Robinson Jeffers – The Inhumanist (Parte II de “The Double Axe”) (excerto)

Republicação: “The Inhumanist (Parte II de “The Double Axe”)”, excerto de um poema de Robinson Jeffers

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Chegará um tempo, sem dúvida,
Em que também o sol morrerá; os planetas congelarão
e o ar sobre eles; gases congelados, com flocos de ar
Serão a poeira: que nenhum vento jamais bulirá:
essa poeira mesma a cintilar à luz baixa dos astros
É o vento morto, o corpo branco do vento.

Também a galáxia morrerá; o brilho da Via Láctea,
nosso universo, todos os astros que têm nomes estão mortos.
Vasta é a noite. Cresceste tanto, querida noite,
andando por teus salões vazios, tão alta!

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Cassiano Ricardo – Ode Pastoril

Republicação: “Ode pastoril”, um poema de Cassiano Ricardo

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A paisagem é minha
só porque tenho olhos.
O pássaro é meu
só porque tenho ouvidos.

Amo com a mão as coisas
que o estar aqui me deu.
No universal verde,
sou meu ser, não sou eu.

Em meu léxico lírico
só existem duas palavras,
e uma é irmã da outra:
a manhã e o amanhã.

Sinto que o espaço é a vida
e que o tempo é a morte.
E ponho, entre uma e outra,
Meu rebanho de estrelas.

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John Donne – Em despedida: proibindo o pranto

Republicação: “Em despedida: proibindo o pranto”, poema de John Donne, em tradução de Augusto de Campos

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Como esses santos homens que se apagam
Sussurrando aos espíritos: “Que vão…”,
Enquanto alguns dos amigos amargos
Dizem: “Ainda respira.” E outros: “Não.” —

Nos dissolvamos sem fazer ruído.
Sem tempestades de ais, sem rios de pranto,
Fora profanação nossa ao ouvido
Dos leigos descerrar todo este encanto.

O terremoto traz terror e morte
E o que ele faz expõe a toda a gente,
Mas a trepidação do firmamento,
Embora ainda maior, é inocente.

O amor desses amantes sublunares
(Cuja alma é só sentidos) não resiste
A ausência, que transforma em singulares
Os elementos em que ele consiste.

Mas a nós (por uma afeição tão alta,
Que nem sabemos do que seja feita,
Interassegurado o pensamento)
Mãos, olhos, lábios não nos fazem falta.

As duas almas, que são uma só,
Embora eu deva ir, não sofrerão
Um rompimento, mas uma expansão,
Como ouro reduzido a aéreo pó.

Se são duas…

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Mary Oliver – Nos bosques de Blackwater

Veja, as árvores
estão transformando
seus próprios corpos
em pilares

de luz,
exalando a rica
fragrância de canela
e completude,

as longas velas
de taboas
explodem e flutuam sobre
as orlas azuis

das lagoas,
e cada lagoa,
não importa seu
nome, nome

não tem agora.
A cada ano
tudo o que já
aprendi

em minha vida
me leva de volta a isto: os incêndios
e o rio negro da perda
cuja outra margem

é a salvação,
e cujo significado
nenhum de nós jamais saberá.
Para viver neste mundo

você deve ser capaz
de fazer três coisas:
amar o que é mortal;
cingi-lo

no peito, sabendo
que sua própria vida depende disso;
e, quando chegar a hora de deixa-lo ir,
deixa-lo ir.

Trad.: Nelson Santander

In Blackwater Woods

Look, the trees
are turning
their own bodies
into pillars

of light,
are giving off the rich
fragrance of cinnamon
and fulfillment,

the long tapers
of cattails
are bursting and floating away over
the blue shoulders

of the ponds,
and every pond,
no matter what its
name is, is

nameless now.
Every year
everything
I have ever learned

in my lifetime
leads back to this: the fires
and the black river of loss
whose other side

is salvation,
whose meaning
none of us will ever know.
To live in this world

you must be able
to do three things:
to love what is mortal;
to hold it

against your bones knowing
your own life depends on it;
and, when the time comes to let it
go,
to let it go.

Jane Kenyon – Poderia ter sido diferente

Levantei da cama
sobre duas pernas saudáveis.
Poderia ter sido
diferente. Nutri-me
de cereal, leite
açucarado, e um imaculado
pêssego maduro. Poderia
ter sido diferente.
Levei o cachorro morro acima,
até o bosque de bétulas.
Passei a manhã inteira
fazendo o trabalho que amo.

Ao meio dia, deitei
com meu companheiro. Poderia
ter sido diferente.
Jantamos juntos
à mesa com castiçais
de prata. Poderia
ter sido diferente.
Dormi numa cama
num quarto com quadros
nas paredes, e
planejei outro dia
igual a este.
Mas um dia, eu sei,
será diferente.

Trad.: Nelson Santander

N. do T.: A poetisa e tradutora Jane Kenyon faleceu de leucemia, em abril de 1995, aos 47 anos de idade, pouco depois de escrever este poema. Mais do que ninguém, ela sabia que, em breve, tudo seria diferente.

Otherwise

I got out of bed
on two strong legs.
It might have been
otherwise. I ate
cereal, sweet
milk, ripe, flawless
peach. It might
have been otherwise.
I took the dog uphill
to the birch wood.
All morning I did
the work I love.

At noon I lay down
with my mate. It might
have been otherwise.
We ate dinner together
at a table with silver
candlesticks. It might
have been otherwise.
I slept in a bed
in a room with paintings
on the walls, and
planned another day
just like this day.
But one day, I know,
it will be otherwise.

Vinicius de Moraes – Cemitério Marinho

Cemitério Marinho, um poema de Vinicius de Moraes

Tal como anjos em decúbito
A conversar com o céu baixinho
Existem cerca de cem túmulos
Num lindo cemiteriozinho
Que eu, a passeio, descobri
Um dia em Sidi Bou Said.

Mal defendidos por uns muros
Erguidos ao sabor da morte
Eu nunca vi mortos tão puros
Mortos assim com tanta sorte
As lajes de cal como túnicas
Brancas, e árabes; não púnicas.

Sim, porque cemiteriozinho
Nunca se viu assim tão árabe
Feito o beduíno que é sozinho
Ante o deserto que lhe cabe
E mudo em face do horizonte
Sem uma sombra que o confronte.

Pequenos paralelepípedos
Fendidos uns, conforme o sexo
Eis suas lápides: antípodas
Das que se vêem num cemitério
De gente do nosso pigmento:
Os nossos mortos de cimento.

Quem se deixar de tarde ali
Isento de mágoa ou conflito
A olhar o mar (sem Valéry!)
Como um espelho de infinito
E o céu como um anti-recôncavo:
Como o convexo de um côncavo

Acabará (comigo deu-se!)
Ouvindo os mortos cochicharem
Alegremente, eles e Deus
Mas não o nosso: o Deus dos árabes
Que não fez Sidi Bou Said
Para os prazeres de André Gide

Mas sim porque a vida segue
E o tempo pára, e a morte é um canto
Porque morrer é coisa alegre
Para quem vive e sofre tanto
Como no cemiteriozinho, ali
Ao céu de Sidi Bou Said.

Sidi Bou Said, outubro de 1963
Florença, novembro de 1963

N. do A. do blog: o poeta francês Paul Valéry – citado neste belo poema de Vinicius – escreveu um longo poema com o mesmo nome – Cemitério Marinho – também publicado no blog. O poema de Valéry, aliás, foi eleito o terceiro melhor poema do século XX, em votação promovida pelo caderno +Mais!, da Folha de São Paulo.


Vale também – e como vale – a leitura:

https://singularidadepoetica.art/category/paul-valery/

Billy Collins – A respiração

Como naqueles filmes de terror
em que alguém descobre que as ligações
vêm de dentro da casa,

assim também percebi
que essa ternura entrelaçada
acontecia só dentro de mim.

Toda aquela doçura, o amor, o desejo —
era apenas eu ligando para mim mesmo
e seguindo o toque até o outro cômodo

para não encontrar ninguém na linha,
bem, às vezes uma leve respiração,
mas, na maioria das vezes, nada.

E pensar que esse tempo todo —
o que inclui os passeios de barco,
abraços no aeroporto e tantos brindes —

era apenas eu e os dois telefones,
o da cozinha, preso à parede,
e o ramal no quarto escuro de hóspedes, lá em cima.

Trad.: Nelson Santander

The Breather

Just as in the horror movies
when someone discovers that the phone calls
are coming from inside the house

so too, I realized
that our tender overlapping
has been taking place only inside me.

All that sweetness, the love and desire —
it’s just been me dialing myself
then following the ringing to another room

to find no one on the line,
well, sometimes a little breathing
but more often than not, nothing.

To think that all this time —
which would include the boat rides,
the airport embraces, and all the drinks —

it’s been only me and the two telephones,
the one on the wall in the kitchen
and the extension in the darkened guest room upstairs.

Carlos Drummond de Andrade – Palavras no Mar

Republicação: “Palavras ao mar”, um poema de Carlos Drummond de Andrade

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Escrita nas ondas
a palavra Encanto
balança os náufragos,
embala os suicidas.
Lá dentro, os navios
são algas e pedras
em total olvido.
Há também tesouros
que se derramaram
e cartas de amor
circulando frias
por entre medusas.
Verdes solidões,
merencórios prantos,
queixumes de outrora,
tudo passa rápido
e os peixes devoram
e a memória apaga
e somente um palor
de lua embruxada
fica pervagando
no mar condenado.
O último hipocampo
deixa-se prender
num receptáculo
de coral e lágrimas
– do Oceano Atlântico
ou de tua boca,
triste por acaso,
por demais amarga.

A palavra Encanto
recolhe-se ao livro,
entre mil palavras
inertes à espera.

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Sophia de Mello Breyner Andresen – Homenagem a Ricardo Reis

Republicação: “Homenagem a Ricardo Reis”, um poema de Sophia de Mello Breyner Andresen

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Não creias, Lídia , que nenhum estio
Por nós perdido possa regressar
Oferecemos a flor
Que adiámos colher.

Cada dia te é dado uma só vez
E no redondo círculo da noite
Não existe piedade
Para aquele que hesita

Mais tarde será tarde e já é tarde
O tempo apaga tudo menos esse
Longo indelével rasto
Que o não – vivido deixa.

Não creias na demora em que te medes.
Jamais se detém Kronos cujo passo
Vai sempre mais à frente
Do que o teu próprio passo

II
Escuta, Lídia, como os dias correm
Fingidamente imóveis,
E à sombra de folhagens e palavras
Os deuses transparecem
Como para beber o sangue oculto
Que nos tornou atentos

III
Ausentes são os deuses mas presidem.
Nós habitamos nessa
Transparência ambígua,

Seu pensamento emerge quando tudo
De súbito se torna
Solenemente exacto.

O seu olhar ensina o nosso olhar:
Nossa atenção ao mundo

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Jorge de Lima – A Divisão de Cristo

Republicação: “A divisão de Cristo”, um poema de Jorge de Lima

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Dividamos o mundo em duas partes iguais:
uma para portugueses, outra para espanhóis.
Vêm quinhentos mil escravos no bojo das naus:
a metade morreu na viagem do oceano.

Dividamos o mundo entre as pátrias.
Vêm quinhentos mil escravos no bojo das guerras:
a metade morreu nos campos de batalha.

Dividamos o mundo entra as máquinas.
Vêm quinhentos mil escravos no bojo das fábricas:
a metade morreu na escuridão, sem ar.

Não dividamos o mundo.
Dividamos Cristo:
todos ressuscitarão iguais.

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