Billy Collins – Esquecimento

O nome do autor é o primeiro a desaparecer
seguido obedientemente pelo título, a trama,
a conclusão comovente, o romance inteiro
que subitamente se torna algo que você nunca leu,
nunca sequer ouviu falar,

como se, uma a uma, as memórias que você costumava abrigar
decidissem se aposentar no hemisfério sul do cérebro,
em uma pequena aldeia de pescadores onde não há telefones.

Há muito você deu um beijo de adeus nas nove Musas
e viu a equação de segundo grau arrumar as malas,
e mesmo agora, enquanto memoriza a ordem dos planetas,

algo mais está se perdendo, um emblema floral, talvez,
o endereço de um tio, a capital do Paraguai.

Seja lá o que você esteja lutando para lembrar,
não está na ponta da língua,
nem espreita de um canto obscuro do seu baço.

Flutuou para longe, por um rio mitológico e sombrio
cujo nome começa com um L, pelo que você se lembra,
claramente rumo ao esquecimento, onde se unirá àqueles
que se esqueceram até mesmo como nadar e como andar de bicicleta.

Não espanta que você se levante no meio da noite
para pesquisar a data de uma famosa batalha em um livro sobre a guerra.
Não espanta que a lua lá fora pareça ter saído
de um poema de amor que você costumava saber de cor.

Trad.: Nelson Santander

REPUBLICAÇÃO: poema originalmente publicado na página em 13/03/2020

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Forgetfulness

The name of the author is the first to go
followed obediently by the title, the plot,
the heartbreaking conclusion, the entire novel
which suddenly becomes one you have never read,
never even heard of,

as if, one by one, the memories you used to harbor
decided to retire to the southern hemisphere of the brain,
to a little fishing village where there are no phones.

Long ago you kissed the names of the nine Muses goodbye
and watched the quadratic equation pack its bag,
and even now as you memorize the order of the planets,

something else is slipping away, a state flower perhaps,
the address of an uncle, the capital of Paraguay.

Whatever it is you are struggling to remember,
it is not poised on the tip of your tongue,
not even lurking in some obscure corner of your spleen.

It has floated away down a dark mythological river
whose name begins with an L as far as you can recall,
well on your own way to oblivion where you will join those
who have even forgotten how to swim and how to ride a bicycle.

No wonder you rise in the middle of the night
to look up the date of a famous battle in a book on war.
No wonder the moon in the window seems to have drifted
out of a love poem that you used to know by heart.

Mary Oliver – Hospital Universitário de Boston

As árvores no gramado do hospital
são frondosas e exuberantes. Elas também
recebem os melhores cuidados,
como você e os muitos anônimos,
nos quartos limpos acima desta cidade,
onde dia e noite os médicos continuam
chegando, onde máquinas intrincadas
registram com fria devoção
o sussurro do sangue,
o lento remendar dos ossos,
o desespero da mente.
Quando venho visitá-lo e saímos
à luz de um dia de verão,
sentamos sob as árvores —
castanheiras-da-índia, um sicômoro e uma
nogueira-preta que se inclina
sobre uma sebe de lilases,
tão antigas quanto o prédio de tijolos vermelhos
atrás delas, o hospital
original, construído antes da Guerra Civil.
Sentamos juntos no gramado, de mãos dadas,
enquanto você me diz que está melhor.
Quantos jovens, me pergunto,
vieram para cá, transportados em macas dos trens vagarosos
vindos dos rubros e horrendos campos de batalha
para passar deitados o verão inteiro nos quartos pequenos e abafados
enquanto os médicos faziam o que podiam, ansiando
por equipamentos ainda não imaginados, medicamentos ainda não descobertos,
saberes sequer pensados, e quantos morreram
olhando para as folhas das árvores, alheios
ao terrível esforço ao redor deles para mantê-los vivos?
Eu olho em seus olhos
que às vezes são verdes e às vezes cinzas,
e às vezes cheios de humores, mas muitas vezes não,
e digo a mim mesma que você está melhor,
porque minha vida sem você seria
um lugar de árvores ressequidas e despedaçadas.
Mais tarde, caminhando pelos corredores em direção à rua,
eu me viro e entro em um quarto vazio.
Ontem, alguém estava aqui com uma expressão ofegante.
Agora a cama está toda arrumada
e as máquinas foram retiradas. O silêncio
continua, profundo e neutro,
enquanto eu fico ali, amando você.

Trad.: Nelson Santander

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University Hospital, Boston

The trees on the hospital lawn
are lush and thriving. They too
are getting the best of care,
like you, and the anonymous many,
in the clean rooms high above this city,
where day and night the doctors keep
arriving, where intricate machines
chart with cool devotion
the murmur of the blood,
the slow patching-up of bone,
the despair of the mind.
When I come to visit and we walk out
into the light of a summer day,
we sit under the trees —
buckeyes, a sycamore and one
black walnut brooding
high over a hedge of lilacs
as old as the red-brick building
behind them, the original
hospital built before the Civil War.
We sit on the lawn together, holding hands
while you tell me: you are better.
How many young men, I wonder,
came here, wheeled on cots off the slow trains
from the red and hideous battlefields
to lie all summer in the small and stuffy chambers
while doctors did what they could, longing
for tools still unimagined, medicines still unfound,
wisdoms still unguessed at, and how many died
staring at the leaves of the trees, blind
to the terrible effort around them to keep them alive?
I look into your eyes
which are sometimes green and sometimes gray,
and sometimes full of humor, but often not,
and tell myself, you are better,
because my life without you would be
a place of parched and broken trees.
Later, walking the corridors down to the street,
I turn and step inside an empty room.
Yesterday someone was here with a gasping face.
Now the bed is made all new,
the machines have been rolled away. The silence
continues, deep and neutral,
as I stand there, loving you.

Roberto Juarroz – Assim como não conseguimos

Assim como não conseguimos
sustentar por muito tempo um olhar,
a alegria,
o turbilhão do amor,
o pensamento livre,
a terra suspensa no canto.

E sequer conseguimos manter por muito tempo
as proporções do silêncio
quando algo o perturba.
E menos ainda
quando nada o perturba.

O homem não consegue suportar o homem por muito tempo,
e nem aquilo que não é homem.

E, no entanto, é capaz
de suportar o fardo inexorável
do que não existe.

Trad.: Nelson Santander

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Así como no podemos

Así como no podemos
sostener mucho tiempo una mirada,
tampoco podemos sostener mucho tiempo la alegría,
la espiral del amor,
la gratuidad del pensamiento,
la tierra en suspensión del cántico.

No podemos ni siquiera sostener mucho tiempo
las proporciones del silencio
cuando algo lo visita.
Y menos todavía
cuando nada lo visita.

El hombre no puede sostener mucho tiempo al hombre,
ni tampoco a lo que no es el hombre.

Y sin embargo puede
soportar el peso inexorable
de lo que no existe.

Joan Margarit – No museu

Agacha-se junto ao menino e aponta para o quadro.
Com um gesto solene, comprime o punho
e tenta explicar a força que
acredita ver na pintura.
Esta velha obsessão de transmitir
aos pequenos nossos pobres recursos.
Atento, o menino observa com temor.
Talvez pressinta a solidão que se oculta
nos gestos, na retórica da arte.
Temos sempre a verdade diante de nós,
mas, assim como ao contemplar o céu,
não conseguimos ver mais do que a grafia
de um poema em um idioma estranho.

Trad.: Nelson Santander

REPUBLICAÇÃO: poema originalmente publicado na página em 08/03/2020

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En el museo

Se agacha junto al niño y le señala el cuadro.
Con un grave ademán aprieta el puño
y trata de explicar aquella fuerza
que le parece ver en la pintura.
Esta vieja obsesión por transmitir
a los pequeños nuestras pobres armas.
Atento, el niño mira con temor.
Quizá intuye la soledad que ocultan
los gestos, la retórica del arte.
Siempre tenemos la verdad delante
pero, como al mirar el firmamento,
no podemos ver más que la grafía
de un poema en una lengua extraña.

Sharon Olds – Tudo

A maioria de nós jamais foi concebida.
Muitos de nós nunca nascemos —
sobrevivemos em um mar solitário por horas,
semanas, com membros extras ou ausentes,
ou segurando nos braços nossa pobre segunda cabeça,
que brota de nosso peito. E muitos de nós,
frutos do mar em seu caule, sonhando com algas
e búzios, somos eliminados em nossos primeiros meses.
E alguns que nascem, vivem apenas por minutos,
outros, por dois, três ou quatro verões,
e quando partem, tudo
se vai — a terra, o firmamento —
e o amor permanece, onde nada há, e busca.

Trad.: Nelson Santander

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Everything

Most of us are never conceived.
Many of us are never born —
we live in a private ocean for hours,
weeks, with our extra or missing limbs,
or holding our poor second head,
growing from our chest, in our arms. And many of us,
sea-fruit on its stem, dreaming kelp
and whelk, are culled in our early months.
And some who are born live only for minutes,
others for two, or for three, summers,
or four, and when they go, everything
goes — the earth, the firmament —
and love stays, where nothing is, and seeks.

Michael Krüger – Discurso do homem lento

A história acelera,
logo nos alcança,
precedendo-nos com passos ligeiros.
Vemos então por trás
a Era Glacial, Grécia,
Roma, a Revolução francesa,
a nuca de Stalin, as luzes traseiras
do carro de Hitler.
Estranho que não se canse
nem esmoreça.
Às vezes se vira
e nos mostra sua cara
com a boca escancarada
e os dentes podres.

Trad.: Nelson Santander (a partir de tradução para o italiano feita por Luigi Forte)

REPUBLICAÇÃO: poema originalmente publicado na página em 07/03/2020

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Discorso dell’uomo lento

La storia accelera,
presto ci raggiunge
precedendoci con passo rapido.
Allora vediamo l’epoca glaciale
da dietro, Grecia,
Roma, la Rivoluzione francese,
la nuca di Stalin, le luci posteriori
dell’automobile di Hitler.
Strano, che non si stanchi
e cada.
A volta sigira
e ci mostra il suo volto
con la bocca aperta
e i denti marci.

Raymond Carver – Luto

Acordei cedo esta manhã e da minha cama
olhei para longe através do Estreito e vi
um pequeno barco movendo-se na água agitada,
com uma única luz acesa. Lembrei-me
de um amigo que costumava gritar
o nome de sua falecida esposa do alto das colinas
ao redor da Perugia. Que colocava um prato
para ela em sua mesa simples muito tempo depois
que ela se fora. E que abria as janelas
para que ela pudesse ter ar fresco. Eu achava
embaraçosa tal demonstração. Assim como os outros
amigos dele. Eu não conseguia compreendê-la.
Não até esta manhã.

Trad.: Nelson Santander

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Grief

Woke up early this morning and from my bed
looked far across the Strait to see
a small boat moving through the choppy water,
a single running light on. Remembered
my friend who used to shout
his dead wife’s name from the hilltops
around Perugia. Who set a plate
for her at his simple table long after
she was gone. And opened the windows
so she could have fresh air. Such display
I found embarrassing. So did his other
friends. I couldn’t see it.
Not until this morning.

Louise Glück – Under Taurus

Estávamos no píer, e você desejava
que eu visse as Plêiades. Eu podia ver
tudo, menos o que você desejava.

Agora o seguirei. Não há uma única nuvem; as estrelas
aparecem, até mesmo a irmã invisível1. Mostre-me onde olhar,
como se elas fossem ficar onde estão.

Instrua-me na escuridão.

Trad.: Nelson Santander

  1. A “irmã invisível” se refere à sétima estrela das Plêiades, um aglomerado estelar na constelação de Touro. Na mitologia grega, as Plêiades eram sete irmãs, mas apenas seis são facilmente visíveis a olho nu. A sétima irmã – Mérope -, por ter-se relacionado com um mortal, foi condenada por Zeus a não ter seu brilho visto da Terra. ↩︎

REPUBLICAÇÃO: poema originalmente publicado na página em 06/03/2020

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Under Taurus

We were on the pier, you desiring
that I see the Pleiades. I could see
everything but what you wished.

Now I will follow. There is not a single cloud; the stars
appear, even the invisible sister. Show me where to look,
as though they will stay where they are.

Instruct me in the dark.

Indrė Valantinaitė – Provavelmente serei uma velha magra

Provavelmente serei uma velha magra

Rasgando seus beijos e seus medos
Ela acorda à noite
Para se maravilhar com tudo que a substituiu.
Paul Éluard

Em 2055, provavelmente serei uma velha magra
que ocupa pouco espaço nos ônibus e nas filas.

Daqui a meio século, apenas o espelho do banheiro
e os médicos olharão para o meu corpo.

Apenas me roçarão
as suadas camisolas
rasgadas nas axilas.

Então, antes de dormir, me lembrarei
da língua do meu amado e do sabor de sua saliva.
E de todos os outros homens
que um dia me desejaram.

E do rangido da cama
onde nos deitávamos
juntos.

Trad.: Nelson Santander

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Greičiausiai būsiuliesa senė

Prapl ė šdama savo bu č inius ir baimes
Ji atsibunda naktį,
Kad stebėtųsi viskuo, kas ją pakeitė.
Paulo Éluard

Kokiais 2055 greičiausiai būsiu liesa senė
ir užimsiu mažai vietos autobusuose ir eileėse.

Už pusės amžiaus į mano kūną
Težiūrės vonios veidrodis ir daktarai.

Prie manęs liesis
tik prakaituoti naktiniai marškiniai
praplyšusia pažastim.

Tada prieš užmigdama prisiminsiu
mylimojo liežuvį ir jo seilių skonį.
Ir visus kitus vyrus,
kurie manęs kadaise geidė.

Ir dar – kaip girgžda lova
Į kurią sugulama
po du.

Joy Sullivan – Compaixão

Um dia, grelhávamos abobrinhas
no quintal. Era verão
e eu estava prestes a deixá-lo.
Um louva-a-deus pousou na grelha.
Ele era belo e brilhante,
mesmo enquanto crepitava e eu queimava
todas as pontas dos dedos tentando salva-lo.
Não se sabe ao certo se um inseto está sofrendo,
mas ele devia estar, e você o colocou
gentilmente na grama, onde
o encontrei e o esmaguei com o pé.
E acho que nos surpreendemos com o
que cada um de nós entendia por compaixão.

Trad.: Nelson Santander

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Mercy

Once, we were grilling zucchini
from the garden. It was summertime
and I was about to leave you.
A praying mantis landed on the grill.
He was bright and beautiful
even as he fizzled and I burned
all my fingertips trying to save him.
You can’t tell when an insect is in pain
but he must have been and you put him
in the grass so softly
where I found and stomped him.
And I think it surprised us
what we each defined as mercy.