Carlos Montemayor – Memória

Estou aqui, em casa, a sós.
Aqui estão os móveis, o ar, os ruídos.
Tenho um sentimento tão transparente
quanto a vidraça de uma janela.
É como a janela pela qual olhava a neve ao amanhecer,
há muitos anos, quando criança,
e colava o rosto contra o vidro e compreendia toda a vida.
É um desejo calmo, como a tarde.
É estar como estão todas as coisas.
Ter meu lugar como tudo o que há na casa.
Perdurar pelo tempo que for, como as coisas.
Não ser mais nem melhor que elas.
Apenas ser, em meio à minha vida,
parte do silêncio de todas as coisas.

Trad.: Nelson Santander

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Memoria

Estoy aquí, en la casa, a solas.
Aquí están los muebles, el aire, los ruidos.
Tengo un sentimiento tan transparente
como el vidrio de una ventana.
Es como la ventana en que miraba la nieve al amanecer,
hace muchos años, cuando era niño,
y pegaba la cara contra el cristal y comprendía toda la vida.
Es un deseo en calma, como la tarde.
Es estar como están todas las cosas.
Tener mi sitio como todo lo que está en la casa.
Perdurar el tiempo que sea, como las cosas.
No ser más ni mejor que ellas.
Sólo ser, en medio de la mi vida,
parte del silencio de todas las cosas

Jorge Valdés Díaz-Vélez – S.T.T.R. Sit Tibi Terra Levis

Hoje lembro os mortos da minha casa
Octavio Paz

De todos os nossos mortos, jamais esqueceremos
o primeiro. O meu habita a raiz do outono,
sob os álamos. Sua memória
me oferece uma murta enquanto se inclina
com os braços abertos de outros dias. Lembro
de sua estatura nas sombras, prestes a afastar-se
do espelho, seu rosto velado, o ornamento
das obstinadas lições de algum piano. Cruzou,
em uma tarde sem sol, a linha que une
a vida à morte. Seu corpo era a ausência
presente, o nome sem ser nomeado. Foi o primeiro
morto a morrer subitamente, e para sempre
haverá de sê-lo. O menino que fui então agora
o distingue sentado no peitoril da janela. Víamos
um barco na pureza impassível das nuvens,
e diásporas de formigas nas lieder de Schubert;
e me falava de Stevenson ou Melville, da jornada
que quis realizar quando jovem, ao fim da nostalgia
que se alçava em sua voz quando cantava. Fez
aquela única viagem naquela tarde. Até então
nunca havia perscrutado os olhos de um morto,
o eco imóvel de dois diáfanos poços,
nem os prantos dos meus, perplexos, que eram outros.

Ele foi o primeiro ausente de tantos e de ninguém,
a presença, o não-ser, a fatigada luz
exposta, o que se nomeia sob as árvores,
de repente, ao esquecermos que já não está
mais aqui sua solidão, sua frágil anedota de navios
fantasmas, de arpejos que iluminaram o sonho
daquela nossa vida. Que lhe seja leve a terra
que fecunda, seu exílio sem fim sob nossas folhas.

Trad.: Nelson Santander

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S.T.T.L. Sit Tibi Terra Levis

Hoy recuerdo a los muertos de mi casa
Octavio Paz

De todos nuestros muertos jamás olvidaremos
al primero. Habita en la raíz del otoño,
debajo de los álamos, el mío. Su memoria
me ofrece un arrayán al tiempo que se inclina
con los brazos abiertos de otros días. Recuerdo
su estatura en penumbras a punto de apartarse
del espejo, su rostro velado, el abalorio
de las tercas lecciones de algún piano. Cruzó
la línea que reúne la vida con la muerte
una tarde sin sol. Su cuerpo era la ausencia
presente, lo nombrado sin nombrar. Era el muerto
primero en estar muerto de súbito, y por siempre
habrá de serlo. El niño que fui entonces ahora
lo distingue sentado en un alféizar. Veíamos
un barco en la pureza impasible de las nubes,
y diásporas de hormigas en los lieder de Schubert;
y me hablaba de Stevenson o Melville, del trayecto
que quiso hacer de joven al fin de la nostalgia
que se alzaba en su voz cuando cantaba. Hizo
aquel único viaje aquella tarde. Hasta entonces
nunca me había asomado a los ojos de un muerto,
el eco inóvil de dos diáfanos aljibes,
ni al llanto de los míos, perplejos, que eran otros.

Él fue el primer ausente de cuántos y de nadie,
la presencia, el no ser, la fatigada luz
abierta, el que se nombra debajo de los árboles
de pronto, al olvidarnos que ya no sigue aquí
su soledad, su frágil anécdota de buques
invisibles, de arpegios que alumbraron el sueño
de aquella vida nuestra. Le sea leve la tierra
que fecunda, su exilio sin fin tras nuestras hojas.

Gonçalo M. Tavares – O idiota

Os irmãos com saúde,
os meus pais vivos,
um pouco deprimidos, mas lúcidos e vivos.
Uma mulher que me espera à porta, e sorri,
um bebê com um ano e meio, uma rapariga,
      vem aí outra;
quando regresso a minha mulher recebe-me a sorrir
   com uma barriga grande.
  Um café, outro,
o caderno preto à minha frente, o tempo,
nada para fazer a não ser por dentro,
        os sentimentos tranquilos.
O estômago calmo: tenho mais dinheiro que fome
     (é sempre um equilíbrio entre dois pesos).
Os empregados de um lado para outro,
       a atender à sede dos outros, aos caprichos.
Ao meu lado direito um vidro: vejo os vivos
em passo apressado
    a cumprimentarem-se;
as ações urgentes, obrigatórias (as que eu esqueci).
       Que fazer?
  Como aproveitar o esconderijo?
Esconde-te, que o exterior não te descubra: só sabe dar ordens.
E como aproveita o homem escondido a dádiva do esconderijo?
Escreve, o idiota.

T. E. Hulme – Outono

Um fio de frio na noite outonal —
Fui para o quintal
E vi a lua rubra inclinar-se sobre o folharal
Como um rancheiro de rosto rosado.
Não parei para falar, mas dei aval,
E ao redor estavam as tristes estrelas
Com pálidas faces como crianças da cidade.

Trad.: Nelson Santander

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Autumn

A touch of cold in the Autumn night —
I walked abroad,
And saw the ruddy moon lean over a hedge
Like a red-faced farmer.
I did not stop to speak, but nodded,
And round about were the wistful stars
With white faces like town children.

Charles Simic – O dicionário

Talvez haja uma palavra em algum lugar
para descrever o mundo nesta manhã,
uma palavra para o jeito como a primeira luz
se deleita em perseguir as sombras
pelas vitrines e entradas das lojas.

Outra palavra para o modo como ela se detém
sobre um par de óculos de aros finos
que alguém deixou cair na calçada
na noite passada e cambaleou às cegas,
falando sozinho ou começando a cantar.

Trad.: Nelson Santander

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The dictionary

Maybe there is a word in it somewhere
to describe the world this morning,
a word for the way the early light
takes delight in chasing the darkness
out of store windows and doorways.

Another word for the way it lingers
over a pair of wire-rimmed glasses
someone let drop on the sidewalk
last night and staggered off blindly
talking to himself or breaking into song.

Lope de Vega – Desmaiar, ousar, ficar furioso

Desmaiar, ousar, ficar furioso,
áspero, terno, generoso, esquivo,
entretido, mortal, defunto, vivo,
leal, falso, covarde e corajoso;

não achar, para além, paz e repouso,
mostrar-se alegre, triste, humilde, altivo,
irritado, valente, fugitivo,
satisfeito, ofendido, receoso;

furtar o rosto ao claro desengano,
sorver veneno por licor suave,
esquecer o proveito, amar o dano;

crer que um céu em um inferno cabe,
dar a vida e a alma a um desengano;
isto é amor, quem o provou o sabe.

Trad.: Nelson Santander

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Desmayarse, atreverse, estar furioso

Desmayarse, atreverse, estar furioso,
áspero, tierno, liberal, esquivo,
alentado, mortal, difunto, vivo,
leal, traidor, cobarde y animoso;

no hallar, fuera del bien, centro y reposo,
mostrarse alegre, triste, humilde, altivo,
enojado, valiente, fugitivo,
satisfecho, ofendido, receloso;

huir el rostro al claro desengaño,
beber veneno por licor süave,
olvidar el provecho, amar el daño;

creer que un cielo en un infierno cabe,
dar la vida y el alma a un desengaño;
esto es amor, quien lo probó lo sabe.

Juan Vicente Piqueras – História universal

Um homem nasce chora cresce ri
sofre e faz sofrer caminha canta
tem sede fome frio medo
se perde extravasa arde sorri.

Um homem sozinho no meio da noite
assobia para domar as bestas que o habitam.

Abraça empurra mata beija morre
se cansa de si mesmo se apaixona
se entrega à vida sabe que se finda
que o que é escoa por entre os dedos.

Um homem olha o céu as nuvens e se diz
em silêncio o quão breve
bela e fugidia foi a vida.

Trad.: Nelson Santander

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Historia universal

Un hombre nace llora crece ríe
sufre y hace sufrir camina canta
tiene sed hambre frío miedo
se pierde se desborda arde sonríe.

Un hombre solo en medio de la noche
silba para amansar las bestias que lo habitan.

Abraza empuja mata besa muere
se cansa de sí mismo se enamora
se da a la vida sabe que se acaba
que se cae lo que es de entre sus dedos.

Un hombre mira el cielo las nubes y se dice
en silencio lo breve
lo hermosa y fugitiva que es fue la vida.

Hugo Mujica – Há escassos dias

Há escassos dias morreu meu pai,
há muito tempo atrás.

Caiu suavemente,
como as pálpebras ao chegar
a noite, ou uma folha
que o vento não arranca, embala.

Hoje não é como outras chuvas,
hoje chove pela primeira vez
sobre o mármore de sua lápide.

Sob cada chuva
poderia ser eu quem jaz, agora eu sei,
agora que morri em outro.

Trad.: Nelson Santander

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Hace apenas días

Hace apenas días murió mi padre,
hace apenas tanto.

Cayó sin peso,
como los párpados al llegar
la noche o una hoja
cuando el viento no arranca, acuna.

Hoy no es como otras lluvias
hoy llueve por vez primera
sobre el mármol de su tumba.

Bajo cada lluvia
podría ser yo quien yace, ahora lo sé,
ahora que he muerto en otro.

Joan Margarit – A aventura

Quando me ausento por um momento, ao finalizar
uma inspeção de obra em algum bairro estranho
e entro para tomar café em um pequeno bar
onde não me conhecem, penso que sou
alguém que parte para não mais voltar.
Quando me refugio no vazio
de um entreato e procuro a escada
que leva aos banheiros,
sinto que ali poderia começar minha ausência.
Instantes que são fendas para o frio.
Imagino as ruas que sempre nos aguardam
em futuros perdidos dentro de um só instante.
Ao redor está a eternidade:
atravessamo-la velozes
neste trem blindado que é o tempo.
A eternidade
se move tão devagar que a lua
na janela é a mesma da infância.
Não sei o que mais me surpreende nesta história,
se o quanto odeio o mundo cotidiano
ou quantos anos poderei
permanecer paralisado por uma covardia.

Trad.: Nelson Santander

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La aventura

Cuando me ausento un rato, al acabarse
una visita de obra en algún barrio extraño
y entro a tomar café en un pequeño bar
donde no me conocen, pienso que soy
alguien que se está yendo para ya no volver.
Cuando me escapo en el vacío
de un entreacto y busco la escalera
que va hacia los lavabos,
siento que allí podría dar comienzo mi ausencia.
Instantes que son grietas hacia el frío.
Imagino las calles que siempre nos aguardan
en futuros perdidos dentro de un solo instante.
Alrededor está la eternidad:
la atravesamos raudos
en este tren blindado que es el tiempo.
La eternidad
se mueve tan despacio que la luna
del cristal es la misma de la infancia.
De esta historia no sé lo que más me sorprende,
si cómo se odia el mundo cotidiano
o cuántos años puedo
permanecer helado por una cobardía.

Ernesto Pérez Vallejo – A garota de preto

Hoje eu podia ter-me apaixonado por ti,
apesar de tuas botas sem salto,
podia até ter-te beijado assim, com o mar ao fundo,
os beijos aos domingos têm um sabor distinto,
mais intenso.
Podia ter-te levado pelas mãos até a praia
e ter-te despido docemente
enquanto me ajoelhava na terra
e perfumava o meu nariz.
Nunca o mar teria visto nada tão erótico,
nem ela, com seu biquíni laranja.
Hoje eu podia ter feito muitas coisas contigo
mas tenho medo do desconhecido
e embora tenhas me falado o teu nome
não foi suficiente.

Trad.: Nelson Santander

La chica de negro

Hoy podía haberme enamorado de ti
a pesar de tus botas planas,
podía incluso haberte besado así con el mar de fondo,
los besos los domingos saben distintos,
más intensos.
Podía haberte llevado de la mano a la orilla
y haberte desnudado dulcemente
mientras yo hincaba rodilla en tierra
y me perfumaba la nariz.
Nunca el mar hubiera visto nada tan erótico,
ni siquiera a ella con su bikini naranja.
Hoy podía haber hecho muchas cosas contigo
pero me da miedo lo desconocido
y aunque me dijiste tu nombre
no fue suficiente.