieder de Schubert;
y me hablaba de Stevenson o Melville, del trayecto
que quiso hacer de joven al fin de la nostalgia
que se alzaba en su voz cuando cantaba. Hizo
aquel único viaje aquella tarde. Hasta entonces
nunca me había asomado a los ojos de un muerto,
el eco inóvil de dos diáfanos aljibes,
ni al llanto de los míos, perplejos, que eran otros.
Él fue el primer ausente de cuántos y de nadie,
la presencia, el no ser, la fatigada luz
abierta, el que se nombra debajo de los árboles
de pronto, al olvidarnos que ya no sigue aquí
su soledad, su frágil anécdota de buques
invisibles, de arpegios que alumbraron el sueño
de aquella vida nuestra. Le sea leve la tierra
que fecunda, su exilio sin fin tras nuestras hojas.