Walt Whitman – Uma meia-noite clara

Esta é tua hora, ó Alma, teu voo livre rumo ao inexprimível,
Longe dos livros, da arte, o dia desfeito, a lição concluída,
Tu emergindo plenamente, silente, contemplativa, refletindo sobre os temas que mais amas:
A noite, o sono, a morte e as estrelas.

Trad.: Nelson Santander

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A Clear Midnight

This is thy hour O Soul, thy free flight into the wordless,
Away from books, away from art, the day erased, the lesson done,
Thee fully forth emerging, silent, gazing, pondering the themes thou lovest best,
Night, sleep, death and the stars.

Berta Piñán – Duas Garças

Chegaram no sábado. Vimo-las
cedo porque nesse dia chegou
também o frio e passamos
a manhã falando do tempo.
São duas, e me pergunto que
destino imprevisto as trouxe
a esta árvore precisa, a este exato
lugar onde o tempo delas
cruza, como um enigma confuso,
nosso tempo.
À tarde, conversamos sobre elas:
“Esta espera delas, imóvel, paciente – dizes -,
não sei que imagem estranha e antiga ela traça
da vida”.
Depois ficamos em silêncio, observando,
espiando sua perfeita quietude
sobre as águas que fluem
no inverno, e assim,
por um momento, resumem
para nós a
contemplação
do mundo: este rio, estas árvores,
o céu de outono, o calor,
o frio.

Trad.: Nelson Santander

REPUBLICAÇÃO, com alterações na tradução: poema publicado na página originalmente em 16/01/2019

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Berta Piñán – Dos Garzas

Llegaron el sábado. Las vimos
temprano porque ese día comenzó
también el frío y echamos
la mañana charlando del tiempo.
Son dos, y me pregunto qué
destino imprevisto las trae
a este árbol preciso, a este lugar
exacto en que su tiempo
atraviesa, como un signo confuso,
nuestro tiempo.
Por la tarde hablamos de ellas:
“Esta espera suya, inmóvil, terca – dices -,
no sé qué extraña, antigua imagen
traza de la vida”.
Después quedamos en silencio, mirando,
espiando su perfecta quietud
sobre las aguas que pasan
del invierno, y entonces,
por un momento, resumen
para nosotras la
contemplación
del mundo: este río, estos árboles,
el cielo de otoño, el calor,
el frío.

Ama Codjoe – Por que deixei o Jardim

Depois que perdi meu seio, tornei-me uma mulher
suturada por um tipo de sabedoria.

Ao longo do dia eu me movia como se caminhar não fosse diferente
de cair. Eu possuía os buracos
e o céu crivado. Eu não tinha absolutamente nada.

Mesmo à distância,
eu conseguia ouvir o disco pulando.
O tempo escorria
das mãos. Dos rostos.

Na primeira vez em que um amante traçou
minha cicatriz, acariciou seu rio
e beijou seu sulco, acordei cedo
na manhã seguinte e, silenciosamente, parti.

Trad.: Nelson Santander

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Why I Left the Garden

After I lost my breast, I became a woman
sutured by a kind of knowledge.

All day I moved as if walking was no different
from falling. I owned the potholes
and the riddled sky. I owned nothing at all.

Even from far away,
I could hear the record skipping.
Time was running out  
of hands. Of faces.

The first time a lover traced
my scar, fingered its river  
and kissed its groove, I woke early
the next morning and, quietly, I left.

Sean Borodale – Carta a um latifundiário

Aprendi certa noite o que é ter estrelas
semeadas pela utilidade do corpo.

O sol, ele se fora –
cidades, redes, estradas chegavam a lugar nenhum.

Montei minha capela de lona, deitei-me sob seu céu
e senti o quão profundamente eu era efêmero –
ouvindo o capim branco dos brejos, os cavalos, o ar –.

Naquela noite, ouvi com uma nova aptidão
para o silêncio – unindo-me aos rebanhos de estrelas,
rastros de cascos cruzando o céu sobre sua propriedade –.

E o rangido de um espinho, e o silêncio do feldspato,
e o orvalho se acumulando em caliptras de musgo

conduziam ao meu corpo ligado à terra
sua antítese a todas as outras perdas.

Trad.: Nelson Santander

N. do T.: em uma nota sobre o poema acima, o autor esclareceu: “O camping selvagem é um remanescente frágil e desgastado de um envolvimento mais profundo, e a escrita deste poema é um apelo contra a crença de que paisagens poderosas são exclusivas para os ricos, reservadas para tipos específicos de recreação – caça, tiro – ou como oportunidades passageiras para fotos”.

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Letter to a Land Owner

I learnt one night what it is to have the stars
sown through the utility of the body.

The sun, it went –
cities, networks, roads came to nowhere.

I set up my chapel of the canvas, lay under its sky
and felt how deeply I was momentary –
hearing bog cotton grass, the horses, the air –.

That night I heard with a new aptitude
for the silence – joined with the star herds,
hoof marks crossing the sky over your estate –.

And the creak of a thorn, and the feldspar’s quiet,
and the dew swelling on calyptras of moss

conducted into my earthed body
their antithesis to every other loss.

Billy Collins – Rebanho

Rebanho

Calcula-se que cada cópia da Bíblia de Gutenberg (…) exigia as peles de 300 ovelhas.
– de um artigo sobre impressão

Posso vê-las espremidas no cercado
atrás do prédio de pedra
onde a prensa está abrigada,

todas elas se contorcendo
em busca de um pequeno espaço
e parecendo tão semelhantes

que seria quase impossível
contá-las,
e não se pode dizer ao certo

qual delas levará a notícia
de que o Senhor é um pastor,
uma das poucas coisas que elas já sabem.

Trad.: Nelson Santander

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Flock

It has been calculated that each copy of the Gutenberg Bible…required the skins of 300 sheep.
-from an article on printing

I can see them squeezed into the holding pen
behind the stone building
where the printing press is housed,

all of them squirming around
to find a little room
and looking so much alike

it would be nearly impossible
to count them,
and there is no telling

which one will carry the news
that the Lord is a shepherd,
one of the few things they already know.

Ian Hamilton – Pai à beira da morte

Seus dedos, tufos de pelos de cobertor
Presos sob as unhas, se estendem para tocar
As rosas ao lado da cama, despetalando com o calor.
Caem pétalas brancas.
           Presas em sua mão
Elas escurecem, empapadas em suor, depois enrolam,
Secam e caem.
           Hora após hora
Elas gotejam do ramo. Por fim
Ele está limpo e, quando você o toca, frio.
Você se inclina para observar os espinhos
Produzirem manchas brancas em sua pele
Que sangram quando seu punho se contrai.
“Minha mão está em flor”, você diz. “Meu sangue
Anima essas pétalas restantes. Eu vou viver.”

Trad.: Nelson Santander

REPUBLICAÇÃO, com alterações na tradução: poema publicado na página originalmente em 07/01/2019

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Ian Hamilton – Father, Dying

Your fingers, wisps of blanket hair
Caught in their nails, extend to touch
The bedside roses flaking in the heat.
           White petals fall.
Trapped on your hand
They darken, cling in sweat, then curl,
Dry out and drop away.
           Hour after hour
They trikle from the branch. At last
It’s clean and, when you touch it, cold.
You lean Forward to watch the thorns
Pluck on your skin white pools
That bleed as your fist tightens.
“My hand’s in flower,” you say. “My blood
Excites this petal dross. I’ll live.”

Lisel Mueller – Curriculum Vitae

1992

1) Nasci em uma cidade livre, perto do Mar do Norte.

2) No ano do meu nascimento, o dinheiro foi picotado em
confetes. Um pão custava um milhão de marcos. É
claro que não me lembro disso.

3) Pais e avós pairavam ao meu redor. O mundo em que vivia
tinha uma voz macia e sem garras.

4) Uma cornucópia cheia de guloseimas me levou a um prédio
com sinos. Uma generosa professora me acolheu.

5) Em casa, as prateleiras de livros conectavam o céu e a terra.

6) Aos domingos, a menina da cidade caminhava entre pinhas
e pântanos de prímulas, a uma curta viagem de trem.

7) Meu país foi assolado por uma história mais mortal que
terremotos ou furacões.

8) Meu pai estava ocupado fugindo dos monstros. Minha mãe
me disse que as paredes tinham ouvidos. Aprendi o peso dos segredos.

9) Adentrei os dias muito claros e as noites muito escuras
da adolescência.

10) Dois pais, duas filhas, seguimos o sol
e a lua através do oceano. Meus avós ficaram
para trás nas sombras.

11) No novo idioma, todos falavam rápido demais. Eventualmente,
os alcancei.

12) Quando o conheci, o novo idioma se tornou a linguagem
do amor.

13) A morte da mãe feriu a filha, levando-a à poesia.
A filha tornou-se mãe de filhas.

14) Vida cotidiana: sua abundância e complexidade. Nós atando
fios em todos os lugares. O passado afastado, o futuro deixado
não imaginado em prol do presente glorioso, difícil, apaixonado.

15) Anos e anos disso.

16) As crianças não são mais crianças. A dor de um velho, a
solidão de um velho.

17) E então meu pai também desapareceu.

18) Tentei voltar para casa. Fiquei na porta da minha
infância, mas ela estava fechada ao público.

19) Um dia, em um elevador lotado, todos tinham o rosto mais jovem
que o meu.

20) Até aqui, tudo bem. Os dias e as noites brilhantes são
ofegantes em sua pressa. Seguimos, você e eu.

Trad.: Nelson Santander

N. do T.: Lisel Mueller (1924-2020) foi uma renomada poeta americana de origem alemã. Nascida em Hamburgo, na Alemanha, ela e sua família emigraram para os Estados Unidos em 1939, fugindo dos horrores do regime nazista. Essa experiência de imigração e os traumas da Segunda Guerra Mundial tiveram um impacto significativo em sua vida e em sua poesia. Lisel Mueller foi uma poeta aclamada, laureada com vários prêmios literários, incluindo o Prêmio Pulitzer de Poesia em 1997.

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Curriculum Vitae

1992

1) I was born in a Free City, near the North Sea.

2) In the year of my birth, money was shredded into
confetti. A loaf of bread cost a million marks. Of
course I do not remember this.

3) Parents and grandparents hovered around me. The
world I lived in had a soft voice and no claws.

4) A cornucopia filled with treats took me into a building
with bells. A wide-bosomed teacher took me in.

5) At home the bookshelves connected heaven and earth.

6) On Sundays the city child waded through pinecones
and primrose marshes, a short train ride away.

7) My country was struck by history more deadly than
earthquakes or hurricanes.

8) My father was busy eluding the monsters. My mother
told me the walls had ears. I learned the burden of secrets.

9) I moved into the too bright days, the too dark nights
of adolescence.

10) Two parents, two daughters, we followed the sun
and the moon across the ocean. My grandparents stayed
behind in darkness.

11) In the new language everyone spoke too fast. Eventually
I caught up with them.

12) When I met you, the new language became the language
of love.

13) The death of the mother hurt the daughter into poetry.
The daughter became a mother of daughters.

14) Ordinary life: the plenty and thick of it. Knots tying
threads to everywhere. The past pushed away, the future left
unimagined for the sake of the glorious, difficult, passionate
present.

15) Years and years of this.

16) The children no longer children. An old man’s pain, an
old man’s loneliness.

17) And then my father too disappeared.

18) I tried to go home again. I stood at the door to my
childhood, but it was closed to the public.

19) One day, on a crowded elevator, everyone’s face was younger
than mine.

20) So far, so good. The brilliant days and nights are
breathless in their hurry. We follow, you and I.

Elizabeth Jennings – Ausência

Estive no local do nosso encontro final.
Nada mudara, os jardins continuavam bem cuidados,
As fontes borrifavam em constante borbotão;
Nenhum sinal de que algo havia terminado
E nada que me instruísse na alheação.

As aves que nos ramos vibravam, indiferentes,
Cantando um êxtase que eu não podia partilhar,
Brincavam matreiras com minha mente. Certamente,
Nesses gozos dor nenhuma haveria a suportar
Ou qualquer discórdia que abalasse a brisa insistente.

Porque o lugar era exatamente o daquele dia
A sua ausência pareceu uma força primeva,
Pois por debaixo de toda a suavidade havia
Um trepidar de terremoto: fonte, aves, relva,
Tudo, só de pensar em seu nome, estremecia.

Trad.: Nelson Santander

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Absence

I visited the place where we last met.
Nothing was changed, the gardens were well-tended,
The fountains sprayed their usual steady jet;
There was no sign that anything had ended
And nothing to instruct me to forget.

The thoughtless birds that shook out of the trees,
Singing an ecstasy I could not share,
Played cunning in my thoughts. Surely in these
Pleasures there could not be a pain to bear
Or any discord shake the level breeze.

It was because the place was just the same
That made your absence seem a savage force,
For under all the gentleness there came
An earthquake tremor: Fountain, birds and grass
Were shaken by my thinking of your name.

Marge Piercy – O visível e o in-

Algumas pessoas passam pela sua vida
como o perfume das peônias: intenso,
persistente e sensual.

Algumas pessoas passam pela sua vida
como o doce aroma almiscarado do cosmos,
tão delicado que se você aspirar duas vezes, ele se foi.

Algumas pessoas invadem sua vida
como homens da mudança que carregam
sofás, pianos e quebram pratos.

Algumas pessoas o tocam tão de leve
que você não tem certeza de que aconteceu.
Outros o deixam prostrado com pegadas no peito.

Algumas são como aquelas toutinegras de outono
que você não consegue distinguir uma da outra
nem mesmo consultando o Petersen’s*.

Algumas caem com força sobre você como
um falcão atacando, e as cicatrizes perduram,
e você estará sempre desconfiado do céu.

Somos todos salas de espera em terminais
de ônibus onde centenas de pessoas
passaram despercebidas, outras

quase nos incendiaram,
outras nos deixaram renovados e limpos
e outras acabaram de se instalar.

Trad.: Nelson Santander

* “Petersen’s” é uma referência ao guia de campo “A Field Guide to Birds” de Roger Tory Petersen, amplamente utilizado na América do Norte para identificar diferentes espécies de pássaros.

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The visible and the in-

Some people move through your life
like the perfume of peonies, heavy
and sensual and lingering.

Some people move through your life
like the sweet musky scent of cosmos
so delicate if you sniff twice, it’s gone.

Some people occupy your life
like moving men who cart off
couches, pianos and break dishes.

Some people touch you so lightly you
are not sure it happened. Others leave
you flat with footprints on your chest.

Some are like those fall warblers
you can’t tell from each other even
though you search Petersen’s.

Some come down hard on you like
a striking falcon and the scars remain
and you are forever wary of the sky.

We all are waiting rooms at bus
stations where hundreds have passed
through unnoticed and others

have almost burned us down
and others have left us clean and new
and others have just moved in.

Dunya Mikhail – A guerra trabalha duro

Quão magnífica é a guerra!
Quão ambiciosa
e eficiente!
Logo cedo,
ela desperta as sirenes
e despacha ambulâncias
a vários lugares,
sacode corpos pelo ar,
empurra macas para os feridos,
convoca chuva
nos olhos das mães,
escava a terra
expulsando muitas coisas
de baixo das ruínas…
Algumas, inanimadas e reluzentes,
outras, pálidas e ainda pulsantes…
Ela produz muitas perguntas
nas cabeças das crianças,
entretém os deuses
lançando fogos de artifícios e mísseis
no céu,
semeia minas nos campos
e colhe perfurações e pústulas,
exorta famílias a emigrar,
fica ao lado dos clérigos
enquanto eles amaldiçoam o diabo
(pobre diabo, ele permanece
com uma das mãos no fogo abrasador)…
A guerra segue trabalhando, dia e noite.
Ela inspira tiranos
a proferir longos discursos,
concede medalhas aos generais
e motes aos poetas.
Contribui para a indústria
das próteses,
supre de víveres as varejeiras,
acrescenta páginas aos livros de história,
torna iguais
assassinos e assassinados,
ensina amantes a escrever cartas,
habitua as jovens a esperar,
enche os jornais
com artigos e fotos,
edifica novos lares
para os órfãos,
estimula os fabricantes de caixões,
dá um tapa nas costas
dos coveiros
e pinta um sorriso no rosto do líder.
A guerra opera com empenho inigualável!
E, no entanto, ninguém lhe oferece
uma palavra de elogio.

Trad.: Nelson Santander (a partir de versão em inglês traduzido do árabe por Elizabeth Winslow)

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The War Works Hard

How magnificent the war is!
How eager
and efficient!
Early in the morning,
it wakes up the sirens
and dispatches ambulances
to various places,
swings corpses through the air,
rolls stretchers to the wounded,
summons rain
from the eyes of mothers,
digs into the earth
dislodging many things
from under the ruins…
Some are lifeless and glistening,
others are pale and still throbbing…
It produces the most questions
in the minds of children,
entertains the gods
by shooting fireworks and missiles
into the sky,
sows mines in the fields
and reaps punctures and blisters,
urges families to emigrate,
stands beside the clergymen
as they curse the devil
(poor devil, he remains
with one hand in the searing fire)…
The war continues working, day and night.
It inspires tyrants
to deliver long speeches,
awards medals to generals
and themes to poets.
It contributes to the industry
of artificial limbs,
provides food for flies,
adds pages to the history books,
achieves equality
between killer and killed,
teaches lovers to write letters,
accustoms young women to waiting,
fills the newspapers
with articles and pictures,
builds new houses
for the orphans,
invigorates the coffin makers,
gives grave diggers
a pat on the back
and paints a smile on the leader’s face.
The war works with unparalleled diligence!
Yet no one gives it
a word of praise.