Ron Koertge – Espaço vazio

Meu pai me ensinou a fazer as malas: colocar tudo à vista. Guardar metade. Enrolar o que pode ser enrolado. As peças que amarrotam vão sobre as de algodão. Depois, calças, da cintura às barras. Cantinhos e frestas para as meias. Cintos nas laterais, como cobras. Plástico por cima. Depois, os sapatos. Usar as roupas pesadas no avião.
Começamos quando eu era pequeno. Eu enrolava as meias. Então ele fingia me colocar na mala, e a gente ria. Alguns caras criam laços com seus pais jogando basquete ou falando sobre Chevrolets. Nós fizemos isso através de bagagens.
Quando fiz doze anos, se ele estivesse ocupado, eu fazia as malas para ele. Mamãe até tentava, mas não tinha o mesmo jeito. Ele chegava a algum lugar, abria a mala e me mandava uma mensagem: ”Perfeito”. Aquela única palavra dele significava muito.
O funeral foi terrível — ele estendido naquela caixa enorme, e eu chorando, pensando: Olha só todo esse espaço vazio.

Trad.: Nelson Santander

Mais do que uma leitura, uma experiência. Clique, compre e contribua para manter a poesia viva em nosso blog

Negative Space

My dad taught me to pack: lay out everything. Put back half. Roll things that roll. Wrinkle-prone things on top of cotton things. Then pants, waist-to-hem. Nooks and crannies for socks. Belts around the sides like snakes. Plastic over that. Add shoes. Wear heavy stuff on the plane.
We started when I was little. I’d roll up socks. Then he’d pretend to put me in the suitcase, and we’d laugh. Some guys bond with their dads shooting hoops or talking about Chevrolets. We did it over luggage.
By the time I was twelve, if he was busy, I’d pack for him. Mom tried but didn’t have the knack. He’d get somewhere, open his suitcase and text me — ”Perfect.” That one word from him meant a lot.
The funeral was terrible—him laid out in that big carton and me crying and thinking, Look at all that wasted space.

Eavan Boland – A douradora

Ela amava prata, ela amava ouro,
minha mãe. Ela falava sobre a influência
dos metais, a congruência dos átomos,
as aulas de arte onde aprendera
essas coisas: imagine só
ela me dizia ao contar
que, para dourar qualquer superfície, um mestre artesão
precisava fundir ouro com mercúrio,
aquecer os dois para que um se tornasse volátil,
o outro não,
e para fazer direito
tinha que separá-los e então
queimar, queimar, queimar o mercúrio
até que desaparecesse, deixando para trás
uma camada de luz. O único problema, acrescentou —
mas o que disse depois eu esqueci.

O que ela passou uma vida esquecendo
poderia ser meu tema:
as aldeotas muradas de Leinster,
os vilarejos costeiros onde a linguagem
do mar era transmitida,
frases feridas por tormentas,
por naufrágios. Mas não é.
Meu tema é o papel do desejo
na forma como os vilarejos são feitos
para desaparecer, na forma como aprendi
a separar memória de conhecimento,
então um era volátil, o outro não,
e como comecei a escrever,
luz ardente,
gerando calor até que de repente
eu era a douradora
pronta para espalhar esplendor,
pronta para decorar aconteceu
com nunca aconteceu quando
de repente lembro o que foi
que ela disse: o único problema é que
é extremamente perigoso.

Trad.: Nelson Santander

Mais do que uma leitura, uma experiência. Clique, compre e contribua para manter a poesia viva em nosso blog

The Fire Gilder

She loved silver, she loved gold,
my mother. She spoke about the influence
of metals, the congruence of atoms,
the art classes where she learned
these things: think of it
she would say as she told me
to gild any surface a master craftsman
had to meld gold with mercury,
had to heat both so one was volatile,
one was not
and to do it right
had to separate them and then
burn, burn, burn mercury
until it fled and left behind
a skin of light. The only thing, she added—
but what came after that I forgot.

What she spent a lifetime forgetting
could be my subject:
the fenced-in small towns of Leinster,
the coastal villages where the language
of the sea was handed on,
phrases bruised by storms,
by shipwrecks. But isn’t.
My subject is the part wishing plays in
the way villages are made
to vanish, in the way I learned
to separate memory from knowledge,
so one was volatile, one was not
and how I started writing,
burning light,
building heat until all at once
I was the fire gilder
ready to lay radiance down,
ready to decorate it happened
with it never did when
all at once I remember what it was
she said: the only thing is
it is extremely dangerous.

Seamus Heaney – Posfácio

E reserve um tempo para ir até o oeste
Rumo a County Clare, pela Flaggy Shore,
Em setembro ou outubro, quando o vento
E a luz interagem entre si,
De modo que o oceano de um lado se torna selvagem,
Com espuma e brilho, e terra adentro, entre as pedras,
A superfície de um lago cinza ardósia é iluminada
Pelo clarão terrestre de um bando de cisnes,
Suas penas ásperas e revoltas, branco sobre branco,
Suas cabeças plenas, de aparência obstinada,
Curvadas ou erguidas ou atarefadas sob a água.
Inútil pensar que ao parar você irá capturar tudo
De uma só vez. Você não está aqui nem lá,
Um fluxo onde conhecido e desconhecido se encontram,
Enquanto grandes e suaves rajadas atingem o carro de lado,
Pegam o coração desprevenido e o fazem se abrir.

Trad.: Nelson Santander

Mais do que uma leitura, uma experiência. Clique, compre e contribua para manter a poesia viva em nosso blog

Postscript

And some time make the time to drive out west
Into County Clare, along the Flaggy Shore,
In September or October, when the wind
And the light are working off each other
So that the ocean on one side is wild
With foam and glitter, and inland among stones
The surface of a slate-grey lake is lit
By the earthed lightning of a flock of swans,
Their feathers roughed and ruffling, white on white,
Their fully grown headstrong-looking heads
Tucked or cresting or busy underwater.
Useless to think you’ll park and capture it
More thoroughly. You are neither here nor there,
A hurry through which known and strange things pass
As big soft buffetings come at the car sideways
And catch the heart off guard and blow it open.

Kenneth Rexroth – Ar e Anjos: Apenas Esta Noite

Luar agora em Malibu
A noite de inverno as poucas estrelas
Distantes milhões de milhas
O mar seguindo sempre
Eternamente ao redor da Terra
Tão distante quanto próximos estão seus lábios
Banhados da mesma luz dos seus olhos
Amada amada amada
O futuro ficou para trás
E o passado nunca acontecerá
Temos apenas este
Nosso único para sempre
Tão pequeno tão infinito
Tão breve tão vasto
Imortal como nossas mãos que se tocam
Imorredouro como o vinho iluminado que bebemos
Onipotente como este único beijo
Que não tem começo
Que nunca nunca
Terá
Fim

Trad.: Nelson Santander

Mais do que uma leitura, uma experiência. Clique, compre e contribua para manter a poesia viva em nosso blog

Air and Angels: This Night Only

Moonlight now on Malibu
The winter night the few stars
Far away millions of miles
The sea going on and on
Forever around the earth
Far and far as your lips are near
Filled with the same light as your eyes
Darling darling darling
The future is long gone by
And the past will never happen
We have only this
Our one forever
So small so infinite
So brief so vast
Immortal as our hands that touch
Deathless as the firelit wine we drink
Almighty as this single kiss
That has no beginning
That will never
Never
End

Stephen Dunn – Depois de fazer amor

Depois de fazer amor

Ninguém deveria perguntar ao outro:
“Em que você estava pensando?”

Isto é, ninguém
que não queira escutar sobre o passado

e seus habitantes,
ou sobre a estranha solidão do presente

ainda que repleto de prazer,
ou sobre aqueles instantâneos

do futuro, cabeças diferentes
em corpos diferentes.

Algumas pessoas realmente desejam honestidade.
Nunca devem ter arrombado

suas próprias casas solitárias
após terem perdido a chave,

nunca viram, com os olhos de um intruso,
aquilo que lhes pertence.

Trad.: Nelson Santander

Mais do que uma leitura, uma experiência. Clique, compre e contribua para manter a poesia viva em nosso blog

After Making Love

No one should ask the other
“What were you thinking?”

No one, that is,
who doesn’t want to hear about the past

and its inhabitants,
or the strange loneliness of the present

filled, even as it may be, with pleasure,
or those snapshots

of the future, different heads
on different bodies.

Some people actually desire honesty.
They must never have broken

into their own solitary houses
after having misplaced the key,

never seen with an intruder’s eyes
what is theirs.

Lisel Mueller – Monet recusa a cirurgia

Doutor, você diz que não há halos
ao redor das luzes de rua em Paris
e que o que vejo é uma aberração
causada pela velhice, um distúrbio.
Digo que levei uma vida inteira
para enxergar lampiões a gás como anjos,
para suavizar e desfocar e, por fim, banir
as bordas que você lamenta que eu não veja,
para aprender que a linha que chamei horizonte
não existe e que céu e água,
há tanto separados, são o mesmo estado de ser.
Cinquenta e quatro anos levei para ver
que a catedral de Rouen é feita
de raios de sol paralelos,
e agora você quer restaurar
meus erros juvenis: noções
fixas de topo e base,
a ilusão do espaço tridimensional,
glicínias separadas
da ponte que elas cobrem.
O que posso dizer para convencê-lo
de que as Casas do Parlamento se dissolvem
noite após noite para se tornarem
o sonho fluido do Tâmisa?
Não retornarei a um universo
de objetos que não se conhecem,
como se as ilhas não fossem os filhos perdidos
de um grande continente. O mundo
é fluxo, e a luz se torna o que toca,
torna-se água, lírios sobre a água,
acima e abaixo da água,
torna-se lâmpadas lilases e violetas e amarelas
e brancas e azuis cerúleas,
pequenos punhos passando a luz do sol
tão rapidamente uns para os outros
que seria preciso ter longas cerdas fluindo
dentro do meu pincel para capturá-la.
Pintar a velocidade da luz!
Nossas formas densas, essas verticais,
ardem para se mesclar ao ar
e transformar nossos ossos, pele e roupas
em gases. Doutor,
se ao menos pudesse ver
como o céu atrai a terra em seus braços
e como infinitamente o coração se expande
para reivindicar este mundo, vapor azul sem fim.

Trad.: Nelson Santander

Mais do que uma leitura, uma experiência. Clique, compre e contribua para manter a poesia viva em nosso blog

Monet Refuses the Operation

Doctor, you say there are no haloes
around the streetlights in Paris
and what I see is an aberration
caused by old age, an affliction.
I tell you it has taken me all my life
to arrive at the vision of gas lamps as angels,
to soften and blur and finally banish
the edges you regret I don’t see,
to learn that the line I called the horizon
does not exist and sky and water,
so long apart, are the same state of being.
Fifty-four years before I could see
Rouen cathedral is built
of parallel shafts of sun,
and now you want to restore
my youthful errors: fixed
notions of top and bottom,
the illusion of three-dimensional space,
wisteria separate
from the bridge it covers.
What can I say to convince you
the Houses of Parliament dissolve
night after night to become
the fluid dream of the Thames?
I will not return to a universe
of objects that don’t know each other,
as if islands were not the lost children
of one great continent. The world
is flux, and light becomes what it touches,
becomes water, lilies on water,
above and below water,
becomes lilac and mauve and yellow
and white and cerulean lamps,
small fists passing sunlight
so quickly to one another
that it would take long, streaming hair
inside my brush to catch it.
To paint the speed of light!
Our weighted shapes, these verticals,
burn to mix with air
and change our bones, skin, clothes
to gases. Doctor,
if only you could see
how heaven pulls earth into its arms
and how infinitely the heart expands
to claim this world, blue vapor without end.

Sharon Olds – Quando dizem que você tem talvez três meses de vida

Em meu sono, sonhei que visitava seu túmulo —1
e o que jazia entre nós? A bela grama intocada
e o solo fértil, como a rica
terra em que você enterrou nossos lençóis
depois que o deixei — nosso DNA — perto de onde
mais tarde você enterrou seu golden retriever.
Também entre nós o novo teto
de pinho liso, o traje de linho
com que vestiram seu corpo recém-lavado e sem respiração,
a música de câmara terrosa das selvagens
criaturas espirais do submundo,
e seu tecido que tanto amei, e dentro dele o antigo
homem primordial de seu esqueleto.
Presa de narval, marfim de elefante,
símbolo de sua potência masculina e quadris estreitos
que cavalguei, remando no éden. Mas
não era sonho, eu estava bem desperta,
e você ainda não morreu. Posso ler isso para você
em uma semana, diante do fogão a lenha,
as labaredas curvando-se nas pontas e desaparecendo,
ou junto à lagoa, a água ondulando,
ovais de tsuga e faia2 trocando de lugar nela.
Às vezes, você adormece enquanto estou falando.
E diz: quero que leia um poema para mim quando eu morrer.
E: não vamos parar de escrever um para o outro quando eu estiver morto.
E quando eu também estiver!, eu digo. Quando nos conhecemos,
embora tenhamos nos apaixonado imediata e permanentemente,
não conseguimos estabelecer uma união de duas almas,
nem quando parti — cada um de nós teve que
trabalhar, em si mesmo, por anos, para chegar lá.
E agora chegamos! Talvez isso tenha sido
morte o tempo todo! Talvez a vida seja uma
espécie de morte. Talvez isso já fosse o paraíso.

Trad.: Nelson Santander

  1. O poema “Quando dizem que você tem talvez três meses de vida” (“When They Say You Have Maybe Three Months Left”) foi publicado na mais recente coletânea de Sharon Olds, Balladz (2022), que foi finalista do National Book Award de poesia. Ele integra a seção final intitulada Elegias, dedicada a temas de perda e luto, especialmente a morte de seu parceiro, Carl Wallman. Nesse contexto, Olds reflete sobre a fragilidade da vida e a complexidade das relações humanas, questionando a essência da vida e da morte. ↩︎
  2. As árvores mencionadas pertencem às famílias das pináceas (como a tsuga) e das fagineas (como a faia), que são encontradas em diversas regiões temperadas do hemisfério norte, incluindo a Europa e a América do Norte. Os “ovais” referidos no poema são as sementes ou frutos produzidos por essas árvores, que caem ao chão e podem ser identificados como coníferas ou pinhos, dependendo da espécie. Essas estruturas apresentam formatos ovais ou arredondados, evocando a imagem de um ambiente natural dinâmico, onde folhas e sementes se misturam à superfície da água da lagoa, simbolizando continuidade e transformação na natureza. ↩︎

Mais do que uma leitura, uma experiência. Clique, compre e contribua para manter a poesia viva em nosso blog

When They Say You Have Maybe Three Months Left

In my sleep, I dreamed that I came to your grave—
and what lay between us? The beautiful uncut
hair of the grass, and topsoil like the rich
dirt in which you buried our sheets
after I left you—our DNA—near where
you later buried your golden dog.
Also between us the new ceiling
of plain pine, and the linen garment
your fresh-washed unbreathing body had been clothed in,
and the earthen chamber music of wild,
underworld, spiral creatures,
and your tissue I have loved, and within it the ancient
primordial man of your skeleton.
Narwhal tusk, elephant ivory,
icon of your narrow-hipped male power
I rode, rowing in eden. But
it was no dream, I lay broad waking,
and you have not died yet. I can read this to you
in a week, in front of the woodstove,
the flames curving up to points and disappearing,
or beside the pond, the water rippling,
ovals of hemlock and beech changing places in it.
Sometimes you fall asleep as I’m talking to you.
And you’ve said: I want you to be reading me a poem when I die.
And, Let’s not stop writing to each other when I’m dead.
And when I’m dead too! I said. When we met,
though we fell in love immediate and permanent,
we could not make a two-soul union,
nor when I left—each of us had to
work, on ourselves, for years, to get there.
And now we are there! Maybe this has been
death all along! Maybe life is a
kind of dying. Maybe this has been heaven.

Margaret Hasse – Primeiro dia de Jardim de Infância

Os degraus do ônibus são altos, mas William escala-os com bravura.
As portas se fecham. Ele espia por uma janela marcada de digitais.
Aceno da rua, nostálgica como noiva de soldado,
enquanto o ônibus se afasta e dobra a esquina.

Ao meio-dia, o ônibus amarelo o traz de volta
ao mesmo lugar onde estou novamente.
Ele pensa que fiquei ali a manhã toda, esperando sua volta.
Quando descobre que saí para jogar tênis,

sua testa se enruga como papel na lixeira.
Agora ele sabe que posso me mover sem ele.
Lágrimas do poço do abandono se formam em seus olhos.
Sou seu primeiro amor e sua maior decepção.

Trad.: Nelson Santander

Mais do que uma leitura, uma experiência. Clique, compre e contribua para manter a poesia viva em nosso blog

First Day of Kindergarten

The bus steps are high, but William clambers up gamely.
Doors shut. He peers out a print-marked window.
From the street corner, I wave, wistful as a soldier’s bride
as his bus pulls away and turns a corner.

At noon the yellow bus returns him
to the same place where I’m standing again.
He thinks I stood there all day, waiting in his absence.
When he finds out I left to play tennis,

his forehead crumples like paper in a wastebasket.
Now he knows I can move on my own without him.
Tears drawn from the well of desertion form in his eyes.
I’m his first love and his greatest disappointment.

John Yau – “E Pluribus Unum”

Salivando, um insano sibilo;
como um Setter Irlandês trancado no porão
e então solto, o amanhecer
tenta estar em todos os lugares ao mesmo tempo.

Curvados solenemente sobre uma tigela de
cereais, cada qual se lembrava
de algum outro incidente.

Não é mais necessário que a luz do sol
chegue aqui, nesta cozinha com seu
piso de linóleo; suas rosas desgastadas.

De fato, nenhuma luz é necessária.
A luz esteve aqui o tempo todo, esperando
que você se estenda em direção a ela,
como um peixe tingido pelo oceano.

Trad.: Nelson Santander

N. do T.: O título "E Pluribus Unum" é uma frase em latim que significa "de muitos, um", e é um lema que remonta à época da fundação dos Estados Unidos, representando a união das treze colônias originais em uma única nação. Este lema é frequentemente associado à ideia de unidade e integração a partir de uma diversidade de partes. No contexto do poema, o título pode ser interpretado como uma reflexão sobre a convergência de múltiplas experiências, memórias e emoções em um único momento de introspecção e revelação.

Mais do que uma leitura, uma experiência. Clique, compre e contribua para manter a poesia viva em nosso blog

“E Pluribus Unum”

Slobbering, a manic wheeze;
like an Irish Setter locked in the basement,
and then let loose, dawn
tries to go everywhere at once.

Bent solemnly over a bowl of
cornflakes, each remembered
some other incident.

It is no longer necessary for sunlight
to reach here, this kitchen with its
linoleum floor; its scuffed roses.

In fact no light is needed
The light has been here all along,
waiting for you to reach toward it,
like a fish tinged by the ocean.

Ted Kooser – Abutre

Eu não o teria notado, de tão minúsculo que ele estava,
a centenas de metros acima, diminuto como um cílio,
menor ainda, como a marca negra

que um lápis faz quando, como agora,
cai sobre os limpos ladrilhos azuis e brancos
do céu. Não deveria significar nada,

mas senti seu vulto frio passar, talvez
seis metros de largura, como a de um avião pulverizador,
voando baixo sobre as árvores, espalhando sombra,

desaparecendo e logo retornando, as asas
planando sem um som. Era aquele tipo de sombra
que não roça de leve as copas das árvores,

mas desce direto sobre elas, voando
em linha reta, transformando-se em
confetes de escuridão, tocando cada folha restante

por um instante e depois libertando-as,
remodelando-se na forma de uma sombra
que segue adiante. As árvores não se incomodaram com isso,

mas eu sim, um pouco. Embora fosse um dia claro,
parecia demais com aqueles vestígios
de morte que, como uma telha solta, se desprendem

do telhado do futuro e deslizam
sobre os meus olhos lá pelas duas
da manhã, passando pela luz verde

do relógio. Mas isso aconteceu de dia,
e eu semicerrei os olhos na direção da luz, aliviado
por haver um abutre ali para explicar aquilo.

Trad.: Nelson Santander

Mais do que uma leitura, uma experiência. Clique, compre e contribua para manter a poesia viva em nosso blog

Vulture

I wouldn’t have noticed it, so tiny it was,
hundreds of feet overhead, small as an eyelash,
smaller even than that, like the black mark

a pencil will make when, as in this instance,
it’s dropped on the clean blue and white tiles
of the sky. It should have been of no meaning,

but I felt its chill shadow pass over, maybe
twenty feet wide, like that of a crop duster,
passing low over the trees, spraying shade,

disappearing, then coming around again, wings
gliding soundless. It was that kind of a shadow
that doesn’t brush lightly over the treetops,

but drops right down into them, flying
straight through, transforming itself into
a confetti of darkness, touching every last leaf

for an instant and then setting them free,
re-forming itself in the shape of a shadow
gone on. The trees weren’t troubled by this but

I was, a little. Although it was bright day,
it felt all too much like one of those patches
of death that, like a loose shingle, work themselves

free from the roof of the future and come
sliding down over my eyes at around two
in the morning, dropping past the green light

from the clock. But this happened in day,
and I squinted up into the light, feeling relieved
that a vulture was there to explain it.