Ross Gay – Homem tenta cometer suicídio com uma besta

For Thomas Lux

E fracassa. Primeiro, imagine a arma
apontada para o céu, logo abaixo do queixo. Após o rápido
clique do gatilho, o seguinte: o que, para esse
não-morto, deve ter soado como o estratosférico estrondo de um foguete,
o que significa dizer que a seta
coroou sua copa (ou seja, fixou-se). Nesse ponto, com a cabeça
agora espetada, o tal não-morto conseguiu
o discernimento necessário para desrosquear a haste
do pequeno projétil alojado e removê-lo. E ir
andando até o pronto-socorro.
Gosto de pensar
que a graça assume formas estranhas: o alívio
da seta para o uivo dos neurônios.
Pensar nessa caminhada sob a noite aveludada.
Acompanhe-me. Não pense
em dor de cabeça. Em vez disso,
pense: a ancestral luz das estrelas aquecendo
seu chifre recém-brotado.

Trad.: Nelson Santander

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Man Tries to Commit Suicide With a Crossbow

For Thomas Lux

And fails. First, imagine the weapon
pointing heavenward beneath his chin. After the trigger’s
quick tick, the following: what, for said
undead, must have sounded like a rocket’s stratospheric crash,
which is to say the arrow just
crested the crown (i.e. it got stuck). At which point, the head
now a kebob, said undead had
the wherewithal to unscrew the skewer
from the little lodged missile and pull it out. To walk
to the emergency room.
I love to think
grace takes strange shapes: the arrow
balm to the howl of neurons.
To think of that walk beneath the velvet night.
Stay with me. Don’t think
headache. Think
instead: the stars’ ancient light warming
his just budding horn.

Ursula K. Le Guin – Somos poeira

Somos poeira em sofrimento.
A luz brilha através de nós
como através do spray das ondas, poeira de líquido*
estourando, ou da chuva que cai.

Trad.: Nelson Santander

N. do T.: A escolha dos versos “poeira de líquido / estourando” nesta tradução busca, dentro do possível, preservar a ambiguidade dos versos “dust of water / breaking” no poema original. Esses versos podem ser interpretados de duas maneiras: como vapor gerado pela água que se quebra na praia, evocando imagens de ondas do mar, ou como o rompimento da bolsa de líquido amniótico, associado ao nascimento (em inglês a expressão “water break” serve para designar também o estouro do saco amniótico). Assim, os versos “poeira de líquido / estourando” buscam manter, em nosso idioma, a dualidade de significados presentes no original, destacando a vulnerabilidade e a renovação inerentes à experiência humana.

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We are dust

We are dust in pain.
The light shines through us
as through wave-spray, dust of water
breaking, or the falling rain.

Ian Hamilton – Admissão

Os lábios rachados do porteiro noturno uniformizado
Murmuram horrivelmente contra o vidro embaçado
De nossa ambulância escura.
Nossa aflição
Inspira um único olhar marcial de desdém
E logo ele nos indica o caminho, para a “Pátria”.

Trad.: Nelson Santander

REPUBLICAÇÃO: poema publicado na página originalmente em 18/04/2019

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Admission

The chapped lips of the uniformed night-porter
Mumble horribly against the misted glass
Of our black ambulance.
Our plight
Inspires a single, soldierly, contemptuous stare
And then he waves us on, to Blighty.

Gerard Smyth – A caminho

Estamos em um trem que segue em direção ao mar.
Os nomes das estações estão no meio do caminho
entre dois idiomas. A paisagem é austera,
como se à espera de um ataque.
Tudo está em seu devido lugar.
Tudo repousa ali sem se mover:
o lodo no fundo do lago, a areia
que alcançou a praia.
A quietude nos questiona sobre o que estamos fazendo
com nossas almas.

Uma sombra como um longo cortejo
acompanha o trem.
Vilarejos e cemitérios passam em sequência, um após o outro.

O vagão está cheio:
há muitas mãos exaustas de tanto acenar em despedida.
As faces sonhadoras na janela do vagão
ostentam olhos que deixaram seu olhar em algum outro lugar,
bem lá atrás.
A janela está aberta, permitindo a entrada
de uma liberdade com a extensão de todo o horizonte.

Trad.: Nelson Santander

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On the way

We are on a train going toward the sea.
The names of the stations are halfway
between two languages. The landscape is grim,
as if waiting for an attack.
Everything’s in place.
Everything lies there without moving:
the mud at the bottom of the lake, the sand
that has stepped ashore.
The stillness asks us what we are doing
with our souls.

A shadow like a long funeral
accompanies the train.
Villages, cemeteries go in tandem after each other.

The carriage is crowded:
there are many hands worn out from waving goodbye.
The dream-faces in the carriage window
have eyes that left their gaze somewhere else
far behind.
The window is open, letting in
a freedom the width of the whole horizon.

Ross Gay – Como aprender a amar o seu pai

Coloque suas mãos sob as axilas dele, dobre os joelhos,
aguarde o encaixe de seus braços que afinam; o melhor abraço
é face a face. Movimente-se devagar. Procure não se lembrar,
neste momento, das formas que ele traçou ontem
em suas costas, momentos antes de ser levado para a cirurgia.
Não finja que a ansiosa caligrafia do toque
era um sinal além de algum inexprimível gaguejo animal. Não
retorne ao cenário de silêncio que ambos
cultivaram, com corpo e respiro, até quase ocultar tudo,
exceto a gravidade genética entre vocês.
E não imagine o vento agora soprando aquele cenário
em um rio que deságua no mar. Porque não é assim que acontece.
Este não é um poema de amor. Neste poema de amor,
o filho se treina para a tarefa à mão,
que é simples, que é, em última instância, a única tarefa
que alguma vez teve: a de colocar
seu pai em pé.

Trad.: Nelson Santander

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How To Fall in Love With Your Father

Put your hands beneath his armpits, bend your knees,
wait for the clasp of his thinning arms; the best lock
cheek to cheek. Move slow. Do not, right now,
recall the shapes he traced yesterday
on your back, moments before being wheeled to surgery.
Do not pretend the anxious calligraphy of touch
was sign beyond some unspeakable animal stammer. Do not
go back further into the landscape of silence you both
tended, with body and breath, until it nearly obscured all
but the genetic gravity between you.
And do not imagine wind now blowing that landscape
into a river which spills into a sea. Because it doesn’t.
That’s not this love poem. In this love poem
the son trains himself on the task at hand,
which is simple, which is, finally, the only task
he has ever had, which is lifting
the father to his feet.

Ángel González – Aniversário

Eu percebo: como estou me tornando
mais incerto, confuso,
dissolvendo-me no ar
cotidiano, bruto
pedaço de mim, desgastado
e em frangalhos.

Eu compreendo: vivi
mais um ano, e isso é muito duro.
Pulsar o coração todos os dias
quase cem vezes por minuto!

Viver um ano requer
morrer muito muitas vezes.

Trad.: Nelson Santander

REPUBLICAÇÃO: poema publicado na página originalmente em 15/04/2019

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Cumpleaños

Yo lo noto: cómo me voy volviendo
menos cierto, confuso,
disolviéndome en aire
cotidiano, burdo
jirón de mí, deshilachado
y roto por los puños.

Yo comprendo: he vivido
un año más, y eso es muy duro.
¡Mover el corazón todos los días
casi cien veces por minuto!

Para vivir un año es necesario
morirse muchas veces mucho.

Timothy Liu – Thoreau

Meu pai e eu não temos para onde ir.
Sua esposa não nos deixa entrar em casa —
medo de contrair AIDS. Ela acredita que
dormir com homens é pior do que um pecado,
meu pai diz, enquanto nos sentamos no meio-fio
em frente à casa dos vizinhos.
Sessenta e quatro anos tornaram meu pai
impotente. Raízes grisalhas e tinta preta
desbotada manchando seus cabelos o fazem parecer
quase cômico, como se sua humilhação
fosse minha também. Ontem à noite lemos
Thoreau em um restaurante ali perto
e choramos: Se um homem não consegue acompanhar o passo
de seus companheiros, deixe-o viajar
ao compasso da canção que ele ouve, por mais
lenta ou longínqua que esta pareça. Os pomares
se foram, sua aldeia perto de Xangai
foi bombardeada pelos japoneses, os arvoredos
que conheci em Almaden — damascos,
nozes, pêssegos e ameixas — foram derrubados.

Trad.: Nelson Santander

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Thoreau

My father and I have no place to go.
His wife will not let us in the house—
afraid of catching AIDS. She thinks
sleeping with men is more than a sin,
my father says, as we sit on the curb
in front of someone else’s house.
Sixty-four years have made my father
impotent. Silver roots, faded black
dye mottling his hair make him look
almost comical, as if his shame
belonged to me. Last night we read
Thoreau in a steak house down the road
and wept: If a man does not keep pace
with his companions, let him travel
to the music that he hears, however
measured or far away.
 The orchards
are gone, his village near Shanghai
bombed by the Japanese, the groves
I have known in Almaden—apricot,
walnut, peach and plum—hacked down.

Mary Oliver – Às vezes

1.

Algo emergiu
da escuridão.
Não era nada que eu já tivesse visto antes.
Não era um animal
ou uma flor,
a menos que fosse ambos.

Algo emergiu da água,
uma cabeça do tamanho da de um gato
mas enlameada e sem orelhas.
Eu não sei o que é Deus.
Eu não sei o que é a morte.

Mas creio que eles tenham entre si
algum acordo fervoroso e necessário.

2.

Às vezes
a melancolia me corta a respiração.

3.

Mais tarde, eu estava em um campo cheio de girassóis.
Eu sentia o ápice do verão.
Eu pensava no doce e elétrico
torpor da criação,

quando tudo começou a desmoronar.

A oeste, nuvens se acumularam.
Nuvens de tempestade.
Em uma hora o céu estava cheio delas.

Em uma hora o céu se encheu
com a doçura da chuva e o clarão dos relâmpagos.
Seguido pelo profundo som dos trovões.

Água dos céus! Eletricidade da fonte!
Ambas ansiosas para criar algo!

O clarão mais luminoso do que qualquer flor.
O trovão sem um único osso sonolento no corpo.

4.

Instruções para viver uma vida:
Esteja atento.
Deixe-se surpreender.
Fale sobre isso.

5.
Duas ou três vezes em minha vida encontrei o amor.
Todas as vezes, parecia resolver tudo.
Todas as vezes, resolveu muitas coisas,
mas não tudo.
No entanto, deixou-me tão grata como se tivesse de fato – e
completamente – resolvido tudo.

6.

Deus, repouse em meu coração
e me fortaleça,
afaste de mim essa ânsia por respostas,
deixe as horas dançarem em meu corpo

como as mãos do meu amado.
Deixe que a cabeça de gato apareça novamente —
o menor de seus mistérios,
algum primo selvagem de meu próprio sangue, provavelmente —
algum primo de meu próprio sangue selvagem, provavelmente,
na escura tigela do lago.

7.

A morte me espera, eu sei, em uma
ou outra esquina.
Isso não me diverte.
Tampouco me assusta.

Depois da chuva, voltei para o campo de girassóis.
Estava frio, e eu estava longe de sentir sono.
Caminhei lentamente, e ouvi

as raízes insanas, na terra encharcada, rindo e crescendo.

Trad.: Nelson Santander

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Sometimes

1.

Something came up
out of the dark.
It wasn’t anything I had ever seen before.
It wasn’t an animal
or a flower,
unless it was both.

Something came up out of the water,
a head the size of a cat
but muddy and without ears.
I don’t know what God is.
I don’t know what death is.

But I believe they have between them
some fervent and necessary arrangement.

2.

Sometimes
melancholy leaves me breathless.

3.

Later I was in a field full of sunflowers.
I was feeling the head of midsummer.
I was thinking of the sweet, electric
drowse of creation,

when it began to break.

In the west, clouds gathered.
Thunderheads.
In an hour the sky was filled with them.

In an hour the sky was filled
with the sweetness of rain and the blast of lightning.
Followed by the deep bells of thunder.

Water from the heavens! Electricity from the source!
Both of them mad to create something!

The lighting brighter than any flower.
The thunder without a drowsy bone in its body.

4.

Instructions for living a life:
Pay attention.
Be astonished.
Tell about it.

5.
Two or three times in my life I discovered love.
Each time it seemed to solve everything.
Each time it solved a great many things
but not everything.
Yet left me as grateful as if it had indeed, and
thoroughly, solved everything.

6.

God, rest in my heart
and fortify me,
take away my hunger for answers,
let the hours play upon my body

like the hands of my beloved.
Let the cathead appear again—
the smallest of your mysteries,
some wild cousin of my own blood probably—
some cousin of my own wild blood probably,
in the black dinner-bowl of the pond.

7.

Death waits for me, I know it, around
one corner or another.
This doesn’t amuse me.
Neither does it frighten me.

After the rain, I went back into the field of sunflowers.
It was cool, and I was anything but drowsy.
I walked slowly, and listened

to the crazy roots, in the drenched earth, laughing and growing.

Joan Margarit – O ano em que ela morreu

Na fotografia em sépia
és jovem e sorri. Faz-me lembrar
as mulheres dos filmes de guerra
da minha infância:
barcos na neblina, trens noturnos
e grandes cidades sob o alarme aéreo.
Na lápide está escrito que ela se foi
no inverno de 44,
aos vinte anos, quando me apaixonava
pela sufocante escuridão
cruzada por um raio de luz, a heroína
dos sonhos de amor de minha meninice.
A dura pedra
tem uma cavidade com água de chuva
onde os pássaros vão beber quando,
de casaco e cabelos grisalhos
desgrenhados pelo vento,
o narrador se afasta.
Tem o mesmo sonho nos olhos, em uma cidade,
em um cinema onde agora está só.

Trad.: Nelson Santander

REPUBLICAÇÃO: poema publicado na página originalmente em 09/04/2019

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El año em que murió

En la fotografía color sepia
es joven y sonríe. Me recuerda
a las muchachas de las películas de guerra
de mi infancia:
barcos entre la niebla, trenes nocturnos
y grandes ciudades bajo la alarma aérea.
En la losa está escrito que murió
en el invierno del cuarenta y cuatro,
a los veinte años, cuando me enamoraba
desde la bochornosa oscuridad
cruzada por un foco, la heroína
de los sueños de amor de mi niñez.
La dura piedra
tiene un hueco con agua de lluvia
donde beberán los pájaros cuando,
abrigo largo y pelo gris
desordenado por el viento,
se aleje el narrador.
Tiene el mismo sueño en los ojos, en una ciudad,
en un cine donde ahora está solo.

Tomas Tranströmer – Postais Pretos

I

O calendário está repleto; o futuro é incerto.
Os fios entoam uma canção folclórica apátrida.
A neve cai sobre o mar cinzento. Sombras
combatem no cais.

II

No meio da vida, eis que a morte chega
e tira nossas medidas. Essa visita logo
é esquecida, e seguimos com a vida. Mas a veste
segue sendo silenciosamente cosida.

Trad.: Nelson Santander

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Svarta vykort

I

Almanackan fullskriven, framtid okänd.
Kabeln nynnar folkvisan utan hemland.
Snöfall i det blystilla havet. Skuggor
brottas på kajen.

II

Mitt i livet händer det att döden kommer
och tar mått på människan. Det besöket
glöms och livet fortsätter. Men kostymen
sys i det tysta.