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Roberto Juarroz – Assim como não podemos

Assim como não podemos sustentar por muito tempo um olhar, também não podemos sustentar por muito tempo a alegria, a espiral do amor, a gratuidade do pensamento, a terra em suspensão do cântico. Não podemos sequer sustentar por muito tempo as proporções do silêncio quando algo o visita. E menos ainda quando nada o visita.…
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T. S. Eliot – A Terra Desolada

A TERRA DESOLADA 1922 Nam Sibyllam quidem Cumis ego ipse oculis meis vidi in ampulla pendere, et cum illi pueri dicerent: Σίβνλλα τί ϴέλεις; respondebat illa: άπο ϴανεΐν ϴέλω.* A Ezra Paound Il miglior fabbro I. O ENTERRO DOS MORTOS Abril é o mais cruel dos meses, germinando Lilases da terra morta, misturando Memória e…
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Merrit Malloy – Epitáfio

Quando eu morrerDoa o que restar de mimÀs criançasE aos idosos que esperam para morrer. E se precisares chorar,Chora por teu irmãoQue caminha pela rua ao teu lado.E quando precisares de mim,Põe teus braçosEm volta de alguémE dá-lhe o que tens a me oferecer. Quero deixar-te algo,Algo melhorQue palavrasOu sons. Busca por mimNas pessoas que…
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José Emílio Pacheco – Crianças e adultos

Aos dez anos, acreditavaque o mundo era dos adultos.Podiam fazer amor, fumar, beber à vontade,ir aonde quisessem.Sobretudo, nos esmagar com seu poder indomável. Agora sei, por vasta experiência, o lugar-comum:em verdade, não há adultos,apenas crianças envelhecidas. Desejam o que não têm:o brinquedo do outro.Sentem medo de tudo.Obedecem sempre a alguém.Não governam a própria existência.Choram por…
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Juan Vicente Piqueras – Papoulas

No antigo campo de batalha onde morreram milhares de meninos cresce novamente o trigo, salpicado aqui e ali de ardentes papoulas. E dois amantes, que terão mais ou menos a idade dos soldados que aqui então morreram, hoje fazem amor no semeado. Deitam o trigo. Calcam as papoulas. Trad.: Nelson Santander Amapolas Sobre el antiguo…
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Louise Glück – Outubro

1. É inverno outra vez, faz frio outra vez, Frank não escorregou no gelo, ele não se curou, não se plantaram as sementes da primavera a noite não terminou, o gelo derretido não inundou as calhas estreitas meu corpo não foi resgatado, não era seguro não se formou a cicatriz, invisível sobre a lesão terror…
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Raquel Lanseros – A propósito de Eros

De todas as terrenas servidões que aprisionam meu afã neste cárcere confesso-me devedora da carne e de todos os seus íntimos vaivéns que me fazem mais feliz e menos livre. Às vezes, porém, a escravidão se mostra soberana e me sinto senhora do destino. Porque sei amar, porque provei da fruta e nunca maldisse o…
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Jorge Valdés Díaz-Vélez – O material do relâmpago

Calculaste em detalhes cada passo, sutil, há muitos séculos. Finalmente teu marido viajou e as crianças foram dormir com os avós. Estás agora sozinha e eufórica voltaste-te a se maquiar e vestiste-te de preto rigoroso e perfumaste tua mínima porção de lingerie. Estás tremendo, dizes a ti mesma, mas nada te fará voltar atrás. Olhas…
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Carlos Drummond de Andrade – Dentaduras duplas

Dentaduras duplas! Inda não sou bem velho para merecer-vos… Há que contentar-me com uma ponte móvel e esparsas coroas. (Coroas sem reino, os reinos protéticos de onde proviestes quando produzirão a tripla dentadura, dentadura múltipla, a serra mecânica, sempre desejada, jamais possuída, que acabará com o tédio da boca, a boca que beija, a boca…
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T. S. Eliot – A Viagem dos Magos

“Foi um frio que nos colheu Na pior quadra do ano Para uma viagem, e longa era a viagem: Os caminhos enlameados e o tempo adverso Em pleno coração do inverno.” E os camelos escoriados, o casco em chagas, indóceis, Jaziam em meio à neve derretida. Foram momentos em que recordamos Os palácios estivais sobre…