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Ursula K. Le Guin – Hino ao tempo

O Tempo diz “Que haja”e instantaneamente, a todo instante,existe espaço e o esplendorde cada galáxia brilhante. E olhos contemplando o céu cintilante.E a dança dos mosquitos, tremulante.E a extensão do mar.E a morte, e o azar. O tempo deixa espaçopara ir e voltar para casae no ventre do tempotudo começa e acaba. Tempo é ser…
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Jane Hirshfield – Encantamento para se recitar contra o ódio

Até que cada respiração repudie eles, aqueles, outros.Até que a Dramatis Personae da primeira página do livro diga: “Cada um deles é você.”Até que a esperança se dobre à sua desesperança apenas quando um ser se dobrar para outro.Até que a crueldade se dobre às suas ações e subitamente perceba: eu.Até que a raiva e…
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Warsan Shire – Casa

ninguém sai de casa a não ser que a casa seja a boca de um tubarãovocê só corre para a fronteiraquando vê a cidade inteira correndo também seus vizinhos correm mais rápidos do que vocêrespiram o sangue em suas gargantaso menino com quem você ia para a escola eque a beijou atordoada atrás da velha…
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Louise Glück – Viúvas

Minha mãe está jogando cartas com minha tia,Spite and Malice*, o passatempo da família, o jogoque minha vó ensinava a todas as suas filhas. É o auge do verão: quente demais para sair.Hoje minha tia está em vantagem; ela está recebendo as cartas boas.Minha mãe está se arrastando, com problemas em se concentrar.Ela não consegue…
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Nelson Santander – Singularidade
Logo no início do blog, publiquei alguns poemas de minha autoria, não tanto pelo valor intrínseco que cada um deles dificilmente possa ter, mas para deixa-los “arquivados” nesse grande arquivo virtual que é a internet. Dentre eles, o poema que segue é aquele que considero o menos ruim de todos os que cometi. Como minhas…
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Marissa Davis – Singularidade

Singularidade (depois de Marie Howe) no início sem verboiguana & mirramagma & mariposa-fantasma do recife& os cordyceps fazendo cócegas em seus nervos& cedro & arquipélago & anêmonapássaro dodo & cardeal esperando por seu salvermelho do oceano & óleo cru agora lama preta agora o mais naïve plâncton hesitantecada ovo agarrado à cópia maleávelde mim não-mulher…
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Marie Howe – Singularidade

Singularidade (depois de Stephen Hawking) Você às vezes não gostaria de acordar para a singularidadeque um dia fomos? tão compactos ninguémprecisava de cama, ou comida, ou dinheiro — ninguém se escondendo no banheiro da escolaou sozinho em casa abrindo a gavetaonde os comprimidos são guardados. Pois cada átomo que pertence a mimPertence a você. Lembra-se?…
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Jorge Valdés Díaz-Vélez – Ex libris

Eu reli novamente aqueles versosque falavam de amor e que lemosna noite em que ardeu Troia e nos perdemosno fundo de seus negros universos. Ouvi em cada folha os maciosrelevos de tua pele em que achamoshaver bebido ao sol em seus racemose ao mar que refletia em seus cicios fartos nossa ascensão ao precipício.Fareja-se a…
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Louise Glück – Abundância

Um vento frio sopra nas noites de verão, agitando o trigo.O trigo se curva, as folhas dos pessegueirosfarfalham noite afora. No escuro, um menino cruza o campo:pela primeira vez, ele tocou uma garotae então volta para casa como um homem, com a fome de um homem. Lentamente, as frutas amadurecem —cestas e mais cestas delas…
