Joan Margarit – Tchaicovsky

Não te suicides nunca. Olha a escuridão:
nunca poderás saber quem te estende a mão.
Lembras-te do inverno de luz nos cristais
e a cumplicidade daquela música?
Ouço a Patética e me vejo
desejando que a morte de Joana
nos devolvesse a ordem e a felicidade
que acreditamos perder quando ela nasceu.
Amor meu, Joana, a ternura
que desejava matar como a aquelas crianças
que nas tragédias são uma ameaça
para o futuro dos assassinos.
Como as deteremos, nossas mãos?
Escuto a Patética derrotado,
como tu, pelo tempo e pelo amor.
Tenho seus olhos – quem os inventou, olhares? -,
os olhos que não os tinham estátua nenhuma
de Fídias. Estes olhos,
que já me perdoaram, de Joana.

Trad.: Nelson Santander

Joan Margarit – Tchaicovsky

No te suicides nunca. Mira la oscuridad:
jamás podrás saber quien te tiende la mano.
¿Recuerdas el invierno de luz en los cristales
y la complicidad de aquella música?
Escucho la Patética y me veo
deseando que la muerte de Joana
nos devolviera el orden y la felicidad
que creímos perder cuando nació.
Amor mío, Joana, la ternura
que deseava matar como a esos niños
que en las tragedias son una ameaza
para el futuro de los asesinos.
¿Cómo las detuvimos, nuestras manos?
Escucho la Patética vencido,
como tú, por el tiempo y el amor.
Tengo sus ojos – ¿quién os inventó, miradas? -,
los ojos que no tuvo estatua alguna
de Fidias. Estos ojos,
que ya me han perdonado, de Joana.

Manuel António Pina – Uma noite com Vladimir

Eu sou mais mortal do que o meu corpo,
e as minhas palavras
mais mortais do que eu.

E o teu silêncio, nenhum leitor,
que as minhas palavras avidamente ouvem,
mais mortal do que as minhas palavras.

Ouvir-me-emos
não é a morte o que as palavras procuram?
sob tanta terra?

José Carlos Soares – Camel Blue

No pequeno cemitério
comovente

ninguém, a não ser
o latido de algum
cão, o canto

de um galo
vermelho, a tosse
de um pequeno deus

desempregado. Também
pude reparar
como saía

de uma velha campa
abandonada
um exército de formigas

sob um intenso
céu azul
que nada respondia.

 

Rui Costa – A Minha Bisavó

A minha bisavó
é um quadro na parede.
Roída pela traça, ela
sucumbe à dentição do tempo
nos seus olhos escuros de
discreta bruxa.
Um dia a minha bisavó
nem quadro há-de ser.
Continuará, apesar disso, a beber
a água do copo onde lavou
as cerejas (fingindo-se distraída)
e a arrazoar antes da visita
extemporânea aos vizinhos:
“se gostarem da visita, ficamos
todos contentes, se não gostarem
é muito bem feita”.

A minha bisavó hoje não responde
Mas há um par de meias novas na
minha memória, um prato de
cerejas.

Rui Pires Cabral – Welcome Break

Estações de serviço
como ilhas de vidro
no mar alto dos campos.
O acaso governa
as estradas e os viajantes
que se cruzam despidos
da teia do seu passado.
Atravesso há horas
um país chuvoso:
anoiteceu
e não se vê ninguém
nas aldeias. Contra
o seu escuro mistério,
estas casas são reais?
Nelas nasceu gente
que depois quis partir
para dizer, como eu,
não sou daqui, sou
da hora que passa?

Eugénio de Andrade – Adeus

Já gastamos as palavras pela rua, meu amor
e o que nos ficou não chega
para afastar o frio de quatro paredes.
Gastamos tudo menos o silêncio.
Gastamos os olhos com o sal das lágrimas,
gastamos as mãos à força de as apertarmos,
gastamos o relógio e as pedras das esquinas
em esperas inúteis.

Meto as mãos nas algibeiras e não encontro nada.
Antigamente tínhamos tanto para dar um ao outro;
era como se todas as coisas fossem minhas:
quanto mais te dava mais tinha para te dar.
À vezes tu dizias: os teus olhos são peixes verdes.
E eu acreditava.
Acreditava
porque ao teu lado
todas as coisas eram possíveis.

Mas isso era no tempo dos segredos,
era no tempo em que o teu corpo era um aquário,
era no tempo em que os meus olhos
eram realmente peixes verdes.
Hoje são apenas os meus olhos.
É pouco, mas é verdade,
uns olhos como todos os outros.

Já gastamos as palavras.
Quando agora digo: meu amor,
já não se passa absolutamente nada.
E no entanto, antes das palavras gastas,
tenho a certeza
de que todas as coisas estremeciam
só de murmurar o teu nome
no silêncio do meu coração.

Não temos já nada para dar.
Dentro de ti
não há nada que me peça água.
O passado é inútil como um trapo.
E já te disse: as palavras estão gastas.

Adeus.

Inês Lourenço – Sala Provisória

Nunca se sabe
quando estamos num lugar
pela última vez. Numa casa
que vai ser demolida, numa sala
provisória que vai encerrar, num velho
café que mudará de ramo, como
página virada jamais reaberta, como
canção demasiado gasta, como
abraço tornado irrepetível, numa
porta a que não voltaremos.

Francisco Brines – Sitiado pela Divindade

Hoje voltas-te para o mar,
com o corpo nu como na juventude,
e todo o peso de ouro caindo sobre as costas
como um interminável falcão que, azul, plana ao largo
e pousa no braço, sem emitir sons, e respira.

Descubro, com sereno assombro, minha existência,
e o mundo então existe – o mar, que para a criança
é sempre liberdade, espaço de quietude,
e o mistério de nele reconhecer a eternidade
pulsando no tempo;
um céu, que é quimera e verdade,
e esta praia deserta,
que tinha tantas pegadas, e todas se apagaram,
e espera outras diferentes, vãos sinais,
e é um espelho sem brilho, sem luz, um espelho cego.

Descubro, com sereno assombro, que ainda existo,
e o mundo então existe, e há uma testemunha
que canta as costas atordoadas,
e é ele, na solidão e no silêncio distante,
que, desolado, busca, atrás de si,
de novo conhecer aquele que um dia existiu e está extinto,
pois o dorso está de novo cingido
pela divindade, pelo ouro do tempo.

De forma traiçoeira a carne ressuscita, e neste encontro inofensivo
da pele com o ar sob o sol azul
de novo lembras ao homem que, no tempo,
tudo ainda é verdade: o mar e seu som,
os aromas que emanam das montes,
o corpo na solidão.
Mas junto com o tempo lento há outro breve
e o que se aninha na cabeça dos homens,
nos dois esconderijos do amor, é rápido,
era feliz e inocente, e cansado, e era infeliz,
e habitou a amargura, e repousou depois,
e sabia da ilusão e estava apaixonado, e era paciente.
Nesta tarde ele observa esse outro tempo
que sabe que não é seu,
o que leva e repousa as ondas na orla
e faz habitar a luz nos vôos do vento,
o tempo que não vê, nem ouve nada, nem sabe,
e desde sempre roda regressando a um princípio.
O ouro pousou e fez cantar as costas,
e tudo foi unidade, lembro agora,
e o quão longe estou daquela juventude,
hoje que as costas sustentam
o calor acabado de uma tarde triunfal de primavera.
Com destino de sombra as palavras
apressam a noite e o silêncio:
olhai, mirai; ainda podeis ver o mar.

Trad.: Nelson Santander

Sitiado por la Divindad

Hoy vuelves frente al mar,
con el cuerpo desnudo como en la juventud,
y todo el peso de oro cayendo sobre el hombro
como un interminable pájaro halcón que, azul, resbala extenso
y se tensa en el brazo, sin emitir sonidos, y respira.

Descubro, con reposado asombro, mi existencia,
y el mundo existe ahí -el mar, que para el niño
es siempre libertad, espacio de frescura,
y el misterio de en él reconocer la eternidad
palpitando en el tiempo;
un cielo, que es quimera y verdad,
y esta playa desierta,
que tuvo tantas huellas, y todas las borró,
y espera otras distintas, signos vanos,
y es un espejo sordo, sin luz, es un espejo ciego-.
Descubro, con reposado asombro, que aún existo,
y el mundo existe ahí, y hay un testigo
al que le canta el hombro deslumbrado,
y es él, en soledad y en distante silencio,
quien desolado busca, tras de sí,
de nuevo conocer a quien un día fue y está extinguido,
pues el hombro de nuevo está sitiado
por la divinidad, por el oro del tiempo.

Con falsedad la carne resucita, y en ese tacto indemne
de la piel con el aire bajo del sol azul
de nuevo advierte el hombre que, en el tiempo,
todo es aún verdad: el mar y su sonido,
las aromas que bajan de los montes,
el cuerpo en soledad.
Mas junto al tiempo lento hay otro breve,
y el que anida en la frente de los hombres,
en las dos madrigueras del amor, es raudo,
fue dichosos e inocente, y hastiado, y fue infeliz,
y habitó en la amargura, y reposó después,
y supo del engaño y estuvo enamorado, y fue paciente.
En esta tarde obseva ese otro tiempo
que sabe que no es suyo,
el que lleva y descansa las olas en la orilla
y hace habitar la luz en los vuelos del aire,
el tiempo que no ve, ni oye nada, ni sabe,
y desde siempre rueda regresando a un principio.
El oro se posó e hizo cántico el hombro,
y todo fue unidad, ya lo recuerdo ahora,
y cuánta lejanía de aquella juventud,
hoy que el hombro sostiene
el calor acabado de una tarde triunfal de primavera.
Con destino de sombra las palabras
apresuran la nochhe y el silencio:
ojod, mirad; aún podéis ver el mar

Luís Falcão – Sabemos que o tempo passou

Sabemos que o tempo passou
Que alguma coisa deveria ter sido dita
(talvez depois, talvez mais tarde)
Deixamos atrás de nós
Uma sequência desconexa de gestos irreparáveis
E, feridos,
Por todas as coisas
que poderíamos ter evitado a nós próprios
Caminhamos para o silêncio
E para a escuridão indefinível dos bosques.

Wang Wei – Dedicado a Chang Yin

Instalar armadilhas e esperar pelas lebres astutas,
Lançar uma linha à água e espreitar os peixes,
Talvez acalme a boca e a barriga,
Mas não é esse o sentido da vida do eremita.

Eu amo a tranquilidade,
Alimento-me de legumes para me desembaraçar das paixões terrenas
Doravante, como tu livre e indiferente
Lamento aqueles que comem nas tabernas.

Moro no sopé da montanha
Movimento e repouso alternam naturalmente
Passeio junto das aves sem as incomodar
Gosto de todos os animais que encontro.

Nuvens coloridas são a minha companhia
Para habitar tenho o vazio imaculado
Porque teria então necessidade do teu convite?

(cerca de 701-761)

Versão: Manuel Silva-Terra