-
Robert Morgan – Outono branco

Ela sempre gostou de ler, inclusivena infância, durante a Guerra da Secessão,e depois desenvolveu o hábito de ficar acordadajunto ao lampião perto da lareira depois que,concluída a faxina, o marido e os filhos iam dormir.Ela alimentou o vício nos anos durosda Reconstrução e mesmo depois queo seu marido morreu e ela foi forçada a prover…
-
Mary Oliver – Quando estou entre as árvores

Quando estou entre as árvores,especialmente entre os salgueiros e os espinheiros-da-virgínia,mas também entre as faias, os carvalhos e os pinheiros,elas emitem tantos sinais de alegria.Eu quase diria que elas me salvam, e diariamente.Estou tão distante de minhas expectativas sobre mim mesma,nas quais eu reúno bondade, e discernimento,e nunca me apresso no mundo,mas caminho lentamente, e…
-
Jorge Valdés Díaz-Vélez – Formas migratórias

Formas Migratórias para Katia Alemann Aprendemos a amar a conta-gotasessas pequenas pausas de que se vesteo temporal para inundar a solidãodo lado de fora, o ramo entre violeta e ocre das tardes, o murmúriosemântico do céu. Nesta ordem,desfizemos os contornos da distância,a longitude sem proporção, as linhasque relacionam as coisas. Breveslacunas de ar, esses segundos…
-
Leonard Nathan – Brinde

Houve uma mulher em Ithacaque chorou baixinho a noite todano quarto ao lado e desamparadome apaixonei por ela sob o mantode neve que se depositou em todos os telhadosda cidade, preenchendocada escura depressão. Na manhã seguinteno café do motelestudei todas as mulheres de rostosmaquiados. Teria sido a loira de meia idadeque brincou com a garçoneteou a…
-
James Kirkup – Ursa Maior

Suspensa entre os álamos domesticados no fimda avenida familiar, a UrsaMaior, em sua rede iluminada, balança,como um portão abandonado que nem barra nem convida para entrar,e pendura no poste arqueado sua silhueta de sete pontas. Desenhada com a precisão de um problema desconhecidosolucionado na sala de aula mais alta do céu vazio,ela revela sobre o…
-
Jorge Valdés Díaz-Vélez – A outra rosa

Ela beijou na rosa(seu nome era um aguilhãofeminino e brutal)a imagem de outra rosa gravada em uma lousade mármore, cristalina.A luz era mais finae, ao tato, tão airosa quanto a flor que ardiasem pausa em sua memória.Em outro meio-dia, a rosa era ilusóriapromessa repartida;e o beijo, a outra vida. Trad.: Nelson Santander La otra rosa…
-
Donald Hall – Últimos dias

“Era razoávelesperar.” Assim ele escreveu. No dia seguinte,em um consultório,a hematologista de Jane, Letha Mills, sentou-se,tensa, sua secretáriaem pé, de costas para a porta.“Trago péssimas notícias,”disse Letha. “A leucemia voltou.Não há nada a fazer.”Os quatro choramos. Ele perguntou há quanto tempo,por que isso aconteceu agora?Jane perguntou apenas: “Posso morrer em casa?” Em casa, naquela tarde,eles…
-
Louise Glück – Acalanto

Minha mãe é especialista em uma coisa:enviar pessoas que ela ama para o outro mundo.Os pequeninos, os bebês — estesela embala, sussurrando ou cantando baixinho. Não posso dizero que ela fez pelo meu pai;o que quer que tenha sido, tenho certeza de que foi o certo. De fato, é a mesma coisa preparar uma pessoa…
-
Warsan Shire – para mulheres que são ‘difíceis’ de amar

“para mulheres que são ‘difíceis’ de amar”, um poema de Warsan Shire que aborda a intensidade feminina e a recusa em se diminuir para caber nas expectativas masculinas, celebrando a autonomia, a força e a beleza de mulheres que não aceitam transformar-se para serem amadas.
-
Juan Vicente Piqueras – Museu da Acrópole

Mão de mármore, mas apenas os dedos,sobre um ombro de mármore sem cabeça. Um braço erodido que ninguém estende a ninguém. Um cavalo sem patas. Um cavaleiro que é apenas suas coxas. Dionísio aos pedaços, recomposto. Um touro sem chifres que está sendo devoradopor um leão que não está,apenas suas garras. Admiramos o desaparecido.Talvez nossa…