Emily Dickinson – Dizem que “O Tempo Consola”

Dizem que “O Tempo consola” —
Mas não — na realidade,
A vera dor, como um Tendão,
Se fortalece, com a idade —

O Tempo testa a Tristeza —
Porém não a remedia —
Se cura o Mal, prova apenas
Que Mal deveras não havia —

Trad.: Paulo Henriques Britto

They say that “Time assuages” —
Time never did assuage —
An actual suffering strengthens
As Sinews do, with age —

Time is a Test of Trouble —
But not a Remedy —
If such it prove, it prove too
There was no Malady —

William Butler Yeats – “No Second Troy” em duas traduções (+ revisão do poema)

Nenhuma Troia a mais – Trad.: Augusto de Campos

Por que culpá-la se ela encheu meus dias
De mágoa, ou se incitou às tropelias
Os ignorantes e jogou com vidas,
Pondo as vielas contra as avenidas,
Quando eles tinham ousadia e flama?
Como fugir a essa pulsão funesta
Que a nobreza fez simples como a chama?
Beleza como um arco tenso, raça
Estranha a uma era como esta,
E cruel, de tão alta e singular?
Que poderia ela contra a graça?
Que Troia a mais teria que incendiar?

 

Sem Segunda Troia – Trad.: Nelson Ascher

Devo culpá-la, pois tanto pesar
trouxe-me aos dias, ou porque ensinava
violência à gente rude e quis lançar
contra os grandes a plebe cuja raiva,
porém, não tinha muito de ousadia?
Por que amaria a paz se, de nobreza,
seu pensamento simplesmente ardia,
se, feito um arco teso, sua beleza,
de um tipo hoje incomum, era severa,
altiva e só? – Mas que outro desafogo
podia ela encontrar, sendo quem era,
sem mais nenhuma Troia em que por fogo?

Introdução a “No Second Troy”

Resumo:

O relacionamento de William Butler Yeats com a bela e desafiadora irlandesa Maud Gonne é uma das grandes histórias de amor da literatura do século 20. Ele era um poeta fechado e com tendências conservadoras; ela era uma atriz de espírito livre que não queria nada menos que uma revolução para o seu país. Talvez ele devesse conhecê-la melhor, mas ei!, isso é amor.

Yeats publicou “No Second Troy”, em 1916, na coletânea “Responsibilities and Other Poems”, depois dele haver pedido Gonne em casamento – e ser rejeitado – inúmeras vezes. (Ei, você tem que admirar sua persistência). Após persegui-la por mais de uma década e de ter dedicado muitos de seus poemas a ela, parece justo afirmar que Yeats era obcecado por ela.

Neste poema, no entanto, Yeats adota uma atitude um tanto severa com ela, como ao compará-la com a terrivelmente bela – e notoriamente maliciosa – Helena de Troia. Helena é uma personagem mitológica da Ilíada de Homero. Como Maud Gonne, Helena foi considerada uma das mais belas mulheres de seu tempo. Ela também foi, em parte, responsável por iniciar a Guerra de Tróia, o que acabou fazendo com que a grande cidade de Troia fosse incendiada. Muitas lendas a retratam como uma sonhadora que trocou seu marido Menelau por Páris, o belo mas covarde príncipe de Troia. Marido furioso + Exércitos Numerosos = Guerra de Tróia.

Ao comparar Maud Gonne com Helena de Troia, Yeats a está acusando de ser parcialmente responsável pela violência de uma Irlanda revolucionária, assim como Helena foi parcialmente responsável pela Guerra de Tróia. De acordo com “No Second Troy,” Maud “incitou às tropelias os ignorantes.”

Gonne sempre foi mais inflamada do que Yeats, e aprovava os esforços revolucionários mais radicais e violentos para garantir a independência da Irlanda da Grã-Bretanha, nas primeiras décadas do século 20. Em 1916, seu marido, John MacBride, participou da violenta “Revolta de Páscoa” contra os britânicos. Na esteira do levante, MacBride e muitos outros foram executados. Yeats não acreditava em rebeliões violentas, e posteriormente escreveu um de seus mais famosos e dolorosos poemas, “Páscoa 1916,” em que declarou: “A terrível beleza nasceu”.

Ok, basta de história. Tudo isso é apenas para dizer que Gonne foi uma presença inflamável na vida de Yeats, e suas emoções conflitantes sobre ela refletem-se neste brilhante poema. É um desastre fascinante, tudo bem, mas no seu estilo característico, Yeats consegue comprimir toda a sua paixão em um curto e controlado espaço. A terrível beleza, de fato.

Por que eu deveria me importar?

Ninguém gosta de histórias de amor simples. Duas pessoas se encontram, se apaixonam, se casam… blablablá. Que tédio. Precisamos de um pouco mais de complicação. Mais drama. Além disso, muitas histórias de amor não têm um final feliz.

O amor de W. B. Yeats por Maud Gonne é uma dessas histórias de amor não correspondido. A história em si já é fascinante o suficiente (em um dado momento, Yeats teria proposto casamento à filha de Gonne e de novo foi rejeitado!), mas quando você a mistura com política revolucionária, estamos como que diante de um jogo eletrizante. Amor e política é sempre uma combinação irresistível, seja entre Helena e Páris, Antonio e Cleópatra, Romeu e Julieta, ou Rick e Ilsa, em Casablanca.

“No Second Troy” expressa aquele momento de um atormentado caso de amor quando o amante não correspondido, farto de todos os jogos e manobras feitas por baixo do pano, finalmente descarrega todas as suas emoções em um rompante brutal de honestidade. Você quer saber o que eu realmente penso de você? Prepare-se … Você não pode fazer nada, mas observa tudo com a respiração suspensa.

O que Yeats realmente pensava de Gonne – pelo menos por volta de 1916, quando escreveu este poema – é que ela era uma mulher corajosa e devastadoramente bela. Ela também era uma amante cruel e uma ativista descaradamente irresponsável. Ela usava sua beleza e seus elevados ideais para convencer as pessoas menos nobres e inteligentes a fazer coisas que Yeats considerava muito imprudentes – como, por exemplo, se opor à força dos poderes das colônias britânicas. O amor de Yeats por Gonne e seu amor por seu país colidem de forma dramática, confundindo-o. No final, o seu amor de irlandês e sua não-violência ganharam o dia, e ele esteve perto de condenar Gonne através da comparação contundente com Helena de Troia.
Embora a luta pela independência na Irlanda possa ter acabado, nós suspeitamos que histórias de amor como aquela que inspirou este poema continuarão a ocorrer no contexto dos conflitos políticos de todo o mundo. Venha para a aula de história, fique para as censuras amargas de um amor atormentado. (in: https://www.shmoop.com/no-second-troy-yeats/ )

No second Troy

Why should I blame her that she filled my days
With misery, or that she would of late
Have taught to ignorant men most violent ways,
Or hurled the little streets upon the great,
Had they but courage equal to desire?
What could have made her peaceful with a mind
That nobleness made simple as a fire,
With beauty like a tightened bow, a kind
That is not natural in an age like this,
Being high and solitary and most stern?
Why, what could she have done being what she is?
Was there another Troy for her to burn?

Walter Savage Landor – Sobre a Morte

Sobre mim está a morte a sussurrar
Eu não sei o que vem ao meu ouvido;
Da estranha fala estou somente a par
De que o verbo não é um ser temido.

Trad.: José Lino Grünewald

Death

Death stands above me, whispering low
I know not what into my ear;
Of his strange language all I know
Is, there is not a word of fear.

Samuel Taylor Coleridge – Kubla Khan

Em Xanadu, um palácio de prazer
Comanda-o Kubla Khan como um farol
Onde Alph, rio sagrado, vem correr
Através de cavernas sem mais ver
Ao ser humano até um mar sem sol.
  Assim, milhas e milhas de bom solo,
Cerca de muro e torres polo a polo:
E lá jardins luzentes em ribeiros
Curvos e árvores com flor e incenso;
Aqui florestas velhas qual outeiros,
Estufam tons de sol em seu descenso.

Mas, oh! ideal abismo que desceu
Pela colina em cedro verdejante!
Lugar selvagem! santo e tão galante
como sob um luar minguante deu-se
A uma mulher em prantos: demoamante!
E no abismo em tumulto sem cessar,
Como se esta terra estivesse a arfar,
Uma possante fonte foi lançada,
Entre seus fortes jatos em camada
Grandes fragmentos alçam-se, granizos,
Ou áridos grãos sob o mangual com guizos;
Sempre e uma vez rochedos dançarinos
Davam-se em relance ao rio divino.
Cinco milhas em deslizar insano
Entre vales e bosques foi-se o rio
E chegou às cavernas sem feitio
E agitado entrou no vago oceano:
E nisso Kubla de longe a escutar
Vozes velhas a guerra a anunciar!
  A sombra do palácio do prazer
  Flutuou pelo meio das marés
  Quando se ouviu a escala do envolver
  Da fonte e das cavernas. E até
Era milagre de raro desvelo
Um solar de prazer, cavas de gelo!

  Uma donzela com saltério
  Vi certa vez como algo etéreo
  Era uma virgem da Abissínia
  E no saltério dela ouvia
  O seu cantar do Monte Abora.
  Podia reviver agora
  Sua canção e sinfonia,
  Esse denso deleite me teria,
Pois com longa, elevada melodia,
Eu faria aquele solar no ar,
Aquelas cavas de gelo! O solar!
Todos que ouviram os veriam lá,
E, cuidado! cuidado! a gritar
Todos. Seus olhos cintilantes
E seus cabelos flutuantes!
Três vezes tece um aro em torno dele,
E cerre a vista em sacro medo, que ele
Alimentou-se do silvestre mel
E assim bebeu o leite lá do Céu.

  Trad.: José Lino Grünewald

Paulo Henriques Britto – Geração Paissandu

Vim, como todo mundo
do quarto escuro da infância,
mundo de coisas e ânsias indecifráveis,
de só desejo e repulsa.
Cresci com a pressa de sempre.

Fui jovem, com a sede de todos,
em tempo de seco fascismo.
Por isso não tive pátria, só discos.
Amei, como todos pensam.
Troquei carícias cegas nos cinemas,
li todos os livros, acreditei
em quase tudo por ao menos um minuto,
provei do que pintou, adolesci.

Vi tudo que vi, entendi como pude.
Depois, como de direito,
endureci. Agora minha boca
não arde tanto de sede.
As minhas mãos é que coçam –
vontade de destilar
depressa, antes que esfrie,
esse caldo morno de vida.

Alberto da Cunha Melo – Lendo Emile Zola

O sol esgota os objetos:
não me deixa dizer mais nada.
Transforma em plantas os fantasmas
que ontem dançavam no quintal.

Mostra a burra realidade
das coisas, o preço dos sonhos;
água laminada levando,
em ondas, o último mistério.

Tudo foi dito da maneira
mais cruel: um micro de sol
escreveu em poucos segundos
todos os livros que sonhaste.

Cada morto que descobrias
já tinha sido visitado,
não apontaste nenhum pássaro
que a floresta desconhecesse.

E esta verdade passageira
que te cumpria revelar
foi arrancada quando um garfo
de sol já ia penetrá-la.

Guillaume Apollinaire – A Ponte Mirabeau

Na Ponte Mirabeau, desliza o Sena
E nossos amores
E a memória acena:
Alegria vem sempre após a pena

Vem a noite, soa a hora
Os dias vão, eu me demoro

As mãos nas mãos, fiquemos face a face
Enquanto abaixo
Pela ponte dos nossos braços, passa.
De olhar eterno a onda tão lassa.

Vem a noite, soa a hora
Os dias vão, eu me demoro

O amor se vai como essa água corrente
O amor se vai
Como a vida é lenta
E como a esperança é violenta

Vem a noite, soa a hora
Os dias vão, eu me demoro

Passam-se os dias, passam as semanas
Nem tempo passado
Nem o amor reemana
Na Ponte Mirabeau, desliza o Sena

Vem a noite, soa a hora
Os dias vão, eu me demoro.

Trad.: José Lino Grünewald

José Ángel Buesa – Ela Amará a Outro Homem

Ela amará a outro homem.
Eu estarei longe, caminhando para o olvido.
E pode ocorrer que alguém lembre meu nome,
mas ela fingirá não tê-lo ouvido.

Ela amará a outro homem:
o tempo passa e o amor se finda,
e é natural que o que foi lume
acabe se transformando em cinzas.

Embora ninguém o queira,
envelhecem as vidas e as coisas,
e é natural também que na primavera
as roseiras deem rosas.

É natural. Assim,
ela amará a outro homem, e tudo bem.
Não sei se ela se esqueceu de mim,
nem me importa com quem.

Mas, quiçá, um dia,
ouvindo uma canção,
ela sinta que esta velha melodia
mudou o ritmo do seu coração.

Ou será algum vestido
que usou quando a conheci,
ou o cheiro do jardim úmido,
mas um dia ela há de pensar em mim.

Ou pode ser um sinal,
um jeito de olhar,
ou certas vielas, um mal cerzido botão,
ou uma folha seca ao acaso a voar.

E de alguma maneira
ela lembrará de mim, sem querer,
ao ouvir passos na ladeira
como os meus, ao entardecer.

Será em algum momento,
não importa quando nem onde, lá ou cá,
porque o amor, por assemelhar-se ao vento,
parece que se foi mas aqui está.

E se, nesse momento, ela suspira
e ele pergunta o que há,
ela terá que inventar uma mentira
para dele a verdade ocultar.

E ele não verá que eu o causei,
isso que era tão meu e do que se me privou;
e, embora ele possa amá-la mais do que eu a amei,
ela não poderá amá-lo mais do que me amou…!

Trad.: Nelson Santander

Ella Amará a Otro Hombre

Ella amará a otro hombre.
Yo voy lejos, andando hacia el olvido.
Y puede suceder que alguien me nombre,
pero ella fingirá no haber oído.

Ella amará a otro hombre:
el tiempo pasa y el amor finaliza,
y es natural que lo que fue una brasa
acabe convirtiéndose en ceniza.

Aunque nadie lo quiera,
envejecen las vidas y las cosas,
y es natural también que en primavera
los rosales den rosas.

Es natural. Por eso,
ella amará a otro hombre, y está bien.
No sé si ya olvidó mi último beso,
ni me importa con quién.

Pero quizás, un día,
oyendo una canción,
sentirá que esa vieja melodía
le cambia el ritmo de su corazón.

O será algún vestido
que yo le conocí,
o el olor del jardín cuando ha llovido,
pero algún día ha de pensar en mí.

O puede ser un gesto,
un modo de mirar,
o ciertas calles, o un botón mal puesto,
o una hoja seca que voló al azar.

Y de alguna manera
tendrá que recordarme, sin querer,
escuchando unos pasos en la acera
como los míos al atardecer.

Será en algún momento,
no importa cuándo o dónde, aquí o allá,
porque el amor, por parecerse al viento,
parece que se ha ido y no se va.

Y si en ese momento ella suspira
y él pregunta por qué,
le tendrá que inventar una mentira
para que nunca sepa por qué fue.

Y él no verá esa huella,
eso tan mío en lo que ya perdí;
y, aunque la pueda amar más que yo a ella,
ella no podrá amarlo más que a mí..!

Adriano Espínola – “Lamas” – Bar e Restaurante

   A Horácio Dídimo

À noite
todos os lépidos
são larápios,

todos os otários
são
notórios,

todas as lânguidas
são
lésbicas

todas as cópulas
são
cédulas,

todos os lúcidos
são
trágicos

todos os bêbados
são
sábios.

Charles Bukowski – Feras Saltando Através do Tempo

Van Gogh escrevendo para seu irmão pedindo tintas
Hemingway testando seu rifle
Céline fracassando como médico
a impossibilidade de ser humano
Villon expulso de Paris por ser um ladrão
Faulkner bêbado pelas sarjetas da cidade
a impossibilidade de ser humano
Burroughs assassinando sua mulher com um tiro
Mailer apunhalando
a sua impossibilidade de ser humano
Maupassant enlouquecendo num barco a remos
Dostoiévski de pé contra o muro para ser fuzilado
Crane fora da popa de um navio indo em direção à hélice
a impossibilidade
Sylvia com a cabeça no forno como uma batata assada
Harry Crosby saltando naquele Sol Negro
Lorca assassinado na Estrada pelas tropas espanholas
a impossibilidade
Artaud sentado num banco de hospício
Chatterton bebendo veneno de rato
Shakespeare um plagiário
Beethoven com uma corneta no ouvido contra a surdez
a impossibilidade a impossibilidade
Nietzsche enlouquecendo completamente
a impossibilidade de ser humano
todos demasiados humanos
esse respirar
para dentro e para fora
para fora e para dentro
esses punks
esses covardes
esses campeões
esses cachorros loucos da glória
movendo esse pontinho de luz para nós
impossivelmente.

Trad.: Sergio Cohn

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